TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

AS QUATRO CHAVES DE BENTO XVI

NO LIVRO A INFÂNCIA DE JESUS

 

 

 

 

Cardeal Gianfranco Ravasi

 

 

Temos o gosto de dar a conhecer aos nossos leitores a conferência do Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, na apresentação oficial do novo livro de JOSEPH RATZINGER – BENTO XVI, “A Infância de Jesus”, no Vaticano em 20-XI-2012, publicada na edição portuguesa de L’Osservatore Romano, de 24-XI-2012. 

 

 

São 180 versículos distribuídos em quatro capítulos, dois na abertura do Evangelho de Mateus e dois no limiar do Evangelho de Lucas. Páginas que geraram um ininterrupto fio de ouro artístico, literário, musical, e que têm sido assediadas por uma verdadeira selva bibliográfica exegética. Relatos que se movem no trilho da narrativa, dotada de uma extraordinária montagem quase fílmica, e no da teologia, pois, subjacentes a ela, encontramos dois núcleos capitais da profissão da fé cristã: por um lado, a descendência histórica davídica e, portanto, messiânica de Jesus de Nazaré; e, por outro lado, a sua concepção virginal por obra do Espírito Santo e, consequentemente, a divindade filial do próprio Cristo. É isto que São Paulo coloca no frontispício da sua obra-prima teológica, a Carta aos Romanos: «o Evangelho de Deus, prometido por meio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras, diz respeito ao seu Filho, nascido da descendência de David segundo a carne, constituído Filho de Deus em todo o seu poder, segundo o Espírito de santidade» (Rom 1, 2-4).

Estamos a falar dos chamados «Evangelhos da infância», aos quais Joseph Ratzinger–Bento XVI dedicou a terceira e última parte do seu tríptico sobre Jesus de Nazaré (A Infância de Jesus, ed. Principia, 2012, 112 páginas). No prefácio ele propõe-nos uma metáfora descritiva para definir esta sua análise da infância de Jesus: estamos como que no «pórtico» daquela solene arquitectura já analisada nos dois volumes precedentes que descreviam a vida pública de Cristo e a sua morte seguida da glória da ressurreição. Porém, neste espaço inicial já se projectam as sombras e as luzes seguintes: a perseguição de Herodes com o massacre dos inocentes é reflectida no sangue da cruz; toda a Jerusalém perturbou-se com a notícia do nascimento do Menino, como será no acto supremo da rejeição final; os três dias transcorridos por Jesus aos doze anos no templo parecem prefigurar o tríduo do túmulo; e a arte dos ícones de Novgorod (séc. XV) criou o módulo, que depois se tornou popular, de representar a manjedoura na qual Jesus recém-nascido foi colocado como o sepulcro, ou também o altar no qual «se come» o corpo de Cristo eucarístico, para usar uma curiosa alegoria da «manjedoura» evocada por Santo Agostinho.

É precisamente com a técnica quase cinematográfica da antecipação que Bento XVI abre o seu livro: no «pórtico» faz ecoar uma pergunta que ressoará mais tarde sob os arcos do pretório romano de Jerusalém, quando o governador Pilatos interpelará o acusado Jesus: póthen ei sy,  «de onde és Tu?» (Jo 19, 9). Esta pergunta de sabor meramente identificativo reveste-se no quarto Evangelho de uma cumplicidade transcendente ulterior. É por isso que a pergunta estará presente noutros lugares dos Evangelhos, encontrando a sua resposta precisamente nos 180 versículos que agora o Papa analisa num itinerário ponto a ponto, mas transparente e quase narrativo. O enredo é simples: no relato de Lucas, onde o ritmo das cenas privilegia Maria, as anunciações e os nascimentos do precursor João Baptista e de Jesus assemelham-se, com todas as diferenças que os conotam; pelo contrário, a anunciação é dirigida a José, pai legal do Menino, segundo a narração de Mateus, que tem como estuário final o quadro grandioso dos Magos com o seguinte êxodo–fuga para o Egipto e o correspondente êxodo–regresso.

Contudo, agora queríamos indicar os fios interpretativos que Bento XVI utiliza no interior da sua leitura dos textos. Se conservarmos a metáfora inicial da arquitectura, poderíamos falar, mais do que de um pórtico, de uma verdadeira e própria planimetria arquitectónica de várias salas que requerem diversas chaves de acesso. É a metáfora que adoptava Orígenes, escritor cristão do século III, para definir a sua exegese das Sagradas Escrituras: são como muitas salas com chave, mas que não é a adequada, porque foram trocadas; portanto, é necessário experimentá-las muitas vezes. É evidente a referência ao conflito das interpretações que já então vigoravam e que se ramificou nos séculos seguintes. Eis, pois, as principais chaves hermenêuticas (diz-se, precisamente, «a chave de um texto» para a sua decifração) propostas por Ratzinger para os Evangelhos da infância.

 

A primeira e principal é a da interacção entre história e fé, na base também da afirmação central do cristianismo: o Logos eterno e infinito, que é Cristo Deus, torna-se também sarx, «carne», contingência, temporalidade, finitude, mortalidade, humanidade. Por conseguinte, perante estes relatos de corte original em relação às outras páginas evangélicas, eis a pergunta: «Trata-se verdadeiramente de uma história que aconteceu ou é só uma meditação teológica expressa em forma de história?». Por isso, cada quadro da infância de Jesus é submetido pelo Papa a uma verificação essencial de historicidade, também porque muitos exegetas optaram, ao contrário, por uma chave «midráshica», segundo a qual estaríamos na presença de uma espécie de narração parabólica (do hebraico, midrash) em torno de temas, teses, textos bíblicos e cristãos, uma espécie de dramatização narrativa de verdades teológicas.

A chave utilizada por Bento XVI é diferente: trata-se de «acontecimentos históricos cujo significado foi interpretado teologicamente pela comunidade cristã e pelos Evangelhos». E também: «Jesus não nasceu e apareceu em público no impreciso "era uma vez" do mito. Ele pertence a um tempo datável com exactidão e a um ambiente geográfico indicado com precisão: o universal e o concreto tocam-se reciprocamente». Não é por acaso que nos textos abundam referências às coordenadas geopolíticas, destinadas a exercitar a exigente exegese histórico-crítica, de Belém a Nazaré, de Augusto a Herodes, do templo de Jerusalém com o seu culto ao recenseamento imperial de Quirino. E, para afirmar esta historicidade, ele propõe a sugestiva classificação dos relatos sob o género das «tradições familiares», verdadeiro e próprio «fundamento judaico-cristão proveniente da tradição da família de Jesus».

No antigo Próximo Oriente estes memoriais históricos clânico-familiares tinham tal relevo a ponto de serem considerados semelhantes a patrimónios, conservados com fidelidade, mas também com flexibilidade, nas páginas vivas da fértil memória colectiva. E mais ainda: nestes eventos históricos estruturais cruza-se também o transcendente e este contacto faz desencadear centelhas ao nível de interpretação. Numa página muito forte, o Papa remete ao grande teólogo protestante Karl Barth, que definia claramente os dois pontos em que Deus intervém no mundo material: o nascimento de Jesus da Virgem e a sua ressurreição do sepulcro. E comenta: «Estes dois pontos são um escândalo para o espírito moderno. A Deus é-lhe concedido actuar sobre as ideias e os pensamentos, na esfera espiritual, mas não na matéria (...). Mas, se Deus não tem também poder sobre a matéria, então não é Deus». Como é claro, o divino e o histórico encontram-se numa única encruzilhada e exigem, por conseguinte, uma interpretação conjunta entre teologia e história.

 

Há uma segunda chave que nos é posta nas mãos, e é a do nexo entre história e profecia: de facto, é sabido que Mateus constrói o seu edifício narrativo da infância de Jesus sobre uma sequência de citações bíblicas. Cria-se, assim, um contraponto entre profecia e evento. Ratzinger usa uma bonita fórmula: chama aos anúncios proféticos «palavras em expectativa» de receber a sua plena decifração, o seu «protagonista». Essas palavras, por si mesmas germinais, desabrocham em Cristo, como no célebre caso do oráculo de Isaías (7, 14) sobre a «jovem/virgem» que gera o Emanuel. Por conseguinte, «na história de Jesus, as palavras antigas tornam-se realidade (…) e a história de Jesus provém da Palavra de Deus, apoiada e tecida por ela».

Pode-se também alargar este olhar retrospectivo para além das profecias bíblicas e – como faz Bento XVI – aplicá-lo analogicamente à famosa IV Écloga de Virgílio com as suas imagens geracionais muitas vezes relidas em chave cristã, e até – ainda que para superar – se pode remeter à inscrição augusteia de Priene (9 a. C.), na qual se depara uma legenda relida pelo cristianismo («salvador, paz, ecumene, evangelho»): talvez «os sonhos secretos e confusos da humanidade de um novo início se tenham realizado no evento de Cristo, numa realidade que só Deus podia criar». A figura dos Magos torna-se, a este respeito, emblemática: «eles representam o encaminhar-se da humanidade rumo a Cristo, inauguram uma procissão que percorre toda a história».

 

Eis-nos diante da terceira chave oferecida pelo livro. Desde o prefácio, o Papa Ratzinger recorda um dos fundamentos da actual (mas também tradicional) narratologia: na acção estão dois actores, o autor e o leitor. Sobretudo perante textos performativos e não meramente informativos, como são os religiosos, o mero movimento «centrípeto» («o que eles dizem in se») deve conjugar-se com um percurso «centrífugo», que chega até à periferia do hoje («o que eles dizem per me»). É nesta base que as páginas de Bento XVI estão constantemente ornadas de interpelações dirigidas ao leitor, um pouco como sugeria Flaubert, para o qual ler não deve somente divertir ou instruir, mas deve ser também guia para viver.

Assim, para exemplificar, a relação entre fé e política é retomada no seu duplo perfil: «Às vezes, no curso da história, os poderosos deste mundo atraem a si o reino de Deus; mas é precisamente então que ele se coloca em perigo: eles querem ligar o seu poder ao de Jesus, e assim deformam o seu reino, ameaçando-o. Ou então, ele é submetido à perseguição insistente por parte dos dominadores que não toleram reino algum e desejam eliminar o rei sem poder, cujo poder misterioso, todavia, eles temem». Ou ainda, eis a aplicação da tragédia das crianças massacradas por Herodes sobre a qual paira a lamentação materna da Raquel bíblica: «Na nossa época histórica permanece actual o clamor das mães a Deus, mas ao mesmo tempo a ressurreição de Jesus reforça-nos na esperança da verdadeira consolação».

 

Há um quarto e último critério, corolário do precedente e aparentemente formal. Contudo, ele revela-se uma verdadeira e própria chave hermenêutica, na consciência de que o meio linguístico é um instrumento interpretativo relevante. Referimo-nos ao estilo adoptado por Ratzinger–Bento XVI na sua análise destes textos evangélicos. Ao contrário de muitos teólogos que se envolvem no manto da autoreferencialidade linguística, estriada de obscuridade esotérica e oracular, ininteligível para «quem não conhece a Lei» (Jo 7, 49), ele recorre a uma linguagem sempre límpida, essencial, incisiva e até humilde («até agora não encontrei uma explicação plenamente convincente disto»), como é típico também da sua pessoa. Prima est eloquentiae virtus perspicuitas, ensinava o mestre de retórica Quintiliano, convencido de que a limpidez do discurso era a primeira virtude da eloquência. Ratzinger põe em prática o princípio que Wittgenstein cunhou (mas pouco seguido) no seu Tractatus logico-philosophicus: «Tudo o que se pode dizer, pode-se dizer claramente»; e também o grande orador São Bernardino de Sena advertia que «quem fala claro, tem o espírito claro». Esta virtude, por outro lado, é requerida pelo próprio objecto daqueles 180 versículos, que têm no centro um Menino que nasce de «uma jovem mulher desconhecida, numa pequena cidade desconhecida, numa casa privada desconhecida. O sinal da Nova Aliança é a humildade, o escondimento».

 

Ao nosso simples e essencial mapa de leitura do escrito ratzingeriano com as quatro coordenadas fundamentais indicadas, gostaríamos de acrescentar de modo totalmente marginal um apêndice. Bento XVI, como teve ocasião de confirmar também na homilia de encerramento do recente Sínodo dos Bispos sobre a nova evangelização, gosta muito da iniciativa do «Átrio dos gentios». Pois bem, gostaríamos de abrir idealmente um átrio ao redor dos Evangelhos da infância de Jesus, evocando um não-crente genuíno, o escritor e filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre. Era o Natal de 1940 e no Stalag XII D de Trévis, onde era prisioneiro, foi solicitado pelos seus companheiros cristãos de prisão para compor uma espécie de representação sacra. Assim, elaborou o seu primeiro texto teatral, Bariona ou o filho do trovão.

Neste texto, num determinado ponto, entrava em cena Maria que tinha acabado de dar à luz o Menino Jesus e, como todas as mães, estava a contemplá-lo com ternura, consciente do carácter único da sua experiência. Eis algumas linhas verdadeiramente surpreendentes daquela obra composta por um autor de nítido calibre «gentio». «Cristo é seu filho, carne da sua carne e fruto do seu ventre. Ela trouxe-o durante nove meses e dar-lhe-á o peito e o seu leite tornar-se-á o sangue de Deus (…). Ela sente ao mesmo tempo que Cristo é seu filho, o seu menino, e que ele é Deus. Olha para ele e pensa: "Este Deus é meu filho. Esta carne divina é a minha carne. Ele é feito de mim, tem os meus olhos e esta forma da sua boca é a forma da minha. Ele parece-se comigo. É Deus e parece-se comigo!". Nenhuma mulher teve deste modo o seu Deus só para si. Um Deus pequenino que se pode pegar ao colo e cobrir de beijos, um Deus terno que sorri e respira, um Deus que se pode tocar e vive».

 

 

 

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial