S. José, Esp. da V. Santa Maria

19 de Março de 2013

 

Solenidade

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Eis o servo fiel e diligente, F da Silva, NRMS 89

Lc 12, 42

Antífona de entrada: Este é o servo fiel e prudente, que o Senhor pôs à frente da sua família.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Este é o servo fiel e prudente, que o Senhor pôs à frente da sua família. S. José, que hoje celebramos, foi um homem em quem Deus confiou, escolhendo-o para esposo de Maria, a mulher mais santa entre todas as criaturas, e para ser pai na terra do Seu próprio Filho Unigénito, Jesus Cristo Salvador.

Peçamos a sua intercessão e confiemos sempre na sua protecção.

 

Oração colecta: Deus todo-poderoso, que na aurora dos novos tempos confiastes a São José a guarda dos mistérios da salvação dos homens, concedei à vossa Igreja, por sua intercessão, a graça de os conservar fielmente e de os realizar até à sua plenitude. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: S. José é descendente de David e, segundo a lei, pai de Jesus; por isso, Jesus é descendente de David, dando cumprimento à profecia de que fala o 2º livro de Samuel.

 

2 Samuel  7, 4-5a.12-14a.16

4Naqueles dias, o Senhor falou a Natã, dizendo: 5a«Vai dizer ao meu servo David: Assim fala o Senhor: 12Quando chegares ao termo dos teus dias e fores repousar com os teus pais, estabelecerei em teu lugar um descendente que nascerá de ti e consolidarei a tua realeza. 13Ele construirá um palácio ao meu nome e Eu consolidarei para sempre o seu trono real. 14aSerei para ele um pai e Ele será para Mim um filho. 16A tua casa e o teu reino permanecerão diante de Mim eternamente e o teu trono será firme para sempre».

 

Este texto, respigado da célebre profecia dinástica do profeta Natã, em que se garante a estabilidade da descendência de David à frente do povo de Israel – «o teu trono será firme para sempre» (v. 16) –, irá alimentar a esperança de restauração messiânica, após o desterro de Babilónia e justifica o título de «Filho de David» dado a Jesus ao longo do Novo Testamento (cf. Mt 1, 1; 9, 27; 12, 23; 15, 22; 20, 30-31; 21, 9; 22, 42; Act 2, 30; 13, 22-23; Rom 1, 3; 2 Tim 2, 8; Apoc 5, 5; 22, 16). O texto é escolhido para a solenidade de S. José, por ser ele quem garante a Jesus a sua descendência de David (Mt 1, 1; Lc 1, 31-33: «reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reino não terá fim»); com efeito, segundo a lei, José era pai de Jesus, um dado suficiente para Ele ser considerado descendente de David, embora também Maria devesse ser descendente de David, dado o costume de os casamentos se fazerem dentro da parentela.

4 Naqueles dias, isto é, na mesma noite em que o profeta Natã tinha apoiado a resolução do rei David de vir a construir uma casa digna para a arca da aliança que substituísse o modesto tabernáculo feito de cortinados. A mensagem divina para David é que não vai ser ele a conseguir uma casa (templo) para Deus, mas vai ser o próprio Deus a erguer-lhe uma casa (descendência) que permanecerá eternamente. O profeta joga com o duplo sentido da palavra hebraica «báyit», casa e dinastia (v. 11-12).

 

Salmo Responsorial    Sl 88 (89), 2-3.4-5.27 e 29 (R. 37)

 

Monição: O salmo que vamos meditar fala-nos da descendência de David que permanece eternamente em Jesus Cristo, Rei eterno e universal.

 

Refrão:        A sua descendência permanecerá eternamente.

 

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor

e para sempre proclamarei a sua fidelidade.

Vós dissestes: «A bondade está estabelecida para sempre»,

no céu permanece firme a vossa fidelidade.

 

Concluí uma aliança com o meu eleito,

fiz um juramento a David meu servo:

Conservarei a tua descendência para sempre,

estabelecerei o teu trono por todas as gerações.

 

Ele Me invocará: «Vós sois meu Pai,

meu Deus, meu Salvador».

Assegurar-lhe-ei para sempre o meu favor,

a minha aliança com ele será irrevogável.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A fé de S. José ultrapassa a de Abraão. Pela fé, ele sabia que tudo o que ia acontecendo estava nos planos insondáveis de Deus.

 

Romanos 4, 13.16-18.22

Irmãos: 13Não foi por meio da Lei, mas pela justiça da fé, que se fez a Abraão ou à sua descendência a promessa de que receberia o mundo como herança. 16Portanto a herança vem pela fé, para que seja dom gratuito de Deus e a promessa seja válida para toda a descendência, não só para a descendência segundo a Lei, mas também para a descendência segundo a fé de Abraão. 17Ele é o pai de todos nós, como está escrito: «Fiz de ti o pai de muitos povos». Ele é o nosso pai diante d’Aquele em quem acreditou, o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe. 18Esperando contra toda a esperança, Abraão acreditou, tornando-se pai de muitos povos, como lhe tinha sido dito: 22«Assim será a tua descendência». Por este motivo é que isto «lhe foi atribuído como justiça».

 

A leitura é um extracto do capítulo 4 de Romanos, onde S. Paulo, depois de ter explicado que a obra salvadora de Jesus (a justificação) não procedia das práticas da Lei do A. T., procura mostrar como a nova economia divina não contradiz a antiga; pelo contrário, já Abraão, o pai do antigo povo de Deus se tornou justo, não por ter cumprido a lei da circuncisão (que ainda não lhe tinha sido imposta), mas por ter acreditado nas promessas de Deus.

A atitude de fé de Abraão foi-lhe creditada na conta de justiça: «foi-lhe atribuída como justiça» (v. 22). «E isto foi escrito… também por nossa causa» (v. 24): é que nós não somos justificados por observâncias legais (da Lei de Moisés), mas sim pela fé em Deus, a qual é idêntica à de Abraão, não só pela atitude interior que pressupõe, como também se assemelha à dele quanto ao seu objecto; com efeito, ele acreditou que Deus lhe faria suscitar um filho, a ele já morto para a geração; e nós cremos que Deus fez ressuscitar a Jesus, morto pelos nossos pecados.

O texto presta-se a ser aplicado a S. José. Se na 1.ª leitura se falava de David, ascendente de S. José, nesta fala-se de outro ascendente mais longínquo, Abraão, o primeiro Patriarca do antigo povo de Deus. S. José é o Santo Patriarca do novo Povo de Deus, pois tem sobre Jesus os direitos legais de pai. Assim como Abraão foi pai de muitas nações (v. 17) também o Patriarca S. José é Pai e Patrono da Igreja de Cristo. Por outro lado, ele tornou-se como Abraão um modelo de vida de fé para todos os crentes, com uma fé bem provada em tantas e tão duras circunstâncias.

 

Aclamação ao Evangelho        Sl 83 (84), 5

 

Monição: Demos glória e louvor a Deus por todas as maravilhas que Ele fez em S. José, escolhendo-o para esposo de Sua Mãe Santíssima.

 

Cântico: F. da Silva, NRMS 1 (I)

 

Felizes os que habitam na vossa casa, Senhor:

eles Vos louvarão pelos tempos sem fim.

 

 

Evangelho

 

São Mateus 1, 16.18-21.24a

16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. 18O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo. 19Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu repudiá-la em segredo. 20Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. 21Ela dará à luz um filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados». 24aQuando despertou do sono, José fez como lhe ordenara o Anjo do Senhor.

 

S. Mateus centra o seu relato do nascimento de Jesus na figura de S. José (S. Lucas na de Maria), com uma clara intencionalidade teológica de apresentar Jesus como o Messias, anunciado como descendente de David. Isto é posto em evidência logo de início: «Genealogia de Jesus Cristo (=Messias), Filho de David» (v. 1). Como a linha genealógica passava pela linha do esposo, é a de José que é apresentada. Os elos são seleccionados para que apareçam três séries de 14 nomes. Pensa-se que isto obedece a uma técnica rabínica, chamada gematriáh, ou recurso ao valor alfabético dos números; assim, o número 14, ao ser reforçado pela sua tripla repetição – «catorze gerações» – (no v. 17), sugere o nome de David, que em hebraico se escreve com três consoantes (em hebraico não se escrevem as vogais) que dão o número catorze ([D=4]+[V=6]+[D=4]=14). A concepção virginal antes de ser explicada e justificada pelo cumprimento das Escrituras (vv. 18-25), é já aludida na genealogia, apresentada na 1ª parte (facultativa) da leitura de hoje, pois para todos os seus elos se diz «gerou», quando para o último elo não se diz que José gerou, mas, pelo contrário: «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus» (v. 16, à letra «da qual Jesus foi gerado» – entenda-se – por Deus).

18 «Antes de terem vivido em comum»: Maria e José já tinham celebrado os esponsais (erusim), que tinham valor jurídico de um matrimónio, mas ainda não tinham feito as bodas solenes (nissuim ou liqquhim), em que o noivo trazia festivamente a noiva para sua casa, o que costumava ser cerca de um ano depois.

«Encontrava-se grávida por virtude do Espírito Santo»: isto conta-se em pormenor no Evangelho de S. Lucas (1, 26-38), lido na festa da Imaculada Conceição (ver comentário então feito). Ao dizer-se «por virtude do Espírito Santo», não se quer dizer que o Espírito Santo desempenhou o papel de pai, pois Ele é puro espírito. Também isto nada tem que ver com os relatos mitológicos dos semideuses, filhos dum deus e duma mulher. Além do mais, é evidente o carácter semítico e o substrato judaico e vétero-testamentário das narrativas da infância de Jesus em Mateus e Lucas; ora, nas línguas semíticas a palavra «espírito» (rúah) não é masculina, mas sim feminina. Isto chegava para fazer afastar toda a suspeita de dependência do relato relativamente aos mitos pagãos. Por outro lado, na Sagrada Escritura, Deus nunca intervém na geração à maneira humana, pois é espiritual e transcendente: Deus não gera criaturas, Deus cria-as. As narrativas de Mateus e Lucas têm tal originalidade que excluem qualquer dependência dos mitos.

19 «Mas José, seu esposo…». Partindo do facto real e indiscutível da concepção virginal de Jesus, aqui apresentamos uma das muitas explicações dadas para o que se passou. A verdade é que não dispomos da crónica dos factos, pois a intenção do Evangelista era primordialmente teológica, embora sem inventar histórias, pois em face dos dados das suas fontes nem sequer disso precisava. Do texto parece depreender-se que Maria nada tinha revelado a José do mistério que nela se passava. José vem a saber da gravidez de Maria por si mesmo ou pelas felicitações do paraninfo (o «amigo do esposo»), e aquilo que deveria ser para José uma grande alegria tornou-se o mais cruel tormento. Em circunstâncias idênticas, qualquer outro homem teria actuado drasticamente, denunciando a noiva ao tribunal como adúltera. Mas José era um santo, «justo», por isso, não condenava ninguém sem ter as provas evidentes da culpa. E aqui não as tinha e, conhecendo a santidade singular de Maria, não admite a mais leve suspeita, mas pressente que está perante o sobrenatural, já sentido por Isabel… Então só lhe restava deixar Maria, para não se intrometer num mistério em que julga não lhe competir ter parte alguma. É assim que «resolveu repudiá-la em segredo», evitando, assim, «difamá-la» (colocá-la numa situação infamante), ou simplesmente «tornar público» o mistério da sua maternidade. Mas podemos perguntar: porque não interrogava antes Maria para ser ela a esclarecer o assunto? Mas pedir uma explicação já seria mostrar dúvida, ofendendo Maria; a sua delicadeza extrema levá-lo-ia a não a humilhar ou deixar embaraçada. E porque razão é que Maria não falou, se José tinha direito de saber do sucedido? Mas como é que Maria podia falar de coisas tão colossalmente extraordinárias e inauditas?! Como podia provar a José a Anunciação do Anjo? Maria calava, sofria e punha nas mãos de Deus a sua honra e as angústias por que José iria passar por sua causa; e Deus, que tinha revelado já a Isabel o mistério da concepção de Jesus, poderia igualmente vir a revelá-lo a José. De tudo isto fica para nós o exemplo de Maria e de José: não admitir suspeitas temerárias e confiar sempre em Deus.

