A  abrir

O  VERDADEIRO  CORPO  DO  SENHOR

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

– «Ouve lá: Jesus continua a ser homem?» A pergunta inesperada, no meio da conversa telefónica, intrigou-me. Ele já sabia a resposta: - «Pois, claro!...» Todos sabemos e acreditamos na Ressurreição de Cristo. Durante 40 dias Jesus a provou, «convivendo e comendo» com os Apóstolos, e «mais de quinhentos» discípulos tiveram a oportunidade de confirmá-la. Que sentido tinha a pergunta?

«Apalpai e vede que Eu tenho carne e ossos!» Mas, apesar disso, os Apóstolos nem queriam acreditar, «por causa da alegria», explica S. Lucas. Era tão bom que fosse verdade! Parecia sonharem. E, com enorme paciência a até bom-humor, Nosso Senhor deu-lhes a prova da posta de peixe, já que dela não duvidavam certamente. E comeu-a.

Foi bom que Se lhes mostrasse várias vezes durante quarenta dias. Para que se familiarizassem com o Ressuscitado. Porque, de vez em vez, aquela impressão de sonho lhes voltaria à mente. E também porque tinha muitas coisas a explicar-lhes. Mas era imprescindível que se gravasse neles uma certeza absoluta, pois essa era precisamente a mensagem fulcral da evangelização: o testemunho até ao sangue da sua Ressurreição, penhor da nossa.

Pois sim, mas… Não foi como a ressurreição de Lázaro, está dito. Era um «corpo glorioso», embora continuasse a ocultar a sua glória celestial mesmo naqueles dias benditos… E o nosso próprio corpo, quando ressuscitar, será um «corpo espiritual», diz S. Paulo.

Talvez fosse essa a razão da pergunta: um «corpo glorioso», um «corpo espiritual», continua a ser um corpo «humano»? Verdadeiro corpo? «Este meu corpo»?

Continua, sem dúvida. Foi isso o que lhes provou Jesus.

Mas não se diluirá, de algum modo, na glória celestial? Não. Pelo contrário. A graça não destrói a natureza; aperfeiçoa-a. Nosso Senhor, após a Ressurreição, mostra-Se «mais humano» do que nunca; mais amável; mais próximo; mais solícito até com o bem-estar corporal dos discípulos; mais familiar, mais íntimo, mais feliz!

Mas o corpo glorioso terá qualidades que aqui não temos… Qualidades que não lhe retiram nada do que tem de corpóreo; só lhe acrescentam, está visto. Está visto em Jesus ressuscitado.

Além disso, ninguém gosta de deixar de ser o que é. Nenhum homem gosta de deixar de o ser; de ser «desumanizado», que significaria ser aniquilado e «re-criado» como outro ser qualquer. Ainda que superior, já não seríamos nós! Jesus é verdadeiro homem, como nós, e, se é verdadeiro homem, gosta da natureza que assumiu. Que «assumiu»; não «de que se revestiu», para despi-la, depois, enfadado…

Mas, vamos a ver: não se trata de um mistério?... Com certeza: é o mistério da Ressurreição, cerne da nossa fé, da nossa vida e da nossa pregação. Se pomos em dúvida que se trate de uma autêntica ressurreição corpórea, pomos em dúvida tudo. «Seríamos os mais desgraçados dos homens!», como dizia o Apóstolo.

Nosso Senhor, não só conservou a sua perfeita humanidade espiritual e corporal, como a «multiplicou» milhões de vezes e a conserva na Sagrada Eucaristia, que é o «verdadeiro Corpo do Senhor», como cantamos, cheios de alegria. Na sua extrema humildade – aparência de pão e de vinho! –, pela transubstanciação, a Sagrada Eucaristia é também uma glorificação: o bendito Corpo de Jesus torna-se realmente presente simultaneamente e por todos os séculos no Altar e no Sacrário. E quantas vezes no-lo fez ver em impressionantes milagres eucarísticos!

Continua a ser Homem? Com certeza! Milhões de vezes «tão humano» como nós!

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial