2º Domingo da Quaresma

24 de Fevereiro de 2013

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Caminho pelo deserto, J. Santos, NRMS 69

Salmo 26, 8-9

Antífona de entrada: Diz-me o coração: «Procurai a face do Senhor». A vossa face, Senhor, eu procuro; não escondais de mim o vosso rosto.

 

Ou

cf. Salmo 24, 6.3.22

Lembrai-vos, Senhor, das vossas misericórdias e das vossas graças que são eternas. Não triunfe sobre nós o inimigo. Senhor, livrai-nos de todo o mal.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Iniciámos a Quaresma há uma semana; hoje a Igreja, mãe e educadora da fé, coloca-nos diante dos olhos o mistério da Morte e Ressurreição de Jesus. É esse o objetivo final de toda a Quaresma – entender o mistério de Jesus no Calvário como expressão do amor de Deus ao mundo. É o domingo da Transfiguração do Senhor ou festa do Divino Salvador, que se repetirá em 6 de Agosto

Neste Ano da fé, vamos meditá-lo e vivê-la com fé e empenho interior.

 

Ato penitencial

 

Sempre que nos aproximamos dos mistérios de Jesus, sejam de triunfo, sejam de abatimento, precisamos de ser humildes a fim de podermos entrar neles com proveito espiritual. É isso que vamos fazer.

 

1. Senhor, que fostes enviado pelo Pai a salvar os corações atribulados,

Senhor tende piedade de nós.

R: Senhor, tende piedade de nós.

 

2. Cristo, que viestes chamar os pecadores,

Cristo, tende piedade de nós

R: Cristo, tende piedade de nós

 

3.Senhor, que estais á direita do Pai a interceder por nós,

Senhor tende piedade de nós

R: Senhor tende piedade de nós.

 

Oração coleta: Deus de infinita bondade, que nos mandais ouvir o vosso amado Filho, fortalecei-nos com o alimento interior da vossa palavra, de modo que, purificado o nosso olhar espiritual, possamos alegrar-nos um dia na visão da vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A primeira leitura fala-nos da Aliança de Abraão com Deus, e que só Deus selou pela passagem de um clarão de fogo entre os animais sacrificados. 

No Evangelho veremos que a salvação do mundo é obra do próprio Deus que, na fidelidade à Aliança com Abraão, enviou primeiro Moisés e Elias, e envia finalmente o seu próprio Filho.

S. Paulo, que era judeu de nascimento, compreendeu a grande novidade do mistério da morte e ressurreição de Jesus, e convida os cristãos que ele baptizara a deixarem-se envolver pelo mistério da Cruz de Jesus 

 

Génesis 15, 5-12.17-18

Naqueles dias, 5Deus levou Abraão para fora de casa e disse-lhe: «Olha para o céu e conta as estrelas, se as puderes contar». E acrescentou: «Assim será a tua descendência». 6Abrão acreditou no Senhor, o que lhe foi atribuído em conta de justiça. 7Disse-lhe Deus: «Eu sou o Senhor que te mandou sair de Ur dos caldeus, para te dar a posse desta terra». 8Abrão perguntou: «Senhor, meu Deus, como saberei que a vou possuir?» 9O Senhor respondeu-lhe: «Toma uma vitela de três anos, uma cabra de três anos e um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho». 10Abrão foi buscar todos esses animais, cortou-os ao meio e pôs cada metade em frente da outra metade; mas não cortou as aves. 11Os abutres desceram sobre os cadáveres, mas Abraão pô-los em fuga. 12Ao pôr do sol, apoderou-se de Abraão um sono profundo, enquanto o assaltava um grande e escuro terror. 17Quando o sol desapareceu e caíram as trevas, um brasido fumegante e um archote de fogo passaram entre os animais cortados. 18Nesse dia, o Senhor estabeleceu com Abraão uma aliança, dizendo: «Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egipto até ao grande rio Eufrates».

 

Num texto dotado de grande beleza, deixa-se-nos ver como é que a promessa divina de dar em posse a terra de Canaã à descendência da Abraão (Gn 12, 7) se haverá de cumprir, apesar de não ter filhos da sua esposa Sara (v. 3); aqui esta promessa aparece rubricada com um tradicional rito de aliança. O comentário que se segue pode bem servir para a lectio divina.