20 «Não temas receber Maria, tua esposa». O Anjo não diz: «não desconfies», mas: «não temas». Segundo a explicação anterior, José deveria andar amedrontado com algo de divino e misterioso que pressentia: julga-se indigno de Maria e decide não se imiscuir num mistério que o transcende. Na mesma linha de S. Jerónimo, S. Bernardo diz que S. José «foi tomado dum assombro sagrado perante a novidade de tão grande milagre, perante a proximidade de tão grande mistério, que a quis deixar ocultamente... José tinha-se, por indigno...». O texto sagrado poderia mesmo traduzir-se assim, com X. Léon-Dufour e outros: «porque sem dúvida (gar) o que foi gerado nela é obra do Espírito Santo, mas (dè) Ela dará à luz um filho ao qual porás o nome de Jesus» (exercendo assim para Ele a missão de pai). Assim, o Anjo não só elucida José, como também lhe diz que ele tem uma missão a cumprir no mistério da Incarnação, a missão e a dignidade de pai do Salvador. Comenta Santo Agostinho: «A José não só se lhe deve o nome de pai, mas este é-lhe devido mais do que a qualquer outro. Como era pai? Tanto mais profundamente pai, quanto mais casta foi a sua paternidade... O Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e amor de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus».

23 «Será chamado Emanuel». No original hebraico de Isaías 7, 14, temos o verbo no singular (forma aramaica para a 3ª pessoa do singular feminino: weqara’t referido a virgem, que é a que põe o nome = «e ela chamará»). Mateus, porém, usa o plural, que não aparece na tradução litúrgica, (kai kalésousin: «e chamarão»), um plural de generalização, a fim de que o texto possa ser aplicado a S. José, para pôr em evidência a missão de S. José, como pai «legal» de Jesus. Mateus, em face do papel providencial desempenhado por S. José, não receia adaptar o texto à realidade maravilhosa muito mais rica do que a letra do anúncio profético. Contudo, esta técnica do Evangelista para «actualizar» um texto antigo (chamada deraxe) não é arbitrária, pois baseia-se na regra hermenêutica rabínica chamada al-tiqrey («não leias»), a qual consiste em não ler um texto consonântico com umas vogais, mas com outras (o hebraico escrevia-se sem vogais). Neste caso, trata-se de «não ler» as consoantes do verbo (wqrt) com as vogais que correspondem à forma feminina (tanto da 3ª pessoa do singular na forma aramaica, como da 2ª pessoa do singular da tradução dos LXX: weqara’t «e tu chamarás»), mas de ler com as vogais que correspondem à 2ª pessoa do singular masculino (weqara’ta «e tu chamarás» – em hebraico há diferentes formas masculina e feminina para as 2ª e 3ª pessoas dos verbos). Como pensa Alexandre Díez Macho, «com este deraxe oculto, mas real, Mateus confirma as palavras do anjo do Senhor no v. 21: «e (tu, José) o chamarás».

Eis, a propósito, o maravilhoso comentário de S. João Crisóstomo, apresentando Deus a falar a José: «Não penses que, por ser a concepção de Cristo obra do Espírito Santo, tu és alheio ao serviço desta divina economia; porque, se é certo que não tens nenhuma parte na geração e a Virgem permanece intacta, não obstante, tudo o que pertence ao ofício de pai, sem atentar contra a dignidade da virgindade, tudo to entrego a ti, o pôr o nome ao filho. (...) Tu lhe farás as vezes de pai, por isso, começando pela imposição do nome, Eu te uno intimamente com Aquele que vai nascer» (Homil. in Mt, 4).

 

 

 

Em vez do Evangelho precedente, pode ler-se o seguinte:

 

São Lucas 2, 41-51a

41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. 43Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». 49Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». 50Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.

