Domingo de Ramos na Paixão

D. M. Juventude

20 de Março de 2005

 

Neste dia, a Igreja recorda a entrada de Cristo, o Senhor, em Jerusalém, para consumar o seu mistério pascal. Por isso, em todas as Missas se comemora esta entrada do Senhor na cidade santa: ou com a procissão, ou com a entrada solene antes da Missa principal, ou com a entrada simples antes das outras Missas. A entrada solene (mas sem procissão) pode repetir-se antes de outras Missas que se celebram com grande assistência de fiéis.

 

 

A. Comemoração da entrada do Senhor em Jerusalém

 

 

Primeira forma: Procissão

 

À hora marcada, reúnem-se todos numa igreja secundária ou noutro lugar apropriado fora da igreja para a qual se dirige a procissão. Os fiéis levam ramos na mão.

O sacerdote e o diácono, revestidos de paramentos vermelhos próprios da Missa, dirigem-se para o lugar onde o povo está reunido. O sacerdote, em vez da casula, pode levar o pluvial, que deporá terminada a procissão.

Entretanto, canta-se a antífona seguinte ou outro cântico apropriado.

 

Mt 21, 9

Antífona: Hossana ao Filho de David. Bendito o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel. Hossana nas alturas.

 

O sacerdote, ao chegar, saúda o povo na forma habitual. Depois exorta os fiéis a participarem activa e conscientemente na celebração deste dia, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

 

Irmãos caríssimos:

Desde o princípio da Quaresma vimos a preparar-nos com obras de penitência e de caridade. Hoje estamos aqui reunidos para darmos início, em união com toda a Igreja, à celebração do mistério pascal do Senhor, isto é, da sua paixão e ressurreição.

Foi para realizar este mistério da sua morte e ressurreição que Jesus Cristo entrou na sua cidade de Jerusalém. Por isso, recordando com fé e devoção esta entrada triunfal na cidade santa, acompanharemos o Senhor, de modo que, participando agora na sua cruz, mereçamos um dia ter parte na sua ressurreição.

 

Seguidamente, o sacerdote, de mãos juntas, diz uma das seguintes orações:

 

 

Oremos.

Deus eterno e omnipotente, santificai com a vossa + bênção estes ramos, para que, acompanhando a Cristo nosso Rei nesta celebração festiva, mereçamos entrar com Ele na Jerusalém celeste. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Ou:

 

Aumentai, Senhor, a fé dos que esperam em Vós e ouvi com bondade as nossas humildes súplicas, para que, aclamando com estes ramos a Cristo vitorioso, permaneçamos unidos a Ele e dêmos fruto abundante de boas obras. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

R. Amen.

 

Terminada a oração, asperge os ramos com água benta, sem dizer nada.

A seguir, faz-se a proclamação do Evangelho da entrada do Senhor, segundo o texto evangélico correspondente a cada um dos ciclos. Esta proclamação é feita do modo habitual pelo diácono, ou, na falta dele, pelo sacerdote.

 

Evangelho

São Mateus 21, 1-11

1Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, junto ao Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: 2«Ide à povoação que está em frente e encontrareis uma jumenta presa e, com ela, um jumentinho. Soltai-os e trazei-mos. 3E se alguém vos disser alguma coisa, respondei que o Senhor precisa deles, mas não tardará em devolvê-los». 4Isto sucedeu para se cumprir o que o profeta tinha anunciado: 5«Dizei à filha de Sião: ‘Eis o teu Rei, que vem ao teu encontro, humildemente montado num jumentinho, filho de uma jumenta’». 6Os discípulos partiram e fizeram como Jesus lhes ordenara: 7trouxeram a jumenta e o jumentinho, puseram-lhes em cima as suas capas e Jesus sentou-Se sobre elas. 8Numerosa multidão estendia as capas no caminho; outros cortavam ramos de árvores e espalhavam-nos pelo chão. 9E, tanto as multidões que vinham à frente de Jesus como as que O acompanhavam, diziam em altos brados: «Hossana ao Filho de David! Bendito O que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!» 10Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou em alvoroço. «Quem é Ele?» perguntavam. 11E a multidão respondia: «É Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia».

 

2 A povoação que está ai em frente é com certeza Betânia (cf. Mc 11, 1).

7 A jumenta e o jumentinho. Mateus desce até ao pormenor de falar não apenas do jumentinho, mas também da jumenta. Pretende sublinhar o cumprimento da letra da profecia citada (Zac 9, 9), mas a mãe do jumentinho facilitaria que este não se espantasse com a multidão e seguisse o caminho. A entrada dos peregrinos em Jerusalém fazia-se a pé. Jesus quer entrar a cavalo, desta vez. Até então, tinha querido evitar todas as homenagens messiânicas, mas quer agora mostrar-se como o Messias nesta última visita à cidade, entrando montado. Mas não quer fazer a sua entrada como um rei temporal, ou um general, montado num corcel, mas num jumentinho: uma lição de humildade, mesmo no momento de se manifestar como o Messias. Jesus não é um rei dominador, em concorrência com os poderosos da terra, mas o rei cheio de mansidão, o príncipe da paz. Compreende-se, então, como o povo tenha aclamado a Jesus e os seus inimigos se tenham indignado. Os Santos Padres viram nesta atitude de Jesus, ao cavalgar alternadamente sobre o jumentinho e a jumenta, um sinal: a jumenta, submetida ao jugo, representa o povo judeu sujeito ao da Lei; o jumentinho figurava os gentios. A ambos Jesus vinha guiar até Jerusalém (a Igreja e o Céu).

9 «Hossana». Palavra hebraica que aqui tem um sentido de aclamação, correspondente ao nosso «viva!», e não uma mera prece, como indicaria a tradução literal do hebraico: «salva-nos, por favor, (ó Deus)». A saudação «Bendito o que vem em nome do Senhor» é tirada do Salmo 117 e dela se fazem eco todos os fiéis na Liturgia eucarística: «Bendito o que vem» (baruk habá) é ainda hoje a saudação de boas-vindas em Israel. De qualquer modo, estas palavras não são mera saudação, mas uma aclamação solene da realeza de Cristo.

 

Depois do Evangelho, conforme as circunstâncias, pode fazer-se uma breve homilia. A anunciar o começo da procissão, o sacerdote ou outro ministro idóneo pode fazer uma admonição, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

 

Imitemos, irmãos caríssimos, a multidão que aclamava Jesus na cidade santa de Jerusalém, e caminhemos em paz.

 

Inicia-se a procissão em direcção à igreja onde é celebrada a Missa.

À frente vai o turiferário com o turíbulo aceso (se se usa o incenso); depois, no meio de dois ministros com velas acesas, o cruciferário com a cruz ornamentada; segue-se o sacerdote com os outros ministros: finalmente, os fiéis com os ramos na mão.

 

 

 

Á entrada da procissão na igreja, canta-se o responsório seguinte ou outro cântico alusivo à entrada do Senhor.

 

Cântico: As crianças de Jerusalém, M. Faria, NRMS 25

 

V. Ao entrar o Senhor na cidade santa, as crianças de Jerusalém, com ramos de palmeira, anunciaram a ressurreição da vida, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

V. Quando o povo ouviu dizer que Jesus vinha para Jerusalém, saiu ao seu encontro com ramos de palmeira, cantando alegremente:

R. Hossana nas alturas.

 

Ao chegar ao altar, o sacerdote faz-lhe a devida reverência e, conforme as circunstâncias, incensa-o. Seguidamente, dirige-se para a sua cadeira (depõe o pluvial e veste a casula) e, omitindo tudo o mais, diz, como conclusão da procissão, a oração colecta da Missa. Terminada esta oração, a Missa continua na forma habitual.

