Páscoa da Ressurreição do Senhor

Missa do Dia

27 de Março de 2005

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Senhor ressuscitou verdadeiramente, A. Cartageno, NRMS 65

Salmo 138, 18.5-6

Antífona de entrada: Ressuscitei e estou convosco para sempre; pusestes sobre mim a vossa mão: é admirável a vossa sabedoria.

Ou:

Lc 24, 34; cf. Ap 1, 5

O Senhor ressuscitou verdadeiramente. Aleluia. Glória e louvor a Cristo para sempre. Aleluia.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Estimados irmãos, Jesus Cristo morreu por nós pregado na Cruz em sexta-feira santa. Hoje nesta Eucaristia estamos a viver a Sua Ressurreição.

Escutemos o Senhor que nos vai dirigir a Sua Palavra. Orientemos por ela a nossa vida.

 

Oração colecta: Senhor Deus do universo, que neste dia, pelo vosso Filho Unigénito, vencedor da morte, nos abristes as portas da eternidade, concedei-nos que, celebrando a solenidade da ressurreição de Cristo, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos para a luz da vida. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: São Pedro, escolhido para primeiro Papa, fala-nos nesta leitura do Senhor que morreu para nos salvar, ressuscitando ao terceiro dia.

 

Actos dos Apóstolos 10, 34a.37-43

Naqueles dias, 34aPedro tomou a palavra e disse: 37«Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: 38Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio, porque Deus estava com Ele. 39Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. 40Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar-Se, 41não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos. 42Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. 43É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados».

 

O texto faz parte do corpo do discurso de Pedro em Cesareia na casa do centurião Cornélio, o qual tinha mandado chamar Pedro a Jope, ilustrado por uma visão (cf. Act 10, 1-33). Este discurso tem um carácter mais catequético e apologético do que propriamente missionário, como seria de esperar num primeiro anúncio da fé a um pagão (embora se tratasse dum «temente a Deus»: v. 2). Lucas redige este discurso a pensar mais nos leitores da sua obra, do que com a preocupação de reconstruir exactamente a cena originária e as mesmas palavras pronunciadas naquela circunstância; com efeito, começa por fazer referência ao Evangelho já antes pregado aos ouvintes: «vós sabeis o que aconteceu…», e também parece que dá por suposta a fé no valor salvífico da Cruz (cf. v. 39b) e não termina, como seria de esperar, com um apelo explícito à conversão. Lucas deixou-nos mais uma bela síntese do que era o Evangelho pregado pela Igreja primitiva.

38 «Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus». Esta nova tradução litúrgica desfez a hendíadis tão própria da estilística hebraica (ungiu de Espírito Santo e de fortaleza), recorrendo, por motivo de clareza, a uma equivalência dinâmica, (a força que é o Espírito Santo). Deus (o Pai) concedeu à natureza humana de Jesus todos os dons do Espírito Santo, que Lhe competiam a partir do momento da Incarnação; estes dons manifestam-se visivelmente nos milagres de Jesus, nas teofanias do Baptismo e da Transfiguração e muito particularmente na Ressurreição. A unção era o rito que constituía os reis e os sacerdotes na sua função: a união hipostática aparece como a unção da natureza humana de Jesus, «que passou fazendo o bem e curando a todos» (maravilhoso resumo da vida de Jesus, bem ao sabor do Evangelista da bondade).

41 «Não a todo o povo»: Jesus não se mostra a todos depois de ressuscitado, não só para não violentar a liberdade das pessoas, mas também porque está nos planos divinos conduzir o mundo à salvação mediante o ministério dos seus discípulos (testemunhas de antemão designadas por Deus) e mediante a fé, que é meritória (cf. Rom 1, 16-17). Note-se o acento que se põe no testemunho acerca da Ressurreição: não estamos apenas perante uns simples pregadores (cf. v. 42a) de uma mensagem salvadora, mas diante de verdadeiras testemunhas (cf. v. 42b) que dão testemunho (o verbo grego tem um matiz forense) capaz de fazer fé em tribunal; a ideia de testemunho é fortemente acentuada neste breve texto, não só por ser repetida quatro vezes (vv. 39.41.42.43), mas por se tratar de testemunhas escolhidas por Deus para esta missão (v. 41), que conviveram com o Ressuscitado, comendo e bebendo com Ele, o que exclui logo à partida a hipótese de se tratar de mera fantasia (Lucas mostra especial sensibilidade a este problema: cf. Lc 24, 37-43).

