Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

Sagrada Família de Jesus, Maria e José

30 de Dezembro de 2012

 

Domingo dentro da Oitava do Natal

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Somos a Igreja de Cristo, Mário Silva, NRMS 17

 

Lc 2, 16

Antífona de entrada: Os pastores vieram a toda a pressa e encontraram Maria, José e o Menino deitado no presépio.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

O Filho de Deus veio ao mundo numa família, e nela recebeu todo o amor de que eram capazes os corações de Maria Santíssima e São José. A eles confiamos, neste dia, as nossas famílias para que as guardem e as conduzam à Casa do Céu.

 

Acto penitencial

 

Oração colecta: Senhor, Pai santo, que na Sagrada Família nos destes um modelo de vida, concedei que, imitando as suas virtudes familiares e o seu espírito de caridade, possamos um dia reunir-nos na vossa casa para gozarmos as alegrias eternas. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Escutemos a Palavra de Deus que nos indica como devemos viver o amor aos pais, especialmente na sua velhice. São exortações muito actuais que a todos nos interpelam.

 

Ben-Sira 3, 3-7.14-17a (gr. 2-6.12-14)

3Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe. 4Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados 5e acumula um tesouro quem honra sua mãe. 6Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração. 7Quem honra seu pai terá longa vida, e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe. 14Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. 15Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, 16porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida 17ae converter-se-á em desconto dos teus pecados.

 

Esta leitura é extraída da Sabedoria de Jesus Ben Sira, título grego do livro do A.T. mais lido na Liturgia, depois do Saltério, o que lhe veio a merecer, na Igreja latina, o nome de Eclesiástico, como já lhe chamava no séc. III S. Cipriano. O autor inspirado escreve pelo ano 180 a. C., quando a Palestina acabava de passar para o domínio dos Selêucidas (198). Então, a helenização, favorecida pelas classes dirigentes, começava a tornar-se uma sedução para o povo da Aliança, com a adopção de costumes totalmente alheios à pureza da religião. Perante tão perigosa ameaça, Ben Sira vê na família o mais poderoso baluarte contra o paganismo invasor. Assim, os seus ensinamentos vão insistentemente dirigidos aos filhos, e estes são continuamente exortados a prestar atenção às palavras do pai.

O nosso texto é um belíssimo comentário inspirado ao 4.º mandamento do Decálogo (Ex 20, 12; Dt 5, 16), concretizando alguns deveres: o cuidado com os pais na velhice (v. 14a); não lhes causar tristeza (v. 14b); ser indulgente para com eles, se vierem a perder a razão (15a); nunca os votar ao desprezo (15b).

 

Salmo Responsorial     Sl 127 (128), 1-2.3.4-5 (R. cf. 1)

 

Monição: Recordemos, com palavras do livro dos salmos, que o maior bem para uma família é a sincera piedade dos pais.

 

Refrão:        Felizes os que esperam no Senhor,

                e seguem os seus caminhos.

 

Ou:               Ditosos os que temem o Senhor,

                ditosos os que seguem os seus caminhos.

 

Feliz de ti, que temes o Senhor

e andas nos seus caminhos.

Comerás do trabalho das tuas mãos,

serás feliz e tudo te correrá bem.

 

Tua esposa será como videira fecunda

no íntimo do teu lar;

teus filhos serão como ramos de oliveira

ao redor da tua mesa.

 

Assim será abençoado o homem que teme o Senhor.

De Sião te abençoe o Senhor:

vejas a prosperidade de Jerusalém

todos os dias da tua vida.

 

Segunda Leitura

 

Monição: São Paulo aconselha aos primeiros cristãos como devem viver as virtudes familiares para que reine no seu lar a paz de Cristo. Escutemos as suas palavras como dirigidas a nós próprios.

 

Colossenses 3, 12-21

Irmãos: 12Como eleitos de Deus, santos e predilectos, revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. 13Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também. 14Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. 15Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo. E vivei em acção de graças. 16Habite em vós com abundância a palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria; e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão. 17E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai. 18Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. 19Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza. 20Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. 21Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.

 

A leitura é tirada da parte final da Carta, a parte parenética, ou de exortação moral, em que o autor fundamenta a vida moral do cristão na sua união com Cristo a partir do Baptismo: trata-se duma «vida nova em Cristo».

12-15 Temos aqui a enumeração de uma série de virtudes e de atitudes indispensáveis à vida doméstica, diríamos nós agora, para que ela se torne uma imitação da Sagrada Família de Nazaré. Estas virtudes são apresentadas com a alegoria do vestuário, como se fossem diversas peças de roupa, que, para se ajustarem bem à pessoa, têm de ser cingidas com um cinto, que é «a caridade, o vínculo da perfeição». Na linguagem bíblica, «revestir-se» não indica algo de meramente exterior, de aparências, mas assinala uma atitude interior, que implica uma conversão profunda.

18-21 O autor sagrado não pretende indicar aqui os deveres exclusivos de cada um dos membros da família, mas sim pôr o acento naqueles que cada um tem mais dificuldade em cumprir; com efeito, o marido também tem de «ser submisso» à mulher, e a mulher também tem de «amar» o seu marido.

 

Aclamação ao Evangelho          Col 3, 15a.16a

 

Monição: A resposta de Jesus aos seus pais, que escutaremos a seguir, nos alerta para o carácter prioritário da dedicação ao serviço de Deus.

 

Aleluia

 

Cântico: Aleluia Gregoriano

 

Reine em vossos corações a paz de Cristo,

habite em vós a sua palavra.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 2, 41-51a

41Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. 42Quando Ele fez doze anos, subiram até lá, como era costume nessa festa. 43Quando eles regressavam, passados os dias festivos, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. 44Julgando que Ele vinha na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-l’O entre os parentes e conhecidos. 45Não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à sua procura. 46Passados três dias, encontraram-n’O no templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. 47Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas. 48Quando viram Jesus, seus pais ficaram admirados e sua Mãe disse-Lhe: «Filho, porque procedeste assim connosco? Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura». 49Jesus respondeu-lhes: «Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?». 50Mas eles não entenderam as palavras que Jesus lhes disse. 51aJesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso.

 

No nosso comentário julgamos que não há razões suficientes para prescindir da realidade do facto narrado, mas pretendemos valorizar a teologia de Lucas no seu maravilhoso trabalho redaccional. É certo que Lucas não pretende, sem mais, relatar um episódio – curiosamente o único em cerca de três dezenas de anos passados em Nazaré. Ele visa, antes de mais e acima de tudo, por um lado, pôr em foco como toda a vida de Jesus estava radicalmente marcada pelo cumprimento da vontade do Pai, ao sublinhar o contraste – «teu pai e eu» (v. 48) e «meu Pai» –, deixando (como diz o Catecismo da Igreja Católica, nº 534) «entrever o mistério da sua consagração total à missão decorrente da sua filiação divina» (v. 49); por outro lado, deixa ver como o conhecimento do mistério de Jesus nunca é pleno para ninguém, nem sequer para Maria e José: «eles não entenderam…» (v. 50).

Segundo a Mixnáh, (Niddáh, V, 6) depois dos 13 anos, o rapaz israelita começava a ser «bar-hamitswáh», «filho-da-lei», isto é, passava ter os deveres e direitos da Lei mosaica, incluindo o dever de peregrinar a Jerusalém, mas os pais piedosos costumavam antecipar um ano ou dois o cumprimento deste dever. Os judeus costumavam deslocar-se em caravanas e em grupos separados de homens e de mulheres, as crianças podiam fazer viagem em qualquer dos grupos; nas paragens do caminho, as famílias reuniam-se. É neste contexto que se desenrola o relato. A atitude de Jesus de ficar em Jerusalém é deveras surpreendente. Não deveria ter avisado os pais ou outros familiares? O que não faz sentido é buscar a explicação do sucedido numa rebeldia ou na irresponsabilidade dum adolescente – este rapaz é o Filho de Deus –, embora o relato evangélico possa fornecer luzes aos pais que se deparam com situações similares de filhos perdidos.

A teologia de Lucas talvez nos possa dar alguma pista para a compreensão do episódio narrado. «Jerusalém» não é simplesmente o centro da vida religiosa de Israel. Para os evangelistas, e de modo singular para Lucas, Jerusalém representa o culminar de toda a obra salvadora de Jesus, por ocasião da Páscoa da Paixão, Morte e Ressurreição; é por isso que Lucas, ao pôr em evidência a tensão de Jesus para a sua Paixão, apresenta grande parte do seu ensino «a caminho de Jerusalém», onde Jesus tem de padecer para ir para o Pai e entrar na sua glória (cf. Lc 24, 26). A teologia de Lucas não é abstracta e desligada da realidade. Ora a realidade é que Jesus não é apenas «o Mestre», Ele é «o Profeta» – especialmente Lucas gosta de apresentar Jesus como Profeta (cf. 7, 16; 9, 19; 13, 33; 24, 19) –, e, por isso mesmo, Jesus não ensina apenas quando exerce a função de rabi, mas em todos os passos da sua vida actua como Profeta, ensinando através do seu agir, mormente através de acções simbólicas de profundo alcance, por vezes bem chocantes. O «Menino perdido» não aparece como um simples menino, é um Profeta que realiza uma acção simbólica para proclamar quem é e qual é a sua missão: «Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?» (v. 49). Ele é o Filho de Deus, e tem de cumprir a missão que o Pai lhe confiou, em Jerusalém, ainda que isto lhe custe bem e tenha de fazer sofrer aqueles que mais ama – «aflitos à tua procura» (v. 48). O episódio passa-se em Jerusalém, como prenúncio e paralelo de um sofrimento bem maior, também em Jerusalém. A lição é clara: não se pode realizar plenamente a vontade do Pai do Céu e, ao mesmo tempo, evitar todo o sofrimento próprio e dos seres mais queridos; subir a Jerusalém é subir à Cruz, e subir à Cruz é «elevar-se» ao Céu, também em Jerusalém (cf. Lc 24, 50-51).

41 «Os pais de Jesus. Teu pai» (v. 48). Uma vez que Lucas tinha acabado de falar tão explicitamente da concepção virginal de Jesus, não tem agora qualquer receio de nomear S. José como pai (virginal) do Senhor.

49 «Eu devia estar na Casa de Meu Pai». A tradução de tà toû Patrós mou pode significar tanto «a casa de meu Pai», como «as coisas (assuntos, vontade) de meu Pai». A verdade é que o redactor pode ter querido dar à resposta de Jesus uma certa ambiguidade: «Não sabíeis que Eu tenho de estar nas coisas de meu Pai» (e que, por isso, me deveria encontrar aqui no Templo)?

50 «Eles não entenderam». A resposta do Menino envolve um sentido muito profundo que ultrapassa uma simples justificação da sua «independência». Não alcançam ver até onde iria este «estar nas coisas do Pai», mas também não se atrevem a fazer mais perguntas, dada a sua extrema delicadeza e reverência, que uma profunda fé lhes ditava. Estamos postos perante o mistério do ser e da missão de Jesus; é mais um «sinal» e mais uma «espada» (cf. Lc 2, 34-35).

 

Sugestões para a homilia

 

1. A Sagrada Família de Nazaré

2. A santidade na vida familiar

3. A defesa da família

 

1. A sagrada família de Nazaré

A celebração do mistério do nascimento temporal do Filho de Deus, enche os nossos corações de admiração e de agradecimento. Mas também devemos considerar com a mesma admiração e agradecimento, o caminho que a Providência de Deus escolheu para realizar a Encarnação. Deus encarnou para restaurar o projecto divino sobre o homem; e fê-lo numa família para restaurar o projecto divino para a família. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem, é o modelo e o caminho para toda pessoa humana, e a Sagrada Família de Nazaré é modelo e caminho para todas as famílias.

Compreendemos que Deus Nosso Senhor tenha querido santificar a família com a Sua presença, porque o próprio Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, é família, e fez o homem à Sua imagem e semelhança. Essa semelhança não diz respeito só a alma espiritual, mas também ao facto do homem ser capaz de amar e, mais ainda, só se realizar como pessoa por meio do amor, ou seja pela doação de si mesmo. Deus é amor (cfr. 1,João. 4,8), e o homem foi criado, à Sua imagem e semelhança, para amar. Por isso “não é bom que o homem esteja só” (Gen. 2. 18), e o ambiente natural onde é chamado à vida é a família.

Na família, santuário da vida, torna-se presente a vida trinitária de Deus. Deus Pai Criador e Providente age por meio do amor fecundo dos esposos. Deus Filho Redentor que se entrega pela Igreja, a sua Esposa muito amada, está presente na doação mútua dos esposos, elevada a sacramento. Deus Espírito Santo faz da família uma “igreja doméstica”, unida pela caridade e onde as virtudes cristãs crescem e transmitem à sociedade o bom aroma de Cristo (cfr. 2 Cor.2, 15).

A presença da Santíssima Trindade na Sagrada Família é de tal modo singular que S. Josemaria costumava, por vezes, fazer referência a ela como a “trindade da terra”. Queria assim pôr de relevo a profunda conexão entre a Santíssima Trindade e a Sagrada Família.

2. A santidade na vida familiar

As leituras da liturgia de hoje, incidem sobre as relações familiares na sua dimensão humana e sobrenatural. A primeira leitura tem como pano de fundo o quarto mandamento do Decálogo. A segunda nos fala do amor conjugal e o amor paterno; e o Evangelho nos lembra que toda paternidade é participação da Paternidade de Deus, a quem devemos obedecer, com piedade filial, por cima de tudo.

É conhecido como S. Josemaria, um santo da nossa época, apregoou incansavelmente que o matrimónio é verdadeiro caminho de santidade, junto com as relações familiares. Deus quis recordar, por meio de ele, esta verdade longamente esquecida na vida da Igreja. É uma doutrina simples e acessível a todos, que podemos aqui recordar.

Na sua homilia “O matrimónio, vocação cristã”, nos diz que ao pensar nos lares cristãos, gosta de imaginá-los “luminosos e alegres, como foi o da Sagrada Família” (Cristo que passa, 23). E acrescenta mais para frente, no nº 24 “Para o cristão o matrimónio (…) é uma autêntica vocação sobrenatural. (…) Os casados estão chamados a santificar o seu matrimónio e a santificar-se nessa união: cometeriam, por isso, um grave erro. Se edificassem a sua vida espiritual à margem do lar. A vida familiar, as relações conjugais, o cuidado e a educação dos filhos, o esforço por sustentar, manter e melhorar economicamente a família, as relações com as outras pessoas que constituem a comunidade social, tudo isso são situações humanas e correntes que os esposos cristãos devem sobrenaturalizar.

“A fé e a esperança hão-de manifestar-se na serenidade com que se focam os grandes ou pequenos problemas que surgem em todos os lares, no empenho com que se persevera no cumprimento do dever. A caridade há-de encher tudo e levará: a partilhar as alegrias e os possíveis dissabores; a saber sorrir, esquecendo-se das preocupações pessoais para atender os outros; a escutar o outro cônjuge ou os filhos, mostrando-lhes que são amados e compreendidos deveras; a passar por alto pequenos atritos sem importância, que o egoísmo poderia transformar em montanhas; a fazer com grande amor os pequenos serviços de que se compõe a convivência diária.

Santificar o lar no dia-a-dia, criar, com carinho, um autêntico ambiente de família: é disso precisamente que se trata. Para santificar cada um dos dias, é necessário exercitar muitas virtudes cristãs; em primeiro lugar, as teologais e, depois, todas as outras: a prudência, a lealdade, a sinceridade, a humildade, o trabalho, a alegria...” (Cristo que passa, 24).

3. A defesa da família

A família é uma realidade tão necessária, tão congruente com a natureza humana, tão vital para a sociedade e a Igreja, que não deve admirar-nos que o demónio (a serpente) procure destruir a sua harmonia desde os inícios da Humanidade. A tentação dos nossos Primeiros Pais, no paraíso, vai dirigida a desvinculá-los de Deus e, por isso a enfrenta-los entre si. Depois do pecado surge a vergonha, as acusações, as desculpas e o sofrimento entre os esposos.

O demónio não descansa desde então, e a família sofre, nos nossos dias, violentos ataques no plano doutrinal, jurídico, social e económico.

São muitos os erros sobre a instituição familiar que são difundidos por todo o mundo. E convêm recordar, antes de mais, que só as pessoas são capazes de constituir uma família. Os animais constituem modos de convivência (alcateias, enxames, etc.) que nada têm a ver com a família humana. A pessoa humana por ser capaz de autodeterminação pode constituir, livre e conscientemente, uma comunhão de vida, entre um homem e uma mulher, plena e indissolúvel, para o mútuo aperfeiçoamento e a procriação e educação dos filhos. Só este modo de relação da origem à verdadeira família.

Existem outros modos de relação humana, lamentáveis, com os quais é preciso ter muita compreensão, mas que não podem ser designados como família. Nesta situação se encontram as pessoas divorciadas que se uniram numa nova relação, as pessoas em união de facto e as pessoas do mesmo sexo que convivem sentimentalmente. As legislações que equiparam estes modos de relação com a família fundamentada no matrimónio legítimo, constituem agressões enormemente graves ao matrimónio e a família. A forte pressão exercida em tantos países para estabelecer este tipo de leis e outras parecidas, evidencia uma campanha sistemática e persistente de contornos globalizantes.

No mundo ocidental foram introduzindo-se normas cada vez mais permissivas dos comportamentos gravemente imorais. O divórcio, o aborto, a fecundação “in vitro”, o uso de embriões, considerados material não humano, para fins económicos ou de investigação, leis sobre a educação sexual que corrompem as crianças e a permissividade perante o profundo deterioro da moralidade pública, formam um quadro de comportamentos desestruturantes para a família.

Na cultura pós-moderna o novo paradigma apresentado como modelo a seguir passa pela superação da “família tradicional” (esta terminologia é já uma formula ideológica) que cederia o seu lugar a outros modos de convivência “abertos” e fundamentados na “ideologia do género”.

Graças a Deus também hoje encontramos em todo o mundo famílias firmes na fé que resistem, como as arvores das altas montanhas, às tempestades, ao frio, ao calor, a todas as agressões, porque estão profundamente enraizadas em Jesus Cristo. Também vemos surgir associações de famílias, cheias de dinamismo, que visam defender a verdade sobre a família exercendo os seus direitos cívicos. No ano da Fé acreditemos, com plena confiança no Senhor, que é possível uma mudança dos corações e da cultura por meio da oração e da paciente defesa dos verdadeiros valores da pessoa humana.

Como na primeira evangelização, também na evangelização do século XXI, serão as famílias cristãs o fermento que haverá de transformar, de novo, toda a massa da sociedade. Oremos, com fé, por todas estas intenções à Sagrada Família de Nazaré

 

Fala o Santo Padre

 

«Deus quis revelar-se nascendo numa família humana,

e por isso a família humana tornou-se ícone de Deus!»

 

Queridos irmãos e irmãs!

Celebra-se hoje o domingo da Sagrada Família. Podemos ainda identificar-nos com os pastores de Belém que, logo que receberam o anúncio do anjo, acorreram apressadamente à gruta e encontraram "Maria e José, e o Menino deitado na manjedoura" (Lc 2, 16). Detenhamo-nos também nós a contemplar este cenário, e reflictamos sobre o seu significado. As primeiras testemunhas do nascimento de Cristo, os pastores, encontraram-se diante não só do Menino Jesus, mas de uma pequena família: mãe, pai e filho recém-nascido. Deus quis revelar-se nascendo numa família humana, e por isso a família humana tornou-se ícone de Deus! Deus é Trindade, é comunhão de amor, e a família é, com toda a diferença que existe entre o Mistério de Deus e a sua criatura humana, uma expressão que reflecte o Mistério insondável do Deus amor. O homem e a mulher, criados à imagem de Deus, tornam-se no matrimónio "uma única carne" (Gn 2, 24), isto é, uma comunhão de amor que gera vida nova. A família humana, num certo sentido, é ícone da Trindade pelo amor interpessoal e pela fecundidade do amor.

 

A liturgia de hoje propõe o célebre episódio evangélico de Jesus aos 12 anos que permanece no Templo, em Jerusalém, sem que os seus pais o soubessem, os quais, admirados e preocupados, ali o encontram depois de três dias que discute com os doutores. Quando a mãe lhe pede explicações, Jesus responde que deve "estar na propriedade", na casa do seu Pai, isto é, de Deus (cf. Lc 2, 49). Neste episódio o jovem Jesus demonstra-se cheio de zelo por Deus e pelo Templo. Perguntemos: de quem tinha aprendido Jesus o amor pelas "coisas" de seu Pai? Certamente como filho teve um conhecimento íntimo do seu Pai, de Deus, uma profunda relação pessoal e permanente com Ele, mas, na sua cultura concreta, aprendeu com certeza dos seus pais as orações, o amor pelo Templo e pelas Instituições de Israel. Portanto, podemos afirmar que a decisão de Jesus de permanecer no Templo era sobretudo fruto da sua relação íntima com o Pai, mas também fruto da educação recebida de Maria e de José. Podemos entrever nisto o sentido autêntico da educação cristã: ela é o fruto de uma colaboração que se deve procurar sempre entre os educadores e Deus. A família cristã está consciente de que os filhos são dom e projecto de Deus. Portanto, não os podemos considerar como posse pessoal, mas, servindo neles o desígnio de Deus, é chamada a educá-los na maior liberdade, que é precisamente a de dizer "sim" a Deus para fazer a sua vontade. A Virgem Maria é deste "sim" o exemplo perfeito. A ela confiamos todas as famílias, rezando sobretudo pela sua preciosa missão educativa. […]

 

Deus, que veio ao mundo no seio de uma família, manifesta que esta instituição é caminho certo para o encontrar e conhecer, assim como uma chamada permanente para trabalhar pela unidade de todos em redor do amor. Portanto, um dos maiores serviços que nós, cristãos, podemos prestar aos nossos semelhantes é oferecer-lhes o nosso testemunho sereno e firme da família fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher, salvaguardando-a e promovendo-a, porque ela é de máxima importância para o presente e para o futuro da humanidade. De facto, a família é a melhor escola na qual se aprende a viver aqueles valores que dignificam a pessoa e tornam grandes os povos. Nela também se partilham os sofrimentos e as alegrias, sentindo-se todos protegidos pelo carinho que reina em casa pelo simples facto de ser membros da mesma família.[…]

 

Bento XVI, Angelus na Praça de São Pedro a 27 de Dezembro de 2009

 

Oração Universal

 

Caríssimos irmãos e irmãs:

Por intercessão de Maria e de José,

peçamos a Deus que faça crescer em sabedoria e em graça

os membros de todas as famílias deste mundo,

dizendo (ou: cantando), com alegria:

R. Renovai, Senhor, todas as famílias.

Ou: Ouvi-nos, Senhor.

Ou: Protegei, Senhor, todas as famílias.

 

1. Para que os avós sejam profetas de Jesus

e, a exemplo de Ana e Simeão,

falem d’Ele a seus netos e a toda a gente,

oremos, irmãos.

 R. Renovai, Senhor, todas as famílias.

 

2. Para que os pais consagrem ao Senhor

os seus filhos, os seus lares e as suas vidas,

como José e Maria, pais de Jesus,

oremos, irmãos.

R. Renovai, Senhor, todas as famílias.

 

3. Para que as crianças pensem nos meninos abandonados,

cheios de fome, maltratados e sem amor,

e dêem graças a Jesus pelos pais que têm,

oremos, irmãos.

R. Renovai, Senhor, todas as famílias.

 

4. Para que todos os jovens namorados

saibam amar-se e respeitar-se mutuamente

e opor-se ao paganismo que os rodeia,

oremos, irmãos.

R. Renovai, Senhor, todas as famílias.

 

5. Para que todos os cristãos da nossa comunidade (paroquial)

pensem naqueles para quem o ano foi difícil

e se empenhem em acções de entreajuda,

oremos, irmãos.

R. Renovai, Senhor, todas as famílias.

 

Pai de bondade e de amor,

fazei que, nas famílias deste mundo,

os maridos amem as esposas,

as esposas sejam o sol de cada lar

e os filhos imitem Jesus Cristo, vosso Filho.

Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: A Virgem Imaculada, David Oliveira, NRMS 24

 

Oração sobre as oblatas: Nós Vos oferecemos, Senhor, este sacrifício de reconciliação e humildemente Vos suplicamos que, pela intercessão da Virgem, Mãe de Deus, e de São José, se confirmem as nossas famílias na vossa paz e na vossa graça. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio do Natal: p. 457 [590-702] ou 458-459

 

No Cânone Romano, diz-se o Communicantes (Em comunhão com toda a Igreja) próprio. Nas Orações Eucarísticas II e III faz-se também a comemoração própria do Natal.

 

Santo: F. dos Santos, NCT 84

 

Saudação da paz

 

Monição da Comunhão

 

Peçamos a Nossa Senhora e a S. José que nos ajudem a receber Jesus na Sagrada Comunhão, com o amor com que eles O cuidaram na casa de Nazaré.

 

Cântico da Comunhão: Vinde e Louvai o Bom Jesus, M. Faria, 20 Cânticos para a Missa

cf. Bar 3, 38

Antífona da comunhão: Deus apareceu na terra e começou a viver no meio de nós.

 

Oração depois da comunhão: Pai de misericórdia, que nos alimentais neste divino sacramento, dai-nos a graça de imitar continuamente os exemplos da Sagrada Família, para que, depois das provações desta vida, vivamos na sua companhia por toda a eternidade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A bênção conclusiva da Santa Missa é sinal da bênção com que a Santíssima Trindade, por intercessão da Sagrada Família de Nazaré, abençoa hoje as nossas famílias

 

Cântico final: Reunidos em Igreja, M. Carneiro, NRMS 71-72

 

 

Homilia FeriaL

 

DIAS FERIAIS DO TEMPO DE NATAL

 

2ª Feira, 31-XII: tempo de vigília: Um novo nascimento.

1 Jo 2, 18-21 / Jo 1, 1-8

O Verbo era a luz verdadeira, que a todo o homem ilumina, ao vir a este mundo.

Estamos a viver os últimos momentos do ano. «Estamos já na ‘última hora’ (Leit.)». «O tempo presente é, segundo o Senhor, o tempo do Espírito e do testemunho; mas é também um tempo ainda marcado pela desolação e pela provação do mal. É um tempo de espera e de vigília» (CIC, 672).

Nesta vigília do novo Ano «é preciso ‘nascer do Alto’, ‘nascer de Deus’, para se ‘tornar filho de Deus’ (Ev.)» (CIC, 526). Nasce o novo Ano e vamos tentar nascer de Deus, pela vida sacramental e a vida de oração.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Carlos Santamaria

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilia Ferial:                      Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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