12º Domingo Comum

23 de Junho de 2013

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Deus vive na sua morada santa, F. dos Santos, NRMS 38

  Salmo 27, 8-9

Antífona de entrada: O Senhor é a força do seu povo, o baluarte salvador do seu Ungido. Salvai o vosso povo, Senhor, abençoai a vossa herança, sede o seu pastor e guia através dos tempos.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Quando nos oferecem qualquer dádiva, não basta que a outra pessoa ofereça; é indispensável que nós a recebamos, aceitando-a. Deste modo, estão inseparavelmente unidos o gesto generoso de quem oferece e o gesto agradecido que acolhe a oferta. 

Na Liturgia da Palavra deste 12.º Domingo do tempo comum fala-se do gesto magnânimo de Deus que nos oferece a salvação, com todas as graças, e da atitude acolhedora que havemos de ter, seguindo pelo caminho por onde o Salvador nos conduz.

 

Acto penitencial

 

Estamos conscientes de que, perante a oferta generosa de Deus, nos temos portado com indiferença indelicada, não acolhendo o que o Ele nos oferece.

Por vezes, a frieza e indiferença – quando há um relacionamento de filiação e amizade, como é o nosso caso para com Deus – magoa mais do que a agressividade daqueles que não conhecem a Deus.

Peçamos perdão e prometamos emenda de vida, revendo o nosso comportamento para com Deus.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

•   Senhor: temos preferido obedecer às nossas paixões e caprichos,

    em vez de renunciarmos ao que nos afasta de caminhar para Vós.

    Senhor, misericórdia!

 

    Senhor, misericórdia!

 

•   Cristo: Andamos a fugir à cruz de cada dia, como de um inimigo,

    em vez de a abraçarmos generosamente na fidelidade aos deveres,

    Cristo, misericórdia!

 

    Cristo, misericórdia!

 

•   Senhor: Poucas vezes nos lembramos de meditar na Vossa vida,

    para Vos imitarmos sempre na oração, no trabalho e apostolado.

    Senhor, misericórdia!

 

    Senhor, misericórdia!

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Senhor, fazei-nos viver a cada instante no temor e no amor do vosso Santo nome, porque nunca a vossa providência abandona aqueles que formais solidamente no vosso amor. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo....

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Zacarias, um dos profetas chamados maiores, fala-nos de um misterioso personagem cuja morte causará grande impacto em Jerusalém. Ela será uma fonte de bênçãos para todo o povo. 

Contrariando a visão triunfalista do Messias, o Senhor fala-nos da vitória final alcançada num fracasso aparente, como são todas as vitórias de Deus.

 

Zacarias 12, 10-11

Eis o que diz o Senhor: 10"Sobre a casa de David e os habitantes de Jerusalém derramarei um espírito de piedade e de súplica. Ao olhar para Mim, a quem trespassaram, lamentar-se-ão como se lamenta um filho único, chorarão como se chora o primogénito. 11Naquele dia, haverá grande pranto em Jerusalém, como houve em Hadad-Rimon, na planície de Megido. 13, 1Naquele dia, jorrará uma nascente para a casa de David e para os habitantes de Jerusalém, a fim de lavar o pecado e a impureza".

 

A leitura é-nos proposta em função do Evangelho que nos fala hoje do primeiro anúncio da Paixão. É tirada da última parte do livro de Zacarias, profeta impulsionador da reconstrução do templo de Zorobabel nos fins do século VI após o exílio. Estes versículos aparecem-nos num contexto de esperança de libertação e renovação de Jerusalém, com a efusão dum espírito com que Deus concederá aos seus habitantes disposições de piedade: derramarei um espírito de benevolência e de súplica (v. 10). É urna clara referência aos tempos messiânicos, designados por esse dia (vv. 3.4.6.8.9.11).