 

Salmo Responsorial    Sl 117 (118), 1-2.16ab-17.22-23 (R. 24)

 

Monição: Contentes, felizes e cheios de alegria por termos o Senhor ressuscitado connosco, cantemos, dando-Lhe graças e louvando-O.

 

Refrão:        Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria.

Ou:               Aleluia.

 

Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,

porque é eterna a sua misericórdia.

Diga a casa de Israel:

é eterna a sua misericórdia.

 

A mão do Senhor fez prodígios,

a mão do Senhor foi magnífica.

Não morrerei, mas hei-de viver

para anunciar as obras do Senhor.

 

A pedra que os construtores rejeitaram

tornou-se pedra angular.

Tudo isto veio do Senhor:

é admirável aos nossos olhos.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Que as preocupações da vida no mundo nunca nos impeçam de contemplar as maravilhas da vida celeste.

 

Colossenses 3, 1-4 (de manhã)

Irmãos: 1Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. 2Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. 3Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. 4Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.

 

1 «Aspirai às coisas do alto» corresponde ao mesmo incitamento que, na Santa Missa, a Igreja sempre nos repete: (Sursum corda! Corações ao alto!).

3-4 «Vós morrestes» (cf. Rom 6), a nossa união a Cristo pressupõe a morte para o pecado, que não pode reinar mais em nós. Com Cristo morto pelos nossos pecados, morremos para o pecado; com Cristo ressuscitado, vivamos vida de ressuscitados. É a «vida» da graça, uma vida toda interior, «escondida» no centro da alma, vida que ninguém pode arrebatar, vida que é toda feita de presença de Deus e de visão sobrenatural, levando-nos a santificar todos os afazeres diários, trabalhando com os pés bem firmes na terra, mas o coração e o olhar fixo no Céu.

 

Em vez da leitura anterior pode ler-se a seguinte:

 

1 Coríntios 5, 6b-8 (de tarde)

Irmãos: 6bNão sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? 7Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, visto que sois pães ázimos. Cristo, o nosso cordeiro pascal, foi imolado. 8Celebremos a festa, não com fermento velho nem com fermento de malícia, mas com os pães ázimos da pureza e da verdade.

 

Parece haver aqui (v. 6b) uma referência ao incestuoso de que acaba de falar (vv. 1-5): um mau exemplo é um mau fermento. Mas S. Paulo faz imediatamente uma aplicação mais vasta da ideia de mau fermento, e isto talvez pela proximidade da festa da Páscoa, que já então, pelo ano 55, os cristãos celebravam em Corinto como festa da Ressurreição do Senhor, segundo o que se lê no v. 8: «celebremos pois a festa». Na exortação do Apóstolo há uma alusão ao costume judeu, que ainda hoje se conserva, de limpar escrupulosamente as casas de todo o fermento e pão fermentado durante os sete dias que duravam as festas pascais. Nós os cristãos, para celebrarmos a Páscoa – «Cristo, nosso Cordeiro pascal» (v. 7) –, temos que o fazer sem o fermento (o princípio corruptor) da malícia e da perversidade, mas «com os pães ázimos da pureza e da verdade», isto é, da sinceridade de vida. Poderia haver, nesta referência a Cristo como «cordeiro imolado», uma alusão à própria celebração da Eucaristia.

 

Sequência

 

À Vítima pascal

ofereçam os cristãos

sacrifícios de louvor.

 

O Cordeiro resgatou as ovelhas:

Cristo, o Inocente,

reconciliou com o Pai os pecadores.

 

A morte e a vida

travaram um admirável combate:

Depois de morto,

vive e reina o Autor da vida.

 

Diz-nos, Maria:

Que viste no caminho?

Vi o sepulcro de Cristo vivo

e a glória do Ressuscitado.

 

Vi as testemunhas dos Anjos,

vi o sudário e a mortalha.

Ressuscitou Cristo, minha esperança:

precederá os seus discípulos na Galileia.

 

Sabemos e acreditamos:

Cristo ressuscitou dos mortos:

Ó Rei vitorioso,

tende piedade de nós.

 

 

Aclamação ao Evangelho         1 Cor 5, 7b-8a

 

Monição: Cristo ressuscitado apareceu aos Seus amigos. Também hoje quer manifestar-se a todos quantos O amam.

 

Aleluia

 

Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado:

celebremos a festa do Senhor.

 

Cântico: Aclamação – 4, F. da Silva, NRMS 50-51

 

 

Evangelho

 

São João 20, 1-9 (de manhã)

1No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. 2Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: “Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram”. 3Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. 4Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. 5Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. 6Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão 7e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. 8Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. 9Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

 

2 «Não sabemos…»: este plural parece aludir à tradição sinóptica que conhece a ida de mais mulheres ao sepulcro. É evidente que não houve a mínima preocupação de harmonizar os diferentes relatos evangélicos do sepulcro vazio e das aparições, o que é um forte motivo de credibilidade a favor da realidade da ressurreição, facto misterioso, que é a base de toda a fé cristã (cf. 1 Cor 15, 12-19).

7-8 «Viu e acreditou». Porque começou a crer o discípulo? A explicação habitual é que um ladrão não deixaria ficar os panos, e muito menos em ordem. Mas há mais dados a ter em conta. Porque é que o Evangelista atribui tanta importância à diferente posição dos panos? É que as ligaduras e o lençol estavam espalmados no chão da pedra tumular, ao passo que o pano que envolvera a cabeça do Senhor não estava espalmado no chão, mas mantinha a forma da cabeça que envolvera (cf. a nossa tradução na «Nova Bíblia dos Capuchinhos»). Não sabemos se Pedro partilhou da fé do Discípulo Amado, mas S. Lucas diz que ficou maravilhado (cf. Lc 24, 12). Os panos com que Jesus foi amortalhado eram com toda a probabilidade: 1) um lençol mortuário (síndone), tecido largo e comprido que envolvia todo o corpo; 2) um lenço (sudário) que cobria a cabeça e caia sobre o rosto; 3) várias ligaduras que não só serviam para manter apertados os pés um contra o outro e as mãos unidas ao corpo, mas também que poderiam ajudar a aconchegar a síndone ao corpo. S. João não fala especificamente desta síndone, mas deve englobá-lo na designação genérica de «ligaduras» (em grego, othónia).

9 «Ainda não tinham entendido a Escritura». Os discípulos não estavam psicologicamente predispostos a admitir a ressurreição para que esta pudesse ser fruto de uma alucinação; com efeito, só depois de confrontados com a realidade da ressurreição de Jesus é que se recordaram das Escrituras (cf. 1 Cor 15, 4; Act 2, 24-32; Jo 2, 22) e as entenderam. A ressurreição era uma realidade só admissível para o fim do mundo (cf. Jo 11, 24), pois, apesar de Jesus ter anunciado a sua ressurreição ao terceiro dia, este só poderia ser o dia final, de acordo com o a profecia de Oseias (Os 6, 2). Diante do sepulcro vazio, só pensam num roubo (vv. 2.13.15) e não dão crédito a quaisquer notícias das aparições (cf. Mc 6, 11.13; Lc 24, 21-24; Jo 20, 25).

Algumas reflexões sobre o valor dos testemunhos acerca da Ressurreição de Jesus: consultar CL, Ano C – 2000-01, n.º 2.

 

Em vez deste Evangelho, pode ler-se o que se leu na Vigília da Noite Santa.

Nas missas vespertinas pode ler-se o Evangelho de Lc 24, 13-35.

 

São Lucas 24, 13-35 (de tarde)

13Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho duma povoação chamada Emaús, que ficava a duas léguas de Jerusalém. 14Conversavam entre si sobre tudo o que tinha sucedido. 15Enquanto falavam e discutiam, Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. 16Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem. 17Ele perguntou-lhes: «Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?» Pararam, com ar muito triste, 18e um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único habitante de Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias». 19E Ele perguntou: «Que foi?» Responderam-Lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20e como os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte e crucificado. 21Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de libertar Israel. Mas, afinal, é já o terceiro dia depois que isto aconteceu. 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram: foram de madrugada ao sepulcro, 23não encontraram o corpo de Jesus e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos a anunciar que Ele estava vivo. 24Alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas a Ele não O viram». Então Jesus disse-lhes: 25«Homens sem inteligência e lentos de espírito para acreditar em tudo o que os profetas anunciaram! 26Não tinha o Messias de sofrer tudo isso para entrar na sua glória?» 27Depois, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que Lhe dizia respeito. 28Ao chegarem perto da povoação para onde iam, Jesus fez menção de seguir para diante. 29Mas eles convenceram-n’O a ficar, dizendo: «Ficai connosco, porque o dia está a terminar e vem caindo a noite». Jesus entrou e ficou com eles. 30E quando Se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lho. 31Nesse momento abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-n’O. Mas Ele desapareceu da sua presença. 32Disseram então um para o outro: «Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» 33Partiram imediatamente de regresso a Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, 34que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». 35E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão.