 

B. Missa

 

Depois da procissão ou da entrada solene, o sacerdote começa a Missa com a oração colecta.

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Hossana ao Filho de David, Az. Oliveira, NRMS 29

 

Antífona de entrada: Seis dias antes da Páscoa, o Senhor entrou em Jerusalém e as crianças vieram ao seu encontro, com ramos de palmeira, cantando com alegria:

Hossana nas alturas. Bendito sejais, Senhor, que vindes trazer ao mundo a misericórdia de Deus.

 

Ou

 

Salmo 23, 9-10

Levantai, ó portas, os vossos umbrais, alteai-vos, pórticos antigos, e entrará o Rei da glória.

Quem é esse Rei da glória? O Senhor dos Exércitos, é Ele o Rei da glória.

Hossana nas alturas. Bendito sejais, Senhor, que vindes ao mundo trazer a misericórdia de Deus.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A Liturgia da Palavra evoca a Entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e a sua Paixão e Morte de Cruz: com a procissão de Ramos acompanhamos Jesus aclamado pelos jovens: «Hossana! Jesus é o Rei de Israel!» Com a leitura do Evangelho acompanhamos Jesus condenado à morte pelas autoridades judaicas e pelo povo que pede a Pilatos: «Crucifica-O, crucifica-O!» A Glória do Domingo de Ramos é passageira. A eficácia da Paixão e morte de Jesus na Cruz, na Sexta-feira Santa é eterna.

 

Oração colecta: Deus eterno e omnipotente, que, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e padecesse o suplício da cruz, fazei que sigamos os ensinamentos da sua paixão, para merecermos tomar parte na glória da sua ressurreição. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: O Profeta fala do Servo de Javé, que se oferece como vítima, suportando os insultos e as humilhações. Não ficará desiludido: Deus há-de vir em seu auxílio!

 

Isaías 50, 4-7

4O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar, como escutam os discípulos. 5O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. 6Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. 7Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

Quem está a falar neste 3.º poema do Servo de Yahwéh é o próprio servo, que representa profeticamente Jesus Cristo. Apresenta-se «a falar como um discípulo», embora não se trate de um discípulo qualquer: é um discípulo do Senhor (cf. Is 54, 13), instruído pelo próprio Deus, tal como dirá Jesus: «a minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou» (Jo 7, 16; cf. 14, 24).

5 «Eu não resisti nem recuei». Mesmo os maiores profetas e os maiores santos tiveram a consciência clara de opor alguma resistência, embora sem qualquer rebeldia, à acção de Deus, como Moisés e Jeremias (cf. Ex 3, 11; 4, 10; Jer 1, 6). Jesus, porém, identifica-se plenamente com a vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; Lc 22, 42).

6 «Apresentei as costas àqueles que me batiam... não desviei o rosto daqueles que me insultavam e cuspiam». Um pleno cumprimento deu-se no relato da Paixão do Senhor, particularmente Mt 26, 67; 27, 26-30; Lc 22, 63-64; etc.

 

Salmo Responsorial    Sl 21 (22), 8-9.17-18a.19-20.23-24 (R. 2a)

 

Monição: Jesus Cristo põe a sua Igreja a cantar as palavras que Ele dirigiu ao Pai, antes de morrer na Cruz: Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste? São tiradas do Salmo 21, pequeno resumo do Evangelho que nos relata os  trabalhos e sofrimentos de Jesus durante a sua Paixão.

 

Refrão:        Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?

 

Todos os que me vêem escarnecem de mim,

estendem os lábios e meneiam a cabeça:

«Confiou no Senhor, Ele que o livre,

Ele que o salve, se é seu amigo».

 

Matilhas de cães me rodearam,

cercou-me um bando de malfeitores.

Trespassaram as minhas mãos e os meus pés,

posso contar todos os meus ossos.

 

Repartiram entre si as minhas vestes

e deitaram sortes sobre a minha túnica.

Mas Vós, Senhor, não Vos afasteis de mim,

sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me.

 

Hei-de falar do vosso nome aos meus irmãos,

hei-de louvar-Vos no meio da assembleia.

Vós, que temeis o Senhor, louvai-O,

glorificai-O, vós todos os filhos de Jacob, reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.

 

Segunda Leitura

 

Monição:  S. Paulo com este hino cristológico transmite-nos a fé dos primeiros cristãos: Jesus  Cristo humilhou-Se  até à morte e morte de Cruz, mas Deus Pai, exaltou-O acima de todas as criaturas! Com a sua morte e Ressurreição Jesus é o Senhor da vida e da morte!

 

Filipenses 2, 6-11

6Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. 7Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, 8humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. 9Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, 10para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, 11e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

A leitura constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, que muitos exegetas pensam ser anterior ao este escrito paulino e a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.

6 «De condição divina». Literalmente: «existindo em forma de Deus». Ora esta forma (morfê) de Deus, ainda que não significasse directamente a natureza divina, pelo menos indicaria a glória e a majestade, atributos especificamente divinos na linguagem bíblica.

«Não se valeu da sua igualdade com Deus». Há diversas possibilidades de tradução desta rica expressão, segundo se considera o termo grego harpagmós em sentido activo (roubo), ou passivo (coisa roubada): a Vulgata traduz: «não considerou uma usurpação (rapinam) o ser igual a Deus» (sentido activo); segundo a interpretação dos Padres Gregos, a que se ateve a nossas tradução (sentido passivo), teríamos: «não considerou como algo cobiçado (harpagmon) … Há quem pense que S. Paulo quer fazer ressaltar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram vir a ser iguais a Deus (cf. Gn 3, 5.22) e a atitude humilde de Jesus que, sendo Deus, se quis fazer «semelhante aos homens» (v. 7).

7 «Mas aniquilou-se a si próprio», à letra, esvaziou-se: Jesus Cristo, ao fazer-se homem, não se despojou da natureza divina, mas sim da glória ou manifestação sensível da majestade que Lhe competia em virtude da chamada união hipostática (na pessoa do Filho eterno de Deus, a natureza humana e a natureza divina unidas numa união misteriosa). «Assumindo a condição de servo», o que não significa a condição social de escravo, mas a «forma» (morfê) de se conduzir, própria de um ser pobre e dependente, cumprindo a figura do «servo de Yahwéh», a que se refere a primeira leitura de hoje; «tornou-se semelhante aos homens, aparecendo como homem», não apenas, como queria a heresia doceta, nas aparências (skhêmati), mas no sentido em que o homem é «semelhante» (en homoiômati) dos outros homens, em tudo igual excepto no pecado (cf. Hbr 4, 15); «humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz» (v. 8). Note-se como é posta em relevo esta obediência e aniquilamento – a kénosis – de Cristo, num sublime crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de escravo, Ele obedece, e com uma obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz – homem, escravo, malfeitor!

