aCONTECIMENTOS eclesiais

DA SANTA SÉ

 

 

CRISE DA DEMOCRACIA

EM MENSAGEM PAPAL

 

Bento XVI vai apresentar uma “reflexão ética” sobre a construção da paz a nível mundial com atenção particular à “preocupante crise da democracia” que se vive em vários países, anunciou o Vaticano no passado dia 16 de Julho.

 

O tema vai estar presente na Mensagem do Papa para o 46.º Dia Mundial da Paz, a celebrar em 1 de Janeiro de 2013, com o título “Bem-aventurados os construtores da paz”.

A mensagem quer “encorajar todos a sentirem-se responsáveis em relação à construção da paz, no complexo contexto actual”.

O documento papal vai abordar “algumas medidas que estão a adoptar para conter a crise económica e financeira, a emergência educativa, a crise das instituições e da política, que é também, em muitos casos, uma preocupante crise da democracia”.

Bento XVI vai ainda aludir ao 50.º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II (1962-1965) e da encíclica Pacem in terris (1963), de João XXIII, documento em que se apontava para o primado da “dignidade humana e da sua liberdade”

O Papa pretende recordar o objectivo de edificação de uma “cidade ao serviço de todos os homens, sem qualquer discriminação, e orientada para o bem comum que se funda na justiça e na verdadeira paz”.

Bento XVI quer colocar em evidência “a emergência antropológica, a natureza e evidência do niilismo e, ao mesmo tempo, os direitos fundamentais, em primeiro lugar a liberdade de consciência, a liberdade de expressão, a liberdade religiosa”.

 

 

AVALIAÇÃO DO REGIME DAS

FINANÇAS DO VATICANO

 

O Conselho de Europa recomendou à Santa Sé que reforce o seu sistema de supervisão financeira, uma posição assumida no primeiro relatório do Moneyval, publicado no passado dia 18 de Julho.

 

Os peritos do organismo especializado na luta contra a lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo analisaram a “implementação dos padrões internacionais e europeus” nos órgãos centrais de governo da Igreja Católica, bem como no Estado da Cidade do Vaticano.

“A Santa Sé percorreu um longo caminho num curto período de tempo, e muitos dos alicerces de um regime contra a lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo estão agora formalmente em vigor. Contudo, há mais assuntos importantes que precisam de ser abordados para demonstrar que um regime totalmente eficaz foi colocado em prática”, refere o documento.

A iniciativa da avaliação partiu do Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, no início do ano passado e incluiu uma visita dos responsáveis do Moneyval às instituições da Santa Sé, em Novembro de 2011.

Segundo o relatório, os responsáveis católicos estiveram “plenamente comprometidos” neste processo, com atenção particular ao Instituto para as Obras Religiosas (IOR), conhecido comummente como o Banco do Vaticano.

Em Dezembro de 2010, Bento XVI instituiu uma Autoridade para a Informação Financeira (AIF), para garantir maior transparência nas finanças da Santa Sé e combater o crime económico, e criou um novo quadro jurídico, que entrou em vigor a 1 de Abril de 2011 e foi revisto, após a visita dos técnicos do Moneyval, a 25 de Janeiro deste ano.

O documento assinala que das 49 recomendações do Grupo de Acção Financeira, organismo intergovernamental, há 4 que não se consideram aplicáveis ao Vaticano.

Quanto às outras 45, a avaliação mostra que mais de metade (51%) são apenas parcialmente executadas ou mesmo não cumpridas; as restantes 22 (49%) foram tidas como consumadas ou largamente cumpridas.

Para o organismo especializado do Conselho de Europa, é necessário fortalecer “a base legislativa” para a supervisão financeira e existe uma “falta de clareza sobre o papel, responsabilidade, autoridade, poder e independência” da AIF.

Quanto ao Instituto para as Obras Religiosas, é “fortemente recomendado” que o mesmo seja supervisionado de forma independente e que sejam definidos os critérios para saber quem pode ter contas abertas na instituição do Vaticano.

O Moneyval vai continuar a monitorizar a implementação destas recomendações e a Santa Sé tem de apresentar um relatório sobre os progressos realizados, no prazo de um ano, adianta o organismo do Conselho de Europa.

 

 

CULTURA E FÉ

SOBRE ENVELHECIMENTO

 

O envelhecimento é o tema central do número mais recente da revista Cultura e Fé, editada pelo Conselho Pontifício da Cultura, que se propõe apresentar diversos olhares sobre a pessoa idosa.

 

O crescimento positivo da esperança de vida e a diminuição da natalidade “provocam desequilíbrios intergeracionais”, sublinha o bispo português D. Carlos Azevedo, que assina o editorial.

O delegado do Conselho Pontifício presidido pelo cardeal italiano Gianfranco Ravasi salienta que a participação activa dos idosos na vida social e familiar “assume na cultura um peso sobre o qual é preciso reflectir”.

O responsável considera que há duas perspectivas que merecem ser analisadas: “a cultura do idoso no que respeita ao seu próprio envelhecimento” e a “mentalidade social predominante” sobre a pessoa idosa.

A redacção da revista pediu contributos a especialistas de diversas disciplinas sobre “a arte de envelhecer”, baseados na colaboração que os anciãos podem prestar na construção da comunidade, bem como sobre as dimensões psicológicas e espirituais da vida tendo em conta a aproximação da quarta idade.

A sociologia mostra como os idosos são vistos nas diferentes sociedades: “A tradição africana resiste ainda à mentalidade pragmática e produtivista da Europa”, onde os “cálculos economicistas colocam à margem a sabedoria da experiência”, acentua D. Carlos Azevedo.

“O modelo da eterna juventude ganha terreno no dia a dia e ignora o desenvolvimento interior, não obstante a novidade da experiência que o envelhecimento pode trazer, ainda que seja assinalado pela perda de capacidades e da percepção dos limites”, acrescenta.

A teologia olha para o envelhecimento como o “cumprimento da vida, distinguindo entre o declínio físico e o crescimento do espírito”, ao mesmo tempo que realça “a importância da vida espiritual vivida enquanto acolhimento da terceira idade como uma bênção”.

“A espiritualidade cristã sustenta a aceitação dos limites, a reconciliação com a vida relida e a preparação para o encontro com Deus”, aponta D. Carlos, observando que uma cultura sã é chamada a ver no envelhecimento “a beleza da tranquilidade, da ternura e do silêncio, e não apenas a aspereza da doença e da solidão”.

A presença portuguesa nesta edição inclui o artigo O envelhecimento: uma leitura psicológica, de António Fonseca, director da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade Católica Portuguesa – Porto.

O volume oferece também um breve registo sobre o mais velho realizador do mundo em actividade, o português Manoel de Oliveira, de 103 anos, que em 2007 recebeu o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

 

 

NOVAS PUBLICAÇÕES

DE BENTO XVI

 

O Secretário de Estado do Vaticano revelou no passado dia 1 de Agosto que Bento XVI concluiu o terceiro e último volume da sua obra Jesus de Nazaré e admitiu que o Papa está a trabalhar numa nova encíclica, a quarta do actual pontificado.

 

Segundo o cardeal Tarcísio Bertone, o novo documento papal poderia ser um “grande presente” para o Ano da Fé convocado por Bento XVI, que se vai iniciar a 11 de Outubro.

O Papa escreveu até agora as encíclicas Deus caritas est (2005), Spe salvi (2007) e Caritas in veritate (2009).

O  último volume de Jesus de Nazaré, depois dos dois volumes publicados em 2007 e 2011, vai abordar os chamados “Evangelhos da infância”, sobre os primeiros anos de vida de Cristo.

A Santa Sé confirmou que “se está a proceder à tradução nas várias línguas, que serão feitas directamente a partir do original alemão”.

“Deseja-se que a publicação do livro aconteça ao mesmo tempo nas línguas de maior difusão, o que vai requerer um período de tempo apropriado para uma tradução precisa de um texto importante e aguardado”, acrescenta a nota do Vaticano.

 

 

DIÁLOGO CATÓLICO-ORTODOXO

NA POLÓNIA

 

Bento XVI enviou no passado dia 19 de Agosto uma saudação ao patriarca ortodoxo de Moscovo, Cirilo I, afirmando que a viagem que o patriarca estava a fazer à Polónia era um sinal de “esperança para o futuro”.

 

“O programa desta visita compreendeu também encontros com os bispos católicos e a declaração comum do desejo de fazer crescer a união fraterna e de colaborar na difusão dos valores evangélicos no mundo contemporâneo”, explicou o Papa aos peregrinos reunidos para a oração do Angelus, no pátio da residência pontifícia de Verão em Castel Gandolfo, nos arredores de Roma.

O presidente da Conferência Episcopal Polaca, Mons. Jozef Michalik, e o patriarca ortodoxo de Moscovo assinaram no dia 17 de Agosto em Varsóvia uma mensagem que apela à reconciliação entre os dois países.

“Os nossos povos irmãos estão unidos não só por uma vizinhança secular mas também por uma rica herança cristã oriental e ocidental”, escrevem os dois dirigentes cristãos, que destacam a importância da religião na definição da “identidade, fisionomia espiritual e cultural” dos dois países.

O documento diz que ambas as Igrejas querem “sanar as feridas do passado” e “superar os recíprocos preconceitos e incompreensões”, na busca da reconciliação.

O exército da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas invadiu a Polónia a 17 de Setembro de 1939, sem declaração formal de guerra, um acto considerado como agressão pelos polacos, mas que os russos justificaram com a necessidade de se proteger do avanço do exército nazi da Alemanha.

“O diálogo deve ajudar a conhecermo-nos melhor, a restabelecer a confiança recíproca, visando a reconciliação, o que supõe também estar pronto para perdoar as ofensas e as injustiças sofridas”, sublinham o presidente da Conferência Episcopal Polaca e o patriarca ortodoxo de Moscovo.

 

 

VATICANO II E MARIOLOGIA

 

A Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, acolheu de 7 a 9 de Setembro passado o 23.º Congresso Mariológico e Mariano Internacional, centrado no impulso que o Concílio Vaticano II deu à reflexão sobre a Virgem Maria, Mãe de Deus.

 

Na conferência de abertura do Congresso, o Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, cardeal Angelo Amato, recordou a importância do último Concílio (1962-1965), referindo especificamente o capítulo VIII da Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, um dos mais importantes textos conciliares, que destacou a missão de Maria enquanto “mãe do Filho de Deus, filha predilecta do Pai e sacrário do Espírito Santo”.

A edição deste ano do Congresso, organizado pela Academia Pontifícia Mariana Internacional, tem como tema “A Mariologia a partir do Concílio Vaticano II: Recepção, Balanço e Perspectivas”.

De acordo com o cardeal Angelo Amato, para além do “novo impulso” que a década de 1960 trouxe à reflexão teológica sobre Maria, é preciso não esquecer o contributo deixado pelos papas Paulo VI (1963–1978) e João Paulo II (1978–2005), que dedicaram a esta matéria “numerosas encíclicas, cartas apostólicas e mensagens, além de homilias e ciclos catequéticos”.

Um trabalho que é agora continuado por Bento XVI que, “num dos primeiros actos do seu ministério, promulgou o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica”, que inclui também “uma catequese mariana”.

O cardeal Angelo Amato concluiu o seu discurso salientando que a metodologia dos estudos marianos “deve ser rigorosa no recorrer às fontes e deve evidenciar o seu intrínseco carácter relacional, porque em Maria tudo está relacionado com Deus Trindade, com a Igreja e com a humanidade”.

 

 

ENCONTRO INTERNACIONAL

DE ORAÇÃO PELA PAZ

 

O cardeal Tarcísio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, enviou uma mensagem em nome do Papa que foi lida no fim do 26.º Encontro internacional de oração pela paz, em Sarajevo, organizado pela Comunidade de Santo Egídio, de 8 a 11 de Setembro passado.

 

A mensagem lamenta a persistência de conflitos em vários pontos do globo.

O desejo de Bento XVI é que todas as regiões “necessitadas de reconciliação e tranquilidade encontrem rapidamente a paz”, refere a mensagem. E acrescenta: “O pensamento do Santo Padre vai, nestes dias, de modo particular, para o Médio Oriente, para a dramática situação na Síria e para a viagem apostólica que está prestes a realizar ao Líbano”, de 14 a 16 de Setembro.

Da cidade onde começou a I Guerra Mundial, que segundo o beato João Paulo II se tornou “símbolo do sofrimento de toda a Europa”, quer “partir uma mensagem de paz, graças ao encontro de muitos homens e mulheres de várias religiões”, sublinha o cardeal Bertone.

A “longa experiência de diálogo” vivida neste tipo de iniciativas “mostra o fracasso da cultura do confronto” e “ressalta o valor do diálogo”, sustenta o texto.

O prelado congratula-se pelo facto de os encontros iniciados por João Paulo II na cidade italiana de Assis, em 1986, continuarem “a dar fruto”; e acrescenta que o papa polaco chamou a atenção para os riscos da violência causada pela “instrumentalização da religião” e pela negação de Deus.

“Os efeitos convergentes destas duas forças negativas foram, entre outros, experimentados de forma dramática, também na cidade de Sarajevo, na guerra que teve início há 20 anos, levando a morte e a destruição aos Balcãs”, frisa o cardeal.

Quando em 2011 se deslocou a Assis, 25 anos após o primeiro encontro, Bento XVI vincou que o antídoto à “ameaça sempre recorrente” da guerra passa pela “aliança entre pessoas religiosas e pessoas que não se sentem pertencentes a nenhuma tradição religiosa” mas que se empenham “na procura sincera da verdade”.

O Encontro internacional, dedicado ao tema Viver juntos é o futuro – Religiões e Culturas em Diálogo, encerrou em 11 de Setembro, aniversário do ataque às torres gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque.


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