6 «Abrão acreditou». «A fé de Abraão consiste em crer numa promessa humanamente irrealizável. Deus reconheceu-lhe o mérito deste acto (cf. Dt 24, 13; Salm 105, 31), o que lhe foi atribuído em conta de justiça, já que o «justo» é o homem a quem a sua rectidão e a sua submissão tornam agradável a Deus. S. Paulo utiliza este texto para provar que a justificação depende da fé e não das obras da Lei; mas a fé de Abraão determina a sua conduta, é princípio de acção, por isso S. Tiago pode invocar o mesmo texto para condenar a fé ‘morta’, sem as obras da fé» (Bíblia de Jerusalém); cf. Rom 4, 9-12 e Tg 2, 21-23. A fé de Abraão é posta em evidência não apenas aqui, ao crer na promessa de Deus, mas também ao obedecer para deixar a sua terra (Gn 12, 4) e para sacrificar o seu filho Isac (Gn 22, 1-4).

8-10 «Como saberei que a vou possuir?» A narrativa alcança uma extraordinária beleza e dramatismo. Com efeito, Abraão, apesar de não ter dúvidas (como se disse para a promessa da descendência: v. 6), pede um sinal a Deus. E Deus não se limita a dar um sinal, mas condescen­de até ao ponto de mandar dispor as coisas para a celebração de um rito de aliança segundo os costumes da época: manda esquartejar uma vitela, uma cabra e um carneiro. Então havia o costume de selar alianças com este rito, para nós estranho, mas muito significativo: aqueles que faziam um contrato passavam entre as metades a sangrar de animais esquartejados invocando sobre si a mesma sorte daqueles animais sacrificados, caso viessem a falhar ao contrato ou aliança (cf. Jer 34, 18-19).

11-12 «Os abutres desceram... Um sono profundo... um grande e escuro terror». Mais uma vez a narrativa apresenta Deus a pôr à prova Abraão, e precisamente na mesma ocasião em que lhe dava um sinal; com efeito, apesar de Abraão ter tudo preparado, Deus atrasa a sua manifestação (vv. 17-18); mas Abraão não desiste de esperar, enquanto ia afugentando as aves de rapina, até que o dia chega ao fim, o momento em que o Patriarca se sente exausto e sobretudo angustiado interiormente, a ponto de se interrogar se tudo isto não teria sido uma ilusão. Matar todos aqueles animais não teria sido uma loucura? Cai a noite – também os místicos falam da «noite escura» –, mas Abraão não arreda pé, porque está certo de que Deus não pode falhar.

17 «Um brasido fumegante e um archote de fogo». Eis senão quando Deus se manifesta nestes dois símbolos que «passaram por entre os animais cortados»: assim Deus é apresentado a dizer-lhe veladamente, mas com a suficiente clareza para um homem de fé, que Ele mantinha firme a sua palavra, que a promessa não deixaria de vir a realizar-se! Note-se que este rito de aliança não é bilateral (como o do Sinai, em Ex 24, 6-8); para que se efective aquilo que é mera iniciativa divina, obra de Deus, basta a sua fidelidade; ao homem apenas compete dispor as coisas para que Deus actue – partir os animais – e não estorvar a acção divina – sacudir as aves de rapina. «A chama e o fumo simbolizam a Deus; a chama, por ser brilhante e quase imaterial e o fumo por ser impenetrável à vista, representavam a invisibilidade de Deus; cf. Ex 3, 2; 19, 18; 24, 17» (E. F. Sutcliffe). Os antigos semitas, como os beduínos ainda hoje, utilizavam um forno portátil, com a forma de cone truncado, para cozer o pão; quando estava bem quente tiravam a lenha e introduziam a massa.

18 «Aos teus descendentes darei esta terra, desde a torrente do Egipto…», isto é, desde o wadi El-Arixe, que corre na época das chuvas do Sinai para o Mediterrâneo (não se trata do Nilo); nos tempos de Salomão o povo teve estes limites (cf. 1 Re 5, 1), uns limites ideais, «até ao Eufrates», no Iraque. Com estas palavras Deus aparece como o Senhor da Terra e o Senhor da História.