 

 

 

No nosso comentário julgamos que não há razões suficientes para prescindir da realidade do facto narrado, mas pretendemos valorizar a teologia de Lucas no seu maravilhoso trabalho redaccional. É certo que Lucas não pretende, sem mais, relatar um episódio – curiosamente o único em cerca de três dezenas de anos passados em Nazaré. Ele visa, antes de mais e acima de tudo, por um lado, pôr em foco como toda a vida de Jesus estava radicalmente marcada pelo cumprimento da vontade do Pai, ao sublinhar o contraste – «teu pai e eu» (v. 48) e «meu Pai» –, deixando (como diz o Catecismo da Igreja Católica, nº 534) «entrever o mistério da sua consagração total à missão decorrente da sua filiação divina» (v. 49); por outro lado, deixa ver como o conhecimento do mistério de Jesus nunca é pleno para ninguém, nem sequer para Maria e José: «eles não entenderam…» (v. 50).

Segundo a Mixnáh, (Niddáh, V, 6) depois dos 13 anos, o rapaz israelita começava a ser «bar-hamitswáh», «filho-da-lei», isto é, passava ter os deveres e direitos da Lei mosaica, incluindo o dever de peregrinar a Jerusalém, mas os pais piedosos costumavam antecipar um ano ou dois o cumprimento deste dever. Os judeus costumavam deslocar-se em caravanas e em grupos separados de homens e de mulheres, as crianças podiam fazer viagem em qualquer dos grupos; nas paragens do caminho, as famílias reuniam-se. É neste contexto que se desenrola o relato. A atitude de Jesus de ficar em Jerusalém é deveras surpreendente. Não deveria ter avisado os pais ou outros familiares? O que não faz sentido é buscar a explicação do sucedido numa rebeldia ou na irresponsabilidade dum adolescente – este rapaz é o Filho de Deus –, embora o relato evangélico possa fornecer luzes aos pais que se deparam com situações similares de filhos perdidos.

A teologia de Lucas talvez nos possa dar alguma pista para a compreensão do episódio narrado. «Jerusalém» não é simplesmente o centro da vida religiosa de Israel. Para os evangelistas, e de modo singular para Lucas, Jerusalém representa o culminar de toda a obra salvadora de Jesus, por ocasião da Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição; é por isso que Lucas, ao pôr em evidência a tensão de Jesus para a sua Paixão, apresenta grande parte do seu ensino «a caminho de Jerusalém», onde Jesus tem de padecer para ir para o Pai e entrar na sua glória (cf. Lc 24, 26). A teologia de Lucas não é abstracta e desligada da realidade. Ora a realidade é que Jesus não é apenas «o Mestre», Ele é «o Profeta» – especialmente Lucas gosta de apresentar Jesus como Profeta (cf. 7, 16; 9, 19; 13, 33; 24, 19) –, e, por isso mesmo, Jesus não ensina apenas quando exerce a função de rabi, mas em todos os passos da sua vida actua como Profeta, ensinando através do seu agir, mormente através de acções simbólicas de profundo alcance, por vezes bem chocantes. O «Menino perdido» não aparece como um simples menino, é um Profeta que realiza uma acção simbólica para proclamar quem é e qual é a sua missão: «Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?» (v. 49). Ele é o Filho de Deus, e tem de cumprir a missão que o Pai lhe confiou, em Jerusalém, ainda que isto lhe custe bem e tenha de fazer sofrer aqueles que mais ama – «aflitos à tua procura» (v. 48). O episódio passa-se em Jerusalém, como prenúncio e paralelo de um sofrimento bem maior, também em Jerusalém. A lição é clara: não se pode realizar plenamente a vontade do Pai do Céu e, ao mesmo tempo, evitar todo o sofrimento próprio e dos seres mais queridos; subir a Jerusalém é subir à Cruz, e subir à Cruz é «elevar-se» ao Céu, também em Jerusalém (cf. Lc 24, 50-51).

41 «Os pais de Jesus. Teu pai» (v. 48). Uma vez que Lucas tinha acabado de falar tão explicitamente da concepção virginal de Jesus, não tem agora qualquer receio de nomear S. José como pai (virginal) do Senhor.

