TEMAS LITÚRGICOS

O RITO DA EXPOSIÇÃO E BÊNÇÃO

COM O SANTÍSSIMO SACRAMENTO

 

 

Juan José Silvestre

Roma

 

 

Na linha da exortação do Santo Padre para que se promova a adoração eucarística, temos o gosto de publicar um artigo do Pe. Juan José Silvestre, professor de Teologia Litúrgica na Universidade Pontifícia da Santa Cruz e consultor da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e do Departamento de Celebrações Litúrgicas do Romano Pontífice, sobre a Exposição e Bênção do Santíssimo Sacramento, tomado de www. collationes.org.

 

 

Como se procedia no Rito da Exposição e Bênção com o Santíssimo Sacramento até 1973?

 O anterior Rituale Romanum [1] não recolhia um rito para a Exposição e Bênção com o Santíssimo Sacramento. Como “cerimónia litúrgica” propriamente dita só se considerava a Bênção (cfr. Caeremoniale Episcoporum do ano 1600 para a procissão do Corpus Christi [2]), e a primeira parte, desde a Exposição até ao Tantum ergo exclusive, “nem é verdadeiramente litúrgica, nem tem estrita unidade de função litúrgica” (“nec vere liturgica est, nec strictam habet functionis liturgicae unitatem”).

Daí que estivesse prevista una “grande diversidade segundo os costumes dos lugares e as normas dos Bispos” [3]. Tal riqueza e liberdade manifestava-se não só nos diferentes “exercícios de piedade” com que se podia articular essa primeira parte, mas inclusivamente na própria língua utilizada: latim ou vernáculo [4]. De facto, empregavam-se preces expressamente compostas em honra do Santíssimo Sacramento ou de N. S. Jesus Cristo; ou da Santíssima Virgem e dos Santos; o por diversas necessidades [5].

A functio vere liturgica [6], começava a partir do Tantum ergo, e desde esse momento entravam em acção as rubricas do Ritual Romano e do Caeremoniale Episcoporum que determinava “debet cantari Tantum ergo... Genitori Genitoque, cum v. Panem de caelo et oratio Deus qui nobis cum conclusione brevi”.

Durante a Bênção, e depois, não se podia cantar nem recitar nada, nem em latim nem em língua vulgar. A única excepção eram os louvores de reparação pelas blasfémias (“Benedictus Deus... Bendito seja Deus”), que podiam ser recitados imediatamente antes ou depois da Bênção (Decreto 3237.1). O Rito concluía com a reserva do Santíssimo Sacramento, que podia acompanhar-se com um canto adequado (Laudate Dominum...).

 

Que novidades se introduziram com o novo Ritual Romano?

Pode-se dizer que o rito actual respeitou substancialmente o anterior. Com efeito, tal como o recolhe o Rituale Romanum no De sacra Communione et de Cultu Mysterii Eucharistici extra Missam nn. 93-100 e o Caeremoniale Episcoporum no capítulo 22, é praticamente idêntico, já que a parte que se regula formalmente é a segunda: De benedictione (Tantum ergo vel alius cantus eucharisticus, incensação, Oração: Deus qui nobis vel aliam orationem in Rituali Romano propositam, Bênção e reserva).

 

Que diferentes modos se podem adoptar para o momento de adoração com o Santíssimo Sacramento?

 Antes de mais, convém sublinhar que a primeira parte, De expositione, tem como fim favorecer a adoração do Santíssimo e assim levar a cabo a finalidade do culto eucarístico: “A exposição da santíssima Eucaristia leva a reconhecer nela a admirável presença de Cristo e convida à íntima união com Ele, união que atinge o auge na comunhão sacramental” [7]. Por isso, não está regulado de modo “estrito” como adorar, antes sugerem-se diversos modos que o facilitam, assinalando que convém ter em conta sempre o que for mais oportuno para o bem dos fiéis: “Durante a exposição, ordenem-se de tal modo as orações, os cânticos e as leituras, que os fiéis, entregues à oração, estejam unidos a Cristo Senhor. A fim de alimentar uma oração mais íntima, façam-se leituras da sagrada Escritura com homilia, ou exortações breves, que levem a uma melhor estima do mistério eucarístico. Convém igualmente que os fiéis respondam à Palavra de Deus com cânticos. É bom que, em certos momentos, se guarde o silêncio sagrado” [8]. Neste sentido, continua a ser válido o que se dizia no antigo Caeremoniale Episcoporum, isto é, que pode dar-se uma “magna diversitas pro locorum consuetudinibus”, seguindo os “Ordinariorum statutis” [9].

 Tendo isto em conta, os modos que se podem adoptar para esses momentos de adoração serão muito diversos. Um exemplo, entre outros, poderia ser a recitação do Terço. Como é sabido, alguns autores duvidaram da oportunidade de o recitarem diante do Santíssimo Sacramento exposto, por considerarem que não se tratava de uma oração “dirigida a Cristo”. A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em 1998, esclareceu este assunto dizendo que “quando se reza o Santo Rosário com o sentido cristológico que lhe é próprio, recitando-o num clima meditativo-adorador, e quando a sua recitação ajuda a adquirir uma maior estima do mistério eucarístico, seria inaceitável proibi-lo” [10]. Mais adiante, a Instrução Redemptionis Sacramentum voltou a sublinhar este ponto: “não se exclua a recitação do Terço, admirável «na sua simplicidade e na sua profundidade», diante da reserva eucarística o do Santíssimo Sacramento exposto” [11].

Contudo, embora as possibilidades sejam múltiplas, em todas a finalidade da Exposição será: “leva os fiéis a reconhecer nela a admirável presença de Cristo e convida-os à íntima união com Ele” [12].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Cfr. Rituale romanum Paulo V Pont. Max. iussu editum (1614). Este Ritual romano não recolhe um rito a se mas, do mesmo modo que o Cerimonial dos Bispos de 1600, recolhe a Bênção com o Santíssimo Sacramento que tem lugar na solenidade do Corpus Cristi. Fá-lo no Tit. IX, cap. 5.

[2] Caeremoniale Episcoporum, Romae 1600, Liber II, Cap. XXXIII, nn. 24-27. A última edição típica deste livro foi promulgada por Decreto da S. C. de Ritos em 17 de Agosto de 1886 (sob o Papa Leão XIII). Neste texto utiliza-se a editio postypicam de 1948 publicada sob Pio XII e que esteve em vigor até 1984.

[3] “Magna diversitas pro locorum consuetudinibus et Ordinariorum statutis” (C. CALLEWAERT, Caeremoniale in missa privata et solemni, Brugis 1943, p. 234).

[4] Cfr. Ibid., p. 237-238.

[5] Ibid., p. 237. Cf. G. BALDESCHI, Sacre Cerimonie, Roma 1959[11], p. 347; I. WAPELHORST, Compendium sacrae liturgiae iuxta ritum romanum, Neo-Eboraci 1930[11], p. 290-291.

[6] Cfr. G. BALDESCHI, Sacre Cerimonie, Roma 1959[11], p. 343.

 

[7] “Expositio SS.mae Eucharistiae ad agnoscendam in ea miram Christi praesentiam pertrahit, et ad cordis unionem cum illo invitat, quae in Communione sacramentali culmen attingit” (Rituale Romanum ex Decreto Sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum auctoritate Pauli PP. VI promulgatum, De Sacra Communione et de Cultu Mysterii Eucharistici extra Missam, editio typica, Typis Polyglottis Vaticanis 1973, n. 82; Novo Caeremoniale Episcoporum, n. 1102).

8 “Durante expositione, oratione, cantus, lectiones ita componenda sunt, ut fideles orationi intenti, Christo Domino vacent. Ad intimam orationem alendam, adhibeantur lectiones e Sacra Scriptura cum homilia, aut breves exhortationes, quae ad meliorem aestimationem mysterii eucharistici inducant. Decet etiam fideles verbo Dei respondere cantando. Expedit ut aptis momentis sacrum silentium habeatur” (Rituale Romanum, De sacra Communione et de cultu mysterii eucharistici extra Missam, n. 95; Caeremoniale Episcoporum, n. 1111).

Em relação ao significado do termo expedit a Congregação indicava que “innanzitutto se deve aver presente che la parola expedit non costituisce una forma obbligatoria, ma un suggerimento” (CONGREGATIO PRO CULTU DIVINO ET DISCIPLINA SACRAMENTORUM, I Responsum Congregationis die 25 septembris 2000, Prot. No. 2036/00/L, Communicationes 32/2 [2000], p. 171).

[7] C. CALLEWAERT Caeremoniale in missa privata et solemni, Brugis 1943, p. 234.

 

 

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[10] CONGREGATIO DE CULTU DIVINO ET DISCIPLINA SACRAMENTORUM, Litterae Congregationis Prot. 2287/96/L (diei 15 ianuarii 1997), Notitiae 34 (1998), p. 506.

[11] CONGREGATIO DE CULTU DIVINO ET DISCIPLINA SACRAMENTORUM, Instr. Redemptionis Sacramentum, diei 25 martii 2004, n. 137.

[12] “Mentem fidelium ad agnoscendam in ea miram Christi praesentiam pertrahit, et ad cordis communionem cum illo invitat” (SACRA RITUUM CONGREGATIO, Instr. Eucharisticum mysterium, diei 25 maii 1967, n. 60).

 


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