1º Domingo da Quaresma

17 de Fevereiro de 2013

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Vamos todos guiados pela esperança, F. da Silva, NRMS 14

Salmo 90, 15-16

Antífona de entrada: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Após o rito penitencial da Quarta-Feira de Cinzas, somos hoje chamados a entrar conscientemente neste tempo sagrado da Quaresma. Ele deve ser consagrado a uma actividade mais intensa de oração, reflexão, penitência e prática da caridade. Continuam a ter significado as privações voluntárias como sinal de jejum que comporta uma relação especial com os irmãos, pois com o fruto das nossas privações poderemos ajudar os mais carenciados.

Na nossa vida atravessamos vários momentos de “deserto”. O deserto é o lugar do silêncio, da solidão, que nos coloca diante das grandes questões existenciais.

É um tempo para fazermos uma caminhada de reflexão sobre as diversas tentações que nos assaltam nos vários desertos que experienciamos na vida. Pois, é na firmeza e no sofrimento da nossa própria fé e na oração, que deveremos construir o caminho do Senhor nos novos desertos que a história nos coloca.

Saibamos aproveitar o dinamismo deste tempo para fortalecermos a nossa FÉ.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Esta primeira leitura evoca a profissão de fé do Povo escolhido que reconhecendo a intervenção do amor de Deus, Lhe oferece as primícias da terra e a si mesmo, em atitude de adoração por o Senhor o ter feito sair da escravidão para o conduzir à terra prometida.

 

Deuteronómio 26, 4-10

Moisés falou ao povo, dizendo: 4«O sacerdote receberá da tua mão as primícias dos frutos da terra e colocá-las-á diante do altar do Senhor teu Deus. 5E diante do Senhor teu Deus, dirás as seguintes palavras: ‘Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egipto com poucas pessoas, e aí viveu como estrangeiro até se tornar uma nação grande, forte e numerosa. 6Mas os egípcios maltrataram-nos, oprimiram-nos e sujeitaram-nos a dura escravidão. 7Então invocámos o Senhor Deus dos nossos pais e o Senhor ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava. O Senhor fez-nos sair do Egipto com mão poderosa e braço estendido, 8espalhando um grande terror e realizando sinais e prodígios. 9Conduziu-nos a este lugar e deu-nos esta terra, uma terra onde corre leite e mel. 10E agora venho trazer-Vos as primícias dos frutos da terra que me destes, Senhor’. Então colocarás diante do Senhor teu Deus as primícias dos frutos da terra e te prostrarás diante do Senhor teu Deus».

 

A nossa leitura é tirada da parte final do chamado «Código Deuteronómico» (Dt 12 – 26) e contém a oração ritual a recitar no momento da oferta ao Santuário dos primeiros frutos da terra, as primícias. Esta oração contém o que Gerhard von Rad classificou de «Credo histórico», isto é um resumo do núcleo da fé de Israel, que é fundamentalmente uma confissão de fé nas intervenções salvadoras de Yahwéh na história deste povo, centradas na libertação da escravidão do Egipto e na instalação em Canaã, a terra prometida. Podem ver-se outras profissões de fé semelhantes em: Dt 6, 20-24; Jos 24, 1-13; Ne 9, 6-37; Jr 32, 17-25; Salm 136 (135).

5 «Um arameu errante». Trata-se de Jacob, que personifica a era dos patriarcas, assim chamado quer pelo facto de a migração de Abraão estar ligada com as movimentações de tribos de arameus na zona do Médio Oriente, mas também em razão de ter muitas relações de parentesco com a Mesopotâmia, onde vivia o seu tio Labão, o arameu (Gn 28,1-5), e onde passou longos anos em Aran com as suas mulheres (cf. Gn 29 – 30). Jacob, bem como Isaac e Abraão, levou uma vida semi-nómada, acabando por se estabelecer no Egipto «com uma família pouco numerosa», isto é, um grupo de 70 pessoas (Gn 46, 26-27; cf. Ex 1, 1-5).

9-10 «Deu-nos esta terra… E agora…» O gesto de oferecer as primícias tem esse sentido de gratidão de quem quer corresponder a tanto amor de Deus com a oferta simbólica, os primeiros frutos da terra. Por outro lado, era uma confissão de fé em Yahwéh, o único que concede a fertilidade, e ao mesmo tempo era uma forma de abjurar os sedutores cultos idolátricos da fertilidade – tão característicos de Canaã – da deusa Astarté. A oração também põe em evidência o forte contraste entre o pobre arameu errante, sem leira nem beira, e o agricultor a desfrutar livremente duma terra ideal – onde corre leite e mel – dada por Deus.

 

Salmo Responsorial    Sl 90 (91), 1-2.10-15 (R. cf. 15b)

 

Monição: O salmo 90 que vamos proclamar exprime, se soubermos resistir às tentações e às adversidades que nos assaltam, a confiança que devemos depositar em Deus.

 

Refrão:        estai comigo, senhor, no meio da adversidade.

 

Tu que habitas soba a protecção do Altíssimo

e moras à sombra do Omnipotente,

diz ao Senhor: «Sois o meu refúgio e a minha cidadela:

meu Deus, em Vós confio».

 

Nenhum mal te acontecerá

nem a desgraça se aproximará da tua tenda,

porque Ele mandará os seus Anjos

que te guardem em todos os teus caminhos.

 

Na palma das mãos te levarão,

para que não tropeces em alguma pedra.

Poderás andar sobre víboras e serpentes,

calcar aos pés o leão e o dragão.

 

Porque em Mim confiou, hei-de salvá-lo;

hei-de protegê-lo, pois conheceu o meu nome.

Quando me invocar, hei-de atendê-lo,

estarei com ele na tribulação,

hei-de libertá-lo e dar-lhe glória.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A FÉ, professada com os lábios e alimentada como o coração, abre o caminho para a salvação.

 

Romanos 10, 8-13

Irmãos: 8Que diz a Escritura? «A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração». Esta é a palavra da fé que nós pregamos. 9Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo. 10Pois com o coração se acredita para obter a justiça e com a boca se professa a fé para alcançar a salvação. 11Na verdade, a Escritura diz: «Todo aquele que acreditar no Senhor não será confundido». 12Não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que O invocam. 13Portanto, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.

 

A citação do Deuteronómio com que começa o trecho desta leitura, refere-se à proximidade da revelação da salvação de Deus (cf. Dt 30, 12-14), ao dizer que não é preciso cruzar os mares nem subir às alturas para a encontrar. Para Israel ela estava encerrada na Thoráh; para os cristãos ela está patente na pregação apostólica da Igreja, e só nos resta aderir a ela interiormente e professá-la externamente. Mas S. Paulo vai mais longe, pois pretende mostrar que a salvação divina é uma realidade acessível a todos, sem distinção de raça ou nação, apenas se exige «crer» (e cita Is 28, 16) «e invocar o nome do Senhor» (cita Joel 3, 5), o Senhor, que é Jesus.

9 «Se confessares… que Jesus é o Senhor», isto é, que Jesus é Deus. Senhor – Kyrios – é a tradução dos LXX para o nome divino de Yahwéh; daí que aplicar este nome a Jesus é fazer uma profissão de fé na sua divindade; este frequente procedimento do N. T. é chamado um deraxe cristológico (uma actualização do A. T. para exprimir quem é Jesus, o mistério da sua pessoa). Note-se como, para ser salvo, se exige uma fé que não se reduz a uma mera confiança – fé fiducial – na obra salvadora de Jesus, pois implica crer naquilo que Ele é objectivamente: Ele salva pelo facto de que é Deus que vem, feito homem, para nos salvar. Doutra forma, a fé seria vazia, por carecer de um fundamento real sólido; que sentido teria então aderir a Cristo sem ter a certeza daquilo que Ele é na realidade? Seria cair num fideísmo idealista e subjectivista, numa fé que não iria para além dum vago e instável sentimento religioso. S. Paulo fala de «crer com o coração» (v. 10), usando a palavra «coração» no sentido semítico, próprio da citação bíblica anterior (v. 8): é a interioridade do ser humano, mais que a mera afectividade, engloba a sua mente (a inteligência e a vontade).

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 4b

 

Monição: As realidades deste mundo devem ser consideradas à luz da Palavra de Deus, a fim de não se tornarem para nós ídolos a seguir.

 

Cântico: Não só de pão vive o homem, M. Luis, NCT 106

 

Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 4, 1-13

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O diabo disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’». O diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’». Então o demónio levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do Templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus respondeu-lhe: «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.

 

Uma consideração superficial desta narrativa poderia levar o leitor a cair numa de duas tentações de pólos opostos: ou a de ficar na literalidade do relato, que parece descrever umas tentações de gula, de ambição do poder, de vaidade e presunção, ou então a de não querer ver nada para além da teologia do evangelista. Quem olhar para o relato imbuído do preconceito de que não existe o diabo, nem a tentação diabólica, não terá mais remédio do que refugiar-se na fácil solução da negação do seu valor histórico, apelando para a teologia do evangelista, para o simbolismo e significado teológico destas tentações. Por outro lado, quem se aferrar a uma mentalidade fundamentalista para salvar a todo o custo o sentido histórico literal de cada pormenor da narrativa, partindo de que esta é uma crónica jornalística, adoptará uma posição redutora da riqueza teológica do texto e virá a cair em interpretações pueris e até incoerentes, como, por ex., a de imaginar Jesus a ser transportado pelo diabo para um ponto donde pudesse ver todos os reinos da terra (v. 4), como para o pináculo do Templo, onde «o colocou», segundo reza o texto (v. 9).

É indiscutível que Jesus foi sujeito à tentação (cf. Hbr 4, 15). Na Escritura a palavra «tentação» tem dois sentidos, tanto em grego, como em hebraico – peirasmós/massá –, a saber, o de «sedução» para praticar o mal, e o de «provação» que põe à prova a virtude e a fidelidade da criatura a Deus. Aqui, Jesus aparece claramente a ser tentado pelo demónio; muitas vezes, especialmente na hora da sua Paixão, é sujeito à prova (cf. Lc 22, 28. 40-46; 23, 35.37.49, etc.). Não obsta à realidade da tentação – a que Jesus não foi poupado – o significado simbólico dos elementos da narrativa, como o número «40» (tempo prolongado: cf. 1 Re 19, 8; Ex 16, 35; 24, 18; 34, 28…) e o «deserto» (lugar de solidão, abandono e perigo e também de encontro com Deus). Alguém escreveu que este relato recapitula toda a oposição, exterior e interior, que Jesus teve de enfrentar para cumprir a sua missão de acordo com a vontade do Pai.

Neste caso concreto, convém advertir que as tentações de Jesus aqui descritas não são de modo algum uma tentação ocasional, nem sequer um ataque mais violento; foram um duelo mortal e decisivo entre dois inimigos irredutíveis. Assim, estas tentações não vão dirigidas a fazer cair Jesus em meras faltas pessoais (gula, avareza, vaidade); mas são mesmo um ataque frontal, com o fito de fazer gorar toda a obra de Jesus. S. Lucas apresenta-nos o diabo a querer tirar a limpo até que ponto Jesus era o «Filho de Deus» (vv. 3 e 10), segundo lhe constaria da teofania do Jordão (cf. Lc 3, 23). Por outro lado, o maligno aparece a tentar Jesus precisamente no núcleo da sua missão messiânica, para tentar desviá-lo do plano divino para os seus planos diabólicos, de modo a que esta missão acabasse por vir a ser desvirtuada. Tentemos agora ver o alcance destas tentações:

3-4 Na primeira tentação, Jesus aparece tentado a enveredar pelo caminho da satisfação das esperanças materialistas do povo, que esperava um messias que lhe trouxesse bem-estar, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer.

5-6 Na segunda tentação, Jesus é tentado a mover-se na linha das esperanças populares num messias político, vitorioso, dominador dos opressores romanos e senhor do mundo inteiro; trata-se da tentação que Jesus sentiu de se desviar do plano do Pai, a instauração do Reino de Deus, para se dedicar à instauração dum reino temporal, um plano aparentemente mais eficaz e bem mais sedutor.

9-12 Na terceira tentação, com aquele «atira-te daqui abaixo», é feito a Jesus um apelo diabólico a ir atrás da expectativa judaica, que pensava que o messias desceria espectacularmente do céu, à vista de todo o povo. Mas Jesus renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espectacular, e diz não à proposta de uma actuação com base no triunfo pessoal, no mero êxito humano.

Não devemos estranhar que S. Lucas inverta a ordem de S. Mateus para as duas últimas tentações, o que em nada diminui o valor do relato. A fonte pode ser a mesma, mas parece que Lucas coloca a última tentação em Jerusalém devido ao alto valor simbólico que quer dar à Cidade Santa e ao Templo no seu Evangelho. Ninguém foi testemunha das tentações de Jesus, pois se trata de coisas que se passaram apenas no seu espírito; mas também é compreensível que Jesus abrisse o seu coração aos discípulos, quando lhes falava da natureza do Reino de Deus e lhes explicava em particular as parábolas (cf. Mc 4, 34: seorsum autem discipulis suis disserebat omnia). O que é certo é que, para além das hipóteses que possam formular os críticos, ninguém poderá provar que estamos em face de meras criações teológico-narrativas dos evangelistas.

O alcance teológico desta narrativa nos três Sinópticos (em Marcos há apenas uma brevíssima alusão: 1, 12-13) é grande. Com efeito, as grandes personagens bíblicas foram «tentadas» e também o povo de Israel, no seu conjunto, especialmente durante a sua peregrinação pelo deserto, a caminho da terra prometida. Ora, em Jesus cumpre-se tudo o que estava em toda a Escritura (cf. Lc 24, 44); por outro lado, a vida de Jesus torna-se também um modelo para os cristãos e para toda a Igreja, que virá a ser tentada pelos poderes diabólicos, que nunca deixarão de pôr à prova a sua fidelidade e de os seduzir para o mal; os caminhos da Igreja não podem ser nunca os da glória terrena e do êxito fácil, mas os da humildade e do sacrifício, os árduos e escondidos caminhos da santidade.

13 «O diabo... retirou-se… até certo tempo». É uma observação exclusiva de Lucas, e foi no momento da Paixão de Jesus (sem podermos excluir outros) quando em força avançou o diabo, o poder das trevas (cf. Lc 22, 53. E também foi então a grande derrota do demónio e a vitória definitiva do Senhor, que nos mereceu a graça de também podermos sair vitoriosos das nossas tentações. S. João Crisóstomo comenta: «uma vez que o Senhor tudo fazia e sofria para o nosso ensinamento, também quis ser conduzido ao deserto e ali travar combate contra o diabo, a fim de que os baptizados, se, depois do Baptismo vierem a sofrer as piores tentações, não se perturbem com isso, como se se tratasse duma coisa que não era de esperar. Não, não há que se perturbar com isso, mas sim permanecer firmes e suportá-lo generosamente como a coisa mais natural do mundo» (Homilia sobre S. Mateus, 13).

 

Sugestões para a homilia

 

As tentações de Jesus e as nossas tentações

Não devem conduzir à incerteza do amor de Deus

Mas a um convite a uma fé adoptada e vivida

 

As tentações de Jesus e as nossas tentações

Jesus, como homem verdadeiro que era, sustentou durante toda a sua vida, tal como nós, a luta contra o mal, apenas com a grande diferença de nunca ter sido vencido pelo pecado.

Jesus vai para o deserto para ser tentado, a fim de participar nas tentações do seu povo e do mundo, para vencer o inimigo e, assim, nos abrir o caminho para a terra prometida. Por isso, na firmeza e no sofrimento da sua própria fé e da sua oração devemos encontrar o verdadeiro caminho nos novos desertos da história.

Na primeira tentação vemos que o diabo propõe que Jesus transforme no deserto as pedras em pão, para matar a fome que sentia. Na realidade, a fome ainda hoje é uma das feridas mais terríveis da humanidade. À verdadeira fome de pão poderemos acrescentar a fome da verdade, num mundo em que, segundo a perspectiva do diabo, Deus aparece como supérfluo, desnecessário para a salvação do homem. Segundo ele, a única coisa decisiva é o pão, a matéria. Não estaremos nós também em perigo de pensar que Deus não é assim tão necessário ao homem e que o desenvolvimento técnico e económico será mais urgente que o espiritual? Não teremos a tentação de fazer primeiro as coisas do mundo, porque pensamos serem “as mais necessárias”? A utilização egoísta dos bens deste mundo, o acumular para si, o viver do trabalho dos outros, o dar-se a todas as formas de deleite, o desperdiçar do dinheiro em coisas escusadas, enquanto falta aos outros o essencial é uma tentação que muitas vezes nos pode assaltar.

Se alguém der ao homem todas as coisas boas do mundo, mas o despojar de Deus, não o salvará. A resposta do Senhor ao demónio clarifica a primazia da palavra de Deus para a salvação dos homens.

Uma segunda tentação é a ocasião da agressividade em relação aos outros, o desejo de se impor, de humilhar o mais fraco, de usar o poder como preponderância em lugar de serviço. Não seremos muitas vezes tentados a adular quem detém o poder económico ou político, para procurar o apoio que permita o sucesso pessoal?

Em toda a sua vida Jesus foi de muitos modos tentado, como nós, a amoldar-se a esta maneira diabólica de pensar; em tornar-se pessoa de sucesso, de se impor pelo poder. Ora, Jesus aponta precisamente o contrário: grande é aquele que serve e é capaz até de se ajoelhar perante o outro para lhe lavar os pés.

Uma terceira tentação aparece quando se insinua na nossa mente a necessidade de ter provas do amor de Deus para connosco: «Atira-te daqui abaixo, porque está escrito...». Era a tentação de descrer da palavra de Deus. Quando tudo nos corre bem sentimo-nos amados por Deus, todavia, quando nos ocorre uma doença, uma infelicidade, um grave problema somos tentados a pedir ao Senhor um milagre que não acontece como nós ansiamos. Então, a nossa fé vacila e arrisca-se a cair por terra. Nesse caso, somos tentados a abandonar as nossas ténues convicções para seguir outros caminhos enganosos que pensamos resolver os nossos problemas ou projectos.

Tal tentação não nos deve induzir à incerteza do amor de Deus para connosco.

 

Não devem conduzir à incerteza do amor de Deus

A proclamação da primeira leitura de hoje faz-nos recordar precisamente o que o Povo eleito sentia ao pensar que Deus o abandonara. Moisés, evocando o passado, admite a intervenção de Deus que o ama e, como consequência, apresenta-Lhe os primeiros frutos da terra. Oferece-se também a si mesmo em atitude de adoração ao Senhor. Ao lembrar o passado, o Povo eleito recorda como andou errante e como sofreu, fora da sua terra, reconhece que deve a liberdade a Deus, que o fez sair da situação de escravatura em que vivia.

Tal leitura incita-nos à nossa confiança em Deus e estimula-nos a renovar a nossa entrega ao seu amor de Pai. Leva-nos também a pensar em todos aqueles que pela sua condição, estão mais necessitados, marginalizados, desempregados ou submetidos a situações desumanas. Lembra-nos os emigrantes ou desalojados, situação em que vivem muitas pessoas e interroga-nos sobre a atitude a tomar como instrumentos de Deus na libertação dos homens: que fazemos nesse sentido?

É, pois um convite à adopção de uma FÉ professada com os lábios, alimentada com o coração e que abra o caminho para a salvação.

 

Mas a um convite a uma fé adoptada e vivida

O cristão é chamado a anunciar a todos os homens o maior sinal da benevolência de Deus operada por Si para nossa salvação: a ressurreição de Jesus. Diz-nos S. Paulo, na segunda leitura, que a FÉ deve ser proclamada com o coração e com a boca. Com o coração quer significar com uma vida completamente nova. Mas também se deve manifestar por sinais, gestos e palavras que derrubem muros que dividem, barreiras que impedem o avanço de uma vida digna e humana e preconceitos que amarfanham e entravam a colaboração solidária.

Saibamos, pois, interpretar as formas erradas de nos relacionarmos com a realidade que nos rodeia, com as coisas e com Deus, sabendo aproveitar este tempo favorável da Quaresma para renovar a nossa FÉ e a nossa confiança no Senhor.

Mostraremos assim que quando acaba a separação dos homens de Deus e quando entre eles desaparecem a inveja, a discórdia e a guerra nasce uma realidade nova: todos começam a viver como irmãos, sem desconfianças, sem invejas, sem ódios, pois que atraídos pela LUZ de CRISTO RESSUSCITADO, aproximar-se-ão e compreender-se-ão numa convivência de mútua felicidade.

 

Fala o Santo Padre

 

“A Quaresma é como um longo "retiro",

para vencer as tentações do Maligno e encontrar a verdade do nosso ser.”

 

Queridos irmãos e irmãs!

Na quarta-feira passada, com o rito penitencial das Cinzas, iniciámos a Quaresma, tempo de renovação espiritual que prepara para a celebração anual da Páscoa. Mas o que significa entrar no itinerário quaresmal? O Evangelho deste primeiro domingo ilustra-nos isto, com a descrição das tentações de Jesus no deserto. Narra o Evangelista São Lucas que, depois de ter sido baptizado por João, "cheio do Espírito Santo, Jesus retirou-se do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde esteve durante quarenta dias, e foi tentado pelo diabo" (Lc 4, 1-2). É evidente a insistência sobre o facto de que as tentações não foram um imprevisto, mas a consequência da opção feita por Jesus de seguir a missão que o Pai lhe confiou, de viver até ao fim a sua realidade de Filho amado, que confia totalmente n'Ele. Cristo veio ao mundo para nos libertar do pecado e do fascínio ambíguo de projectar a nossa vida prescindindo de Deus. Ele fê-lo não com anúncios pomposos, mas lutando pessoalmente contra o Tentador, até à Cruz. Este exemplo é válido para todos: o mundo melhora-se começando por nós mesmos, mudando, com a graça de Deus, tudo o que não é bom na nossa vida.

Das três tentações às quais Satanás submete Jesus, a primeira tem origem na fome, ou seja, na necessidade material: "Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pão". Mas Jesus responde com a Sagrada Escritura: "Nem só de pão vive o homem" (Lc 4, 3-4; cf. Dt 8, 3). Depois, o diabo mostra a Jesus todos os reinos da terra e diz: tudo será teu se, prostando-te, me adorares. É o engano do poder, e Jesus desmascara esta tentativa e afasta-o: "Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a Ele prestarás culto" (cf. Lc 4, 5-8; Dt 6, 13). Não adoração do poder, mas só de Deus, da verdade e do amor. Por fim, o Tentador propõe a Jesus que realize um milagre espectacular: lançar-se dos altos muros do Templo e fazer-se salvar pelos anjos, de modo que todos acreditassem n'Ele. Mas Jesus responde que Deus nunca deve ser posto à prova (cf. Dt 6, 16). Não podemos "fazer uma experiência" na qual Deus deve responder e mostrar-se Deus: devemos acreditar n'Ele! Não devemos usar Deus como "matéria" da nossa "experiência"! Referindo-se sempre à Sagrada Escritura, Jesus antepõe aos critérios humanos o único critério autêntico: a obediência, a conformidade com a vontade de Deus, que é o fundamento do nosso ser. Também este é um ensinamento fundamental para nós: se trouxermos na mente e no coração a Palavra de Deus, se esta entrar na nossa vida, se tivermos confiança em Deus, poderemos rejeitar qualquer género de engano do Tentador. Além disso, de toda a narração sobressai claramente a imagem de Cristo como novo Adão, Filho de Deus humilde e obediente ao Pai, ao contrário de Adão e Eva, que no jardim do Éden tinham cedido às seduções do espírito do mal, de serem imortais sem Deus.

A Quaresma é como um longo "retiro", durante o qual cair de novo em nós mesmos e ouvir a voz de Deus, para vencer as tentações do Maligno e encontrar a verdade do nosso ser. Podemos dizer, um tempo de "competição" espiritual para viver juntamente com Jesus, não com orgulho e presunção, mas usando as armas da fé, ou seja, a oração, a escuta da Palavra de Deus e a penitência. Deste modo poderemos chegar a celebrar a Páscoa na verdade, prontos para renovar as promessas do nosso Baptismo. Ajude-nos a Virgem Maria para que, guiados pelo Espírito Santo, vivamos com alegria e proveito este tempo de graça. […]

 

Bento XVI, Angelus na Praça de São Pedro a 21 de Fevereiro de 2010

 

Oração Universal

 

Oremos a Deus Pai

e supliquemos-Lhe que nos ajude

a abrir o nosso coração e a usarmos a nossa palavra,

para fortalecimento da nossa fé,

resistência às tentações deste mundo

e a termos sempre confiança no Seu  amor infinito.

E digamos:

 

Renovai, Senhor, a fé do vosso povo.

 

1.  Pela Santa Igreja de Deus:

para que, confiante na ressurreição de Cristo,

continue firme na verdadeira fé

de que é depositária,

oremos, irmãos.

 

2.     Pelo Santo Padre, Bispos, Presbíteros e Diáconos,

para que, neste ano dedicado ao fortalecimento da Fé,

a professem com todas as suas forças,

oremos, irmãos.

 

3.     Pelos membros empenhados das nossas comunidades,

para que não se deixem vencer pelo desânimo,

mas renovem interiormente a sua fé no amor de Deus,

a fim de resistirem às diversas tentações do dia-a-dia,

oremos, irmãos.

 

4.     Por todos aqueles que têm fome de pão

e por aqueles que sofrem os diferentes desertos desta vida,

para que sintam a primazia da Palavra de Deus

na condução de toda a sua existência,

oremos, irmãos.

 

5.     Pelos emigrantes, desalojados e desprezados socialmente,

para que o Senhor os defenda e ajude

a readquirir a estabilidade

com toda a dignidade de seres humanos a respeitar,

oremos, irmãos.

 

6.     Por todos os crentes,

e por todos aqueles que o não sendo

procuram a verdade de todo o coração,

para que a encontrem em Jesus Cristo,

oremos, irmãos.

 

     

Escutai, Senhor, as nossas súplicas.

Ajudai-nos a professar a fé com os lábios

e a vivê-la com o coração,

para que reconheçamos o Senhor

quando Ele tiver fome e precisar de nós.

Por Cristo Nosso Senhor

que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: A minha alma tem sede, M. Carneiro, NRMS 40

 

Oração sobre as oblatas: Fazei que a nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

As tentações do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Monição da Comunhão

 

Na Eucaristia, Jesus, o grão de trigo morto por nós, torna-Se pão que dura até ao fim dos tempos. Ele torna-Se, assim, uma resposta à fome da verdade que grassa no mundo e que quer dispensar Deus como única salvação do homem.

 

Cântico da Comunhão: Nem só de pão vive o homem, F. da Silva, NRMS 29

Mt 4, 4

Antífona da comunhão: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

 

ou

Salmo 90, 4

O Senhor te cobrirá com as suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.

 

Cântico de acção de graças: Hóstia Santa, penhor de salvação, M. Simões, NRMS 6 (II)

 

Oração depois da comunhão: Saciados com o pão do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Neste Ano da Fé, saibamos aproveitar este tempo incomparável da Quaresma para que saibamos manifestar por sinais, gestos e palavras, no jejum, na firmeza do sofrimento da própria fé e na oração persistente, o verdadeiro caminho para contornar os novos desertos da história.

 

Cântico final: Troquemos o instante pelo eterno, M. Simões, NRMS 61

 

 

Homilias Feriais

 

1ª SEMANA

 

2ª Feira, 18-II: Os caminhos de salvação.

Lev 19, 1-2. 11-18 / Mt 25, 31-46

Vinde benditos de meu Pai, recebei como herança o Reino, que vos está preparado desde a criação do mundo.

Quem quiser receber a herança do Reino, há-de viver os mandamentos (Leit.). «O Decálogo, as 'dez palavras' indicam as condições duma vida liberta da escravidão do pecado. O Decálogo é um caminho de vida» (CIC, 2057).

Para tornar ainda mais acessível o nosso caminho para a vida eterna diz-nos que que o que fizermos ao próximo o fazemos também a Ele (Ev.). Esforcemo-nos, pois, por viver melhor as obras de misericórdia, quer espirituais (instruir, aconselhar, confortar, consolar), quer materiais (dar de comer a quem tem fome, etc. (CIC, 2447).

 

3ª Feira, 19-II: A vontade de Deus e o perdão.

Is 55, 10-11 / Mt 6, 7-15

Orai, pois, deste modo: Pai nosso, que estais nos Céus...

Devemos rezar confiadamente a oração que o Senhor nos ensinou, o Pai nosso (Ev.), que contém tudo o que podemos pedir a Deus, e que é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho (CIC, 2761).

As Leituras de hoje recordam-nos duas petições. A primeira, 'seja feita a vossa vontade', exige que acolhamos com fé a palavra que sai da boca de Deus e que a cumpramos (Leit.). A segunda, 'perdoai-nos as nossas ofensas', pede-nos: «se perdoardes aos homens as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos perdoará» (Ev.) (CIC, 2838).

 

4ª Feira, 20-II: Apelo à conversão e Confissão.

Jon 3, 1-10 / Lc 11, 29-32

Ergue-te e vai à grande cidade de Nínive e proclama-lhe a mensagem que te direi.

Os habitantes da cidade de Nínive aceitaram bem o pedido de conversão que lhes foi dirigido pelo Senhor, através do profeta Jonas (Leit. e Ev.). E Jesus invoca a sua autoridade para nos fazer o mesmo pedido (Ev.).

Há um sacramento que renova o apelo de Jesus à conversão: «É chamado o sacramento da conversão, porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão e o esforço por regressar à casa do Pai. É chamado o sacramento da Penitência, porque consagra uma caminhada pessoal e eclesial de conversão, de arrependimento e satisfação por parte do cristão pecador» (CIC, 1423).

 

5ª Feira, 21-II: A conversão e a oração da fé.

Est 14, 1.3-5. 12-14 / Mt7, 7-12

Pedi, e dar-vos-ão. Procurai, e achareis. Batei, e hão-de abrir-vos.

A oração é uma das formas de penitência no tempo de Quaresma: «O coração, assim decidido a converter-se, aprende a orar na fé. «Ele (Jesus) pode pedir-nos que 'procuremos' e 'batamos à porta', porque Ele próprio é a porta e o caminho» (CIC, 2609).

A rainha Ester é o melhor exemplo desta oração na fé: «Vinde socorrer-me porque eu estou só e só em vós tenho auxílio, pois sinto ao alcance da mão o perigo que me espreita» (Leit.). Na oração devemos recordar ao Senhor as suas promessas, pedir-lhe coragem e que nos socorra nas tentações (Leit.).

 

6ª Feira, 22-II: Cadeira de S. Pedro:

1 Ped 5, 1-4 / Mt 16, 13-19

Jesus: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja

Com esta Festa da Cadeira de S. Pedro comemoramos o dia da instituição do Pontificado de S. Pedro, que é uma manifestação clara da vontade de Cristo (Ev.). É uma boa ocasião para vivermos cada dia melhor este Ano da Fé, proclamado por um seu sucessor.

S. Pedro reconhece-se como «testemunha dos sofrimentos de Cristo» (Leit.). Neste tempo de Quaresma acompanhemos o Senhor muito de perto na sua caminhada para a Cruz. Se alguma vez o negarmos, façamos um bom acto de contrição, como S. Pedro: «Tu sabes que eu te amo».

 

 

Sábado, 23- II: Caminhos de santidade.

Deut 26, 16-19 / Mt 5, 43-48

Haveis, pois, de ser perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celeste.

Nesta caminhada da Quaresma ouvimos o que o nosso Pai espera de nós: a santidade (Ev.). Tenhamos fé de que é possível alcançá-la, pois temos os meios adequados para isso.

Um dos caminhos para alcançar a santidade é o cumprimento dos mandamentos: «tens de seguir os seus caminhos, cumprir as suas leis, preceitos e tendências, e escutar a sua voz» (Leit.). O outro caminho é a vivência heróica da caridade: amar os inimigos e rezar por eles (Ev.). «No sermão da Montanha acrescenta a proibição da ira, do ódio, da vingança. Mais ainda, Cristo exige do seu discípulo que ofereça a outra face, que ame os seus inimigos (Ev.)» (CIC, 2262).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         António E. Portela

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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