49 «Eu devia estar na Casa de Meu Pai». A tradução de tà toû Patrós mou pode significar tanto «a casa de meu Pai», como «as coisas (assuntos, vontade) de meu Pai». A verdade é que o redactor pode ter querido dar à resposta de Jesus uma certa ambiguidade: «Não sabíeis que Eu tenho de estar nas coisas de meu Pai» (e que, por isso, me deveria encontrar aqui no Templo)?

50 «Eles não entenderam». A resposta do Menino envolve um sentido muito profundo que ultrapassa uma simples justificação da sua «independência». Não alcançam ver até onde iria este «estar nas coisas do Pai», mas também não se atrevem a fazer mais perguntas, dada a sua extrema delicadeza e reverência, que uma profunda fé lhes ditava. Estamos postos perante o mistério do ser e da missão de Jesus; é mais um «sinal» e mais uma «espada» (cf. Lc 2, 34-35).

 

Sugestões para a homilia

 

1.     S. José, homem justo.

2.     S. José, em quem Deus confiou.

3.     S. José, patrono da Santa Igreja..

 

1.     S. José, homem justo.

 

S. José é um “homem justo” (Mt 1, 19) e cheio de fé: aceita ser pai legal do Messias para torná-lo herdeiro das promessas feitas a David. Ainda que não tenha gerado Jesus, é verdadeiramente pai pelo amor e autoridade com que o guardou e educou, como instrumento fiel e representante do Pai Celeste.

“Se toda a Santa Igreja é devedora à Virgem Mãe, por ter sido achada digna de receber Cristo por meio d’Ela, também deve, depois d’Ela, um especial reconhecimento e reverência a S. José” (S. Bernardino de Sena).

“Ó feliz varão, bem-aventurado S. José, a quem foi dado não só ver e ouvir a Deus, a Quem muitos reis quiseram ver e não viram, ouvir e não ouviram, mas também abraçá-Lo, beijá-Lo, vesti-Lo e guardá-Lo” (Missal Romano, Oração preparatória para a Missa).

A fé e a esperança de S. José foram plenas: em seus braços tinha, feito Menino, Aquele que era o próprio Deus: escondido, débil, Jesus era a esperança dos povos, o Salvador da Humanidade, o Deus Omnipotente!

S. José passou oculto toda a sua vida e também na sua morte. Cumpriu fielmente a sua missão na terra com a mesma humildade com que a iniciou. Morreu serenamente, rodeado pelos dois grandes amores, Jesus e Maria.

Tal como S. José, todos os homens podem na terra “alcançar uma santidade maravilhosa, uma eficácia extraordinária” na realidade da sua vida de todos os dias, sendo humildes, limpos, amigos de Deus.

 

2.     S. José, em quem Deus confiou.

 

S. José foi um “homem corrente em quem Deus confiou para obrar coisas grandes” (S. Josemaria, Cristo que passa, nº 40).

Foi-lhe confiada a “missão de guardar o Filho de Deus, o Rei do mundo; a missão de guardar a virgindade e a santidade de Maria; a missão de cooperar na Encarnação divina e na salvação do género humano - o único chamado a participar do conhecimento do grande mistério escondido nos séculos” (Pio XI). Foi-lhe confiada a missão de sustentar e educar o seu Filho com o seu trabalho esforçado durante anos: “Melhor exerceu a paternidade do coração que outro qualquer a da carne” (S. Agostinho).

Toda a santidade de S. José reside no cumprimento fiel, até aos pormenores mais insignificantes, dessa missão tão grande e tão humilde, tão alta e tão escondida, tão brilhante e tão obscura. Deus Pai escolheu-o e dotou-o de graças, fê-lo participante da sua Paternidade, encarregou-o de dar a Seu Filho o nome de Jesus, de O defender dos perigos, de O alimentar, de O ensinar.

“Como me comove - cada dia mais - a figura de S. José. Vejo nele o esforço da criatura que põe toda a delicadeza, todo o carinho e toda a dedicação na sua tarefa de servir o Senhor” (S. Josemaria).

 

3.     S. José, patrono da Santa Igreja.

 

S. José foi escolhido desde toda a eternidade como aquele outro José, filho de Jacob, a quem enviou como escravo para o Egipto, fazendo dele, mais tarde, o Administrador de todos os bens do Faraó. Quando chegaram os anos da fome e carestia, as gentes iam ter com o Faraó a pedir pão e ele respondia-lhes: “Ide ter com José!”. Também agora, Deus Nosso senhor, nas nossas necessidades materiais e espirituais, faz-nos a mesma recomendação: “Ide ter com José!”. Tal como protegeu e alimentou e cuidou de Jesus e Maria, tal como os defendeu da perseguição de Herodes, também agora protege e defende a Santa Igreja, intercedendo continuamente por Ela.

S. José é Patrono da Santa Igreja, modelo de todas paternidades que existem na terra, que são participação, como a dele, da paternidade divina. É nosso pai e senhor, na medida em que nós participamos da filiação divina do Filho Unigénito de Deus. Da sua condição de pai de Jesus deriva a    dignidade e a santidade e a glória de S. José. Depois de Maria Santíssima, S. José é a criatura a quem Deus deu mais graças. A multidão dos cristãos que fazem parte da Igreja, essa imensa família espalhada por toda a terra foi confiada a S. José, por ser o esposo de Maria e pai de Jesus. Sobre a Igreja possui S. José a autoridade de pai. Tal como fazia com a Sagrada Família, assim protege e defende a Santa Igreja na ordem espiritual e na ordem temporal.

 

 

Oração Universal

 

Oremos, irmãos, a Deus Pai todo-poderoso

Por intermédio de Jesus Cristo

E por intercessão de S. José, dizendo:

 

R. Ouvi-nos, Senhor

 

1.     Pela Igreja Universal:

para que a protecção de S. José

a torne cada vez mais amada pelos homens,

oremos, irmãos.

 

2.     Pelo Santo Padre e pelos Bispos a ele unidos,

para que o Senhor, por intercessão de S. José,

os encha com a sua graça

para nos guiarem a todos com a fortaleza e a sabedoria de Deus,

oremos, irmãos.

 

3.     Por todos os jovens:

para que, imitando a S. José,

vivam para fazer a vontade de Deus,

e não aquilo que é mais fácil,

oremos, irmãos.

 

4.     Pelos fiéis da nossa comunidade (paroquial),

para que confiem sempre na protecção de S. José,

e a ele confiem os seus problemas e anseios,

oremos, irmãos.

 

5.     Para que em todas as famílias

reine a paz e a concórdia

que existia no lar de Nazaré,

oremos, irmãos.

 

Concedei-nos, senhor, por intercessão de S. José,

Todos os bens de que mais precisamos.

Por Jesus Cristo, Nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Nós vos louvamos José, M. Carneiro, NRMS 89

 

Oração sobre as oblatas: Concedei-nos, Senhor, a graça de servir ao vosso altar de coração puro, imitando a dedicação e fidelidade com que São José serviu o vosso Filho Unigénito, nascido da Virgem Maria. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio de São José [na solenidade]: p. 492

 

Santo: F. dos Santos, NCT 84

 

Monição da Comunhão

 

Comungar o Corpo e o Sangue de Cristo é penhor de salvação. Para poder comungar é necessário ter fé e estar na amizade com Deus e respeitar o jejum eucarístico.

Procuremos receber Jesus com o mesmo carinho e com a mesma pureza com que S. José e sua Esposa Santíssima o receberam nos seus braços e no seu coração.

 

Cântico da Comunhão: Ó famintos de Pão divino, J. Santos, NRMS 89

Mt 25, 21

Antífona da comunhão: Servo bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor.

 

ou

Mt 1, 20-21

Não temas, José: Maria dará à luz um Filho e tu lhe darás o nome de Jesus.

 

Oração depois da comunhão: Senhor, que na solenidade de São José alimentastes a vossa família à mesa deste altar, defendei-a sempre com a vossa protecção e velai pelos dons que lhe concedestes. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Alimentados com a Palavra de Deus e com o Pão Vivo descido do Céu, não deixemos de confiar-nos à protecção de S. José, para que mereçamos um dia participar da glória de Deus no Céu, depois de uma vida digna e cheia de boas obras.

 

Cântico final: Tu a quem o Senhor quis confiar, A. Cartageno, NRMS 89

 

 

HomiliaS FeriaIS

 

4ª Feira, 20-III: A libertação das escravidões.

Dan 3, 14-20. 91-92. 95 / Jo 8, 31-42

Bendito seja o Deus de Sidrach... Mandou o seu Anjo, para livrar os seus servidores, que tiveram confiança nele.

Embora sendo escravos do rei da Babilónia, os três jovens foram salvos e libertados pela confiança em Deus, que é a Verdade (Leit.).

Jesus também nos recorda que é a Verdade que nos libertará (Ev.): «Pela sua Cruz gloriosa, Cristo obteve a salvação de todos os homens. Resgatou-os do pecado, que os retinha numa situação de escravatura. 'Foi para a liberdade que Cristo nos libertou'. Nele, nós comungamos a Verdade que nos liberta (Ev.)» (CIC, 1741). Procuremos chegar ao conhecimento da Verdade que está contida nos ensinamentos de Jesus.

 

5ª Feira, 21-III: Fidelidade à Aliança.

Gen 17, 3-9 / Jo 8, 51-59

Vou estabelecer a minha Aliança contigo e, depois de ti, com a tua descendência de geração em geração.

«A esperança cristã retoma e realiza a esperança do povo eleito, que tem a sua origem na esperança de Abraão, o qual, em Isaac, foi cumulado das promessas de Deus e purificado pela provação do sacrifício (Leit.)» (CIC, 1819).

A Aliança estabelecida com Abraão foi renovada, de uma vez para sempre, por Cristo na Cruz. A Eucaristia é o memorial da Páscoa de Cristo e também um sacrifício, que se manifesta nas palavras da instituição (CIC, 1365). Sejamos fiéis à nova Aliança, cumprindo a vontade de Deus, apesar das dificuldades.

 

6ª Feira, 22-III: A vitória de Cristo sobre o demónio.

Jer 20, 10-13 / Jo 19, 31-42

Mas o Senhor está comigo como herói poderoso e os meus perseguidores cairão vencidos.

Este 'herói poderoso' é o próprio Cristo que veio à terra para vencer o demónio. Mas este continua a disfrutar de algum poder sobre o mundo. Por isso, a nossa vida é um combate contínuo: «ora um tal combate e uma tal vitória só são possíveis pela oração. Foi pela oração que Jesus venceu o tentador desde o princípio e no último combate da sua agonia» (CIC, 2849).

A Cruz é igualmente um recurso para vencer o demónio: «O sinal da Cruz manifesta a marca de Cristo impressa naquele que vai passar a pertencer-lhe, e significa a graça da redenção que Cristo nos adquiriu pela Cruz» (CIC, 1235).

 

Sábado, 23-III: Meios para obter a unidade.

Ez 37, 21-28 / Jo, 11, 45-56

Vou reuni-los de toda a parte. Farei com eles um só povo. Farei com eles uma aliança de paz, uma aliança eterna entre mim e eles.

«Deus promete a Abraão uma descendência. Essa descendência será o Cristo, no qual a efusão do Espírito Santo fará a 'unidade dos filhos de Deus dispersos' (Ev.). A unidade dos filhos de Deus será fruto da entrega de Jesus. Até Caifás o afirma (Ev.) e será confirmada como dom do Espírito Santo que, no dia de Pentecostes, reuniu um enorme multidão.

A oração do Pai nosso ajuda à unidade: «Rezar o Pai nosso é orar com e por todos os homens que ainda não o conhecem, para que sejam 'reunidos na unidade' (Ev.)» (CIC, 2793). Rezemos pelos frutos da unidade em cada Missa, memorial da morte de Cristo.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Alfredo A. Melo

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial