DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

 

 

Excerto do discurso aos Cardeais e à Cúria romana no tradicional encontro para a apresentação dos votos do Natal, em 21 de Dezembro de 2012 passado, em que o Santo Padre quis pontualizar como entender correctamente o diálogo inter-religioso.

 

 

Na situação actual da humanidade, o diálogo das religiões é uma condição necessária para a paz no mundo, constituindo por isso mesmo um dever para os cristãos bem como para as outras crenças religiosas. Este diálogo das religiões possui diversas dimensões. Há-de ser, antes de tudo, simplesmente um diálogo da vida, um diálogo da partilha prática. Nele, não se falará dos grandes temas da fé – se Deus é trinitário, ou como se deve entender a inspiração das Escrituras Sagradas, etc. Trata-se dos problemas concretos da convivência e da responsabilidade comum pela sociedade, pelo Estado, pela humanidade. Aqui é preciso aprender a aceitar o outro na sua forma de ser e pensar de modo diverso. Para isso, é necessário fazer da responsabilidade comum pela justiça e a paz o critério basilar do diálogo. Um diálogo onde se trate de paz e de justiça torna-se por si mesmo, para além do que é simplesmente pragmático, uma luta ética sobre a verdade e sobre o ser humano; um diálogo sobre os valores que são pressupostos em tudo. Assim o diálogo, ao princípio meramente prático, torna-se também uma luta pelo justo modo de ser pessoa humana. Mesmo que as opções fundamentais não estejam enquanto tais em discussão, os esforços à volta duma questão concreta tornam-se um percurso no qual, mediante a escuta do outro, ambas as partes podem encontrar purificação e enriquecimento. Assim, estes esforços podem ter também o significado de passos comuns rumo à única verdade, sem que as opções fundamentais sejam alteradas. Se ambas as partes se movem a partir duma hermenêutica de justiça e de paz, a diferença de fundo não desaparecerá, mas crescerá uma proximidade mais profunda entre eles.

Pela essência do diálogo inter-religioso, hoje em geral consideram-se fundamentais duas regras:

1. O diálogo não tem como objectivo a conversão, mas a compreensão. Nisto se distingue da evangelização, da missão.

2. De acordo com isto, neste diálogo, ambas as partes permanecem deliberadamente na sua identidade, que, no diálogo, não põem em questão nem para si mesmos nem para os outros.

Estas regras são justas. Contudo, penso que nesta forma estejam formuladas demasiado superficialmente. Sim, o diálogo não tem como objectivo a conversão, mas uma melhor compreensão recíproca: isto é correcto. Porém, a procura de conhecimento e de compreensão sempre pretende ser também uma aproximação da verdade. Assim, ambas as partes, aproximando-se passo a passo da verdade, avançam e caminham para uma maior partilha, que se fundamenta na unidade da verdade. Quanto a permanecer fiéis à própria identidade: seria demasiado pouco se o cristão, com a sua decisão pela própria identidade, interrompesse por assim dizer por vontade própria o caminho para a verdade. Então, o seu ser cristão tornar-se-ia algo de arbitrário, uma opção simplesmente factual. Nesse caso, evidentemente, ele não teria em conta que a religião tem a ver com a verdade. A propósito disto, eu diria que o cristão possui a grande confiança basilar, mais ainda, a grande certeza basilar de poder tranquilamente fazer-se ao largo no vasto mar da verdade, sem dever temer pela sua identidade de cristão. Sem dúvida, não somos nós que possuímos a verdade, mas é ela que nos possui a nós: Cristo, que é a Verdade, tomou-nos pela mão e, no caminho da nossa procura apaixonada de conhecimento, sabemos que a sua mão nos sustenta firmemente. O facto de sermos interiormente sustentados pela mão de Cristo torna-nos simultaneamente livres e seguros. Livres: se somos sustentados por Ele, podemos, abertamente e sem medo, entrar em qualquer diálogo. Seguros, porque Ele não nos deixa, a não ser que sejamos nós mesmos a separar-nos d’Ele. Unidos a Ele, estamos na luz da verdade.

 


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