3º Domingo Comum

27 de Janeiro de 2013

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Cantai ao Senhor um cântico novo, Az. Oliveira, NRMS 48

 

Salmo 95, 1.6

Antífona de entrada: Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor, terra inteira. Glória e poder na sua presença, esplendor e majestade no seu templo.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Hoje somos confrontados a colocar no centro da nossa vida a Palavra de Deus: ela é, verdadeiramente, o centro à volta do qual se constrói a experiência cristã. Essa Palavra não é uma doutrina abstrata, para deleite dos intelectuais; mas é, acima de tudo, um anúncio libertador que Deus dirige a todos os homens e que encarna em Jesus e nos cristãos.

 

Oração colecta: Deus todo-poderoso e eterno, dirigi a nossa vida segundo a vossa vontade, para que mereçamos produzir abundantes frutos de boas obras, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Na primeira leitura, exemplifica-se como a Palavra deve estar no centro da vida comunitária e como ela, uma vez proclamada, é geradora de alegria e de festa.

 

Neemias 8, 2-4a.5-6.8-10

Naqueles dias, 2o sacerdote Esdras trouxe o Livro da Lei perante a assembleia de homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. 3Desde a aurora até ao meio dia, fez a Leitura do Livro, no largo situado diante da Porta das Águas, diante dos homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Todo o povo ouvia atentamente a Leitura do Livro da Lei. 4aO escriba Esdras estava de pé num estrado de madeira feito de propósito. Estando assim em plano superior a todo o povo, 5Esdras abriu o Livro à vista de todos; e quando o abriu, todos se levantaram. 6Então Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todos responderam, erguendo as mãos: «Amen! Amen!». E prostrando-se de rosto por terra, adoraram o Senhor. 8Os levitas liam, clara e distintamente, o Livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. 9Então o governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras, bem como os levitas, que ensinavam o povo, disseram a todo o povo: «Hoje é um dia consagrado ao Senhor vosso Deus. Não vos entristeçais nem choreis». – Porque todo o povo chorava, ao escutar as palavras da Lei –. 10Depois Neemias acrescentou: «Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza».

 

Estamos num dos momentos mais expressivos da vida do povo eleito, após o desterro de Babilónia, uma das pedras miliárias da sua história: marca a reconstrução da vida da nação, a instauração oficial do judaísmo propriamente dito, em que o acento já não se põe tanto no Templo, mas na Lei, por isso a sua leitura não aparece feita no lugar sagrado, mas «no largo situado diante da Porta das Águas» (v. 3).

2 «Esdras», o grande organizador do Povo de Deus após o desterro, em pleno séc. V a. C., como comunidade judaica, uma fraternidade religiosa, uma verdadeira «igreja» estruturada na Lei de Moisés. «O primeiro dia sétimo mês, isto é, do mês correspondente a Setembro-Outubro, chamado «Tisri»; este dia correspondia ao início dos sete dias da festa dos Tabernáculos (parece que coincidia com a festa do Ano Novo), que o capítulo 9 deixa ver como anterior à festa da Expiação, um artifício para mostrar como a leitura da Lei levou à penitência, ligada ao Yôm Kippur (cf. Lv 23, 26-32).

9 «Todo o povo chorava», naturalmente, ao tomar consciência bem clara de que tinha quebrantado a Lei, merecendo os castigos nela cominados. De qualquer modo, a contrição não devia impedir a alegria, antes pelo contrário, pois era a ocasião asada para uma solene renovação da aliança (cf. capítulo 10).

 

Salmo Responsorial     Sl 18 B (19), 8.9.10.15 (R. Jo 6, 63c)  

 

Monição: O salmista recorda-nos que a Palavra de Deus é espírito e vida e, por isso, se torna viva e eficaz!

 

Refrão:        As vossas palavras, Senhor,

                     são espírito e vida.

 

A lei do Senhor é perfeita,

ela reconforta a alma;

as ordens do Senhor são firmes,

dão sabedoria aos simples.

 

Os preceitos do Senhor são rectos

e alegram o coração;

Os mandamentos do Senhor são claros

e iluminam os olhos.

 

O temor do Senhor é puro

e permanece eternamente;

os juízos do Senhor são verdadeiros,

todos eles são rectos.

