vaticano II

A ECLESIOLOGIA DE COMUNHÃO

A 50 ANOS DA ABERTURA DO CONCÍLIO VATICANO II

 

 

CARDEAL MARC OUELLET

Prefeito da Congregação para os Bispos

 

 

Publicamos a seguir a Introdução e a Conclusão da Conferência dada pelo Cardeal Marc Ouellet no dia 6 de Junho passado em Maynooth (Irlanda), no Congresso teológico sobre o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, que precedeu o Congresso eucarístico internacional em Dublin (de 10 a 17 de Junho de 2012), encerrado pelo mesmo Cardeal como Legado pontifício.

O texto integral em francês e em inglês encontra-se em www.osservatoreromano.va; amplos excertos foram publicados em «L’Osservatore Romano», ed. port., 16-VI-2012.

 

 

Introdução

Cinquenta anos depois da abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II, a Igreja pode apreciar melhor o alcance deste acontecimento e a importância dos seus textos, que marcaram profundamente a sua vida e a sua relação com o mundo na passagem para o terceiro milénio.

O beato João XXIII tinha assinalado ao Concílio duas finalidades principais: actualizar a apresentação da doutrina da Igreja e promover a unidade dos cristãos [1]. Estes dois objectivos pretendiam renovar a relação da Igreja com o mundo moderno e desta forma relançar a sua missão universal.

Para alcançar estes objectivos, os Padres conciliares empreenderam uma reflexão de fundo sobre a eclesiologia na esperança de melhor definir a natureza profunda da Igreja, a sua estrutura essencial e o sentido da sua missão num mundo em vias de emancipação em relação à sua influência e tradição.

A eclesiologia de comunhão é o fruto desta reflexão, que amadureceu ao longo da progressiva recepção dos textos conciliares, com divergências notáveis, consoante a interpretação teológica ou pastoral privilegiasse a reforma na continuidade ou a ruptura com a Tradição. Assim, depois de se ter promovido a «explicação» e a «recepção» do Concílio, pareceu necessário orientar a sua interpretação, o que fez o Sínodo de 1985, declarando: «a eclesiologia de comunhão é a ideia central e fundamental dos documentos do Concílio» [2].

O Papa Bento XVI contribuiu em grande medida para esta reflexão, fazendo notar a sua necessidade: «Por que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, tem processado até agora de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da recta interpretação do Concílio ou – como diríamos hoje – da sua recta hermenêutica, da recta chave de leitura e de aplicação» [3]. Basta recordar a reforma litúrgica, a colegialidade episcopal, a sinodalidade, o ecumenismo, para tocar pontos nevrálgicos bem conhecidos da eclesiologia de comunhão e da sua interpretação.

Contudo, ela é mais rica e mais promissora do que se possa ver por certos debates. No marco deste Congresso Eucarístico Internacional, proponho-me apresentar uma breve retrospectiva da eclesiologia de comunhão desde o Concílio, seguida de algumas pistas para um futuro aprofundamento, para concluir sobre o significado global desta eclesiologia para a missão da Igreja no terceiro milénio.

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Conclusão

Cinquenta anos após a abertura do Concílio Ecuménico. Vaticano II, verificámos que a eclesiologia de comunhão foi a sua maior inspiração, que uma recta interpretação progressivamente identificou e valorizou. A eclesiologia de comunhão ainda está em pleno desenvolvimento. Ela é fecundada pelos diálogos ecuménicos com os ortodoxos e a sua eclesiologia eucarística, assim como pelos diálogos com as comunidades eclesiais nascidas da Reforma que mantêm a primazia da eclesiologia baptismal.

No seio da Igreja católica, a eclesiologia de comunhão valoriza o ministério episcopal, as Conferên­cias episcopais e o Sínodo dos Bispos, renovando ao mesmo tempo a reflexão sobre o primado de Pedro; ela promove a busca de um novo equilíbrio entre primado e colegialidade nas relações entre a Igreja universal e as Igrejas particulares. Ao nível das Igrejas particulares, a dimensão sacramental da eclesiologia de comunhão estende a consciência da Igreja até à família, Ecclesia domestica; ela reclama uma renovada pastoral da iniciação cristã, assim como a integração harmoniosa dos carismas para uma evangelização nova e eficaz.

Por conseguinte, a eclesiologia de comunhão revitalizou a Igreja ad intra e multiplicou as aberturas ecuménicas e missionárias ad extra. Regozijemo-nos por esta fecundidade do Concílio, que supera em muito os fenómenos de regressão ou de recepção ideológica. Entre as suas consequências notemos o compromisso renovado da Igreja pela paz e pela justiça no mundo, a sua promoção do diálogo inter-religioso e de uma globalização da solidariedade no espírito da encíclica Caritas in veritate.

Contudo, a eclesiologia de comunhão necessita de ser aprofundada teologicamente e levada à prática pastoralmente. De facto, ela mostra-se cada vez mais, depois de cinquenta anos, como a realização concreta da Igreja, Sacramento da salvação. A noção de sacramento aplicada à Igreja deve ser compreendida não só como a eficácia dos sete sacramentos, mas também como a participação da co­munhão eclesial na comunhão trinitária oferecida ao mundo em Jesus Cristo: «Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele» (1Jo 4, 16).

Por conseguinte, a sacramentalidade da Igreja significa a comunhão eclesial como força de atracção e de evangelização. Não esqueçamos que a força evangelizadora dos primeiros cristãos provinha do seu testemunho de amor recíproco que atraía e convertia os pagãos: «Vede – diziam – como se amam uns aos outros» 25. «A Igreja é, em Cristo, de certo modo, como que sacramento, ou seja, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (Lumen gentium, 1), em conformidade com a definição geral de sacramento. Enquanto «sinal», ela é portadora de uma realidade divina misteriosa que nenhuma imagem ou analogia deste mundo pode exprimir adequadamente. Enquanto «instrumento», ela actua eficazmente para a salvação do mundo através da sua união com Cristo, que a associa como seu Corpo e sua Esposa ao seu único sacerdócio. Por conseguinte, a missão da Igreja coincide com a forma sacramental do amor que revela Deus em acção no mundo, em estreita sinergia com os testemunhos da Nova Aliança.

Portanto, o futuro da missão da Igreja passa pelo seu testemunho de unidade e pelo seu diálogo com toda a humanidade, em nome da comunhão trinitária, destinada a todos, da qual ela é o sacramento. A sua missão sacramental significa mais do que uma referência à Santíssima Trindade, como um ideal ou um modelo; significa uma comunhão que é participação autêntica no testemunho da Trindade na história. «Porque são três os que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue, e estes três são concordes. Se aceitamos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior. [...] E o testemunho é este: Deus deu-nos a vida eterna e esta vida está no seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho, não tem a vida» (1 Jo 5, 7-9. 11-12).

 

 

 

 

 



[1] Cf. JOÃO XXIII, Discurso na abertura oficial do Concílio, 11-X-1962.

[2] SEGUNDA ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS, Ecclesia sub Verbo Dei mysteria Christi celebrans pro salute mundi. Relatio Finalis, 1985, II, C. 1.

[3] BENTO XVI, Discurso à Cúria Romana por ocasião da apresentação dos bons votos de Natal, 22-XII-2005.

25 TERTULIANO, Apologeticum, XXXIX, 7.


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