 

Salmo Responsorial    Sl 26 (27), 1.7-8.9abc.13-14 (R. 1a)

 

Monição: Pelo seu mistério pascal, Jesus é a nossa luz e salvação. Neste ano da fé, digamo-lo de modo solene e agradecidos

 

Refrão:        O Senhor é a minha luz e a minha salvação.

 

O Senhor é minha luz e salvação:

a quem hei-de temer?

O Senhor é protector da minha vida:

de quem hei-de ter medo?

 

Ouvi, Senhor, a voz da minha súplica,

tende compaixão de mim e atendei-me.

Diz-me o coração: «Procurai a sua face».

A vossa face, Senhor, eu procuro.

 

Não escondais de mim o vosso rosto,

nem afasteis com ira o vosso servo.

Não me rejeiteis nem me abandoneis,

meu Deus e meu Salvador.

 

Espero vir a contemplar a bondade do Senhor

na terra dos vivos.

Confia no Senhor, sê forte.

Tem coragem e confia no Senhor.

 

Segunda Leitura

 

* O texto que está entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido

 

Forma longa: Filipenses 3, 17 – 4,1              Forma breve: Filipenses 3, 20 – 4, 1

Irmãos: [17Sede meus imitadores e ponde os olhos naqueles que procedem segundo o modelo que tendes em nós. 18Porque há muitos, de quem tenho falado várias vezes e agora falo a chorar, que procedem como inimigos da cruz de Cristo. 19O fim deles é a perdição: têm por deus o ventre, orgulham-se da sua vergonha e só apreciam as coisas terrenas. 20Mas] a nossa pátria está nos Céus, donde esperamos, como Salvador, o Senhor Jesus Cristo, 21que transformará o nosso corpo miserável, para o tornar semelhante ao seu corpo glorioso, pelo poder que Ele tem de sujeitar a Si todo o universo. 4,1Portanto, meus amados e queridos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei firmes no Senhor.

 

O Apóstolo incita os fiéis a viverem como «cidadãos do Céu» (v. 20), segundo o seu exemplo.

17 «Sede meus imitadores». S. Paulo tem a consciência plena de que, com todas as veras da sua alma, é um imitador de Cristo (1 Cor 11, 1), por isso é que se atreve a falar desta maneira tão arrojada (cf. 4, 9; 1 Cor 4, 16; 1 Tes 1, 6; 2 Tes 3, 7.9).

18-21 Os «inimigos da Cruz de Cristo», que «se orgulham da sua vergonha», devem ser, mais provavelmente, os judaizantes, a quem Paulo visa nesta parte da sua carta (cf. 3, 1b ss), os quais antepõem ao valor salvífico da Paixão do Senhor a prática do rito da circuncisão, orgulhando-se de um sinal no membro viril, que o pudor e a decência obriga a esconder, e dogmatizam as prescrições alimentares (o ventre), endeusando-as; também poderia ser uma censura dirigida a cristãos moralmente depravados, o que é menos provável, dado o contexto em que Paulo está a falar. Não é deste corpo miserável (com marcas, como as da circuncisão, e com tantas limitações e mazelas) que o cristão se deve orgulhar, mas da sua condição de ressuscitado com Cristo, que lhe garantirá um futuro corpo glorioso, que transcende o próprio «universo» (v. 21).

«A nossa pátria está nossos Céus» (cf. Hbr 13, 14; 1 Pe 2, 11). A verdadeira pátria, da qual andamos como que desterrados, «os degredados filhos de Eva», é o Céu; mas, enquanto aqui «gememos» (cf. 2 Cor 5, 1-14), não estamos dispensados de cumprir os nossos deveres e exercer os nossos direitos de cidadãos da pátria terrestre; e, se os não cumprimos responsavelmente como cidadãos da pátria terrestre, também não podemos chegar à pátria celeste; por isso, nada é mais falso do que entender a fé cristã como ópio do povo.

 

Aclamação ao Evangelho       

 

Monição: No Evangelho veremos que a salvação do mundo é obra do próprio Deus que, na fidelidade à Aliança com Abraão, enviou primeiro Moisés e Elias, e envia finalmente o seu próprio Filho.

S. Paulo, que era judeu de nascimento, compreendeu a grande novidade do mistério da morte e ressurreição de Jesus, e convida os cristãos que ele baptizara a deixarem-se envolver pelo mistério da Cruz de Jesus.

 

Cântico: B. Salgado, NRMS 32

 

No meio da nuvem luminosa, ouviu-se a voz do Pai:

«Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».

 

 

Evangelho

 

São Lucas 9, 28b-36

Naquele tempo, 28bJesus tomou consigo Pedro, João e Tiago e subiu ao monte, para orar. 29Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente. 30Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias, 31que, tendo aparecido em glória, falavam da morte de Jesus, que ia consumar-se em Jerusalém. 32Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. 33Quando estes se iam afastando, Pedro disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. 34Enquanto assim falava, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e eles ficaram cheios de medo, ao entrarem na nuvem. 35Da nuvem saiu uma voz, que dizia: «Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O». 36Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou sozinho. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham visto.

 

Convém, antes de mais, notar um pormenor cronológico omitido na leitura litúrgica, mas nada despiciendo: «cerca de oito dias depois», em vez do habitual «naquele tempo». Com efeito, em todos os três Sinópticos, não é sem razão que se estabelece uma das raras ligações cronológicas entre este relato e o relato da confissão de fé de Pedro e do 1º anúncio da Paixão e Morte de Jesus. É uma ligação de grande alcance teológico: por um lado, a fé de Pedro é confirmada e ilustrada de forma singular com a glória divina que Jesus manifesta na sua Transfiguração; por outro, indica-se que a Cruz é o caminho da glória, como para Jesus, assim para os seus discípulos (per crucem ad lucem).

28 «Subiu ao monte para orar». O monte Tabor (562 m), na Galileia, segundo a tradição, ou, segundo muitos hoje pensam baseados em Mt 17, 1 e Mc 9, 2 que falam de «um monte elevado», o monte Hermon, sobranceiro a Cesareia de Filipe, no maciço central da Síria (o Antilíbano) com 2.759 metros, a região por onde Jesus então andava (cf. Mc 8, 27; 9, 1). S. Lucas é o único a notar que Jesus subiu ali para fazer oração; também não diz que se transfigurou, mas que «se alterou o aspecto do seu rosto…», certamente com a preocupação de que os seus primeiros leitores de ambientes greco-romanos não pensassem que se tratava de alguma metamorfose própria das religiões mistéricas. Mas a transfiguração de Jesus não deixa de apontar para a nossa própria transfiguração pela graça do Espírito do Senhor, como diz S. Paulo em 2 Cor 3, 18: «todos nós…, que reflectimos como num espelho a glória do Senhor vamos sendo transformados na sua própria imagem, cada vez mais gloriosa…».

31 «Falavam da morte d’Ele». Também só o 3.° Evangelho diz o assunto da conversa de Jesus com Moisés e Elias. Falavam da «saída» de Jesus, como se expressa o original grego, que a nossa tradução interpretou como «a morte», mas que também se poderia referir à Ascensão (menos provável); de qualquer modo, o uso do termo grego êxodo pode aludir ao carácter libertador da morte de Jesus, numa alusão à libertação da escravidão do Egipto.

32-33 «Estavam a cair de sono; mas, despertando...» Este pormenor exclusivo de Lucas pressupõe que a Transfiguração se deu de noite, enquanto Jesus fazia oração, pois gostava de orar de noite (cf. Lc 6, 12; Mc 6, 46). A proposta de Pedro de construir «três tendas» (de ramos), tem na devida conta a diferente dignidade de cada um e pretende prolongar aquele êxtase feliz.

35 «Este é o meu Filho, o meu Eleito». A Transfiguração é um confirmar da fé daquele núcleo duro dos Doze, as «colunas» do Colégio Apostólico; assim, o próprio Pai apresenta Jesus como o seu Filho. S. Lucas, em vez de «o Amado» (cf. Mt 17, 5; Mc 9, 7), diz: «o meu Eleito», que é mais uma forma (e mais clara) de O designar como o Messias (cf. Lc 23, 35; Is 42, 1). Comenta S. Tomás de Aquino: «Apareceu toda a Trindade, o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito na nuvem luminosa» (Sum. Th. 3, 45, 4, ad 2).

36 «Guardaram silêncio», por ordem de Jesus (Mc 9, 9-10) que pretende, a todo o custo, evitar a agitação popular à sua volta.

 

Sugestões para a homilia

 

a. A primeira leitura recorda a Aliança de Deus com Abraão realizada num ritual dos povos antigos. Reparemos que só Deus passou pelo meio dos animais na forma de um clarão de fogo, a afirmar que Deus cumpriria a Aliança, fosse qual fosse o comportamento de Abraão. Essa fidelidade de Deus à Aliança seria renovada mais tarde com Moisés e atingiria o cume com Jesus Cristo, ou melhor, daria lugar à «Nova e Eterna Aliança», como se diz em todas as missas.

Este plano de salvação é totalmente diferente dos planos arquitetados pelos contemporâneos de Jesus, e por isso os Apóstolos tiveram dificuldade em entender as palavras que Jesus lhes ia dizendo. Foram exatamente os três Apóstolos mais interventivos (Pedro, a Tiago e a João) que Jesus levou consigo ao monte Tabor para lhes revelar antecipadamente a glória da ressurreição, a sua natureza de Filho de Deus e a vontade do Pai, procurando desse modo afastar deles o escândalo da Cruz que se aproximava.

 

b. No Tabor, torna-se claro o plano da salvação: as figuras de Moisés e Elias, que há séculos haviam vivido o diálogo com Deus no monte santo, estão agora ao lado de Jesus que vai consumar a obra da salvação do mundo; Jesus apresenta-se como o Filho de Deus, envolto numa nuvem luminosa que é o sinal habitual da presença amorosa de Deus, e maior que Moisés e que Elias – a Verdade que é preciso escutar, e com as vestes brancas que são o sinal antecipado da Ressurreição e muito superiores ao clarão de fogo que passou entre os animais da Aliança com Abraão.

Todavia, para os Apóstolos tudo continuava confuso: quando S. Lucas afirma que os Apóstolos adormeceram e não sabiam o que estavam a dizer (e adormeceriam mais tarde durante a agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras), quer ensinar que não tinham possibilidade de entender então o mistério de Jesus.

 

c. Neste «ano da fé é preciso meditar o mistério da cruz.

Quando olhamos a Cruz pensamos habitualmente nos atropelos cometidos pelas autoridades do tempo. É a face histórica, a face humana.

Ora a Cruz é sobretudo sinal do amor de Deus. Efetivamente, na Paixão de Jesus cruzaram-se o rio de todos os pecados do mundo e o rio do amor infinito de Deus: o pecado do mundo gerou a violência extrema até à morte de Jesus; o amor de Deus manifestou-se no amor com que Jesus aceitou a sua paixão e, sobretudo, no sentido que Ele deu à sua morte: a oferta de si mesmo pela salvação do mundo, amor sacrificial vindo de cima, do amor do Pai e da missão que Ele confiou ao Filho.

O valor do sacrifício não nasce propriamente do sofrimento e da hipotética destruição da vítima, mas do amor do ofertante. Jesus imprimiu à sua morte um sentido de redenção universal e de infinito valor*.  

Muitos homens e mulheres, antes e depois de Jesus, morreram generosamente pelos seus ideais humanitários, de liberdade e de justiça. Nenhum morreu pelos pecados do mundo, nem o podia fazer.

A salvação passa pelo seguimento de Jesus, isto é, cada um de nós tem de assumir a sua natureza pecadora e, em união Jesus Cristo, transformá-la lentamente. Essa mudança constitui o sacrifício espiritual (Rom 12,1)

 

d. Para a vida:

1. A Transfiguração processou-se durante a oração de Jesus ao Pai. Toda a transformação religiosa passa pela oração, seja oração pessoal seja oração sacramental. Sem oração não há religião. Todos os santos e aparições autenticadas insistem no valor da oração. A Quaresma deve ser um tempo de mais oração pessoal e da comunidade.

 

2. Quando fizermos o Sinal da Cruz de manhã e à noite ou contemplarmos o Cruzeiro da nossa freguesia, não pensemos só na nossa miséria, naquilo de que somos capazes, mas pensemos sobretudo naquilo de que Deus é capaz (J.Ratzinger).

 

3. Nas celebrações da liturgia (Missa e sacramentos), ao ver o padre repetir o Sinal da Cruz – no princípio, no Evangelho, na bênção do pão e do vinho a consagrar, na bênção final –, pensemos na generosidade infinita de Deus: é esse mar que salva o mundo. As nossas dores são fendas por onde entra essa água da salvação.

 

4. Ao proclamar o Credo dizemos que, «por causa de nós, homens, e da nossa salvação, o Verbo de Deus desceu dos céus e encarnou pelo Espírito Santo no seio de Virgem Maria; agora na Quaresma fixemos a continuação: «também por nós foi crucificado  sob Pôncio Pilatos; padeceu e  foi  sepultado»

 

* A.Vanhoye – Tanto amó Dios al mundo, Madrid, SanPablo,2005.

 

Fala o Santo Padre

 

“Este acontecimento extraordinário da Transfiguração, é um encorajamento a seguir Jesus.”

 

[…] Neste segundo domingo de Quaresma a liturgia é dominada pelo episódio da Transfiguração, que no Evangelho de São Lucas segue imediatamente o convite do Mestre: "Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me" (Lc 9, 23). Este acontecimento extraordinário, é um encorajamento a seguir Jesus.

Lucas não fala de Transfiguração, mas descreve quanto aconteceu através de dois elementos: o rosto de Jesus que muda e a sua veste que se torna cândida e resplandecente, na presença de Moisés e Elias, símbolo da Lei e dos Profetas. Os três discípulos que assistem ao acontecimento estão oprimidos pelo sono: é a atitude de quem, mesmo sendo espectador dos prodígios divinos, não compreende. Só a luta contra o turpor que se apodera deles permite que Pedro, Tiago e João "vejam" a glória de Jesus. Então o ritmo torna-se premente: enquanto Moisés e Elias se separam do Mestre, Pedro fala e, enquanto está a falar, uma nuvem cobre a ele e aos outros discípulos com a sua sombra; é uma nuvem que, enquanto cobre, revela a glória de Deus, como aconteceu com o povo peregrino no deserto. Os olhos já não podem ver, mas os ouvidos podem ouvir a voz que sai da nuvem: "Este é o Meu Filho dilecto, escutai-O" (v. 35).

Os discípulos já não estão diante de um rosto transfigurado, nem de uma veste cândida, nem de uma nuvem que revela a presença divina. Diante dos seus olhos está "Jesus sozinho" (cf. v. 36). Jesus ficou só diante do seu Pai, enquanto reza, mas, ao mesmo tempo, "Jesus só" é quanto é dado aos discípulos e à Igreja em cada época: é quanto deve ser suficiente para o caminho. É ele a única voz que deve ser ouvida, o único que deve ser seguido, ele que subindo a Jerusalém entregará a vida e um dia "transfigurará o nosso corpo miserável para o conformar com o seu corpo glorioso"(Fl 3, 21).

Neste período quaresmal convido todos a meditar assiduamente o Evangelho. […] A Virgem Maria nos ajude a viver intensamente os nossos momentos de encontro com o Senhor para que possamos segui-lo todos os dias com alegria.

 

Bento XVI, Angelus na Praça de São Pedro a 28 de Fevereiro de 2010

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Como o pobre e cego Bartimeu, em Jericó,

que pedia a Jesus: «Senhor, que eu veja!»,

imploremos com profunda fé e humildade,

que Ele conduza a nossa vida pela Sua luz.

Oremos, (cantando).

 

    Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

1. Pelo Santo Padre, com os Bispos em comunhão com ele,

    para que nos ilumine com a luz da doutrina do Evangelho,

    oremos, irmãos.

 

    Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

2. Pelos pais, primeiros e principais catequistas dos filhos,

    para que se empenham, pelo exemplo, na sua formação,

    oremos, irmãos.

 

    Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

3. Pelos catequistas, mensageiros de Deus para as crianças,

    para que lhes ensinem as verdades que procuram viver

    oremos, irmãos.