 

Aceitai as palavras da minha boca

e os pensamentos do meu coração

estejam na vossa presença:

Vós, Senhor, sois o meu amparo e redentor.

 

Segunda Leitura*

 

Monição: A segunda leitura apresenta a comunidade gerada e alimentada pela Palavra libertadora de Deus: é uma família de irmãos, onde os dons de Deus são repartidos e postos ao serviço do bem comum, numa verdadeira comunhão e solidariedade.

 

* O texto entre parêntesis pertence à forma longa e pode ser omitido.

 

Forma longa: 1 Coríntios 12, 12-30;    forma breve: 1 Coríntios 12, 12-14.27

Irmãos: 12Assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo. 13Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito para constituirmos um só corpo e a todos nos foi dado a beber um só Espírito. 14De facto, o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos.

 [15Se o pé dissesse: «Uma vez que não sou mão, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. 16E se a orelha dissesse: «Uma vez que não sou olho, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. 17Se o corpo inteiro fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfacto? 18Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros, segundo a sua vontade. 19Se todo ele fosse um só membro, que seria do corpo? 20Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. 21O olho não pode dizer à mão: «Não preciso de ti»; nem a cabeça dizer aos pés: «Não preciso de vós». 22Pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; 23os que nos parecem menos honrosos cuidamo-los com maior consideração; e os nossos membros menos decorosos são tratados com maior decência: 24os que são mais decorosos não precisam de tais cuidados. Deus organizou o corpo, dispensando maior consideração ao que dela precisa, 25para que não haja divisão no corpo e os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros. 26Deste modo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele.]

27Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte.

[28Assim, Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lugar apóstolos, em segundo profetas, em terceiro doutores. Vêm a seguir os dons dos milagres, das curas, da assistência, de governar, de falar diversas línguas. 29Serão todos apóstolos? Todos profetas? Todos doutores? Todos farão milagres? 30Todos terão o poder de curar? Todos falarão línguas? Terão todos o dom de as interpretar?]

 

Continuamos hoje a leitura do domingo anterior, fazendo a apologia da unidade da Igreja dentro da legítima diversidade: «Assim como o corpo...». A comparação não é original, mas da literatura profana. S. Paulo adapta-a maravilhosamente à Igreja, concebida como um corpo onde não pode haver rivalidades e divisão: «Vós sois Corpo de Cristo» (v. 27). Já está aqui latente a doutrina do Corpo Místico explanada em Colossenses e Efésios. No entanto, ainda não se considera de facto a Igreja universal, o Corpo de Cristo (com artigo); apenas se considera que os cristãos de Corinto são um organismo – «corpo» (sem artigo!) – dependente de Cristo e com a mesma vida de Cristo (v. 27).

13 «E a todos nos foi dado beber um único Espírito». Os exegetas, tendo em conta que no v. anterior já se tinha falado do Baptismo, pensam que pode haver aqui uma referência ao Sacramento da Confirmação, pois que então estes Sacramentos se costumavam receber juntos (cf. Act 19, 5-61).

27 «Seus membros, cada um por sua parte». A Vulgata diz: «membros uns dos outros», devido a uma confusão de palavras gregas: «melos» (membro) por «meros» (parte).

 

Aclamação ao Evangelho          Lc 4, 18

 

Monição: No Evangelho, apresenta-se Cristo como a Palavra que se faz pessoa no meio dos homens, a fim de levar a libertação e a esperança às vítimas da opressão, do sofrimento e da miséria.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação-2, F. da Silva, NRMS 50-51

 

O Senhor enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres,

a proclamar aos cativos a redenção.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 1, 1-4; 4, 14-21

1Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, 2como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, 3também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, 4para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado.

14Naquele tempo, Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. 15Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. 16Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. 17Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: 18«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos 19e a proclamar o ano da graça do Senhor». 20Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. 21Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».

 

A leitura faz preceder o início da pregação de Jesus (4, 14) do célebre prólogo do III Evangelho (1, 1-4) da autoria de Lucas, que se mostra como um historiador sério e um bom cultor da língua grega de cunho clássico.

1 «Muitos». Referência à grande diversidade de escritores, em que se devem incluir os escritos inspirados: um primitivo Evangelho de Mateus e o Evangelho de S. Marcos, fontes que utilizou abundantemente. Sobre outros escritos prévios nada de certo sabemos, mas a crítica interna dos Evangelhos faz-nos entrever nos Sinópticos a preexistência de pequenos fragmentos que deixaram rastos na falta de conexão entre muitas perícopes e no agrupamento artificial de vários episódios sobre um mesmo tema. É natural que tais documentos parciais e provisórios se tenham perdido, ao aparecerem os Evangelhos canónicos.

«Factos que se realizaram entre nós». O Evangelho transmite-nos factos realmente acontecidos e muito próximos, daquela mesma época, por isso diz: «entre nós».

2 «Como no-los transmitiram...». S. Lucas não é um discípulo directo de Cristo, mas conhece com verdade os acontecimentos que vai referir através de testemunhas do máximo valor, por um lado, «testemunhas oculares» e, por outro, «ministros da palavra», isto é, do Evangelho; os mesmos que tinham a missão de pregar tinham sido antes testemunhas oculares. Entre as testemunhas oculares, como fonte de informação de Lucas, devem-se pôr os Apóstolos e, com toda a probabilidade, a SSª Virgem, as Santas Mulheres, os «irmãos de Jesus» e outras pessoas que conviveram com Ele.

3 «Também eu resolvi… escrevê-las». Isto em nada contradiz a acção de Deus ao inspirar S. Lucas, uma vez que Ele pode influir na inteligência e na vontade do homem, mesmo sem que este dê conta desse influxo. «Por ordem» (temos no original grego kathexês, que a tradução litúrgica omitiu, talvez uma errata a corrigir). Embora o seu Evangelho não seja primariamente uma biografia sistemática – uma crónica – com todos os dados possíveis sobre a vida de Jesus, também não se limita a um mero ensinamento doutrinal sobre a mensagem de Jesus. S. Lucas pretende transmitir-nos esta mensagem dentro dum vasto quadro histórico de acontecimentos, mas sem a preocupação duma minúcia cronológica maior do que aquela que as suas fontes lhe forneciam. Há, porém, como faz ver, o cuidado de uma certa ordem lógica.

3-4 «Depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens». S. Lucas não é um, mero «evangelista» que se preocupe só com transmitir uma mensagem, ele tem uma preocupação cuidadosa de tudo investigar desde o início e com um fim muito concreto, a saber, que o leitor possa «ter um conhecimento seguro do que lhe foi ensinado». É sabido que Lucas tem uma visão teológica própria; é um teólogo da história, com mentalidade de historiador; de modo nenhum um criador estórias. O pregador do Evangelho avança de mãos dadas com o historiador e o apologista.

«Ilustre Teófilo». O adjectivo faz supor que se trata de um cristão de elevada condição (um mecenas?), a pessoa a quem Lucas dedica os seus dois livros. O título de «ilustre» ou «excelentíssimo» usava-se para a nobreza romana e para pessoas com altos cargos na administração do Estado.

4, 14 É aqui que começa S. Lucas a narrar o ministério de Jesus com a pregação na Galileia. «Com a força do Espírito», o mesmo é dizer que com a força e poder divino que estavam em Jesus, dada a sua natureza divina. Há em S. Lucas, uma constante referência ao Espírito Santo, que é um «leitmotiv» desta obra e de Actos. Com efeito, estamos nos tempos messiânicos, e Jesus é o Messias e, como tal, portador do «Espírito do Senhor» (v. 18).

16-21 «Foi então a Nazaré». Não se sabe se S. Lucas, nesta passagem, narra a mesma visita à sua terra natal contada pelos outros evangelistas (cf. Mt 13, 54-58; Mc 6, 1-6), ou se outra, ou se funde duas visitas num único relato. De qualquer modo, ao apresentá-la logo no início da vida pública, não teve em vista uma simples ordem cronológica, mas sim uma ordem lógica, melhor dito, teológica, com o intuito de começar por fazer ver que Jesus é o Messias, aqui o «Pregoeiro (mebasser) de boas notícias (besorá, evangelho), sobre quem repousa o Espírito Santo, segundo o oráculo de Isaías (Is 61, 1-2). «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura» (v. 21) equivale a dizer «Eu sou esse pregoeiro de boas notícias aos pobres». J. Dupont diz que, com este relato inicial, Lucas pretende, logo de entrada, sugerir a resposta a três questões fundamentais: quem é Jesus, qual a sua missão, e a quem se destina esta sua missão.

18 «O Espirito… me ungiu». A unção no A. T. era para pessoas que tinham uma missão especial dada por Deus: o rei (1 Sam 9, 16; 2 Sam 5, 1-13), o sacerdote (Ex 29, 7; 40, 15), o profeta (para este, pode ser em sentido simbólico: Is 61, 1; Ez 16, 9), sendo assim o messias davídico o ungido por excelência. A Teologia explicita o símbolo da unção recebida por Jesus no momento da Incarnação: designa em especial a chamada «união hipostática», em que a natureza humana é assumida pela Pessoa do Verbo. Note-se que de Jesus não se diz, como dos Santos, que recebeu graças e dons do Espírito Santo, mas diz-se que foi ungido, para indicar a plenitude de graça recebida com a união hipostática, de cuja plenitude todos nós recebemos (cf. Jo 1, 16).

«Os pobres», aparecem explicitados pelo paralelismo da segunda parte do v. 18: «os cativos, os cegos, os oprimidos». Trata-se duma noção desenhada na pregação dos profetas (cf. Sam 2, 3), fortemente espiritualizada – a dos anawim (pobres) – que é retomada por Jesus (cf. Mt 5, 3; 18, 9-14). Jesus não se dirige a uma determinada classe ou condição social, mas sobretudo àqueles que têm uma determinada atitude religiosa de indigência, humildade e abertura perante Deus, própria de quem confia na sua misericórdia, e não nos méritos ou recursos pessoais. Com efeito, o sentido desta passagem não se esgota na preocupação de Jesus pelos «pobres», que são os «presos», os «cegos», os «oprimidos», no sentido de miséria física, pois Jesus, podendo fazê-lo, não curou todos os doentes, nem resolveu todos os problemas de miséria. Jesus e a sua Igreja (cf. Lumen Gentium, n.° 8) preocupam-se pelos necessitados, mas a sua missão não se reduz à beneficência e promoção humana, nem sequer se pode centrar nela; o seu objectivo é a redenção da miséria do pecado, causa de todos os males, é a libertação da escravidão do demónio e da morte eterna.

19 «Um ano favorável». Alusão clara ao ano jubilar judaico de 50 em 50 anos (Lv 25, 8-10), em que ficavam libertos os homens e as terras que por necessidade tinham sido vendidos. Esta libertação material era uma espécie de utopia – não está suficientemente documentada a sua prática na história de Israel – que simboliza e prefigura a libertação espiritual e redenção trazida pelo Messias.

 

Sugestões para a homilia

 

1. “Ignorar as Escrituras, é ignorar o próprio Cristo”.

2. “Todo o povo chorava, ao escutar as palavras da Lei” (Ne 8, 9)

3. “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 21)

 

1. “Ignorar as Escrituras, é ignorar o próprio Cristo”.

Foi pedido ao Cardeal Daneels de Bruxelas que fizesse uma avaliação do Concílio Vaticano II, quarenta anos depois, a partir dos documentos publicados. E, ao falar do documento Dei Verbum, em que o Concílio se debruçou sobre a importância da Palavra de Deus na vida da Igreja, ele dizia que, apesar do apreço pela Bíblia tem crescido por toda a parte, a Igreja Católica, na base, entre os crentes, ainda não é uma Igreja bíblica; que a Escritura não entrou ainda no coração dos cristãos. E creio que tem razão.

Embora haja cristãos empenhados em que a Bíblia lhes diz alguma coisa, para alguns a única vez que ouvem alguma leitura bíblica é só quando vão à Missa, outros vão fazendo esforços por ler algum livro da Bíblia em doses homeopáticas, mas, de um modo geral ainda estamos longe da impressionante exclamação do povo no fim de escutar os livros da Lei, que escutávamos na primeira leitura: “Ámen, Ámen”. A palavra “Ámen” que dizemos sempre no final das orações é uma afirmação de fé muito importante. Ela significa “Assim seja”. Uma palavra que expressa louvor, aclamação, mas é também uma oração para que se cumpram as promessas feitas por Deus.

São Jerónimo, o grande tradutor da Bíblia para o latim, a chamada Vulgata, isto no século IV, disse “que quem ignora as Escrituras ignora o próprio Cristo”. E se virmos bem, é a grande lição do Evangelho: Jesus Cristo dá sentido às Escrituras, mais, cumpre-as.

2. “Todo o povo chorava, ao escutar as palavras da Lei” (Ne 8, 9)

Mas gostava de falar um pouco sobre a primeira leitura uma vez que o Livro de Esdras e Neemias só aparece de três em três anos neste domingo. Esta passagem relata-nos o que aconteceu no século VI antes de Cristo, depois do exílio da Babilónia, levado a cabo por Nabucodonosor. Um outro rei, Ciro promulgou uma lei permitindo, a todos os que quisessem, voltar a Jerusalém para reconstruir a cidade e o Templo. E estes dois homens, Esdras, que era sumo-sacerdote, e Neemias, um judeu fiel e piedoso, foram os que impulsionaram o povo a regressar. E, depois de começarem as obras de reconstrução do Templo e de levantarem as muralhas da cidade, Esdras proclama solenemente a Lei do Senhor. É um momento emocionante para o povo. Estar na sua terra, reconstruir a sua vida. E o que é que está no centro da sua vida? Os livros da Lei. Os levitas liam os livros da Lei, outros explicavam o seu significado e o povo adorava a Palavra de Deus. O povo queria recomeçar a sua vida tendo por base a Lei do Senhor. Não choravam por medo de não cumprir, choravam de alegria porque agora podiam celebrar o Dia do Senhor, mesmo sem templo nem sinagoga eles podem reunir-se para rezar, para escutar a Palavra de Deus.

3. “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 21)

Como aconteceu no tempo de Jesus. Também ao sábado, Jesus, como qualquer judeu, vai à Sinagoga para rezar, para ouvir a Palavra de Deus. Sinagoga é uma palavra grega que significa reunião, comunidade reunida, Mais tarde é que passa a ser o local da reunião. E é o Livro da Lei que os reúne, é palavra de Deus que os congrega. E naquele sábado calhou a Jesus proclamar a leitura e explicá-la. Em São Lucas é a sua primeira pregação. E depois de ler aquela passagem de Isaías, que falava da força do Espírito Santo no Messias, a única explicação de Jesus é de que ela se cumpriu nele próprio naquele dia. O Evangelho de hoje acaba com esta frase mas depois disto há uma forte discussão na sinagoga de tal maneira que queriam atirá-lo de um monte.

Esta pregação de Jesus “Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” queria significar duas coisas: que Ele era o Messias e que a sua missão era cumprir a profecia de Isaías; este era o seu programa de vida.

Para nós cristãos que acreditamos em Jesus como o Messias falta-nos ainda uma coisa: configurarmo-nos, cada vez mais com a sua palavra. Ela é que há de ser a força para moldar a nossa vida, para nos aproximar mais de Deus e nos tornarmos mais próximos dos outros que sofrem; se quisermos, levarmos a Palavra de Deus aos outros através do nosso exemplo de vida.

São Paulo na carta aos cristãos de Corinto dizia-lhes que eles eram “uma carta de Cristo, escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os nossos corações (2 Cor 3, 3).

As leituras de hoje chamam-nos à atenção para centrarmos a nossa vida na Palavra de Deus. E isso é mais que lê-la. É deixar que ela se cumpra em nós. A Bíblia não é para estar na estante. É para tê-la na mão, e trazê-la no coração.

Peçamos ao Senhor, neste Ano da Fé, que o reconheçamos na sua Palavra e que ganhemos um grande amor pelas Escrituras. Que possamos, como cantávamos no salmo, viver da Palavra de Deus. E que ao ler e pôr em prática a Palavra de Deus, possamos dizer como Jesus: “Cumpriu-se hoje, em mim, esta passagem da Escritura”.

Que Maria, a serva que escutava e guardava todas as palavras no seu coração (Lc 2, 51), nos sirva de modelo.

 

Fala o Santo Padre

 

«A Igreja prolonga na história a presença do Senhor ressuscitado.»

 

Queridos irmãos e irmãs!

Entre as leituras bíblicas da liturgia de hoje está o célebre texto da Primeira Carta aos Coríntios, na qual São Paulo compara a Igreja com o corpo humano. Assim escreve o Apóstolo: "Pois, assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora sejam muitos, constituem um só corpo, assim também Cristo. Foi num só Espírito que todos nós fomos baptizados, a fim de formarmos um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres; e todos temos bebido de um só Espírito" (1 Cor 12, 12-13). A Igreja é concebida como o corpo, do qual Cristo é a cabeça, e forma com Ele um todo. Contudo, o que o Apóstolo pretende comunicar é a ideia da unidade na multiplicidade dos carismas, que são os dons do Espírito Santo. Graças a eles, a Igreja apresenta-se como um organismo rico e vital, não uniforme, fruto do único Espírito que conduz todos à unidade profunda, assumindo as diversidades sem as abolir e realizando um conjunto harmonioso. Ela prolonga na história a presença do Senhor ressuscitado, em particular mediante os Sacramentos, a Palavra de Deus, os carismas e os ministérios na comunidade. Por isso, é precisamente em Cristo e no Espírito que a Igreja é una e santa, ou seja, uma comunhão íntima que transcende e apoia as capacidades humanas. […]

 

A Virgem Maria, Mãe da Igreja, nos faça progredir sempre na comunhão, para transmitir a beleza de sermos um só na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

 

Bento XVI, Angelus na Praça de São Pedro a 24 de Janeiro de 2010

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Oremos a Deus Pai todo-poderoso,

para que a Palavra revelada e o trabalho de cada dia

se tornem, para todos os homens, fonte de salvação,

e peçamos (ou: e cantemos), confiadamente:

 

Senhor, nós temos confiança em Vós.

 

 

1. Por todos os homens e mulheres do mundo

que ainda esperam a boa nova da sua libertação:

para que haja também profetas que a anunciem,

oremos ao Senhor.

 

2. Por todos os que pensam que a história chegou ao seu final,

porque julgam que nada se pode conseguir realmente novo

e diferente da ordem atual: para que o Evangelho lhes abra as portas da esperança,

oremos ao Senhor.

 

3. Por todos os que servem ao povo de Deus por meio da palavra:

pregadores, catequistas, educadores, escritores, teólogos, professores:

para que a sua palavra seja, como a de Jesus, comprometida e eficaz,

oremos ao Senhor.

 

4. Para que cheios de entusiasmo nos decidamos com alegria

a assumir nossa missão de seguidores de Jesus,

 anunciadores da Boa Nova, construtores de um mundo de paz,

de reconciliação universal e de esperança,

oremos ao Senhor.

 

5. Por todos nós, chamados a viver o Ano da fé como

um “convite a uma autêntica e renovada conversão ao Senhor” (PF 6),

de modo a “redescobrir o caminho da fé,

para que possamos fazer brilhar a alegria

e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo” (PF 2),

oremos ao Senhor.

 

Deus de bondade,

fazei que também nós cumpramos o sonho dos profetas,

sentindo-nos enviados a anunciar a Boa Nova aos pobres.

Por Cristo nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: O Amor de Deus Repousa em Mim, M. Luis, NCT 388

 

Oração sobre as oblatas: Aceitai benignamente, Senhor, e santificai os nossos dons, a fim de que se tornem para nós fonte de salvação. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Santo: F. dos Santos, NCT 201

 

Monição da Comunhão

 

Na Eucaristia alimentarmo-nos da Palavra para sermos “servos da Palavra”.

 

Cântico da Comunhão: Cantemos um Salmo de Glória, Az. Oliveira, NRMS 84

 

Salmo 33, 6

Antífona da comunhão: Voltai-vos para o Senhor e sereis iluminados, o vosso rosto não será confundido.

 

Ou

Jo 8, 12

Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor. Quem Me segue não anda nas trevas, mas terá a luz da vida.

 

Oração depois da comunhão: Deus omnipotente, nós Vos pedimos que, tendo sido vivificados pela vossa graça, nos alegremos sempre nestes dons sagrados. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Antes de retomarmos o caminho para as nossas casas, escutemos ainda como o salmista canta Deus que fala ao seu povo: «A lei do Senhor é perfeita, ela reconforta a alma; as ordens do Senhor são firmes, dão sabedoria aos simples. Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; os mandamentos do Senhor são claros e iluminam os olhos». A Palavra que recebemos é uma palavra que alegra e que ilumina. É uma canção, uma lâmpada. Que ela nos acompanhe ao longo da semana.

 

Cântico final: Somos Testemunhas, Az. Oliveira, NRMS 35

 

 

 

Homilias Feriais

 

3ª SEMANA

 

2ª Feira, 28-I: Vitória sobre o demónio.

Heb 9, 15. 24-28 / Mc 3, 22-30

Mas ninguém pode entrar em casa de um homem forte nem saquear os bens que lhe pertencem.

Jesus enfrentou o demónio quando foi tentado no deserto: «Jesus vence o diabo: ‘amarrou o homem forte para lhe tirar os despojos’ (Ev.). A vitória de Jesus sobre o tentador, antecipa a vitória da paixão» (CIC; 539).

A morte redentora de Cristo destruiu o pecado: «Mas foi agora que Ele se manifestou para destruir o pecado pelo seu sacrifício» (Leit.). Invoquemos nomes de Jesus e de Maria. Ambos venceram o demónio e nós, com a ajuda deles, também o conseguiremos.

 

3ª Feira, 29-I: Características de uma nova família.

Heb 10, 1-10 / Mc 3, 31-35

Quem fizer a vontade de Deus é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.

Jesus revela a existência de uma nova família, que tem como fonte de união entre os seus membros o cumprimento da vontade de Deus (Ev.).

Assim fez também Cristo, o Primogénito entre muitos irmãos: «Ao entrar neste mundo, Jesus disse: ‘Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade (Leit.). Só Jesus pode dizer: ‘Faço sempre o que é do seu agrado’. Na oração da sua agonia Ele conforma-se totalmente com esta vontade: ‘Não se faça a minha vontade mas a tua’» (CIC, 2824). A vontade de Deus para nós está no cumprimento dos nossos deveres quotidianos.

 

4ª Feira, 30-I:Frutos de uma boa sementeira.

Heb 10, 11.18 / Mc 4, 1-20

O semeador saiu para semear. Quando semeava, parte da semente caiu à beira do caminho.

Uma boa parte da semente não deu frutos e a outra rendeu bastante (Ev.). Os sacerdotes da Antiga Aliança ofereceram inúmeros sacrifícios e nunca puderam destruir os pecados. Mas Cristo destruiu os pecados com um só sacrifício (Leit.).

Obteremos frutos mais abundantes se unirmos todas as nossas acções ao sacrifício da Missa. Além disso, um cristão deve querer meditar com regularidade. Doutro modo, torna-se semelhante aos três primeiros terrenos da parábola do semeador (Ev.) (CIC, 2707).

 

5ª Feira, 31-I: Confiança nas promessas de Cristo.

Heb 10, 19-25 / Mc 4, 21-25

Traz-se porventura a lâmpada par se pôr debaixo do alqueire ou do leito? Não se traz para ser posta no candelabro?

Os filhos de Deus devemos iluminar o ambiente em que vivemos e trabalhamos Para isso, precisamos de aproveitar muito bem as graças que recebemos de Deus: «pois àquele que tem dar-se-á» (Ev.). Se correspondemos, a luz ganhará uma maior intensidade. Assim indicaremos os caminhos de Deus aos que convivem connosco.

Tenhamos confianças nas promessas de Deus e apoiemo-nos na ajuda do Espírito Santo: «Conservemos firmemente a esperança que professamos, pois Aquele que fez a promessa é fiel (Leit.)» (CIC, 1817).

 

6ª Feira, 1-II: Confiança e perseverança nas dificuldades.

Heb 10, 32-39 / Mc 4, 26-34

O reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado no terreno, é a menor de todas as sementes. Mas, depois de semeado, começa a crescer.

Deus serve-se do que é pequeno para agir no mundo e nas almas (Ev.). Assim aconteceu com os Apóstolos e com os primeiros cristãos. Agora cabe-nos a tarefa do grão de mostarda para a tarefa da evangelização.

Não devemos desanimar perante as dificuldades do ambiente: «Não deixeis perder, portanto, a vossa confiança, que encerra uma grande recompensa» (Leit.). E sejamos perseverantes: «É pela oração que podemos discernir qual é a vontade de Deus e obter a perseverança para a cumprir (Leit.)» (CIC, 2826).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Nuno Westwood

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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