RECORTE

OS VERDADEIROS MOMENTOS DE GLÓRIA

 

A propósito das recentes Olimpíadas de Londres

 

 

 

NIGEL MARCUS BAKER

Embaixador britânico junto da Santa Sé 

 

 

A nova projecção, em coincidência com os Jogos Olímpicos de Londres, do extraordinário filme de 1981 de David Puttnam e Colin Welland, Momentos de glória (Chariots of Fire), traz à memória as vidas extraordinárias e o heroísmo de dois dos principais protagonistas. Um, o inglês Harold Abrahams, superou os preconceitos e exibiu uma extraordinária força física e mental para vencer os 100 metros nos Jogos Olímpicos de Paris de 1924. O outro é o missionário escocês Eric Liddell, que recusou correr ao domingo para não entrar em contraste com a sua crença religiosa (teve que se retirar dos 100 metros, uma categoria onde rendia mais), mas que triunfou nos 400 metros, com um tempo de recorde mundial, nas mesmas Olimpíadas parisienses. Não sou um atleta. Mas posso orgulhar-me de ligações indirectas com os dois.

 Abrahams estudou na minha mesma alma mater, o Gonville and Caius College de Cambridge. Cambridge é o lugar onde se desenrola a famosa cena do filme na qual Abrahams e Lord Lindsay (baseando-se na personagem real de Lord Burghley) correm a «Trinity Great Court run» em volta do quadrângulo do Trinity College, procurando completar o percurso antes que a campainha do College acabe de ressoar os doze toques do meio-dia. No filme, Abrahams consegue fazê-lo mas Lindsay não. Na realidade, foi Lord Burghley quem conseguiu, única pessoa que o fez até meados dos anos Noventa. O meu College, Gonville and Caius, orgulha-se de Abrahams e do seu sucesso em superar o anti-semitismo da época (inclusive em Cambridge).

A minha ligação com Liddell é ao contrário totalmente diversa e passa pelo meu tio-avô Noel, um homem imponente que durante muitos anos serviu no regimento galês do exército britânico (depois de ter sido deixado pela sua mãe, isto é, a minha bisavó, na caserna para iniciar a sua carreira como trombeteiro quando tinha 12 anos). Noel era um óptimo atleta e competia para o exército em diversas categorias, incluídos os 400 metros. O regimento galês estava com frequência no estrangeiro, sobretudo na Ásia, e foi precisamente ali que encontrou Liddell.

 Segundo me contou a minha avó, Noel estava a treinar-se na pista uma manhã, na China, um dia antes de um importante campeonato de atletismo (talvez o campeonato da China setentrional de 1930, ou então uma competição entre armas). Tinha dado algumas voltas para aquecer. A certo momento, um homem desajeitado com cabelos ruivos uniu-se a ele e, com um forte sotaque escocês, perguntou-lhe se podiam correr juntos. O meu tio-avô aceitou, na realidade não muito contente, e assim deram ainda umas duas voltas à pista em silêncio. Quando pararam na meta, o estrangeiro ruivo disse a Noel: «Nada mal. Amanhã, eu serei o primeiro e você o segundo».

O meu tio-avô Noel não se impressionou com este comentário. «Quem pensa que é este desconhecido?», pensou. Noel era o favorito da competição e tinha a certeza que ia ser o vencedor. O que não sabia era que o campeão olímpico de 1924, Eric Liddell, na época estava a trabalhar na China como missionário da London Missionary Society. No último momento, Liddell tinha perguntado aos organizadores se podia participar na competição, e obviamente eles tinham concordado. Ele quis dar algumas voltas para se treinar para a competição, e foi então que encontrou o meu tio-avô Noel.

No dia da competição, o meu tio-avô ficou surpreendido ao saber que ia correr contra o grande campeão olímpico Eric Liddell. E ficou ainda mais surpreendido quando o homem que se colocou com ele na linha de partida era precisamente a pessoa com a qual tinha corrido no dia anterior. Liddell sorriu e saudou o meu tio-avô. Ouviu-se o disparo. Os atletas partiram. Eric Liddell terminou em primeiro lugar. O tio-avô Noel em segundo.

Eric Liddell era muito estimado. Passou grande parte da sua vida na China, recusando-se a abandonar a sua actividade missionária quando se deu a invasão do exército japonês. Foi internado em Tianjin em 1943 e, desgastado pelo ministério desempenhado a favor dos seus companheiros de prisão e suas famílias, a 21 de Fevereiro de 1945, com 43 anos, faleceu no campo de internamento de Wishien. Em 2008, antes das Olimpíadas de Beijing, as autoridades chinesas revelaram que Liddell teria podido abandonar o campo depois de um acordo entre os japoneses e o governo britânico, mas que tinha dado o seu lugar a uma mulher grávida. O vencedor britânico dos 100 metros nas Olimpíadas de Moscovo de 1980, o escocês Alan Wells, dedicou a sua vitória a Eric Liddell, que no calendário litúrgico da Igreja episcopal estado-unidense é honrado com uma festa a 22 de Fevereiro.

Quando estão para iniciar as Olimpíadas de Londres de 2012, recordemos os nossos heróis olímpicos. Para mim, o gentil Eric Liddell, que sabia que ia vencer o meu tio-avô Noel numa corrida na China, nos anos Trinta, antes que a guerra os engolisse a todos, está no cimo da minha lista.

 

 

L’Osservatore Romano, ed. port.

28 de Julho de 2012

 

 

 

 


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