9-11 Mas este aniquilamento – o tremendo escândalo da Cruz – não foi uma derrota, o desfecho dum história trágica com que tudo acabou; temos o sublime paradoxo da sua «exaltação»: foi «por isso» mesmo que «Deus» (não Ele próprio, mas o Pai) «O exaltou» de modo singularíssimo (à letra, acima de tudo o que existe: tenha-se em conta hypér na composição do verbo grego), o que se deu na glorificação da humanidade de Jesus com a sua Ressurreição e Ascensão. A esta exaltação corresponde o «nome» que Lhe é dado por Deus, o mesmo nome com que passa a ser invocado pela multidão de todos os crentes de todos os tempos: já não é apenas o nome usado na sua vida terrena e que consta da sentença que o condenou à morte de cruz, mas com o mesmo nome com que o próprio Deus é designado para traduzir o nome divino «Yahwéh» – «Senhor».

Independentemente da discussão acerca do aniquilamento de que aqui se fala, se ele visa ou não directamente o mistério da Incarnação, fica bem claro que Jesus não é um simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, pois Ele é Deus que se abaixa e depois vem a ser exaltado.

 

Aclamação ao Evangelho       Filip 2, 8-9

 

Monição. Por nosso amor, Jesus obedeceu até à morte e morte de Cruz! A Ele a honra, a glória e o louvor!

 

J. Santos, NRMS 40

 

Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz.

Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes.

 

 

Evangelho*

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

Forma longa: Mateus 26, 14 - 27, 66; forma breve: Mateus 27, 11-54

 

N       Naquele tempo, [14um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes 15e disse-lhes:

R       «Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?»

N       Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. 16E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar. 17No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe:

R       «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»

N       18Ele respondeu:

J        «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos’».

N       19Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado, e prepararam a Páscoa. 20Ao cair da noite, sentou-Se à mesa com os Doze. 21Enquanto comiam, declarou:

J        «Em verdade vos digo: Um de vós há-de entregar-Me».

N       22Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar-Lhe:

R       «Serei eu, Senhor?»

N       23Jesus respondeu:

J        «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que há-de entregar-Me. 24O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d’Ele. Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido».

N       25Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou:

R       «Serei eu, Mestre?»

N       Respondeu Jesus:

J        «Tu o disseste».

N       26Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo:

J        «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo».

N       27Tomou em seguida um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo:

J        «Bebei dele todos, 28porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados. 29Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu Pai».

N       30Cantaram os salmos e seguiram para o Monte das Oliveiras.

N       31Então, Jesus disse-lhes:

J        «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa, como está escrito: ‘Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho’. 32Mas, depois de ressuscitar, preceder-vos-ei a caminho da Galileia».

N       33Pedro interveio, dizendo:

R       «Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu não me escandalizarei».

N       34Jesus respondeu-lhe:

J        «Em verdade te digo: Esta mesma noite, antes do galo cantar, Me negarás três vezes».

N       35Pedro disse-lhe:

R       «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».

N       E o mesmo disseram todos os discípulos. 36Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade, chamada Getsémani e disse aos discípulos:

J        «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar».

N       37E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. 38Disse-lhes então:

J        «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo».

N       39E adiantando-Se um pouco mais, caiu com o rosto por terra, enquanto orava e dizia:

J        «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres».

N       40Depois, foi ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro:

J        «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo! 41Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».

N       42De novo Se afastou, pela segunda vez, e orou, dizendo:

J        «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade».

N       43Voltou novamente e encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados de sono. 44Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. 45Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes:

J        «Dormi agora e descansai. Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores. 46Levantai-vos, vamos. Aproxima-se aquele que Me vai entregar».

N       47Ainda Jesus estava a falar, quando chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. 48O traidor tinha-lhes dado este sinal:

R       «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O».

N       49Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe:

R       «Salve, Mestre!»

N       E beijou-O. 50Jesus respondeu- lhe:

J        «Amigo, a que vieste?»

N       Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-n’O. 51Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. 52Jesus disse-lhe:

J        «Mete a tua espada na bainha, pois todos os que puxarem da espada morrerão à espada. 53Pensas que não posso rogar a meu Pai que ponha já ao meu dispor mais de doze legiões de Anjos? 54Mas como se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim tem de acontecer?»

N       55Voltando-Se depois para a multidão, Jesus disse:

J        «Viestes com espadas e varapaus para Me prender como se fosse um salteador! Eu estava todos os dias sentado no templo a ensinar e não Me prendestes... 56Mas, tudo isto aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas».

N       Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.

N       57Os que tinham prendido Jesus levaram-n’O à presença do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e os anciãos se tinham reunido. 58Pedro foi-O seguindo de longe, até ao palácio do sumo sacerdote. Aproximando-se, entrou e sentou-se com os guardas, para ver como acabaria tudo aquilo. 59Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho falso contra Jesus para O condenarem à morte, 60mas não o encontravam, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas. Por fim, apresentaram-se duas 61que disseram:

R       «Este homem afirmou: ‘Posso destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em três dias’».

N       62Então, o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus:

R       «Não respondes nada? Que dizes ao que depõem contra Ti?»

N       63Mas Jesus continuava calado. Disse-Lhe o sumo sacerdote:

R       «Eu Te conjuro pelo Deus vivo, que nos declares se és Tu o Messias, o Filho de Deus».

N       64Jesus respondeu-lhe:

J        «Tu o disseste. E Eu digo-vos: vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso, vindo sobre as nuvens do céu».

N       65Então, o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo:

R       «Blasfemou. Que necessidade temos de mais testemunhas? 66Acabais de ouvir a blasfémia. Que vos parece?»

N       Eles responderam:

R       «É réu de morte».

N       67Cuspiram-Lhe então no rosto e deram-Lhe punhadas. Outros esbofeteavam-n’O, dizendo:

R       68«Adivinha, Messias: quem foi que Te bateu?»

N       69Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe:

R       «Tu também estavas com Jesus, o galileu».

N       70Mas ele negou diante de todos, dizendo:

R       «Não sei o que dizes».

N       71Dirigindo-se para a porta, foi visto por outra criada que disse aos circunstantes:

R       «Este homem estava com Jesus de Nazaré».

N       72E, de novo, ele negou com juramento:

R       «Não conheço tal homem».

N       73Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro:

R       «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia».

N       74Começou então a dizer imprecações e a jurar:

R       «Não conheço tal homem».

N       E, imediatamente, um galo cantou. 75Então, Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera: «Antes do galo cantar, tu Me negarás três vezes». E, saindo, chorou amargamente. 27, 1Ao romper da manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para Lhe darem a morte. 2Depois de Lhe atarem as mãos, levaram-n’O e entregaram-n’O ao governador Pilatos. 3Então Judas, que entregara Jesus, vendo que Ele tinha sido condenado, tocado pelo remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:

R       4«Pequei, entregando sangue inocente».

N       Mas eles replicaram:

R       «Que nos importa? É lá contigo».

N       5Então arremessou as moedas para o santuário, saiu dali e foi-se enforcar. 6Mas os príncipes dos sacerdotes apanharam as moedas e disseram:

R       «Não se podem lançar no tesouro, porque são preço de sangue».

N       7E, depois de terem deliberado, compraram com elas o Campo do Oleiro. 8Por este motivo se tem chamado àquele campo, até ao dia de hoje, «Campo de Sangue». 9Cumpriu-se então o que fora dito pelo profeta: «Tomaram trinta moedas de prata, preço em que foi avaliado Aquele que os filhos de Israel avaliaram 10e deram-nas pelo Campo do Oleiro, como o Senhor me tinha ordenado».]

N       11Entretanto,] Jesus foi levado à presença do governador, que lhe perguntou:

R       «Tu és o Rei dos judeus?»

N       Jesus respondeu:

J        «É como dizes».

N       12Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. 13Disse-Lhe então Pilatos:

R       «Não ouves quantas acusações levantam contra Ti?»

N       14Mas Jesus não respondeu coisa alguma, a ponto de o governador ficar muito admirado. 15Ora, pela festa da Páscoa, o governador costumava soltar um preso, à escolha do povo. 16Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás. 17E, quando eles se reuniram, disse-lhes:

R       «Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?»

N       19Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja. 20Enquanto estava sentado no tribunal, a mulher mandou-lhe dizer:

R       «Não te prendas com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d’Ele».

N       Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus. 21O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:

R       «Qual dos dois quereis que vos solte?»

N       Eles responderam:

R       «Barrabás».

N       22Disse-lhes Pilatos:

R       «E que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?»

N       Responderam todos:

R       «Seja crucificado».

N       23Pilatos insistiu:

R       «Que mal fez Ele?»

N       Mas eles gritavam cada vez mais:

R       «Seja crucificado».

N       24Pilatos, vendo que não conseguia nada e aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo:

R       «Estou inocente do sangue deste homem. Isso é lá convosco».

N       25E todo o povo respondeu:

R       «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».

N       26Soltou-lhes então Barrabás. E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh’O para ser crucificado. 27Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório e reuniram à volta d’Ele toda a coorte. 28Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n’O num manto vermelho. 29Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça e colocaram uma cana na sua mão direita. Ajoelhando diante d’Ele, escarneciam-n’O, dizendo:

R       «Salve, Rei dos judeus!»

N       30Depois, cuspiam-Lhe no rosto e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça. 31Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas e levaram-n’O para ser crucificado.

N       32Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus. 33Chegados a um lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do Calvário, 34deram-Lhe a beber vinho misturado com fel. Mas Jesus, depois de o provar, não quis beber. 35Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, 36e ficaram ali sentados a guardá-l’O. 37Por cima da sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o Rei dos judeus». 38Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda. 39Os que passavam insultavam-n’O e abanavam a cabeça, dizendo:

R       40«Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz».

N       41Os príncipes dos sacerdotes, juntamente com os escribas e os anciãos, também troçavam d’Ele, dizendo:

R       42«Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo! Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos n’Ele. 43Confiou em Deus: Ele que O livre agora, se O ama, porque disse: ‘Eu sou Filho de Deus’».

N       44Até os salteadores crucificados com Ele O insultavam. 45Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolveram toda a terra. 46E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:

J        «Eli, Eli, lema sabachtani!»,

N       que quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?» 47Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:

R       «Está a chamar por Elias».

N       48Um deles correu a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre, pô-la na ponta duma cana e deu-Lhe a beber. 49Mas os outros disseram:

R       «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l’O».

N       50E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.

N       51Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. 52Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; 53e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. 54Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram aterrados e disseram:

R       «Este era verdadeiramente Filho de Deus».

N       55Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. 56Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. 57Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus. 58Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. E Pilatos ordenou que lho entregassem. 59José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo 60e depositou-o no seu sepulcro novo que tinha mandado escavar na rocha. Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro, e retirou-se. 61Entretanto, estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro. 62No dia seguinte, isto é, depois da Preparação, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus foram ter com Pilatos 63e disseram-lhe:

R       «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse quando ainda era vivo: ‘Depois de três dias ressuscitarei’. 64Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança até ao terceiro dia, para que não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos’. E a última impostura seria pior do que a primeira».

N       Pilatos respondeu:

R       65«Tendes à vossa disposição a guarda: ide e guardai-o como entenderdes».

N       66Eles foram e guardaram o sepulcro, selando a pedra e pondo a guarda.

 

A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente por todos os Evangelistas é a sua Paixão, pois culmina a vida e obra redentora de Cristo. Os padecimentos colossais que o Senhor abraçou voluntariamente põem em evidência do modo mais significativo tanto o seu amor infinito para com todos e cada um de nós (cf. Gál 2, 20), como a tremenda gravidade dos nossos pecados (cf. Gál 1, 4). Os estudiosos pensam que foi a parte do Evangelho que tomou a forma definitiva escrita mais cedo.

N.B. – Podem ver-se mais comentários sobre a Paixão do Senhor, em Sexta-Feira Santa.

15 A traição de Judas causa-nos um grande desconcerto. Não teria chegado a entender a missão espiritual de Jesus e, como era interesseiro, oportunista e sem amor sincero, ao pressentir o que considerava um fracasso da missão do Mestre, tentou tirar o máximo rendimento da situação: antes que viesse a ser incomodado por ser discípulo de Jesus, passou para o grupo dos inimigos e, como também é hábil, negoceia a traição para tirar dela todo o lucro. O dinheiro da traição foram trinta moedas de prata.

17 Durante os sete dias que duravam as festas da Páscoa comia-se pão sem fermento (ázimo), em memória do pão que os israelitas cozeram apressadamente ao fugir da escravidão do Egipto (cf. Ex 12, 34).

18 Os encarregados de preparar a Ceia pascal, em que se comia um cordeiro sacrificado no Templo, foram Pedro e João (Lc 22, 8-13; cf. Mc 14, 12-16) a quem Jesus deu indicações precisas: seria na casa de um homem que encontrariam com uma bilha de água. É natural que Jesus já tivesse falado a esse homem no assunto e que ele fosse conhecido dos Apóstolos. Talvez Jesus tivesse querido evitar que Judas ficasse a conhecer o local da Ceia para que este não o fosse indicar aos inimigos que poderiam aproveitar esta ocasião para O prenderem.

25 A resposta positiva à pergunta de Judas passa despercebida aos restantes Apóstolos (cf. Jo 13, 26-29). Isto mostra a delicadeza de Jesus, bem como a sua vontade de tocar o coração empedernido de Judas e também a firme decisão que Jesus tinha de ir para a morte, se os demais soubessem que Judas ia consumar a traição, tê-lo-iam impedido. Ainda que Jesus vá para a morte porque quer, isto em nada diminuiu a responsabilidade do traidor (v. 24).

26-29 Podem ver-se os comentários à 2.ª leitura de Quinta-Feira Santa.

30 Referência aos Salmos que então se rezavam: 113-118.

31-35 Jesus mostra que sabe tudo o que vai acontecer. O aviso a Pedro de que iria negar o Mestre não evitou a sua estrondosa queda, porque lhe faltou humildade. O Senhor permitiu aquela humilhação de Pedro para que o Chefe da Igreja fosse grande pela humildade e para lição de todos nós. Comenta S. João Crisóstomo: «Aprendemos daqui uma grande verdade, a saber, que não é suficiente o desejo do homem, a não ser que se apoie na ajuda de Deus».

36-46 Temos aqui uma das páginas mais impressionantes e misteriosas do Evangelho. Jesus podia ter dominado perfeitamente o ímpeto da emoção da sua sensibilidade finíssima. No entanto, deixa que ela reaja na proporção da gravidade da hora. Desta maneira revela-se como homem em tudo igual a nós (excepto no pecado) e aparece-nos como modelo que pode ser imitado por nós, que não temos o perfeito domínio da sensibilidade. Assim o Senhor nos aparece estendido por terra (v. 39) e sentindo uma angústia tão profunda que se queixa dizendo que sente uma tristeza de morte, suando sangue (Lc 22, 44), precisando de buscar apoio nos mais íntimos para consolo da sua dor e solidão. Jesus diz a Pedro, Tiago e João que fiquem perto, mas, por delicadeza, não os quer impressionar com a sua agonia, por isso se afasta deles na distância de um tiro de pedra (Lc 22, 41 ). Pede-lhes que velem e rezem não só para Lhe servirem de companhia e apoio humano, mas também para terem a coragem de se portarem bem, à altura da tremenda hora que se avizinha. Ainda que eles tenham podido ouvir algumas palavras da oração do Senhor, não se aperceberam perfeitamente do que se passava com Jesus, aliás não se teriam deixado adormecer; é, pois, natural que só depois da Ressurreição tenham ficado a saber os pormenores da oração do Senhor no Getsemani, quando Ele lhos contou.