10 “Aquele que trespassaram”. Esta figura misteriosa aparece aqui num evidente contexto de salvação messiânica: todos os lamentos e pranto que acompanharão a sua morte terminarão com a abertura de uma fonte de expiação e purificação (13, 1). Não há dúvida de que este personagem trespassado deve ser posto em relação com o Servo Sofredor de Isaías 52, 13 – 53, 12, cujo sofrimento vicário é salvador para o Povo. O próprio Evangelista S. João nos leva a ver nele a figura de Cristo na Cruz, com o peito atravessado pela lança do soldado (Jo 19, 34-37), Ele que é o verdadeiro Filho Único, aqui assim designado profeticamente (cf. Jo 1, 14.18; 3, 16,18), o Primogénito (Col 1, 15.18; Rom 8, 29; cf. Lc 2, 7). O seu peito trespassado é manancial de salvação (cf. Jo 19, 34; 7, 38; e Zac 13, 1) para os que O olharem com fé (Jo 3, 14; e Num 21, 8-9; cf. Apoc 1, 7).

11 “Grandes lamentos como houve...” isto é, no local e por ocasião da morte do rei Josias, que se atreveu a impedir a passagem para a Assíria das tropas de Necao do Egipto, numa famosa batalha em Meguido, o Harmagedon do Apocalipse (2 Re 23, 29; 2 Cr 35, 22-25).

 

Salmo Responsorial    Sl 62 (63), 2-6.8-9 (R. 2b)

 

Monição: O salmo de meditação proposto pela liturgia exprime uma sede ardente de encontro com o Senhor.

Na verdade, como escreve santo Agostinho, fomos criados para Deus, e a nossa alma anda inquieta até que O encontre.

Manifestemos ao Senhor este desejo de estarmos continuamente com Ele, buscando-O dentro de nós.

 

 

Refrão:        A minha alma tem sede de Vós, meu Deus.

 

Senhor, sois o meu Deus: desde a aurora Vos procuro.

A minha alma tem sede de Vós.

Por Vós suspiro,

como terra árida, sequiosa, sem água.

 

Quero contemplar-Vos no santuário,

para ver o vosso poder e a vossa glória.

A vossa graça vale mais que a vida:

por isso os meus lábios hão-de cantar-Vos louvores.

 

Assim Vos bendirei toda a minha vida

e em vosso louvor levantarei as mãos.

Serei saciado com saborosos manjares

e com vozes de júbilo Vos louvarei.

 

Porque Vos tornastes o meu refúgio,

exulto à sombra das vossas asas.

Unido a Vós estou, Senhor,

a vossa mão me serve de amparo.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Seguir a Cristo cumprindo amorosamente a Sua Lei, – escreve S. Paulo na Carta aos fiéis da Galácia, na Ásia Menor – não é submeter-se à escravidão, mas andar por um caminho de liberdade.

O Apóstolo dos gentios alerta-nos contra um erro ainda muito divulgado em nossos dias, segundo o qual viver os compromissos do Baptismo com seriedade é cair na escravidão que nos impede de ser felizes.

 

Gálatas 3, 26-29

Irmãos: 26Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo, 27porque todos vós, que fostes baptizados em Cristo, fostes revestidos de Cristo. 28Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; todos vós sois um só em Cristo Jesus. 29Mas, se pertenceis a Cristo, sois então descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa.

 

26-27 “Todos vós sois filhos de Deus” (cf. 4, 1-7). Não se trata duma metáfora, mas duma realidade que se funda na Fé e no Baptismo. Este – baptizados em Cristo (v. 27) – produziu em nós uma identificação com Cristo, tornando-nos assim filhos de Deus adoptivos, pela íntima união com Jesus, o Filho de Deus por natureza. Note-se a riqueza expressiva do texto original grego, bastante diminuída na tradução latina da Vulgata (mantida na Nova Vulgata) e assim na nossa versão litúrgica. A fórmula grega com a preposição dinâmica – eis Christón – sugere o movimento pessoal de adesão que liga o neófito a Cristo, ao indicar que fomos mergulhados em Cristo, metidos dentro d’Ele, a tal ponto que ficamos revestidos de Cristo, mas não por um mero revestimento exterior e extrínseco. Com efeito, na linguagem bíblica, «revestir-se» significa «imbuir-se»; é pois algo tão profundo e interior como impregnar-se de Cristo, imbuir-se da sua vida e dos seus sentimentos (cf. Filp 2, 5), pela sua graça. A expressão bíblica nada tem a ver com as celebrações mistagógicas da época em que os devotos duma divindade se revestiam com as vestes distintivas desse deus, ao modo do que em certos sítios ainda entre nós se faz com as crianças que se vestem de anjinho, ou de algum santo.

28-29 “Todos vós sois um em Cristo Jesus”. Este ser novo em Cristo, ser filhos de Deus, conduz à unidade todos os homens, acabando com todas as barreiras, quer do tipo nacional ou religioso, quer do tipo social ou humano; temos assim expressada a igualdade radical de todos os filhos de Deus, uma igualdade de direitos fundamentais; aqui reside a força mais válida para acabar com todas as discriminações baseadas na condição social – não há escravo nem livre –, no sexo – não há homem nem mulher –, e na religião – não há judeu nem grego –, que era discriminação que pretendiam impor aos gálatas os judaízantes e contra os quais S. Paulo escreve esta vigorosa carta. O Apóstolo concede-lhes que seja necessário, para se salvar, ser descendência de Abraão a fim de se vir a ser herdeiro das promessas messiânicas, mas afirma categoricamente que os cristãos, pela sua fé em Cristo, é que são os verdadeiros filhos de Abraão, uma vez que formam um só com Cristo (v. 29) e Cristo é o profético «Descendente de Abraão», em quem desembocam todas as promessas de salvação (Gal 3, 16.19).

 

Aclamação ao Evangelho        Jo 10, 27

 

Monição: Se quisermos seguir a Cristo com toda a fidelidade, seremos felizes nesta vida e na que há-de vir.

Manifestemos ao Senhor a nossa disponibilidade para seguirmos este caminho, cantando a aclamação do Evangelho.

 

Aleluia

 

Cântico: S. Marques, NRMS 73-74

 

As minhas ovelhas escutam a minha voz, diz o Senhor;

Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-Me.

 

 

Evangelho

 

Lucas 9, 18-24

Um dia, 18Jesus orava sozinho, estando com Ele apenas os discípulos. Então perguntou-lhes: "Quem dizem as multidões que Eu sou?" 19Eles responderam: "Uns, João Baptista; outros, que és Elias; e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou". 20Disse-lhes Jesus: "E vós, quem dizeis que Eu sou?" Pedro tomou a palavra e respondeu: "És o Messias de Deus". 21Ele, porém, proibiu-lhes severamente de o dizerem fosse a quem fosse e acrescentou: 22"O Filho do homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas; tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia". 23Depois, dirigindo-Se a todos, disse: "Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. 24Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á".

 

Este texto evangélico consta de três partes intimamente ligadas entre si e de notável importância no plano da redacção dos Sinópticos: a confissão messiânica de (vv 18-21), o primeiro anúncio da Paixão (v. 22) e alguns versículos relativos ao seguimento de Cristo no sofrimento (vv. 23-24)

18 “Jesus orava sozinho”. S. Lucas não nos dá o contexto geográfico de Cesareia de Filipe (cf. Mc 8, 27; Mt 16,13) deste episódio, mas apenas o contexto de oração, certamente a mesma oração a que se refere S. Marcos em 6, 46.

20 “E quem dizeis vós que Eu sou?” A pergunta de Jesus faz supor que Jesus, até este momento, foi mostrando aos Apóstolos que era o Messias, mas sem que lho tivesse revelado expressamente. Neste momento quer fazer-lhes um exame para que se mostrasse como é que ia a sua fé e qual o aproveitamento sobrenatural do convívio com o Senhor.

21-22 “Proibiu-lhes severamente de o dizerem a quem quer que fosse. A razão da chamada «disciplina do segredo messiânico» estava no perigo de que viesse a ser mal interpretada a revelação de que Jesus era o Messias. Os próprios discípulos não com­preendem rectamente a sua missão messiânica, daí que Jesus sente a necessidade de imediatamente lhes fazer ver como Ele vai levar a cabo esta missão: O Filho do Homem tem de sofrer muito, ser rejeitado... ser morto... S. Lucas, dentro da sua «tendência pedagógica», que consiste em evitar coisas demasiado chocantes, não conta a atrevida intervenção de Pedro duramente repelida pelo Senhor (Mc 8, 32-33). Por outro lado, também não nos deve causar estranheza que tenha omitido, como S. Marcos, a promessa do Primado de Pedro (cf. Mt 16, 16-19); é que não tinha em vista falar do Primado, além de que esta promessa podia ter sido feita noutro momento e Mateus, que não se costuma interessar pela cronologia, teria julgado que se enquadrava bem aqui.

23 Dirigindo-se a todos. S. Lucas, seguindo a S. Marcos, enquadra neste contexto outras palavras do Senhor ditas já não apenas no restrito círculo dos Apóstolos, mas a todos; estas palavras têm, pelo menos, uma relação lógica com a Paixão que é anunciada. O terceiro Evangelista, ao precisar que estas palavras são ditas para todos, parece querer acentuar a sua validade universal; é que não se trata de exigências para uma determinada classe ou elite de discípulos de Cristo, mas para todos os cristãos.

“Se alguém quiser vir comigo”. No original grego o verbo vir não está no infinitivo aoristo, mas no infinitivo presente (érkhesthai), expressando-se assim melhor a continuidade do seguimento de Cristo, dando a entender que não se trata de um seguir a Cristo ocasionalmente, mas de um caminhar sempre atrás d'Ele. As exigências para ir após o Mestre são duas: a primeira é que renuncie a si mesmo; «esta não pode entender-se no sentido trivializado e corrente dum mero vencimento das más tendências e do suportar com paciência os sofrimentos e contrariedades da vida quotidiana, mas significa algo muito mais radical; o discípulo de Jesus não pode querer voltar a saber mais de si mesmo, ao renunciar às exigências do seu eu e da sua vontade própria» (J. Schmid). A segunda condição é que tome a sua cruz todos os dias. O carregar com a cruz significa levar a renúncia de si mesmo até às últimas consequências, a saber, a renúncia à própria vida, uma renúncia tão absoluta como a de quem, com plena entrega, caminha para a morte que lhe está destinada. Notar que esta cruz é a sua, isto é, a que Deus espera de cada um; mais ainda, esta cruz é a cruz de todos os dias, o que explícita, por um lado, o sentido figurado e ascético das palavras de Jesus e, por outro, deixa ver que essa entrega total é necessária para cada momento. Pergunta-se se a expressão tomar a cruz seria uma expressão proverbial corrente na época; a verdade é que ela não aparece nos escritos judaicos de então, mas também é verdade que ela podia ser bem compreendida pelos discípulos, dado que um tão horripilante suplício era frequentemente aplicado pela autoridade romana.

24 “Quem quiser salvar a própria vida há-de perdê-la, mas quem perder a vida por minha causa há-de salvá-la”. Este é um dos célebres paradoxos do Evangelho, assente no duplo sentido da palavra vida: vida terrena e vida eterna. Poderia explicitar-se assim: «quem», por cobardia e falso amor próprio, quer salvar a sua vida terrena, em lugar de renunciar a ela voluntariamente no martírio, perderá a sua verdadeira vida, a vida eterna, isto é, ficará excluído da salvação. Quem, pelo contrário, vai valorosamente para a morte, pela confissão de Jesus e do seu Evangelho, esse salvará assim a sua verdadeira vida, entrará no Reino de Deus (J. Schmid). Cristo, com estas palavras, põe-nos ante uma decisão de vida ou de morte; a radicalidade do seguimento de Cristo não se pode compaginar um seguimento a meias, com um cristianismo light, cool, como se diz hoje, pois seria falsear o Evangelho; não se pode prescindir do escândalo da Cruz.

 

Sugestões para a homilia

 

• Deus ensina-nos o caminho da vitória

Espírito de piedade e de súplica

Contrição dos pecados

Torrente de graças para todos nós

• Seguir Jesus Cristo

Jesus Cristo, nosso único Salvador

Como hei-de segui-l’O

Perder para ganhar

 

1. Deus ensina-nos o caminho da vitória

 

Zacarias profetiza sobre a Paixão e Morte de Jesus e adianta umas quantas revelações. Esse Homem misterioso de que nos fala o profeta será trespassado em Jerusalém. Mas para que isto seja possível, terá de se dar o mistério da Incarnação, pois um espírito puro não pode ser trespassado.

 

a) Espírito de piedade e de súplica. «Sobre a casa de David e os habitantes de Jerusalém derramarei um espírito de piedade e de súplica

A contemplação da Paixão e Morte de Jesus faz despertar em nós sentimentos de piedade e de súplica.

Um dos frutos visíveis da Paixão é a conversão do ladrão arrependido, no Calvário. Abre-se em sentimentos de piedade e de verdade, à vista dos sofrimentos de Jesus. Diz ao seu companheiro: «Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções mereciam, mas Ele nada praticou de condenável.» (Lc 23, 41). Também suplica: «Jesus, lembra-Te de mim, quando estiveres no Teu reino.» (Lc 23, 42). E logo obtém misericórdia: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no paraíso.» (Lc 23, 42).

A rudeza e insensibilidade com que cometemos os pecados é curada pela meditação da Paixão de Jesus, convertendo a nossa atitude indelicada em sentimentos de piedade e de súplica.

Ao mesmo tempo, aprendemos quanto vale uma pessoa, por mais insignificante que pareça, até ao ponto de Deus oferecer pelo Seu resgate todo Sangue.

A visão dos sofrimentos de Jesus em Sua Paixão humaniza-nos, curando-nos da insensibilidade que o pecado nos causa. «Ao olhar para Mim, a quem trespassaram, lamentar-se-ão como se lamenta um filho único, chorarão como se chora o primogénito

 

b) Contrição dos pecados. «Naquele dia, haverá grande pranto em Jerusalém

O profeta recorda a dor sofrida ena cidade santa quando recebeu a notícia da morte do rei Josias, morto em Meggido em combate contra os egípcios (cfr. 2 Re 23,29-30).

A dor dos pecados ajuda-nos a despertar da insensibilidade em que o pecado nos mergulha, voltando-nos para Deus, de onde nos vem a salvação.

Que lugar ocupa a contrição dos pecados cometidos, nas nossas confissões?

• Muitas vezes alimentamos uma certa complacência para com o mal feito, como se fosse um motivo de regozijo. Com estes sentimentos, não estamos arrependidos dos pecados.

• Outras, atenuámo-los com desculpas, projectando nos outros a responsabilidade do mal praticado. Quando fazemos isto, estamos a proclamar que os outros – e não nós mesmos – é que se devem arrepender.

• Mas atitude mais comum é da de insensibilidade e indiferença perante o mal feito, como se nada tivéssemos a ver com ele nem nos afectasse a ofensa que foi feita ao nosso Deus.

Se nos mantivéssemos nesta atitude interior, não haveria conversão pessoal e, portanto, os pecados não ficariam perdoados.

Não basta rezar o acto de contrição. Podemos faze-lo completamente distraídos e insensíveis, falsificando o que poderia ter sido uma fonte de graças.

Uma ajuda providencial para fomentarmos a contrição dos pecados é a meditação da Paixão do Senhor, sobretudo na Via Sacra.

 

c) Torrente de graças para todos nós. «Naquele dia, jorrará uma nascente para a casa de David e para os habitantes de Jerusalém, a fim de lavar o pecado e a impureza

Podemos ver na fonte aqui aludida o lado de Jesus aberto pela lança do soldado e do qual brotou sangue e água. Estão aqui aludidos os dois sacramentos: a Eucaristia (Sangue) e o Baptismo (água).

A fealdade de alma causada pelos nossos pecados será lavada no Sangue do Cordeiro.

Temos aqui uma profecia sobre o sacramento da Reconciliação e Penitência. É nele que são lavados os nossos pecados, pelo Sangue de Jesus.

A Confissão sacramental é também uma nascente de graças para nós. Não podemos eduzir os seus frutos ao perdão dos pecados, mortais ou veniais. Com a absolvição sacramental:

• recebemos a graça santificante, se a tivermos perdido; ou aumentamos a que já tínhamos;

• A graça sacramental deste sacramento fortalece-nos para vivermos no estado de graça e correspondermos generosamente às moções do Espírito Santo. Torna-se mais fácil a vitória sobre cada uma das tentações.

• A Confissão é uma fonte de alegria, de paz, de serenidade. O Senhor diz-nos, na Parábola o filho pródigo, que o pai preparou uma festa para receber o filho. Podemos ver nela a boa disposição interior com que ficamos no fim da confissão.

• Temos mais paciência, rezamos com mais atenção e devoção e trabalhamos melhor.

 

2. Seguir Jesus Cristo

 

A cena do Evangelho passa-se perto da nascente do rio Jordão, já nas fronteiras do Líbano.

Depois da confissão de Pedro, Jesus avança com uma explicação sobre o género de redenção do mundo que vai ser feita: as pessoas serão redimidas pelo Seu Sangue, e nós temos de completar na nossa carne o que falta à Sua Paixão.

 

a) Jesus Cristo, nosso único Salvador. «Pedro tomou a palavra e respondeu: “És o Messias de Deus”».

Jesus Cristo faz uma sondagem a opinião pública a Seu respeito: Que dizem a pessoas acerca de Mim? Quem julgam que sou?

Depois desta sondagem, Jesus interpela directamente os Apóstolos: E vós? Quem dizeis que sou?

Todos ficam embaraçados e não arriscam uma resposta. Pedro avança com a profissão de fé: «És o Messias de Deus».

Jesus chama a atenção para o facto de a resposta de Pedro não ter sido ditada pela sabedoria humana, mas pelo Espírito Santo. É a resposta da fé.

Mas há também aqui uma insinuação: não é pela sabedoria humana que o Papa nos guia nos caminhos da fé, nem pelo seu grande prestígio, mas porque é inspirado pelo Espírito Santo para que possua o carisma da infalibilidade.

Temos um Papa que é um dos maiores teólogos de toda a história da Igreja. Mas não é por isso que nos sentimos firmes em seguir os seus ensinamentos. É porque Deus o dotou com o carisma da infalibilidade, de tal modo que nos ensina tudo e só o que Deus quer que saibamos.

Daqui vem uma consequência lógica: temos o maior interesse em saber o que o Papa nos ensina.

Não é a economia nem os Governos que nos salvam, mas Jesus Cristo. A melhoria das condições económicas só serve na medida em que nos ajudam a uma maior aproximação de Deus.

Acontece que muitos pensam que nisto está a felicidade e podemos dispensar todo o sobrenatural: oração, mandamentos, etc.

 

b) Como hei-de segui-l’O. «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me

São três passos imprescindíveis:

Renunciar a nós próprios. A nossa vontade está doente, condicionada, pelas paixões desordenadas, limitada pelo horizonte acanhado que divisamos.

Nestas condições, os nossos critérios não nos podem guiar para fazer a vontade de Deus, condição imprescindível para entrar no Reino dos Céus.

No Pai nosso, Jesus ensina-nos a pedir: «Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no Céu

Muitas vezes nem sequer nos interrogamos qual é a vontade de Deus naquela circunstância concreta em que nos encontramos. Agimos com precipitação, para o que é mais atractivo para os nossos sentidos, o mais fácil, o que nos dá mais gosto sensível ou pode engrandecer-nos aos olhos dos outros.

Quando o Senhor nos fala da renúncia a nós próprios, refere-se a esta força que nos afasta d’Ele e a que, portanto, é preciso renunciar.

Tomar a nossa cruz. Muitas pessoas tentam santificar-se no que um santo chamou “espiritualidade oxalateira”. Oxalá não estivesse casado com este homem, com esta esposa; oxalá não tivesse este trabalho, mas outro; oxalá tivesse mais saúde, etc.

Deste modo passamos a vida a sonhar com um mundo que não existe e perdemos a oportunidade de nos santificarmos no nosso mundo real.

A nossa cruz – não temos necessidade de a inventar, nem procurar longe – é a nossa muita ou pouca saúde; as pessoas com quem vivemos, com o feitio real que possuem; o nosso trabalho profissional, etc.

Ou nos santificamos com esta cruz real, ou não nos santificaremos nunca.

Recordamos todos a imagem de João Paulo II, gravemente doente, a seguir a Via Sacra, na sua capela particular, abraçado à grande cruz de madeira que segurava entre as mãos.

Seguir o Mestre. O Filho de Deus fez-Se um de nós e é o nosso modelo de fidelidade à vontade do Pai. Não temos necessidade de inventar caminhos. Se O imitarmos, temos a certeza de que fazemos a vontade do Pai e vamos certeiros no caminho do Céu.

 

c) Perder para ganhar. «Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á.»

É uma tentação perigosa querer uma vida sem dificuldades nem sacrifícios. É esta a doença daquela Europa que foi evangelizadora dos povos. Guardamos uma aparência de cristianismo, mas a vida é pagã, porque colocamos acima da vontade de Deus:

• a fuga de tudo o que exige sacrifício, por menor que seja. Ter filhos e educá-los bem deixou de ser um valor para alguns pais. Transformou-se num biblot para consolação dos pais, e não é uma forma de doação generosa a Cristo na pessoa dos mais pequeninos.

A educação ministrada aos filhos vai nesta mesma linha: retirar do seu caminho tudo o que custa, desde a pontualidade no levantar, ao estudo, à ajuda em casa, á oração e à frequência da missa dominical.

• A procura de tudo aquilo que pode dar prazer aos sentidos, proibido ou não pela lei de Deus. Olha-se o Autor dos mandamentos como um “desmancha prazeres”, porque nos impede de gozar o que os nossos sentidos pedem ou exigem.

Caímos em contradições: comemos o que nos apetece e quanto nos apetece, e tomamos medicamentos e fazemos exercício físico ou mesmo operações cirúrgicas para perder peso; deixamos de fazer a vontade de Deus, mas obedecemos à moda e à publicidade; pomos de lado o que nos diz a doutrina da Igreja, mas acreditamos no primeiro curandeiro que nos aparece na mesa do café ou á porta de casa…

Não é por acaso que Jesus Cristo renova diante dos nossos olhares, em cada Domingo, a Sua Paixão, Morte e Ressurreição. A nossa vida passa pela cruz, quer queiramos, quer não: ou levada de rastos, de má vontade e, por isso, magoando-nos, ou abraçados a ela, com toda a alegria de filhos de Deus.

Assim procedeu Nossa Senhora e convida-nos a imitá-l’A.

 

Fala o Santo Padre

 

“Quem renuncia a tudo, até a si mesmo, para seguir Jesus, entra numa nova dimensão da liberdade.”

[...] O evangelista Lucas apresenta-nos Jesus que, no seu caminho rumo a Jerusalém, encontra alguns homens, provavelmente jovens, os quais prometem segui-lo onde quer que ele vá. Ele mostrou-se muito exigente com eles, admoestando-os que "o Filho do homem – isto é Ele, o Messias – não tem onde repousar a cabeça", ou seja não tem uma habitação sua estável, e que quem escolhe trabalhar com Ele na vinha do Senhor jamais poderá arrepender-se (cf. Lc 9, 57-58.61-62). A outro jovem o próprio Cristo diz: "Segue-Me", pedindo-lhe um desapego total dos vínculos familiares (cf. Lc 9, 59-60). Estas exigências podem parecer demasiado severas, mas na realidade expressam a novidade e a prioridade absoluta do Reino de Deus que se torna presente na própria Pessoa de Jesus Cristo. Em última análise, trata-se daquela radicalidade que é devida ao Amor de Deus, ao qual Jesus é o primeiro que obedece. Quem renuncia a tudo, até a si mesmo, para seguir Jesus, entra numa nova dimensão da liberdade, que São Paulo define "caminhar segundo o Espírito" (cf. Gl 5, 16). "Cristo libertou-nos para a liberdade!" – escreve o Apóstolo – e explica que esta nova forma de liberdade que nos foi conquistada por Cristo consiste em estar "ao serviço uns dos outros" (Gl 5, 1-13). Liberdade e amor coincidem! Ao contrário, obedecer ao próprio egoísmo leva a rivalidades e conflitos.

Queridos amigos, está para terminar o mês de Junho, caracterizado pela devoção ao Sagrado Coração de Cristo. Precisamente na festa do Sagrado Coração renovámos com os sacerdotes do mundo inteiro o nosso compromisso de santificação. Hoje, gostaria de convidar todos a contemplar o mistério do Coração divino-humano do Senhor Jesus, para haurir da própria fonte do Amor de Deus. Quem fixa o olhar naquele Coração trespassado e sempre aberto por amor a nós, sente a verdade desta invocação: "És tu, Senhor, o meu único bem" (Salmo resp.), e está pronto a deixar tudo para seguir o Senhor. Ó Maria, que correspondeste sem reservas à chamada divina, reza por nós!

 

Bento XVI, Angelus na Praça de São Pedro a 27 de Junho de 2010

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Foi o Amor a todos nós que levou Jesus Cristo

a dar a vida na Cruz, depois da Paixão dolorosa.

O mesmo Amor faz que nos atenda sempre,

quando a Ele nos dirigimos com toda a confiança.

Com esta certeza que nos dá a fé no Senhor,

oremos (cantando):

 

    Dai-nos, Senhor, a Vossa fortaleza!

 

1. Pelo Santo Padre, e pelos Bispos, nossos bons Pastores,

    para que o Senhor os encha de fortaleza na sua missão,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Vossa fortaleza!

 

2. Pelos escravos do conforto e do prazer dos sentidos,

    para que o Senhor os ajude a despertar deste engano,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Vossa fortaleza!

 

3. Pelos que vivem revoltados contra a cruz da vida,

    para que abracem generosamente a Cruz de Cristo,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Vossa fortaleza!

 

4. Pelos que sentem falta de força no caminho de Deus,

    para que o Senhor os fortaleça e encha de generosidade,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Vossa fortaleza!

 

5. Por todos os que têm a missão de governar os povos,

    para que procurem sempre para eles o bom comum,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Vossa fortaleza!

 

6. Pelos nossos irmãos falecidos que são purificados,

    para que o Senhor os receba nas moradas eternas,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Vossa fortaleza!

 

Senhor, que nos concedestes o dom da vida terrena,

para ganharmos com ela uma eternidade feliz no Céu,

ensinai-nos a seguir-Vos fielmente neste caminho,

e assim merecermos alcançar as Vossas promessas.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

O Senhor nada deixou ao acaso, e muito mais quando se trata de nos ajudar no caminho do Céu. Iluminou-o com a Sua Palavra e fortalece-nos com o Seu Corpo Sangue, na Eucaristia.

Na Mesa da Palavra fez chegar até nós esta luz que nos ajuda a caminhar com toda a segurança.

Vai agora preparar, pelo ministério do sacerdote, o Alimento divino que é Ele próprio, transubstanciando o pão e o vinho que levámos ao altar n’Ele próprio, tão real e perfeitamente como está no Céu.

Recolhamo-nos para tomarmos parte neste augusto mistério da nossa fé.

 

Cântico do ofertório: A minha alma tem sede, M. Carneiro, NRMS 40

 

Oração sobre as oblatas: Por este sacrifício de reconciliação e de louvor, purificai, Senhor, os nossos corações, para que se tornem uma oblação agradável a vossos olhos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo....

 

Santo: «Da Missa de Festa», Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Saudação da Paz

 

Não pode haver paz sem cruz, enquanto estivermos na terra. O amor aos irmãos nem sempre se consegue sem sacrifício, acolhendo, perdoando e esquecendo. É precisamente para vivermos nesta paz que o Senhor nos convida.

Manifestemos com um sinal da liturgia que estamos dispostos a viver em comunhão uns com os outros e todos com Deus.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

A comunhão bem feita, com as disposições que o Senhor nos indica, é indispensável para cumprimos na terra a vontade de Deus.

Agradeçamos ao Senhor esta liberalidade para connosco e comunguemos bem – com fé, em graça, e seguindo as indicações da santa Igreja.

E que o Corpo e Sangue do Senhor guarde a alma de cada um de nós para a vida eterna.

 

Cântico da Comunhão: Senhor, nada somos sem Ti, F. Silva, NRMS 84

Salmo 144, 15

Antífona da comunhão: Os olhos de todos esperam em Vós, Senhor, e a seu tempo lhes dais o alimento.

 

Ou

    Jo 10, 11.15

Eu sou o Bom Pastor e dou a vida pelas minhas ovelhas, diz o Senhor.

 

Cântico de acção de graças: Exultai de alegria no Senhor, F. Silva, NRMS 87

 

Oração depois da comunhão: Senhor, que nos renovastes pela comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo, fazei que a participação nestes mistérios nos alcance a plenitude da redenção. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo....

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Aprendamos, com o Senhor, a encarar a nossa vida de outro modo, sobretudo quando nos são exigidos sacrifícios.

Procuremos confortar com as luzes da fé e com a caridade cristã os nossos irmãos atribulados.

 

Cântico final: Uma certeza nos guia, M. Carneiro, NRMS 11-12

 

 

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial