A PALAVRA DO PAPA

A MARIOLOGIA A PARTIR DO VATICANO II *

 

 

 

Queridos irmãos e irmãs

 

É com grande alegria que recebo a todos vós aqui em Castel Gandolfo, quase no encerramento do XXIII Congresso Internacional Mariológico Mariano. Muito oportunamente, estais a meditar sobre o tema: «A mariologia a partir do Concílio Vaticano II. Recepção, balanço e perspectivas», dado que nos preparamos para recordar e celebrar o 50.º aniversário do início da grande Assembleia, inaugurada no dia 11 de Outubro de 1962.

Saúdo cordialmente o Cardeal Angelo Amato, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Presidente do Congresso, o Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura e do Conselho de Coordenação entre as Academias Pontifícias, assim como o Presidente e as Autoridades Académicas da Pontifícia Academia Mariana Internacional, a quem transmito o meu agradecimento pela organização deste importante acontecimento. Dirijo uma saudação aos Bispos, aos sacerdotes, aos religiosos e às religiosas, aos Presidentes e aos representantes das Sociedades mariológicas presentes, aos estudiosos de mariologia e, por fim, a todos aqueles que participam nos trabalhos do Congresso.

A dignidade de Maria, Mãe de Deus

O Beato João XXIII quis que o Concílio Ecuménico Vaticano II fosse inaugurado precisamente no dia 11 de Outubro, no mesmo dia em que, no ano 431, o Concílio de Éfeso tinha proclamado Maria «Theotokos», Mãe de Deus (cf. AAS 54 [1962], 67-68). Em tal circunstância, ele começou o seu discurso com palavras significativas e programáticas: «A Mãe Igreja alegra-se porque, por um dom especial da Providência divina, já chegou o dia tão desejado em que, sob os auspícios da Virgem Mãe de Deus, cuja dignidade materna se celebra hoje com alegria, aqui, junto do sepulcro de São Pedro, começa solenemente o Concílio Ecuménico Vaticano II».

Como sabeis, no próximo dia 11 de Outubro, para recordar aquele acontecimento extraordinário, será inaugurado solenemente o Ano da Fé, que eu quis proclamar com o Motu proprio Porta fidei, no qual, apresentando Maria como modelo exemplar de fé, invoco a sua especial protecção e intercessão para o caminho da Igreja, confiando este tempo de graça a Ela, bem-aventurada porque acreditou. Queridos irmãos e irmãs, também hoje a Igreja se alegra na celebração litúrgica da Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria, a Toda Santa, aurora da nossa salvação.

O sentido desta festa mariana é-nos recordado por santo André de Creta, que viveu entre os séculos VII e VIII, numa sua famosa Homilia para a Festa da Natividade de Maria, em que este acontecimento é apresentado como um fragmento precioso do mosaico extraordinário que é o desígnio divino de salvação da humanidade: «O mistério de Deus que se faz homem e a divinização do homem assumido pelo Verbo representam a suma dos bens que Cristo nos concedeu, a revelação do plano divino e a derrota de toda a presunçosa auto-suficiência humana. A vinda de Deus entre os homens, como luz resplandecente e realidade divina clara e visível, é o dom grande e maravilhoso da salvação que nos é dispensado. A celebração hodierna honra a Natividade da Mãe de Deus. Porém, o verdadeiro significado e a finalidade deste acontecimento é a encarnação do Verbo. Com efeito, Maria nasce, é amamentada e educada para ser a Mãe do Rei dos séculos, de Deus» (Discurso I: PG 97, 806-807). Este importante e antigo testemunho leva-nos ao cerne da temática sobre a qual reflectis e que o Concílio Vaticano II quis ressaltar já no título do capítulo VIII da Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium: «A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus, no mistério de Cristo e da Igreja». Trata-se do «nexus mysteriorum», do nexo íntimo entre os mistérios da fé cristã, que o Concílio indicou como horizonte para compreender cada um dos elementos e as diferentes afirmações do património da fé católica.

O capítulo VIII da Lumen gentiun

No Concílio, no qual participei come perito quando era um jovem teólogo, tive a oportunidade de ver os vários modos de enfrentar as temáticas acerca da figura e do papel da Bem-Aventurada Virgem Maria na história da salvação. Na segunda sessão do Concílio, um numeroso grupo de Padres pediu que se falasse de Nossa Senhora no contexto da Constituição sobre a Igreja, enquanto outro grupo igualmente numeroso defendia a necessidade de um documento específico que salientasse adequadamente a dignidade, os privilégios e o papel singular de Maria na redenção realizada por Cristo. Com a votação de 29 de Outubro de 1963, decidiu-se optar pela primeira proposta, e o esquema da Constituição dogmática sobre a Igreja foi enriquecido com o capítulo sobre a Mãe de Deus, no qual a figura de Maria, relida e reproposta a partir da Palavra de Deus, dos textos da tradição patrística e litúrgica, mas também da ampla reflexão teológica e espiritual, se manifesta em toda a sua beleza e singularidade, estreitamente inserida nos mistérios fundamentais da fé cristã. Maria, de quem é salientada antes de tudo a fé, faz parte do mistério de amor e de comunhão da Santíssima Trindade; a sua cooperação para o plano divino da salvação e para a única mediação de Cristo é claramente afirmada e posta no justo relevo, fazendo dela um modelo e um ponto de referência para a Igreja, que n’Ela se reconhece a si mesma, a sua vocação e a sua missão. Por fim, a piedade popular, desde sempre orientada para Maria, é alimentada pelas referências bíblicas e patrísticas. Certamente, o texto conciliar não esgotou todas as problemáticas relativas à figura da Mãe de Deus, mas constitui o horizonte hermenêutico essencial para uma ulterior reflexão, quer de carácter teológico, quer de índole mais estritamente espiritual e pastoral. Além disso, representa um precioso ponto de equilíbrio, sempre necessário, entre a racionalidade teológica e a afectividade de quem crê. A figura singular da Mãe de Deus deve ser compreendida e aprofundada a partir de perspectivas diferentes e complementares: enquanto permanece sempre válida e necessária a via veritatis, não se pode deixar de percorrer também a via pulchritudinis e a via amoris, para descobrir e contemplar ainda mais profundamente a fé cristalina e sólida de Maria, o seu amor a Deus e a sua esperança inabalável. Por isso, na Exortação Apostólica Verbum Domini, dirigi um convite a continuar na linha ditada pelo Concílio (cf. n. 27), convite que dirijo cordialmente também a vós, queridos amigos e estudiosos. Oferecei a vossa competente contribuição de reflexão e de proposta pastoral, para fazer com que o iminente Ano da Fé possa representar para todos os crentes em Cristo um verdadeiro momento de graça, no qual a fé de Maria nos preceda e nos acompanhe como farol luminoso e como modelo de plenitude e maturidade cristã, para o qual olhar com confiança e do qual haurir entusiasmo e júbilo para viver sempre com maior empenho e coerência a nossa vocação de filhos de Deus, irmãos em Cristo e membros vivos do seu Corpo, que é a Igreja.

Confio todos vós e o vosso empenho de investigação à protecção materna de Maria e concedo-vos uma particular Bênção Apostólica. Obrigado!

 

 

 



* Discurso de Bento XVI aos participantes no XXIII Congresso Internacional Mariológico Mariano, em 8-IX-2012, em Castel Gandolfo.

Título e subtítulos da Redacção da Celebração Litúrgica.


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial