A PALAVRA DO PAPA

O BATISMO DO SENHOR

 

 

 

O Santo Padre presidiu na manhã do passado domingo 13 de Janeiro à Concelebração eucarística na Capela Sistina, na Festa do Batismo do Senhor, durante a qual administrou o Sacramento do Batismo a 20 recém-nascidos, filhos de funcionários do Vaticano.

Damos a seguir a homilia pronunciada na Missa, celebrada no antigo altar da Capela Sistina.

Ao querer receber o batismo de penitência e de conversão de João, Jesus mostra que, com a Incarnação, se solidariza com toda a humanidade pecadora, aceitando o sofrimento purificador da Paixão e Morte na Cruz, para com a Ressurreição e Ascensão perdoar o pecado original contraido e os pecados pessoais cometidos de quem queira receber o novo batismo, tornando-se filho de Deus e capaz de receber a vida divina.

 

 

Queridos irmãos e irmãs,

 

A alegria surgida na celebração do Santo Natal encontra hoje cumprimento na festa do Batismo do Senhor. A esta alegria vem acrescentar-se um outro motivo para nós que estamos aqui reunidos: no sacramento do Batismo que daqui a pouco administrarei a estes recém-nascidos manifesta-se de fato a presença viva e operante do Espírito Santo que, enriquecendo a Igreja com novos filhos, a vivifica e a faz crescer, e com isso não podemos deixar de nos alegrarmos. Desejo dirigir uma especial saudação a vós, queridos pais, padrinhos e madrinhas, que hoje testemunhais a vossa fé pedindo o Batismo para estas crianças, para que sejam geradas à vida nova em Cristo e comecem a fazer parte da comunidade dos crentes.

O relato evangélico do batismo de Jesus, que hoje escutámos segundo a redacção de São Lucas, mostra o caminho de abaixamento e de humildade que o Filho de Deus escolheu livremente para aderir ao desígnio do Pai, para ser obediente à sua vontade de amor para com o homem em tudo, até ao sacrifício da cruz. Chegado à idade adulta, Jesus dá início ao seu ministério público dirigindo-se para o rio Jordão para receber de João um batismo de penitência e de conversão. Acontece aquilo que aos nossos olhos poderia parecer paradoxal. Jesus necessita de penitência e de conversão? Certamente que não. No entanto, precisamente Aquele que é sem pecado coloca-se entre os pecadores para se fazer batizar, para cumprir este gesto de penitência; o Santo de Deus une-se a todos os que se reconhecem necessitados de perdão e pedem a Deus o dom da conversão, isso é, a graça de regressarem a Ele de todo o coração, para serem totalmente seus. Jesus quer colocar-se do lado dos pecadores, fazendo-se solidário com eles, exprimindo a proximidade de Deus. Jesus mostra-se solidário conosco, com o nosso esforço de nos convertermos, de deixar os nossos egoísmos, de nos separarmos dos nossos pecados, para nos dizer que, se o aceitamos na nossa vida, Ele é capaz de levantar-nos e de nos conduzir a Deus Pai. E esta solidariedade de Jesus não é, por assim dizer, um simples exercício da mente e da vontade. Jesus imergiu-se realmente na nossa condição humana, viveu-a até ao fim, exceto no pecado, e é capaz de entender a nossa fraqueza e fragilidade. Por isso, Ele move-se à compaixão, escolhe “padecer com os homens”, fazer-se penitente junto a nós. Esta é a obra de Deus que Jesus quer cumprir: a missão divina de curar quem está ferido e dar o remédio a quem está doente, de tomar sobre si o pecado do mundo.

O que acontece no momento em que Jesus se deixa batizar por João? Diante deste ato de amor humilde da parte do Filho de Deus, abrem-se os céus e manifesta-se visivelmente o Espírito Santo sob a forma de pomba, enquanto uma voz do alto exprime a complacência do Pai, que reconhece o Filho unigénito, o Amado. Trata-se de uma verdadeira manifestação da Santíssima Trindade, que dá testemunho da divindade de Jesus, do seu ser o Messias prometido, Aquele que Deus mandou para libertar o seu povo, para que seja salvo (cfr. Is 40, 2). Realiza-se assim a profecia de Isaías que escutámos na Primeira Leitura: o Senhor Deus vem com poder para destruir as obras do pecado e o seu braço exerce o domínio para desarmar o Maligno; mas tenhamos presente que este braço é o braço estendido na cruz e que o poder de Cristo é o poder d’Aquele que sofre por nós: este é o poder de Deus, diferente do poder do mundo; assim vem Deus com poder para destruir o pecado. Realmente Jesus age como o Bom Pastor que apascenta o rebanho e o reúne, para que não se disperse (cfr. Is 40, 10-11), e oferece a sua própria vida para que tenha vida. É pela sua morte redentora que o homem é libertado do domínio do pecado e é reconciliado com o Pai; é pela sua ressurreição que o homem é salvo da morte eterna e é feito vitorioso sobre o Maligno.

Queridos irmãos e irmãs, o que acontece no Batismo que daqui a pouco administrarei aos vossos filhinhos? Acontece precisamente isto: serão unidos de modo profundo e para sempre com Jesus, imersos no mistério desta sua potência, deste seu poder, isto é, no mistério da sua morte, que é fonte de vida, para participar na sua ressurreição, para renascer para uma vida nova. Eis o prodígio que hoje se repete também para os vossos filhinhos: recebendo o Batismo, eles renascem como filhos de Deus, participantes da relação filial que Jesus tem com o Pai, capazes de se dirigirem a Deus chamando-o com plena confiança: “Abbá, Pai”. Também sobre os vossos filhinhos se abriu o céu, e Deus diz: estes são os meus filhos, filhos da minha complacência. Inseridos nesta relação e libertados do pecado original, eles tornam-se membros vivos do único corpo que é a Igreja e são capazes de viver em plenitude a sua vocação à santidade, de modo a poderem herdar a vida eterna, obtida pela ressurreição de Jesus

Queridos pais, ao pedirdes o Batismo para os vossos filhinhos, vós manifestais e testemunhais a vossa fé, a alegria de serdes cristãos e de pertencerdes à Igreja. É a alegria que provém da consciência de ter recebido um grande dom de Deus, precisamente a fé, um dom que nenhum de nós pôde merecer, mas que nos foi dado gratuitamente e ao qual respondemos com o nosso “sim”. É a alegria de nos reconhecermos filhos de Deus, de nos descobrirmos confiados às suas mãos, de nos sentirmos acolhidos num abraço de amor, do mesmo modo que uma mãe segura e abraça o seu filhinho. Esta alegria, que orienta o caminho de todo o cristão, baseia-se numa relação pessoal com Jesus, uma relação que orienta toda a existência humana. É Ele de fato o sentido da nossa vida, Aquele no qual vale a pena ter fixo o olhar, para ser iluminados pela sua Verdade e poder viver em plenitude. O caminho de fé que hoje começa para estas crianças fundamenta-se, portanto, numa certeza, na experiência de que não há nada maior do que conhecer Cristo e comunicar aos outros a amizade com Ele; somente nesta amizade se revelam realmente as grandes potencialidades da condição humana e podemos experimentar o que é belo e o que liberta (crf. Homilia na Santa Missa do início do pontificado, 24 de abril de 2005). Quem fez esta experiência não está disposto a renunciar à sua fé por nada deste mundo.

A vós, queridos padrinhos e madrinhas, cabe a importante tarefa de apoiar e ajudar a obra educativa dos pais, estando ao lado deles na transmissão da verdade da fé e no testemunho dos valores do Evangelho, de fazer crescer estas crianças numa amizade cada vez mais profunda com o Senhor. Sabei sempre oferecer-lhes o vosso bom exemplo, através do exercício das virtudes cristãs. Não é fácil manifestar abertamente e sem compromissos aquilo em que se crê, especialmente no contexto em que vivemos, perante uma sociedade que considera frequentemente fora de moda e ultrapassados aqueles que vivem da fé em Jesus. Na esteira desta mentalidade, pode haver também entre os cristãos o risco de entenderem a relação com Jesus como limitativa, como algo que impede a própria realização pessoal; “Deus é visto como o limite da nossa liberdade, um limite a eliminar a fim de que o homem possa ser totalmente ele mesmo” (A Infância de Jesus, 101). Mas não é assim! Esta visão mostra não ter entendido nada da relação com Deus, porque precisamente à medida que se anda no caminho da fé, se compreende como Jesus exerce em nós a ação libertadora do amor de Deus, que nos faz sair do nosso egoísmo, de estar debruçados sobre nós mesmos, para nos conduzir a uma vida plena, em comunhão com Deus e aberta aos outros. «“Deus é amor; quem permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (1 Jo 4, 16). Estas palavras da Primeira Carta de João exprimem com singular claridade o centro da fé cristã: a imagem cristã de Deus e também a consequente imagem do homem e do seu caminho” (Enc. Deus caritas est, 1).

A água com a qual estas crianças serão assinaladas em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo imergi-las-á naquela “fonte” de vida que é o próprio Deus e que as tornará seus verdadeiros filhos. E a semente das virtudes teologais, infundidas por Deus, a fé, a esperança e a caridade, semente que hoje é posta no coração delas pelo poder do Espírito Santo, deverá ser sempre alimentada pela Palavra de Deus e pelos Sacramentos, de modo que estas virtudes do cristão possam crescer e atingir a plena maturidade, até fazer de cada uma delas um verdadeiro testemunho do Senhor. Enquanto invocamos sobre estes pequeninos a efusão do Espírito Santo, confiamo-los à proteção da Virgem Santa; ela os guarde sempre com a sua materna presença e os acompanhe em cada momento das suas vidas. Amém.

 

 

 

 

 

 


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