 

    Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

4. Pelos que vivem atormentados pelas dúvidas contra a fé,

    para que peçam humildemente ao Senhor a Sua ajuda,

    oremos, irmãos.

 

    Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

5. Pelos que não crêem e vivem sem orientação na vida,

    para que Jesus, Médico divino, os cure desta cegueira,

    oremos, irmãos.

 

    Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

6. Pelos nossos irmãos que partiram ao encontro da Luz,

    para que, purificados, comunguem da felicidade eterna,

    oremos, irmãos.

 

    Aumentai, Senhor, a nossa fé!

 

Senhor, que nos fazeis caminhar alegremente na fé,

Ao encontro de Vós, que sois a única Verdade:

ajudai-nos a seguir-Vos docilmente em cada dia

para Vos contemplarmos no esplendor da glória.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Façamos do trabalho e dos sofrimentos da semana «sacrifícios espirituais agradáveis a Deus» e ofereçamo-los por nós e pelo mundo. Lembremo-nos que vivemos um pouco como Jesus no Tabor: temos momentos interiores de alegria e outros que anunciam a aproximação da cruz da vida

 

Cântico do ofertório: Atei os meus braços, M. Faria, NRMS 9 (II)

 

Oração sobre as oblatas: Esta oblação, Senhor, lave os nossos pecados e santifique o corpo e o espírito dos vossos fiéis, para celebrarmos dignamente as festas pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

A transfiguração do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Depois de anunciar aos discípulos a sua morte, manifestou-lhes no monte santo o esplendor da sua glória, para mostrar, com o testemunho da Lei e dos Profetas, que pela sua paixão alcançaria a glória da ressurreição.

Por isso, com os Anjos e os Santos do Céu, proclamamos na terra a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: F. dos Santos, NCT 201

 

Monição da Comunhão

 

Na comunhão eucarística recebemos Jesus ressuscitado, tal como está no Céu, mas as espécies sacramentais escondem, de algum modo, a glória do Tabor.

 

Cântico da Comunhão: Aproximai-vos do Senhor, F. da Silva, NCT 375

Mt 17, 5

Antífona da comunhão: Este é o meu Filho muito amado, no qual pus as minhas complacências. Escutai-O.

 

Cântico de acção de graças: Bendito sejas, sei que Tu pensas em mim, H. Faria, NRMS 2 (II)

 

Oração depois da comunhão: Alimentados nestes gloriosos mistérios, nós Vos damos graças, Senhor, porque, vivendo ainda na terra, nos fazeis participantes dos bens do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Durante a Quaresma pratiquemos o piedoso exercício da Via Sacra, que conjuga o mistério da morte e da ressurreição de Jesus, e constitui uma devoção da tradição cristã, muito recomendada pela Igreja.

 

Cântico final: É dura a caminhada, M. Faria, NRMS 6 (II)

 

 

Homilias Feriais

 

2ª SEMANA

 

2ª Feira, 25-II: A aprendizagem da misericórdia.

Dan 9, 4-10 / Lc 6, 36-38

Sede misericordiosos como o vosso Pai celestial é misericordioso.

Para sermos misericordiosos como Jesus nos pede (Ev.), que podemos fazer?

Em primeiro lugar, temos que reconhecer que somos pecadores: «Nós pecámos, deixámos os vossos mandamentos e as vossas leis» (Leit.). Só assim seremos capazes de ser mais compreensivos com os outros. Depois, vivendo sempre bem a caridade fraterna: «Os frutos da caridade são: a alegria, a paz e a misericórdia» (CIC, 1829). E finalmente, recebendo com frequência o sacramento da misericórdia: «recebendo com frequência, neste sacramento, o dom da misericórdia do Pai, somos levados a ser misericordiosos como Ele (Ev.)» (CIC, 1458).

 

3ª Feira, 26-II: A conversão interior e as boas obras.

Is 1, 10. 16-20 / Mt 23, 1-12

Aprendei a fazer o bem. Procurai a justiça, socorrei o oprimido, sustentai o direito do órfão, defendei a causa da viúva.

Jesus começou a fazer e depois a ensinar. Por isso, contrasta o seu modo de actuar com o dos fariseus: «não procedais segundo as suas obras. Porque eles dizem e não fazem» (Ev.).

A nossa conversão interior há-de necessariamente conduzir às boas obras: «O apelo de Jesus à conversão e à penitência não visa primariamente as obras exteriores, 'o saco e a cinza', os jejuns e as mortificações, mas a conversão do coração, a penitência interior. Sem ela, as obras de penitência são estéreis e enganadoras; pelo contrário, a conversão interior impele à expressão dessa atitude em sinais visíveis, gestos e obras de penitência (Leit.)» (CIC, 1430).

 

4ª Feira, 27-II: Um convite para a Quaresma.

Jer 18, 18-20 / Mt 20, 17-28

Prestai-me ouvidos, Senhor. Assim é que se paga o bem com o mal, pois abriram uma cova, para atentarem contra a minha vida.

Jeremias queixa-se de que, apesar do bem que tinha feito, o querem maltratar (Leit.). O mesmo aconteceu a Jesus pois, apesar de passar pela terra a fazer o bem, querem-no condenar à morte (Ev.).

Para alcançarmos um lugar no reino dos Céus já sabemos que devemos seguir os passos de Jesus. E o Senhor convida-nos, como a João e a Tiago: 'Podeis beber o cálice que eu estou para beber?'. É um convite para a Quaresma. Procuremos cumprir bem os nossos deveres diários, aceitemos bem as contrariedades de cada dia, vivamos bem a caridade com o próximo, etc.

 

5ª Feira, 28-II: Uma ordem social mais justa.

Jer 17, 5-10 / Lc 16, 19-32

Então, ó Pai, rogo-te que mandes Lázaro à minha casa paterna, pois tenho cinco irmãos. Que ele os previna.

O homem rico da parábola, bem como os seus cinco irmãos (Ev.), nunca se lembraram de Deus nem dos pobres: «maldito aquele que põe no homem a sua esperança» (Leit.). Lázaro representa a multidão dos seres humanos sem pão, sem tecto, sem residência (CIC, 2463).

É preciso que se viva melhor a virtude da solidariedade: «A solidariedade manifesta-se, em primeiro lugar, na repartição dos bens, na remuneração do trabalho. Implica também o esforço por uma ordem social mais justa, em que as tensões possam ser melhor resolvidas e os conflitos encontrem mais facilmente uma saída negociada» (CIC, 1940).

 

6ª Feira, 1-III: A responsabilidade na Paixão de Cristo.

Gen 37, 3-4. 12-13. 17-28 / Mt 21, 33-43. 45-46

Mas, ao verem o filho, os agricultores disseram entre si: este é o herdeiro. Vamos matá-lo.

A parábola dos agricultores (Ev.), bem como os maus tratos infligidos a José pelos seus irmãos (Leit.), constitui uma profecia dos sofrimentos de Jesus na sua Paixão, que culminaram na sua morte.

Não esqueçamos que temos a nossa parte de responsabilidade no suplício de Jesus: «Não foram os demónios que o pregaram na Cruz, mas tu com eles O crucificaste, e ainda agora O crucificas quando te deleitas nos vícios e pecados» (S. Francisco de Assis, cit. CIC, 598). Lutemos decididamente para evitar os pecados e acolhamos melhor o Senhor e o nosso próximo.

 

Sábado, 2-III: O processo da conversão.

Miq 7, 14-15. 18-20 / Lc15, 1-3. 11-32

Tende ainda piedade de nós! Calcai aos pés as nossas faltas, lançai para o fundo do mar todos os nossos pecados.

O pedido do profeta Miqueias (Leit.) fica perfeitamente resolvido com a resposta do pai do filho pródigo (Ev.), que nos mostra como decorre a conversão.

«O dinamismo da conversão e da penitência foi maravilhosamente descrito por Jesus na parábola do filho pródigo, cujo centro é o pai misericordioso: o deslumbramento de uma liberdade ilusória; a miséria extrema; a humilhação profunda; a reflexão sobre os bens perdidos; o arrependimento e a decisão de se declarar culpado; o caminho de regresso; o acolhimento generoso por parte do pai; a alegria do pai, eis alguns aspectos do processo de conversão» (CIC, 1439).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         D. Joaquim Gonçalves

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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