35 «Passe de mim este cálice». Não obstante a perfeita identificação da própria vontade humana de Jesus com a sua vontade divina, a mesma vontade do Pai – «não se faça como Eu quero, mas como Tu queres» –, a viva repugnância da finíssima sensibilidade de Jesus pelos iminentes martírios da Sua Paixão leva-O a falar assim.

«Cálice» significa no Antigo Testamento a ira divina que faz cair a dor sobre os pecadores (cf. Is 51, 17.22; Jer 25, 15; Lam 4, 21; Ez 23, 33; Sal 75(74), 9). Jesus não é pecador, mas esta mesma imagem sugere a «expiação vicária»: Jesus sofre uma dor expiatória dos pecados da Humanidade (cf. 2 Cor 5, 21; Is 53, 1-12). O motivo da agonia de Jesus parece ser, antes de mais, a antevisão da sua Paixão e Morte na cruz, mas juntava-se a isto um motivo de dor não de menos importância e que facilmente podemos adivinhar: a visão da maldade e ingratidão humana, a falta de correspondência a tão grande excesso do amor de Deus pelas criaturas, o abandono e adormecimento dos mais íntimos, etc.

45 «Dormi agora e descansai». Costumam entender-se estas palavras de Jesus como uma censura com certa ironia. Porém estas palavras poderiam indicar uma certa condescendência para com a fraqueza dos Apóstolos, ao dar-lhes tempo de repouso antes de começar o drama da sua prisão.

49 Na escuridão da noite (embora houvesse Lua cheia, havia as sombra das árvores), convinha um sinal para que os encarregados de prender Jesus atacassem de surpresa. Judas escolheu o sinal mais discreto e mais velhaco: um sinal de afeição e cortesia como manifestação da traição. A tão monstruosa vilania, Jesus corresponde com enorme delicadeza, deixando uma porta aberta ao arrependimento, ao tratar o traidor por «amigo»; assim nos ensina a respeitar e a tratar com caridade os nossos inimigos.

53 «Uma legião» era um efectivo militar com mais de 6.000 homens.

57-58 Jesus comparece perante as autoridades judaicas. Este julgamento não sabemos se foi feito em duas ou três sessões: S. João fala da comparência do Senhor perante Anãs, sogro de Caifás e sumo sacerdote deposto, que conservava grande preponderância (Jo 18, 19-24); S. Lucas fala da sessão oficial do Sinédrio, de manhã, em que é dada a sentença (Lc 22, 66-67), relato que coincide com a sessão nocturna perante Caifás contada aqui por S. Marcos. Como S. Mateus (que coincide com S. Marcos) fala de uma outra sessão depois de amanhecer (Mt 27, 1), ou houve três sessões ou então teremos de supor que S. Mateus, por motivos redaccionais, simplificou as coisas, atribuindo a uma sessão nocturna o que se passou na sessão diurna.

61 O depoimento das testemunhas era deturpado, pois Jesus não tinha dito «posso destruir o Templo», mas «desfazei este Templo» e referindo-se ao seu corpo (Jo 2, 19).

63-65 Jesus cala-se perante as falsas acusações, mas fala agora quando tem de dar testemunho da sua missão, embora isto Lhe acarreta a morte. E fá-lo aplicando a si dois textos bíblicos considerados como referidos ao Messias: Salm 109(110), 1 e Dan 7, 13. De acordo com o uso respeitoso de evitar pronunciar o nome inefável de Yahwéh, diz «à direita do Todo-Poderoso», (v. 64). O Senhor é condenado por blasfémia: não por se declarar o Messias, mas por declarações com que se situava num nível divino.

70-75 As negações de Pedro. A fé de Pedro que Jesus louvara (Mt 16, 17) tem de suportar uma dura prova (cf. Lc 22, 31-32). O rápido desenlace dos acontecimentos deixara Pedro desconcertado e sem força para reagir e confessar o seu Mestre: se Ele lhe mandara arrumar a espada quando O tentava defender (Mt 26, 52), que lhe restava fazer agora por Jesus? Um homem tão impulsivo como Pedro não se resignava a seguir Jesus até à morte sem lutar. Pedro sentia-se atordoado e confuso: quando vê que os seus planos humanos de defesa falharam tem a grande fraqueza de negar insistentemente o Mestre e com juramento, esquecendo os insistentes protestos de fidelidade pouco antes feitos (v. 35). Mas, se foi grande o seu pecado, também foi profundo o seu arrependimento, merecendo da misericórdia do Senhor não vir a ser rejeitado como chefe da sua Igreja.

27, 3-5 O desespero de Judas. Judas também se arrepende, mas o seu arrependimento não é uma conversão, um regresso para Deus; é um fechar-se na sua miséria e na sua soberba ferida pelo remorso. Judas desespera porque não sabe confiar na misericórdia infinita de Deus. A sua soberba não o deixa voltar atrás, pedir perdão a Deus e ir ao encontro dos seus irmãos, os Apóstolos.

9 O Evangelista sublinha que se cumpre o que estava previsto por Deus: não era uma fatalidade inexorável ou um fracasso de Jesus. A citação de Jeremias (32, 6-9) é completada com um oráculo doutro profeta (Zac 11, 12-13).

11-31 Jesus no tribunal do procurador romano. O recurso à autoridade romana tornava-se necessário para que se pudesse levar a cabo legalmente a morte de Jesus, coisa que não estava nas atribuições do Sinédrio. Pilatos foi procurador na Palestina de 26 a 36 d. C. Vivia habitualmente em Cesareia, mas encontrava-se então em Jerusalém para estar mais atento aos movimentos dos judeus por ocasião das festas da Páscoa. Era cruel e odiava os judeus, não perdendo ocasião de os humilhar. Devia estar ao par da actuação de Jesus, que consideraria inofensiva para a causa do império. O processo diante de Pilatos é contado mais detalhadamente por S. João.

24 O gesto hipócrita de Pilatos com que pretende justificar a sua cobardia pode explicar-se por um certo medo supersticioso de vir a sofrer más consequências da sua iníqua sentença, demais que a sua mulher tinha tido um pesadelo de mau presságio (v. 21): lavar as mãos teria o sentido mágico de afastar de si qualquer castigo divino.

26 A flagelação foi mais um expediente de Pilatos para evitar a morte de Jesus (Jo 19, 1.5.14). S. Mateus não desce a este detalhe do processo de Jesus diante de Pilatos; limita-se a referir este crudelíssimo suplício.

27 A companhia, ou «coorte», constava de uns 625 soldados recrutados entre a gente não judia que morava na Palestina; estavam aquartelados permanentemente em Jerusalém, na torre Antónia ao lado do Templo, às ordens do procurador romano.