 

Temos aqui uma das mais belas páginas do Evangelho: um relato cheio de vivacidade, de finura e de psicologia, em que acompanhamos o erguer daquelas almas desde a mais amarga frustração até às alturas da fé e da descoberta de Jesus ressuscitado. A crítica bíblica procura distinguir neste relato os elementos de tradição e os elementos redaccionais; podem identificar-se muitos elementos de tradição neste relato, mas não dispomos de meios para classificar como meramente redaccionais todos os restantes, pois não são do nosso conhecimento todas as fontes de que Lucas dispôs; a própria crítica admite «fontes especiais» para a redacção de Lucas. Um facto indiscutível é que Lucas é um teólogo e um catequista, não é um jornalista e não se limita a contar a seco umas aparições, mas não temos elementos suficientes para definir em que medida reelaborou as suas fontes.

13 «Emaús»: uma povoação a 60 estádios (duas léguas), uns 11 quilómetros e meio de Jerusalém. Há duas leituras variantes nos manuscritos gregos do Evangelho de Lucas: a imensa maioria deles regista 60 estádios. Alguns poucos têm 160 (o que equivale a uns 30 Km). Também não existe completo acordo sobre a sua localização, sendo indicados vários locais na tradição cristã; El-Qubeibe é o de maior aceitação, a uns 12 Km a Noroeste da Cidade Santa.

16 «Mas os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem». Não é que não vissem a Jesus, ou que Jesus se quisesse ocultar, mas eles é que estavam obcecados pelo seu extremo desalento. E fica-nos a lição: para que se possa reconhecer a Jesus ressuscitado é indispensável o olhar da fé.

18 «Cléofas» parece ser diferente do marido de Maria, mãe de Tiago e José (Jo 19, 25); embora alguns o identifiquem, a grafia é diferente.

22-24 «É verdade que algumas mulheres… Alguns dos nossos»: aqui se resume o que foi relatado antes com mais pormenor (Lc 23, 56b – 24, 9) e correspondente à tradição sinóptica e joanina. Certamente que os nossos são Pedro e João (cf. v. 12 e Jo 20, 1-10). «Mas a Ele não O viram»: se não se trata de um pormenor meramente redaccional, temos que admitir que ainda não lhes constava da aparição de Jesus a Pedro referida adiante, no v. 34; (cf. 1 Cor 15, 5).

28-30 «Jesus fez menção de seguir para diante». Lucas volta a aludir ao «caminho de Jesus» (no v. 15 já tinha usado o mesmo verbo grego que significa caminhar). R. J. Dillon (From eye-witnesses to ministers of the word) pensa que este pormenor lucano insinua que a presença de Jesus no meio dos seus através da Eucaristia (a fracção do pão do v. 30) constitui o momento cume do seu caminhar pelo caminho da salvação. Enternece o leitor ver como Jesus ressuscitado se torna o companheiro de caminho (recorde-se como Lucas gosta de focar a vida cristã como um caminho e um seguimento de Jesus): depois de se fazer encontrado, agora faz-se rogado. Isto sucede-nos muitas vezes na vida cristã: Ele vem ao nosso encontro sem O procurarmos e, outras vezes, quer dar-nos o ensejo de O convidarmos a ficar connosco e de praticarmos a caridade com os outros, que são Ele (cf. Mt 25, 40). Mas aqui o convite feito a Jesus não é um simples acto de caridade e de cortesia; com efeito, parece que a narrativa nos leva a pensar que quem faz este pedido é toda a comunidade cristã, que se reúne para celebrar a Eucaristia e anseia estabelecer uma comunhão íntima com Jesus ressuscitado (ibid.). Todos estão de acordo em ver a estreita relação da refeição descrita com a multiplicação dos pães e a instituição da Eucaristia.

31 «Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no, mas Ele desapareceu da sua presença»: É na Eucaristia que se abrem os olhos para a fé, para captar o que é invisível, mas real. Impressiona muito o relato ao unir o aparecimento com o desaparecimento, sem se dizer para onde é que Jesus se retirou. Desta maneira fica sugerida uma nova presença, a de Jesus glorioso e ressuscitado: uma ausência que é presença.

32 «Não ardia cá dentro o nosso coração?». Quando lemos a Escritura guiados por Jesus, presente na Igreja, inflama-se o nosso coração e sentimo-nos urgidos a mostrar aos que nos rodeiam, com as nossas vidas, pela palavra e pelo exemplo, que Cristo vive, que a Ressurreição é uma realidade. O episódio constitui um apelo a fazermos o mesmo papel do Ressuscitado junto dos desiludidos da vida e sem esperança e a comunicar-lhes a nossa experiência de fé. No relato põe-se em evidência a união do pão e da palavra na vida da Igreja.

 

Sugestões para a homilia

 

Hoje é dia de Páscoa

Celebremos a Páscoa durante todo o ano

Hoje é dia de Páscoa

Durante os últimos quarenta dias (Quaresma) quisemos reflectir no sentido da nossa vida terrena, pensando em Jesus que veio ao mundo para nos salvar. Fizemos jejum e abstinência. Meditámos na Paixão e morte de Jesus por nós com a Via Sacra. Quisemos manifestar publicamente a nossa Fé com as procissões de Passos e de Ramos. Obtivemos o Seu perdão no Sacramento da Penitência. Preparámo-nos assim devidamente para a Páscoa.

Por isso hoje celebramos com muita alegria a Ressurreição do Senhor. Foi ao terceiro dia, como tinha anunciado. Jesus venceu a morte. O Seu sepulcro estava vigiado por soldados. Mas Cristo apareceu glorioso a Sua Mãe, aos Seus amigos e discípulos (primeira leitura e evangelho).

Se tal não tivesse acontecido, seria vã a nossa Fé pois com a morte deixaríamos de viver. Nesse caso os que praticam o bem teriam o mesmo destino dos que praticam o mal. Não haveria motivação alguma para sermos bons.

A ressurreição de Cristo trouxe-nos a certeza de que vale a pena cumprir a missão que nos destinou pois, após a morte, continuaremos a viver com Ele para sempre (segunda leitura).

A nossa alegria é tanta que não nos contentamos em vivê-la unicamente aqui na Celebração da Eucaristia. Jesus vai nas Suas imagens visitar as casas de todos os crentes. Os sinos repicam festivamente. Os foguetes ouvem-se ao longe. Os caminhos e as ruas enchem-se de flores. Nos lares é recebida e beija-se a Cruz de Nosso Senhor. Que sacerdotes e leigos não deixem acabar jamais a Visita Pascal!

Celebremos a Páscoa durante todo o ano

Ao longo de quarenta dias preparámo-nos para a Páscoa. Passemos agora quarenta dias, ou melhor, todos os dias do ano a viver a Páscoa da Ressurreição.

Cristo ofereceu a Sua vida por nós. Consagremos-Lhe também a nossa vida.

Levemos Cristo às casas para que sejam abençoadas nossas famílias.

Levemos Cristo às escolas onde crianças e jovens preparam o seu futuro.

Levemos Cristo às fábricas onde patrões e operários contribuem para que nada falte à sociedade.

Levemos Cristo aos campos onde se produzem os alimentos para que ninguém morra de fome.

Levemos Cristo ao mar onde os pescadores arriscam a vida para que os outros possam viver.

Levemos Cristo aos hospitais e veremos os doentes a serem tratados com a dignidade que merecem.

Levemos Cristo aos governantes para que sirvam da melhor forma possível o povo que os elegeu.

Levemos Cristo aos que se odeiam, aos que causam a destruição e a morte, aos que nem sequer respeitam a inocência das crianças para que se convertam, reparem os males causados e se salvem.

Levemos Cristo aos ateus, sim, exactamente aos que O negam para que se prostrem reverentes, pedindo-Lhe o dom da Fé.

Se não formos capazes, se não tivermos força e coragem supliquemos à Mãe de Jesus, Mãe da Igreja e nossa terna Mãe que nos acompanhe na vida para nunca desfalecermos. Acreditamos que estará junto de nós na hora da morte para vivermos eternamente felizes no Céu!

 

 

Oração Universal

 

Oração Universal

Escutámos a Palavra do Senhor.

Proclamámos a nossa Fé.

Confiemos-Lhe agora os nossos pedidos, dizendo:

Nós vos rogamos, Senhor, ouvi-nos.

