ANO DA FÉ

ABERTURA DO ANO DA FÉ

 

Bento XVI

 

 

 

O Santo Padre presidiu a Missa de abertura do Ano da Fé na Praça de São Pedro, no dia 11 de Outubro passado, durante o Sínodo dos Bispos para a nova evangelização e transmissão da fé.

Na sua homilia, Bento XVI situou o Ano da Fé em relação ao Concílio Vaticano II. Passados 50 anos da sua abertura, torna-se necessário aprofundar e viver a fé em Deus através de Cristo e dar dela testemunho aos homens de hoje, como era a finalidade do Concílio.

    Subtítulos da Redacção da CL.

 

 

Venerados Irmãos,

Queridos irmãos e irmãs!

 

Hoje, com grande alegria, 50 anos depois da abertura do Concílio Vaticano II, damos início ao Ano da fé. Tenho o prazer de saudar a todos vós, especialmente Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca de Constantinopla, e Sua Graça Rowan Williams, Arcebispo de Cantuária. Saúdo também, de modo especial, os Patriarcas e os Arcebispos Maiores das Igrejas Orientais católicas, e os Presidentes das Conferências Episcopais. Para recordar o Concílio, que alguns de nós aqui presentes – a quem saúdo com afecto especial – tivemos a graça de viver em primeira pessoa, esta celebração foi enriquecida com alguns sinais específicos: a procissão inicial, que quis recordar a memorável procissão dos Padres conciliares quando entraram solenemente nesta Basílica; a entronização do Evangeliário, cópia do que foi utilizado durante o Concílio; a entrega das sete Mensagens finais do Concílio e do Catecismo da Igreja Católica, que farei no termo desta celebração, antes da Bênção final. Estes sinais, não só nos fazem recordar, mas oferecem-nos também a possibilidade de ir para além da comemoração. Eles convidam-nos a entrar mais profundamente no movimento espiritual que caracterizou o Vaticano II, para o fazer nosso e levá-lo avante no seu verdadeiro sentido. E este sentido foi e ainda é a fé em Cristo, a fé apostólica, animada pelo impulso interior que leva a comunicar Cristo a cada homem e a todos os homens, no peregrinar da Igreja nos caminhos da história.

 

Fé em Deus através de Cristo

O Ano da fé que inauguramos hoje está ligado coerentemente a todo o caminho da Igreja nos últimos 50 anos: desde o Concílio, passando pelo Magistério do Servo de Deus Paulo VI, que proclamou um Ano da fé, até chegar ao Grande Jubileu de 2000, com o qual o Beato João Paulo II propôs novamente a toda a humanidade Jesus Cristo como único Salvador, ontem, hoje e sempre. Entre estes dois Pontífices, Paulo VI e João Paulo II, houve uma profunda e total convergência na visão de Cristo como centro do cosmos e da história, e no ardente desejo apostólico de anunciá-lo ao mundo. Jesus é o centro da fé cristã. O cristão crê em Deus através de Jesus Cristo, que nos revelou o seu rosto. Ele é o cumprimento das Escrituras e o seu intérprete definitivo. Jesus Cristo não é apenas objecto da fé, mas, como diz a Carta aos Hebreus, é «aquele que dá origem à fé e a leva ao seu cumprimento» (Heb 12,2).

O Evangelho de hoje diz-nos que Jesus Cristo, consagrado pelo Pai no Espírito Santo, é o verdadeiro e perene sujeito da evangelização. «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me consagrou com a unção para anunciar a Boa-Nova aos pobres» (Lc 4,18). Esta missão de Cristo, este seu movimento continua no espaço e no tempo, atravessa os séculos e os continentes. É um movimento que parte do Pai e, com a força do Espírito, impele a levar a Boa-Nova aos pobres de todos os tempos – pobres no sentido material e espiritual. A Igreja é o instrumento primeiro e necessário desta obra de Cristo, uma vez que está unida a Ele como o corpo à cabeça. «Como o Pai me enviou, também eu vos envio» (Jo 20,21). Estas foram as palavras do Senhor Ressuscitado aos seus discípulos; e, soprando sobre eles, acrescentou: «Recebei o Espírito Santo» (v. 22). É Deus o sujeito principal da evangelização do mundo, através de Jesus Cristo; mas o próprio Cristo quis transmitir à Igreja a sua missão, e fê-lo e continua a fazê-lo até ao fim dos tempos infundindo o Espírito Santo nos discípulos, o mesmo Espírito que repousou sobre Ele e n’Ele permaneceu durante toda a vida terrena, dando-lhe a força de «proclamar aos cativos a libertação e aos cegos a vista; de libertar os oprimidos e de proclamar um ano da graça do Senhor» (Lc 4,18-19). 

 

A fé de sempre aprofundada e apresentada ao homem de hoje

O Concílio Vaticano II não quis colocar a fé como tema de um documento específico. E, no entanto, o Concílio esteve inteiramente animado pela consciência e pelo desejo de, por assim dizer, penetrar novamente no mistério cristão, para poder propô-lo de novo e eficazmente ao homem contemporâneo. Neste sentido, assim se exprimia o Servo de Deus Paulo VI, dois anos depois da conclusão do Concílio: «Se o Concílio não trata expressamente da fé, fala dela a cada página, reconhece o seu carácter vital e sobrenatural, pressupõe-na íntegra e forte, e constrói sobre ela as suas doutrinas. Bastaria recordar [algumas] afirmações do Concílio (...) para dar-se conta da importância fundamental que o Concílio, coerente com a tradição doutrinal da Igreja, atribui à fé, à verdadeira fé, aquela que tem a Cristo como fonte e o Magistério da Igreja como canal» (Catequese na audiência geral de 8-III-1967). Assim falou Paulo VI, em 1967.

Agora, porém, temos de voltar para aquele que convocou o Concílio Vaticano II e que o inaugurou: o Beato João XXIII. No discurso de abertura, ele apresentou a finalidade principal do Concílio nestes termos: «O que mais importa ao Concílio Ecuménico é isto: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz. (...) Portanto, o objectivo principal deste Concílio não é a discussão sobre este ou aquele tema da doutrina... Para isso, não havia necessidade de um Concílio... É necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada de forma a responder às exigências do nosso tempo» (AAS 54 [1962], 790. 791-792). Assim falou o Papa João XIII, na inauguração do Concílio.

À luz destas palavras, compreende-se aquilo que eu próprio pude então experimentar: durante o Concílio havia uma tensão emocionante, em relação à tarefa comum de fazer resplandecer a verdade e a beleza da fé no hoje do nosso tempo, sem sacrificá-la às exigências do presente, nem mantê-la presa ao passado: na fé ecoa o eterno presente de Deus, que transcende o tempo, e contudo pode ser acolhido por nós somente no nosso irrepetível hoje. Por isso, julgo que a coisa mais importante, especialmente numa ocasião tão significativa como a presente, é reavivar em toda a Igreja aquela tensão positiva, aquele desejo ardente de anunciar novamente Cristo ao homem contemporâneo. Mas, para que este impulso interior à nova evangelização não seja só um ideal e não peque de confusão, é necessário que ele se apoie numa base concreta e precisa, e esta base são os documentos do Concílio Vaticano II, nos quais esse impulso encontrou a sua expressão. Por isso, tenho insistido repetidamente na necessidade de regressar, por assim dizer, à «letra» do Concílio – isto é, aos seus textos –, para encontrar o seu verdadeiro espírito; e tenho repetido que a verdadeira herança do Concílio Vaticano II se encontra neles. A referência aos documentos protege dos extremos, tanto de nostalgias anacrónicas como de avanços excessivos, permitindo captar a novidade na continuidade. O Concílio não propôs nada de novo como matéria de fé, nem quis substituir aquilo que existia antes. Pelo contrário, preocupou-se em fazer com que a mesma fé continue a ser vivida no presente, continue a ser uma fé viva num mundo em mudança.

Se nos colocarmos em sintonia com a orientação autêntica que o Beato João XXIII quis dar ao Vaticano II, poderemos actualizá-la ao longo deste Ano da fé, no interior do único caminho da Igreja que quer aprofundar continuamente a bagagem da fé que Cristo lhe confiou. Os Padres conciliares queriam voltar a apresentar a fé de uma forma eficaz; e, se se abriram com confiança ao diálogo com o mundo moderno, foi precisamente porque estavam seguros da sua fé, da rocha firme em que se apoiavam. Contudo, nos anos seguintes, muitos acolheram acriticamente a mentalidade dominante, pondo em discussão as próprias bases do depositum fidei, que infelizmente já não sentiam como próprias na sua verdade.

 

Transmitir a fé ao homem de hoje

 

Se hoje a Igreja propõe um novo Ano da fé e a nova evangelização, não é para prestar honras a uma efeméride, mas porque isto é necessário, ainda mais do que há 50 anos! E a resposta a dar a esta necessidade é a mesma desejada pelos Papas e Padres do Concílio e que está contida nos seus documentos. Também a iniciativa de criar um Conselho Pontifício para a promoção da Nova Evangelização – ao qual agradeço o empenho especial para o Ano da fé – enquadra-se nessa perspectiva. Nos últimos decénios tem-se visto o avanço de uma "desertificação" espiritual. O que significava uma vida, um mundo sem Deus, já no tempo do Concílio se podia perceber por algumas páginas trágicas da história; mas agora, infelizmente, vemo-lo ao nosso redor todos os dias. É o vazio que se difundiu. Mas é precisamente a partir da experiência deste deserto, deste vazio, que podemos redescobrir a alegria de crer, a sua importância vital para nós, homens e mulheres. No deserto pode-se redescobrir o valor daquilo que é essencial para viver; assim, no mundo de hoje, são inúmeros os sinais da sede de Deus, do sentido último da vida, muitas vezes expressos de forma implícita ou negativa. E no deserto há necessidade, sobretudo, de pessoas de fé que, com as suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra Prometida, mantendo assim viva a esperança. A fé vivida abre o coração à Graça de Deus que liberta do pessimismo. Hoje, mais do que nunca, evangelizar significa testemunhar uma vida nova, transformada por Deus, indicando assim a estrada.

A primeira Leitura falou-nos da sabedoria do viajante (cf. Eclo 34, 9-13): a viagem é uma metáfora da vida, e o viajante sábio é aquele que aprendeu a arte de viver e pode compartilhá-la com os irmãos – como acontece com os peregrinos no Caminho de Santiago, ou em outros caminhos de peregrinação que, não por acaso, estão novamente em voga nestes últimos anos –. Por que tantas pessoas sentem hoje a necessidade de percorrer estes caminhos? Não será porque neles encontram, ou pelo menos intuem o sentido do nosso estar no mundo? Eis então o modo como podemos representar este Ano da fé: uma peregrinação nos desertos do mundo contemporâneo, em que se deve levar apenas o que é essencial: nem cajado, nem sacola, nem pão, nem dinheiro, nem duas túnicas – como o Senhor exorta aos Apóstolos ao enviá-los em missão (cf. Lc 9,3) –, mas sim o Evangelho e a fé da Igreja, dos quais os documentos do Concílio Vaticano II são uma expressão luminosa, assim como é também o Catecismo da Igreja Católica, publicado há 20 anos.

Venerados e queridos irmãos, no dia 11 de Outubro de 1962, celebrava-se a festa de Maria Santíssima, Mãe de Deus. A Ela lhe confiamos o Ano da fé, tal como fiz há uma semana, quando fui como peregrino a Loreto. Que a Virgem Maria brilhe sempre como estrela no caminho da nova evangelização. Que Ela nos ajude a pôr em prática a exortação do Apóstolo Paulo: «A palavra de Cristo, em toda a sua riqueza, habite em vós. Ensinai e admoestai-vos uns aos outros, com toda a sabedoria... Tudo o que fizerdes, em palavras ou obras, seja feito em nome do Senhor Jesus. Por meio dele, dai graças a Deus Pai» (Col 3,16-17). Amém.

 

 

 

 

 

 


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