32 Simão de Cirene. Este cireneu é um estranho que é forçado a levar a cruz de Jesus (talvez só o pau transversal. segundo era costume, pois o poste vertical já estaria erguido no lugar da execução). É de fazer pensar a solidão de Jesus: não tem um amigo, um discípulo, um beneficiário dos seus milagres que apareça para O ajudar a levar a Cruz. Este serviço de Simão de Cirene há-de ser bem recompensado, pois os seus dois filhos, Alexandre e Rufo. hão-de vir a tornar-se cristãos dignos de especial menção (Mc 15, 21; Rom 16, 13).

34 Provou, mas não quis beber. Costumava ser oferecida aos que iam ser crucificados uma mistura de vinho com mirra, para lhes acalmar as terríveis dores. Jesus, por delicadeza e deferência, provou, mas não quis beber, para poder sofrer conscientemente todas as dores por nós.

35 Cf. Sal 21(22), 19.

45 Com estas palavras do Salmo 21 (22), 2, o Senhor deixa-nos ver toda a magnitude do seu sofrimento físico e moral. Não são palavras de desespero ou protesto, mas uma oração de desabafo, com que mostra como sofre no máximo grau de intensidade a sua alma e o seu corpo, mas numa atitude de abandono, pois este é o tom do Salmo, que Jesus rezaria inteiro e não apenas o 1.º versículo.

51 O véu do Templo era um cortinado que separava, no santuário, o Santo do Santo dos Santos. Este rasgar-se significa que, a partir da morte de Jesus, ficam abertas para todos os homens as portas do Céu (cf. Hebr 9, 15) e também que acabou a Antiga Aliança dando lugar à Nova, selada com o sangue de Cristo. Os sinais prodigiosos que acompanham a morte de Jesus atestam a transcendência do que se passa no momento: não morre mais um homem qualquer, é o Filho de Deus que morre, redimindo a Humanidade pecadora.

52-53 Passagem muito difícil de interpretar e sobre cujo sentido nunca houve acordo. Cristo foi certamente o primeiro a ressuscitar (1 Cor 15, 20; Col 1, 18), por isso haverá que distinguir dois factos: a abertura dos túmulos (talvez devida ao tremor de terra) e a ressurreição de muitos santos que só teria vindo a dar-se depois da ressurreição de Jesus (v. 53). No v. 52 S. Mateus, não se fixando na ordem dos acontecimentos, adianta a referência à ressurreição, como se dissesse: «e muitos corpos dos santos que tinham morrido vieram a ressuscitar». Esta falta de atenção à ordem dos factos narrados é frequente em S. Mateus.

62-66 A guarda do sepulcro. As medidas de segurança tomadas pelos inimigos de Jesus vão ser mais uma prova do facto da Ressurreição. Estas precauções têm toda a credibilidade: compreende-se que tenham sido tomadas só no sábado, pois a sepultura tinha tido lugar no fim de sexta-feira e com a intervenção de um homem influente, José de Arimateia; também é crível que os inimigos de Jesus tivessem qualquer referência à ressurreição a partir do anunciado sinal de Jonas (Mt 12, 40), embora fosse só do conhecimento dos Apóstolos o tríplice anúncio da Paixão, Morte e Ressurreição. Por mais descabida que parecesse a Pilatos a preocupação dos chefes judeus, ele bem poderia ter acabado por destacar os seus soldados para guardarem o túmulo.

 

Sugestões para a homilia

 

Humilhou-Se a si mesmo!

Verdadeiramente Jesus é o Filho de Deus.

Dia mundial da juventude.

Humilhou-Se a si mesmo!

A Liturgia deste Domingo fala-nos de triunfo e de glória: com os jovens hebreus também nós cantamos em honra de Jesus Cristo! Bendito, bendito o que vem! Viva Jesus o Rei de Israel! Hossana! Acreditamos que Ele é o Messias! Terminada a Procissão, a Palavra divina, nas leituras, no Salmo e na Narração evangélica da Paixão mostram-nos Jesus, como o Servo sofredor, que voluntariamente se oferece como vítima de expiação pelos nossos pecados. Ele quis suportar as humilhações, os sofrimentos, a morte de Cruz para nos salvar. «Pelas suas chagas fomos curados». «Sendo de condição divina aniquilou-se a si próprio!» Mas depois da morte, Deus exaltou-O, dando-Lhe um nome que está acima de tudo e de todos! «Ao nome de Jesus todos se ajoelham no Céu, na terra e nos abismos!»

Verdadeiramente Jesus é o Filho de Deus.

O centurião depois de ter visto como Jesus suportou toda aquela crueldade, depois de ter assistido ao testemunho da natureza – «era meio dia, mas houve trevas em toda a região» – ao ver Jesus expirar daquela maneira exclamou: «Na verdade este homem era Filho de Deus!» Testemunho sincero que o Evangelho faz ressoar pelos séculos fora!

Irmãos, irmãs, não nos calemos! Não podemos ficar indiferentes! Quando Jesus entrou na cidade Santa, os seus habitantes ao verem toda aquela multidão que O aclamava, perguntavam: «Quem é Ele?» Recordam ainda a resposta da multidão? «É o Profeta, Jesus de Nazaré da Galileia!». Saibamos responder, como S. Paulo, a todos os que nos perguntam acerca da nossa fé: nós acreditamos e proclamamos que «Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai»!

Dia mundial da juventude.

Hoje é dia mundial da Juventude. Juntamente com os jovens hebreus que estendiam os seus mantos no chão e juncavam o caminho com ramos de árvores, também nós mostramos a nossa juventude de alma, imitando aqueles que foram ao encontro do Senhor. Não fazemos tapetes de flores, não estendemos as nossas capas para Jesus passar, mas prostramo-nos a seus pés com rectidão de espírito, pureza de alma, dizendo com fé: «bendito o que vem em nome do Senhor».

Em Colónia de 15 a 21 de Agosto decorrerá a XX Jornada Mundial da Juventude. Porque nesta cidade se encontram as relíquias dos Reis Magos o Papa escolheu esta frase de S. Mateus para o tema: «Viemos adorá-Lo!» Guiados por uma estrela encontraram O Menino Jesus, a quem reconheceram como verdadeiro Deus e por isso se prostraram por terra, adorando-O! Convida o Papa a reconhecer Jesus presente na eucaristia, a fim de O adorarmos também! «Nós hoje podemos adorar Jesus na Eucaristia e reconhecê-Lo como nosso Criador, único Senhor e Salvador!»

«Amados jovens, a Igreja precisa de testemunhas autênticas para a nova evangelização. Quando se encontra Cristo e se acolhe Evangelho, a  vida muda e somos convidados a comunicar aos outros a própria experiência!»

Aceitemos todos este convite e adoremos Jesus Cristo, o nosso Redentor!

Proclamemos a gora a nossa fé: Creio em um só Deus....

 

Fala o Santo Padre

 

Mensagem do Papa João Paulo II

para a XX Jornada Mundial da Juventude

 

Colónia (Alemanha) – Agosto 2005

«Viemos Adorá-Lo» (Mt 2, 2)

 

Caríssimos jovens!

1. Celebramos este ano a XIX Jornada Mundial da Juventude meditando sobre o desejo expresso por alguns gregos, que chegaram a Jerusalém por ocasião da Páscoa: «Queremos ver Jesus» (Jo 12, 21). E eis-nos agora a caminho de Colónia, onde em Agosto de 2005 será realizada a XX Jornada Mundial da Juventude.

«Viemos adorá-lo» (Mt 2, 2): eis o tema do próximo encontro mundial juvenil. É um tema que permite que os jovens de todos os continentes repercorram idealmente o percurso dos Magos, cujas relíquias, segundo uma tradição piedosa, são veneradas precisamente naquela cidade, e encontrem, como eles, o Messias de todas as nações.