 

1.  Para que a Igreja Católica e Apostólica

continue a merecer o dom da unidade

onde não surjam cismas e heresias

mas seja santa a fim de salvar o mundo,

oremos, irmãos.

 

2.  Para que os esposos se amem,

os filhos e pais vivam felizes,

as crianças e jovens se sintam bem na família

e todos sejam fiéis à vocação,

oremos, irmãos.

 

3.  Para que os operários, funcionários e trabalhadores

tenham sempre garantido o seu emprego

a fim de que nada lhes falte para viverem honestamente

e contribuam para o bem da sociedade,

oremos, irmãos.

 

4.  Para que os pecadores se convertam,

os maus deixem de praticar o mal,

os ateus peçam e recebam o dom da Fé,

os justos se mantenham perseverantes na prática do bem,

oremos, irmãos.

 

5.  Para que os idosos, doentes e todos os que sofrem

recebam os devidos cuidados que merecem

na família, nos hospitais, na comunidade

e nas instituições a eles destinados,

oremos, irmãos.

 

6.  Para que os nossos familiares e amigos falecidos

e todos os que no Purgatório se purificam das suas faltas,

alcancem a bem-aventurança eterna no Céu,

pedindo também ao Senhor por nós,

oremos, irmãos.

 

Deus Eterno e Omnipotente, pela Vossa misericórdia e intercessão de Maria Santíssima,

dignai-Vos atender as nossas preces. Por N.S.J.C. Vosso filho que é Deus Convosco

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Bendita e louvada seja, M. Simões, NRMS 41

 

Oração sobre as oblatas: Exultando de alegria pascal, nós Vos oferecemos, Senhor, este sacrifício, no qual tão admiravelmente renasce e se alimenta a vossa Igreja. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio pascal I [mas com maior solenidade neste dia]: p. 469 [602-714]

 

No Cânone Romano dizem-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) e o Hanc igitur (Aceitai benignamente, Senhor) próprios.

Nas Orações Eucarísticas II e III fazem-se também as comemorações próprias.

 

Santo: J. Santos, NRMS 99-100

 

Monição da Comunhão

 

Jesus quis ficar para sempre connosco na Santíssima Eucaristia. Procuremos afastar da nossa vida tudo aquilo que O ofende e recebamo-l’O com alegria na Sagrada Comunhão.

 

Cântico da Comunhão: Fomos resgatados pelo sangue, Az. Oliveira, NRMS 109

1 Cor 5, 7-8

Antífona da comunhão: Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado: celebremos a festa com o pão ázimo da pureza e da verdade. Aleluia.

 

Cântico de acção de graças: Louvai o Senhor, com tudo, M. Simões, NRMS 2 (I)

 

Oração depois da comunhão: Senhor nosso Deus, protegei sempre com paternal bondade a vossa Igreja, para que, renovada pelos mistérios pascais, mereça chegar à glória da ressurreição. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Terminou a nossa Missa em dia de Páscoa. Cristo ressuscitado quer que O levemos aos outros não só na Visita Pascal mas durante todos os dias do ano. Contemos com a bênção maternal da Mãe de Jesus, a Virgem Maria!

 

Cântico final: Jesus venceu a morte, M. Carneiro, NRMS 109

 

 

Homilias Feriais

 

TEMPO PASCAL

 

OITAVA DA PÁSCOA

 

2ª feira, 28-III: A alegria na celebração eucarística.

Act. 2, 14. 22-32 / Mt. 28, 8-15

Maria de Magdala e a outra Maria, que tinham ido ao túmulo do Senhor, retiraram-se dele a toda a pressa, cheias de medo e de grande alegria.

A Ressurreição do Senhor é causa de grande alegria, porque as santas mulheres viram Cristo ressuscitado e falaram com Ele.

«A participação na alegria do Senhor não se pode desligar da celebração do mistério eucarístico, de modo especial a Eucaristia celebrada no dies Domini... São diversos os elementos que na Missa realçam a alegria: nas palavras (é o caso do Glória, do Prefácio), nos gestos (a saudação da paz), no acolhimento inicial, nos arranjos florais... Uma expressão da alegria do coração é o canto, que não é um adorno exterior da celebração eucarística» (AE, 30).

 

3ª feira, 29-III: Antes e depois do encontro com Cristo na Eucaristia.

Act. 2, 36-41 / Jo. 20, 11-18

Disse-lhe Jesus: Mulher, por que estás a chorar? A quem procuras?

Maria Madalena manifesta a sua grande dor, por ver que o corpo de Jesus tinha desaparecido do túmulo. Ao reencontrá-lo é enorme a sua alegria (cf. Ev.).

Quem participa da Eucaristia não deve deixar-se dominar pela tristeza: «A alegria cristã não nega o sofrimento, a preocupação, a dor; seria uma triste ingenuidade. Nas lágrimas de quem semeia, a Eucaristia ensina a entrever a alegria da colheita» (AE, 30). Como Maria Madalena transmitamos aos outros a alegria  do encontro com o Ressuscitado: «A Eucaristia ensina a alegrarmo-nos com os outros, sem guardar só para si  a alegria recebida em dom» (AE, 30).

 

4ª feira, 30-III: O ícone do Ano Eucarístico.

Act. 3, 1-10 / Lc. 24, 13-35

Não ardia cá dentro o nosso coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?

«Enquanto caminhavam, Ele explicava-lhes as Escrituras; depois, pondo-Se à mesa com eles, ‘tomou o pão, proferiu a bênção, partiu-o e deu-lho’» (CIC, 1347).

Este encontro de Jesus com os discípulos de Emaús é o escolhido pelo Papa para o Ano da Eucaristia: «o ícone dos discípulos de Emaús presta-se bem para nortear um ano que verá a Igreja particularmente empenhada na vivência do mistério da sagrada Eucaristia» (MN, 2). Procuremos aprofundar neste mistério, seguindo as orientações propostas pelo Papa nesta Carta Apostólica.

 

5ª feira, 31-III: A paz de Cristo e a paz terrena.

Act. 3, 11-26 / Lc. 24, 35-48

(Jesus): A paz esteja convosco... Por que estais perturbados e por que se levantam esses pensamentos nos vossos corações?

A paz é um dos grandes dons da Ressurreição de Cristo: «A paz terrena é imagem e fruto da paz de Cristo, o Príncipe da paz messiânico. Pelo sangue da sua cruz... reconciliou Deus com os homens... Ele é a nossa paz e declara bem aventurados os obreiros da paz» (CICV, 2305).

Em vários momentos da celebração eucarística o celebrante deseja aos presentes a paz: no início, a seguir ao Pai-nosso, no abraço da paz e no final. «Quando Deus te visitar, hás de sentir a verdade daquelas saudações: dou-vos a paz... deixo-vos a paz... a paz seja convosco... E, isto no meio das tribulações» (Caminho, 258).

 

6ª feira, 1-IV: Convite para o banquete eucarístico.

Act. 4, 1-12 / Jo. 21, 1-14

Disse-lhes Jesus: Vinde almoçar... Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu-lho, e o peixe igualmente.

Como os Apóstolos, depois da segunda pesca milagrosa, também o Senhor nos convida a participar no banquete eucarístico: «O Senhor dirige-nos um convite insistente a que o recebamos no sacramento da Eucaristia: ‘Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós’ (Jo 6, 53)» (CIC, 1384).

Digamos ao Senhor: «Faz-me comungar hoje, ó Filho de Deus, na tua ceia mística. Porque eu não revelarei o segredo aos teus inimigos, nem te darei o beijo de Judas. Mas, como o ladrão, eu te suplico: Lembra-te de mim, Senhor, no teu Reino» (S. João Crisóstomo, cit. em CIC, 1386).

 

Sábado, 2-IV: O mandato do final da Missa.

Act. 4, 13-21 / Mc. 16, 9-15

E disse-lhes: Ide por todo o mundo, e proclamai o Evangelho a toda a criatura.

Assim termina a celebração eucarística: Ide em paz e o Senhor vos acompanhe. «A despedida, com que termina a celebração eucarística, não é simplesmente a comunicação do fim da acção litúrgica; a bênção...diz-nos que saímos da igreja com um mandato de testemunhar ao mundo que somos ‘cristãos’. Recorda-nos João Paulo II: ‘ A despedida no fim da Missa constitui um mandato que leva o cristão a empenhar-se na propagação do Evangelho e na animação cristã da sociedade’ (cf. MN, 27-28). O capítulo IV da Carta Mane nobiscum trata exactamente da Eucaristia apresentada como princípio e projecto da missão» (AE, 31).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:          Aurélio Araújo Ribeiro

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha


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