DOCUMENTAÇÃO

CARDEAL D. JOSÉ POLICARPO

Patriarca de Lisboa

 

 

O PADRE, PEREGRINO DA FÉ 

 

 

Excerto da conferência de encerramento do Simpósio do Clero, que decorreu no Santuário de Fátima, de 4 a 7 de Setembro de 2012, sob o tema “O Padre, Homem de Fé – do mistério ao ministério”, organizado pela Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios.

 

Peregrinos da verdade

5. O que é a verdade?, perguntou Pilatos a Jesus. Mas se ele O tivesse ouvido e acreditasse n'Ele, já sabia a resposta: "Eu sou a verdade", tinha dito Jesus. Ser a Porta, o Caminho e a Verdade, são sinónimos no ensinamento de Jesus.

O problema da verdade é uma aventura apaixonante na história da humanidade. Religiões, filosofias, correntes culturais, procuram influenciar as pessoas na busca da verdade. Ligada à sabedoria na tradição bíblica, tornou-se prisioneira da lógica racional, apanágio da ciência, assunto de opinião. Sobretudo hoje, com os poderosos meios de comunicação, tornou-se individual, relativizou a dimensão comunitária de verdade de um Povo.

Ser peregrino da fé é, necessariamente, ser peregrino da verdade. O sacerdote, no seu ministério, é ministro da verdade da Igreja, aquela que brota como luz que resplandece, da fé da Igreja. É esta que ele tem de buscar em cada circunstância e em cada tempo. Ele tem como ministério propor essa verdade, conduzir o Povo de Deus na compreensão da vida à luz dessa verdade. As suas fontes têm de ser as da própria Igreja: a Palavra de Deus, o Magistério autêntico, a fidelidade à Tradição. É preocupante saber de sacerdotes que, acerca de aspetos vitais, ousam dizer: a Igreja pensa que …, mas eu penso de outro modo. Quantos ensinamentos são proferidos por sacerdotes, sobretudo na orientação pastoral dos fiéis, afastando-se da verdade da Igreja, expressa no seu Magistério autêntico. Hoje, mais do que nunca, ser peregrino da verdade supõe fidelidade e conversão contínua.

Refiro, a título de exemplo, com tristeza e preocupação, as correntes atuais de reinterpretação do Magistério do Concílio Vaticano II. Aconselho-vos a reler os documentos conciliares acerca do ministério sacerdotal, sobretudo a "Lumen Gentium" e a "Presbiterorum Ordinis". E tomemos a sério a afirmação de Bento XVI na "Porta da Fé": "Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, «não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa». Quero aqui repetir com veemência as palavras que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: «Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja" (n.º 5).

Esta confirmada atualidade do Concílio torna desvios da verdade todas as suas leituras que não sejam motivadas por uma sã hermenêutica. O Concílio Vaticano II e o vasto Magistério dos Papas são a bússola indispensável nesta nossa peregrinação da verdade.

Peregrinos da caridade

6. A peregrinação da fé conduz-nos à caridade, ainda sem a luminosidade do amor definitivo, mas com a generosidade firme de quem acredita, isto é, de quem deseja e se sente a caminho do amor. Na oração eucarística rezamos: "Lembrai-vos Senhor da Vossa Igreja... tornai-a perfeita na caridade". É o mesmo que pedir, "torna-a perfeita na fé". É algo que devemos procurar nesta peregrinação, fazer dos nossos atos de fé, atos de amor, expressões da caridade. Dizer "eu amo" sempre que digo "eu creio".

O Santo Padre afirma: "A fé sem caridade não dá fruto, e a caridade sem fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra de realizar o seu caminho" (n.º 14).

A caridade é sempre experiência de Deus, participação no próprio amor de Deus. Este texto foi escrito no dia de Santo Agostinho e, por isso, não resisto a citá-lo: "Oh eterna verdade, verdadeira caridade e cara eternidade! Vós sois o meu Deus; por Vós suspiro dia e noite".

A busca da caridade envolve toda a vida do sacerdote: o amor pastoral por aqueles que lhe foram confiados; o fazer comunhão, com a Igreja, Povo de Deus, com os outros sacerdotes, com o seu Bispo, a solicitude pelos pobres e pelos doentes, etc. É preciso interiorizar que a peregrinação da fé e a da caridade, são uma única caminhada. Aprofundar a fé é abrir-se à caridade. Volto a citar Bento XVI, na "Porta da Fé": "Já no termo da sua vida, o apóstolo Paulo pede ao discípulo Timóteo que «procure a fé» (cf.  Tm 2,22) com a mesma constância de quando era novo (cf. 2 Tm 3,15). Sintamos este convite dirigido a cada um de nós, para que ninguém se torne indolente na fé. Esta é companheira de vida, que permite perceber, com um olhar sempre novo, as maravilhas que Deus realiza por nós. Solícita a identificar os sinais dos tempos no hoje da história, a fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo. Aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade é o testemunho credível de quantos, iluminados na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que não tem fim.

Que «a Palavra do Senhor avance e seja glorificada» (2 Ts 3,1)! Possa este Ano da Fé tornar cada vez mais firme a relação com Cristo Senhor, dado que só n'Ele temos a certeza para olhar o futuro e a garantia dum amor autêntico e duradouro. As seguintes palavras do Apóstolo Pedro lançam um último jorro de luz sobre a fé: «É por isso que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações; deste modo, a qualidade genuína da vossa fé - muito mais preciosa do que o ouro perecível, por certo também provado pelo fogo - será achada digna de louvor, de glória e de honra, na altura da manifestação de Jesus Cristo. Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda, credes n'Ele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante, alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas» (1 Ped 1,6-9). A vida dos cristãos conhece a experiência da alegria e a do sofrimento. Quantos Santos viveram na solidão! Quantos crentes, mesmo em nossos dias, provados pelo silêncio de Deus, cuja voz consoladora queriam ouvir! As provas da vida, ao mesmo tempo que permitem compreender o mistério da Cruz e participar nos sofrimentos de Cristo (cf. CI 1,24), são prelúdio da alegria e da esperança a que a fé conduz: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Cor 12,10). Com firme certeza, acreditamos que o Senhor Jesus derrotou o mal e a morte. Com esta confiança segura, confiamo-nos a Ele: Ele, presente no meio de nós, vence o poder do maligno (cf. Lc 11,20); e a Igreja, comunidade visível da sua misericórdia, permanece n'Ele como sinal da reconciliação definitiva com o Pai.

À Mãe de Deus, proclamada «feliz porque acreditou» (cf. Lc 1, 45), confiamos este tempo de graça" (nº15).

 

 

 

 

 

 

 


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