Na realidade, a luz de Cristo já esclarecia a inteligência e o coração dos Magos. «Eles partiram» (Mt 2, 9), narra o evangelista, lançando-se corajosamente por estradas desconhecidas e empreendem uma viagem longa e difícil. Não hesitam em deixar tudo para seguir a estrela que tinham visto surgir no Oriente (cf. Mt 2, 1). À imitação dos Magos, também vós, queridos jovens, vos preparais para realizar uma «viagem» partindo de todas as regiões do globo para Colónia. É importante que não vos preocupeis apenas da organização prática da Jornada Mundial da Juventude mas é necessário que vos ocupeis, em primeiro lugar, da sua preparação espiritual, numa atmosfera de fé e de escuta da Palavra de Deus.

2. «E a estrela... ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou» (Mt 2, 10). Caríssimos, é importante aprender a perscrutar os sinais com os quais Deus nos chama e nos guia. Quando temos a consciência de sermos guiados por Ele, o coração experimenta uma alegria autêntica e profunda, que é acompanhada por um desejo sincero de O encontrar e por um esforço perseverante em segui-lo docilmente.

«Entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe» (Mt 2, 11). Nada de extraordinário à primeira vista. Contudo, aquele Menino é diferente dos outros: é o Filho unigénito de Deus que se despojou da sua glória (cf. Fl 2, 7) e veio à terra para morrer na Cruz. Desceu entre nós e fez-se pobre para nos revelar a glória divina, que contemplaremos plenamente no Céu, nossa pátria bem-aventurada.

Quem poderia inventar um sinal de amor maior? Permaneçamos extasiados diante do mistério de um Deus que se humilha para assumir a nossa condição humana até se imolar por nós na cruz (cf. Fl 2, 6-8). Na sua pobreza, veio para oferecer a salvação aos pecadores, Aquele que como nos recorda São Paulo «sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). Como dar graças a Deus por tanta bondade magnânima?

3. Os Magos encontram Jesus em «Bêt-lehem», que significa «casa do pão». Na humilde gruta de Belém jaz, colocado em cima de um pouco de palha, «o grão de mostarda» que, morrendo, dará «muito fruto» (cf. Jo 12, 24). Para falar de si e da sua missão salvífica Jesus, ao longo da sua vida pública, recorrerá à imagem do pão. Dirá: «Eu sou o pão da vida», «Eu sou o pão que desceu do céu», «o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo» (Jo 6, 35.41.51).

Repercorrendo com fé o itinerário do Redentor da pobreza desde o Presépio até ao abandono na Cruz, compreendemos melhor o mistério do seu amor que redime a humanidade. O Menino, colocado por Maria na Manjedoura, é o Homem-Deus que veremos pregado na Cruz. O mesmo Redentor está presente no sacramento da Eucaristia. Na manjedoura de Belém deixou-se adorar, sob as pobres aparências de um recém-nascido, por Maria, por José e pelos pastores; na Óstia consagrada adorámo-l'O sacramentalmente presente em corpo, sangue, alma e divindade, e oferece-se a nós como alimento de vida eterna. A santa Missa torna-se então o verdadeiro encontro de amor com Aquele que se entregou completamente por nós. Queridos jovens, não hesiteis em responder-Lhe quando vos convida «para o banquete do Cordeiro» (cf. Ap 19, 9). Escutai-O, preparai-vos de modo adequado e aproximai-vos do Sacramento do Altar, sobretudo neste Ano da Eucaristia (Outubro de 2004-2005) que quis proclamar para toda a Igreja.

4. «Prostrando-se, adoraram-no» (Mt 2, 11). Se no Menino que Maria estreita entre os seus braços os Magos reconhecem e adoram o esperado pelas nações anunciado pelos profetas, nós hoje podemos adorá-lo na Eucaristia e reconhecê-lo como o nosso Criador, único Senhor e Salvador.

«Abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra» (Mt 2, 11). Os dons que os Magos oferecem ao Messias simbolizam a verdadeira adoração. Mediante o ouro eles realçam a realeza divina; com o incenso confessam-no como sacerdote da nova Aliança; oferecendo-lhe a mirra celebram o profeta que derramará o próprio sangue para reconciliar a humanidade com o Pai. Queridos jovens, oferecei também vós ao Senhor o ouro da vossa existência, ou seja, a liberdade de o seguir por amor respondendo fielmente à sua chamada; fazei subir para Ele o incenso da vossa oração fervorosa, o louvor da sua glória; oferecei-lhe a mirra, isto é, o afecto repleto de gratidão por Ele, verdadeiro Homem, que nos amou até morrer como um malfeitor no Gólgota.

5. Sede adoradores do único Deus, reconhecendo-lhe o primeiro lugar na vossa existência! A idolatria é uma tentação constante do homem. Infelizmente há quem procure a solução para os problemas em práticas religiosas incompatíveis com a fé cristã. É grande a tentação de pensar nos mitos de fácil sucesso e do poder; é perigoso aderir a concepções evanescentes do sagrado que apresentam Deus sob a forma de energia cósmica, e de outras maneiras que não estão em sintonia com a doutrina católica.

Jovens, não cedais a falsas ilusões nem a modas efémeras, que muitas vezes deixam um trágico vazio espiritual! Recusai as soluções do dinheiro, do consumismo e da violência dissimulada que por vezes os meios de comunicação propõem.

A adoração do verdadeiro Deus constitui um acto autêntico de resistência contra qualquer forma de idolatria. Adorai Cristo: Ele é a Rocha sobre a qual construir o vosso futuro e um mundo mais justo e solidário. Jesus é o Príncipe da paz, a fonte de perdão e de reconciliação, que pode irmanar todos os membros da família humana.

6. «Regressaram ao seu país por outro caminho» (Mt 2, 12). O Evangelho esclarece que, depois de ter encontrado Cristo, os Magos regressaram ao seu país «por outro caminho». Esta mudança de caminho pode simbolizar a conversão daqueles que encontraram Jesus e foram chamados a tornar-se os verdadeiros adoradores que Ele deseja (cf. Jo 4, 23-24). Isto exige a imitação do seu modo de agir fazendo de si próprios, como escreve o apóstolo Paulo, um «sacrifício vivo, santo e agradável a Deus». O Apóstolo acrescenta depois que não se conformem com a mentalidade deste século, mas que se transformem renovando a mente, «para poder discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom e lhe é agradável é perfeito» (cf. Rm 12, 1-2).

Escutar Cristo e adorá-lo leva a fazer opções corajosas, a tomar decisões por vezes heróicas. Jesus é exigente porque deseja a nossa felicidade autêntica. Chama alguns a deixarem tudo para o seguir na vida sacerdotal ou consagrada. Quem sente este convite não tenha receio de lhe responder «sim» e ponha-se generosamente no seu seguimento. Mas, além das vocações de especial consagração, existe também a vocação própria de cada baptizado: também ela é vocação àquela «medida alta» da vida cristã ordinária que se expressa na santidade (cf. Novo millennio ineunte, 31). Quando se encontra Cristo e se acolhe o seu Evangelho, a vida muda e somos estimulados a comunicar aos outros a própria experiência.

São tantos os nossos contemporâneos que ainda não conhecem o amor de Deus, ou procuram encher o coração com alternativas insignificantes. É urgente, por conseguinte, ser testemunhas do amor contemplado em Cristo. O convite para participar na Jornada Mundial da Juventude é também para vós, queridos amigos que não sois baptizados ou que não vos reconheceis na Igreja. Não é porventura verdade que também vós tendes sede de Absoluto e andais em busca de «algo» que dê significado à vossa existência? Dirigi-vos a Cristo e não sereis desiludidos.

7. Amados jovens, a Igreja precisa de testemunhas autênticas para a nova evangelização: homens e mulheres cuja vida seja transformada pelo encontro com Jesus; homens e mulheres capazes de comunicar esta experiência aos outros. A Igreja precisa de santos. Todos somos chamados à santidade, e só os santos podem renovar a humanidade. Sobre este caminho de heroísmo evangélico foram muitos os que nos precederam e exorto-vos a recorrer com frequência à sua intercessão. Encontrando-vos em Colónia, aprendereis a conhecer melhor alguns deles, como São Bonifácio, o apóstolo da Alemanha, e os Santos de Colónia, particularmente Úrsula, Alberto Magno, Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) e o beato Adolph Kolping. Entre eles, gostaria de citar em particular Santo Alberto e Santa Teresa Benedita da Cruz que, com a mesma atitude interior dos Magos, procuraram apaixonadamente a verdade. Eles não hesitaram em colocar as próprias capacidades intelectuais ao serviço da fé, testemunhando assim que fé e razão estão ligadas e que uma se refere à outra.

Caríssimos jovens encaminhai-vos idealmente para Colónia, o Papa acompanha-vos com a sua oração. Maria, «mulher eucarística» e Mãe da Sabedoria, ampare os vossos passos, ilumine as vossas opções, vos ensine a amar o que é verdadeiro, bom e belo. Acompanhe todos vós até ao seu Filho, o único que pode satisfazer as expectativas mais íntimas da inteligência e do coração do homem.

Com a minha Bênção!

João Paulo II, Castel Gandolfo, 6 de Agosto de 2004.

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Contemplando a Cristo, nosso Salvador,

oremos pela salvação de todos os homens,

 rezando confiadamente

 

Abençoai Senhor, o vosso povo!

 

1.  Pela Santa Igreja, seus ministros e fiéis,

para que, vivendo na fé o mistério da Paixão

recolham da árvore da cruz o fruto da esperança,

oremos.

 

2.  Pelos ateus e pelos cristãos sem fé,

para que à semelhança do centurião do Evangelho,

descubram em Cristo crucificado o Filho de Deus,

oremos.

 

3.  Pelos doentes e pelos moribundos,

para que sintam junto de si o Salvador,

que nas mãos do Pai entregou o Seu Espírito,

oremos.

 

4.  Por todos nós para que unidos à Paixão e Morte do Redentor,

sejamos conduzidos à glória da Ressurreição,

oremos.

 

5.  Por todos os nossos familiares,

que celebraram connosco a Páscoa nos anos anteriores,

para que contemplem a glória de Jesus Ressuscitado,

oremos.

 

Senhor Jesus Cristo,

que por nós aceitastes voluntariamente a morte na cruz,

concedei a todos os homens a graça de se unirem à Vossa Paixão e

de porem a Sua esperança na Vossa Ressurreição.

Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Na hóstia sobre a patena, B. Salgado, NRMS 6 (II)

 

Oração sobre as oblatas: Pela paixão do vosso Filho Unigénito, apressai, Senhor, a hora da nossa reconciliação: concedei-nos, por este único e admirável sacrifício, a misericórdia que nossos pecados não merecem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

A paixão redentora de Cristo

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. E nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Sendo inocente, entregou-Se à morte pelos pecadores; não tendo culpas, deixou-Se condenar pelos culpados. A sua morte redimiu os nossos pecados e a sua ressurreição abriu-nos as portas da salvação.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos com alegria a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: Santo I, H. Faria, NRMS 103-104

 

Monição da Comunhão

 

Rezemos com S. Paulo: «toda a nossa glória está na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo! Por Ele fomos salvos e resgatados!» (Gál 6, 14)

 

Cântico da Comunhão: A minha carne é verdadeira comida, F. da Silva, NRMS 102

Mt 26, 42

Antífona da comunhão: Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-Se a tua vontade.

 

Cântico de acção de graças: Troquemos o instante pelo eterno, M. Simões, NRMS 61

 

Oração depois da comunhão: Saciados com estes dons sagrados, nós Vos pedimos, Senhor: assim como, pela morte do vosso Filho, nos fizestes esperar o que a nossa fé nos promete, fazei-nos também chegar, pela sua ressurreição, às alegrias do reino que esperamos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Subamos com Jesus ao Calvário, nesta Semana Santa, participemos na sua Paixão, para saborearmos a glória da sua Ressurreição, no Domingo de Páscoa!

 

Cântico final: Proclamai em toda a terra, M. Faria, NRMS 27-28

 

 

Homilias Feriais

 

SEMANA SANTA

 

2ª feira, 21-III: Ambiente da celebração eucarística.

Is. 42, 1-7 / Jo. 12, 1-11

Maria tomou uma libra de perfume de nardo verdadeiro de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-lhos com os cabelos.

A unção de Betânia serve de prelúdio à instituição da Eucaristia: «Tal como a mulher da unção de Betânia a Igreja não teme ‘desperdiçar’, investindo o melhor dos seus recursos para exprimir o seu enlevo e adoração diante do dom incomensurável da Eucaristia» (IVE, 48).

Assim nasceu e se foi formando a liturgia cristã. «À semelhança dos primeiros discípulos encarregados de preparar a ‘grande sala’ (do Cenáculo), ela (a Igreja) sentiu-se impelida... a celebrar a Eucaristia num ambiente digno de tão grande mistério» (IVE, 48). Cuidemos muito tudo o que diz respeito à celebração eucarística: altar, paramentos, cânticos...

 

3ª feira, 22-III: Sacrifícios de salvação.

Is. 49, 1-6 / Jo. 13, 21-33. 36-38

Não basta que sejas meu servo... Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue aos confins da terra.

«Os cânticos do servo (cf. Leit.) anunciam o sentido da paixão de Jesus, indicando assim a maneira como Ele derramará o Espírito Santo para dar vida à multidão» (CIC, 713). E também para ser luz das nações e levar a salvação aos confins da terra (cf. Leit.).

Procuremos imitar o Senhor, oferecendo igualmente a nossa vida em expiação pelos nossos pecados; aceitando as contrariedades, as dores e os sofrimentos; oferecendo pequenos sacrifícios, cumprindo os nossos deveres quotidianos, etc., para salvação da humanidade.

 

4ª feira, 23-III: A preparação da ‘grande sala’.

Is. 50, 4-9 / Mt. 26, 14-25

Os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-lhe: Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?

Jesus dá o encargo aos discípulos de levarem a cabo «uma cuidadosa preparação da ‘grande sala’, necessária para comer a ceia pascal» (IVE, 47).

À semelhança dos primeiros discípulos, que receberam este encargo, há de preparar-se cada uma das igrejas e capelas para a celebração eucarística dominical: cuidando o lugar da celebração, a preparação dos livros litúrgicos, as vestes sagradas, os vasos sagrados, o canto litúrgico; educar os fiéis a ‘comportar-se na igreja’ (posições, inclinações, recolhimento, tempos de silêncio, etc.) (cf. AE, 35).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:          José Roque

Nota Exegética:                     Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha


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