TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

OS MOTIVOS DO INTERESSE DA IGREJA PELA

QUESTÃO FEMININA

 

 

 

Ir. Sara Butler, M.S.B.T.

Membro da Comissão Teológica Internacional

 

 

 

Por expressa deferência de «L’Osservatore Romano», temos o gosto de oferecer aos nossos leitores o artigo publicado na edição portuguesa de 6-XI-04, o primeiro da série de comentários acerca da Carta da Congregação para a Doutrina da Fé dirigida aos Bispos da Igreja Católica sobre «a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo» (31-V-04).

Possa a lúcida exposição da Autora do artigo ajudar a compreender como o feminismo da sociedade actual vai socavando os fundamentos doutrinais e morais da vida cristã, em particular na família.

 

O título da nova Carta da Congregação para a Doutrina da Fé explica a sua intenção: promover a «colaboração» entre o homem e a mulher na Igreja e no mundo. Mesmo se a Congregação se dirige aos Bispos da Igreja Católica, ela exprime a esperança de que estas reflexões se tornem o ponto de partida para um diálogo sobre este assunto, não só no âmbito da Igreja, mas também com todos os homens e mulheres de boa vontade.

 

Além disso, o conteúdo da Carta revela uma preocupação ainda mais específica, ou seja, a influência nociva de algumas «correntes de pensamento» contemporâneas sobre a autêntica promoção feminina. A Congregação descreve as teorias consideradas problemáticas, realça os elementos-chave da visão bíblica da pessoa humana, homem e mulher, para depois indicar como esta visão alternativa poderia inspirar a colaboração generosa na sociedade e na Igreja.

A Carta identifica duas correntes de pensamento feminista contemporâneo. A primeira é a visão segundo a qual a relação entre homem e mulher é antagonista por sua natureza. Aqueles que defendem esta visão reconhecem a complementaridade dos sexos, mas estão convencidos de que a «diferença» exige sempre um certo tipo de ordenamento hierárquico, um certo tipo de desigualdade. Uma vez que as mulheres sofreram historicamente o abuso do poder por parte dos homens, elas são encorajadas a corrigir a situação entrando em competição com eles – o que se torna quase uma luta de classes – para adquirirem uma parte do poder.

Em segundo lugar está a teoria, por vezes denominada «feminismo de género», que põe em questão o valor – e por vezes também o facto – da diferença entre homem e mulher. Esta recusa do «sistema binário do género», a favor de uma sexualidade polimorfa sem relação com as estruturas corpóreas concretas, representa uma resposta ulterior e mais radical à «sexualidade». Tendo chegado a conclusão de que a diferença entre os sexos é a fonte da discórdia, o feminismo de género propõe-se eliminar a desarmonia eliminando a diferença. Ele relega o sexo físico para o reino da biologia e explica o «género» como definição construída a nível social – que, por conseguinte, varia de uma cultura e de uma era para outra – de papéis específicos masculinos e femininos [1].

O feminismo de género pretende «libertar» as mulheres da discriminação baseada nos sexos, negando que a complementaridade sexual tenha uma base sólida na natureza e na corporeidade humana. Com a finalidade de libertar as mulheres de papéis impostos a nível biológico, esta solução não tem em consideração o contributo específico das mulheres, sobretudo das mães, e torna a família, como instituição social, instável. Ao separar o género do sexo biológico, ela fornece uma finalidade tanto lógica como teórica para considerar as uniões homossexuais equivalentes ao matrimónio. As consequências concretas desta visão errónea emergiram com vigor nos recentes encontros promovidos pelas Nações Unidas no Cairo (sobre População e Desenvolvimento) e em Pequim (Quarta Conferência Mundial sobre as Mulheres) [2]. De facto, as duas teorias dão às mulheres um novo golpe à sua identidade como mulheres, não obstante se proponham afirmar a dignidade das mulheres como pessoas.

Com efeito, estas mesmas correntes de pensamento foram adoptadas pelas feministas católicas e pelas teólogas feministas, com o resultado de terem ganho uma crescente influência na vida da Igreja. Alguns dos defensores, em sintonia com a primeira teoria, consideram que unicamente se possa fazer justiça «modificando as estruturas da Igreja» (isto é, com a ordenação de mulheres e de homens casados) através de meios de pressão e de tácticas políticas. Eles consideram este objectivo como um imperativo do Evangelho, fundamental para estabelecer a justiça na Igreja. Outros, em sintonia com a segunda teoria, consideram que o facto de conferir valor à diferença sexual esteja em si em desacordo com a verdadeira igualdade; defendem que «homem e mulher» foram desenraizados de Cristo (cf. Gal 3, 28). Do seu ponto de vista – não obstante as provas contrárias [3] – a proibição da Igreja de conferir o sacerdócio às mulheres baseia-se, em última análise, numa percepção errada do género, percepção que conduz à teoria da complementaridade sexual. Pondo em questão o significado e o valor da diferença sexual, esperam abrir para as mulheres o caminho à ordenação, que muitas vezes é vista como igual acesso à «liderança» e ao poder decisório. Com base nestas premissas erradas, não poucas teólogas feministas empenharam-se profundamente numa crítica das Sagradas Escrituras e num programa de reconstrução da doutrina católica. Pretendem purificar a tradição de tudo o que – sobretudo a representação masculina de Deus e a atribuição de um significado teológico à masculinidade de Jesus – poderia oferecer justificação para o domínio dos homens sobre as mulheres.

 

Por que motivo deveriam estar os Pastores da Igreja envolvidos em discernir as formas autênticas de uma teoria feminista das não autênticas? Não são eles próprios, como afirmam muitas feministas, parte do problema? Por que estão interessados nos «temas femininos»? O título da Carta sugere a resposta. O Magistério da Igreja considera que estas correntes de pensamento ameaçam a possibilidade de uma colaboração justa e pacífica entre homens e mulheres; ele considera-as incompatíveis com a promoção autêntica da mulher. A Igreja, como parte da família humana, tem interesse em conferir a justa ordem às relações humanas e sociais. Na sua qualidade de mestra moral que promove a justiça, a Igreja, com o seu Magistério, tem a tarefa de anunciar a verdade, como parte do seu serviço à humanidade, com a finalidade de esclarecer os problemas comuns à luz do Evangelho [4]. A Igreja possui um grande conhecimento das questões e é a guardiã de uma revelação divina – uma antropologia cristã – de grande relevo para o problema.

Os Pastores da Igreja estão também interessados em resolver as controvérsias que perturbam a harmonia da comunidade eclesial. Nesta Carta enfrenta-se a opinião, defendida por muitas feministas católicas, de que basear-se no matrimónio como norma para avaliar o significado da diferença sexual seria em desvantagem da mulher. O problema que está na base desta controvérsia é o seguinte: reconhecer o significado da diferença sexual por vezes legitima o tratamento diferenciado da mulher, e esta diferença foi e pode ser injustamente invocada como motivo para a marginalizar e excluir de oportunidades e âmbitos da vida pública tradicionalmente reservados aos homens. Ao mesmo tempo, o tratamento diferenciado é justo e necessário a fim de salvaguardar algumas prerrogativas da mulher, sobretudo em relação ao seu papel de mãe.

As feministas estão geralmente dispostas a sacrificar o direito ao tratamento diferenciado para obterem «igualdade» com os homens – mesmo se isto exige que se conformem com uma norma «masculina». A tradição do ensinamento social católico, pelo contrário, propõe coerentemente que o direito das mulheres ao tratamento diferenciado seja fundamental para a tutela da sua dignidade e do seu valor específico como mulheres. Nos últimos anos, o Magistério denunciou repetidas vezes o abuso pecaminoso de poder que tenderia a impedir o legítimo progresso das mulheres na sociedade e na Igreja; ao mesmo tempo sustenta com vigor que o contributo específico das mulheres – que não se reduz à maternidade física – deve ser defendido porque é essencial para o bem-estar da humanidade.

 

Naturalmente, é necessário considerar a deturpação causada pelo pecado. Na sua resposta, as feministas por vezes configuram o desafio de desenvolver novos e melhores modelos de colaboração entre os sexos em termos de «poder», termos que são alheios ao Evangelho. Este Documento recorda e explica mais profundamente o ensinamento de João Paulo II sobre a «novidade do Evangelho». A visão da relação entre os sexos, redimida pela graça de Cristo, oferece uma alternativa à visão segundo a qual mulheres e homens são adversários naturais numa luta que se pode resolver unicamente com uma estratégia política e com o uso da força. Ela oferece uma alternativa à teoria de que a injustiça só pode ser superada considerando a criação de «homem e mulher» à imagem divina como um erro que deve ser corrigido. A Carta recorda que, como consequência do pecado, a relação entre os sexos está «ferida» e «tem necessidade de ser curada». As erradas correntes de pensamento identificadas por esta Carta não podem ter sucesso dado que constroem a sua análise só «a partir de uma situação marcada pelo pecado» (n. 8). Também a teologia feminista católica mostra um certo pessimismo acerca da possibilidade de «relacionamentos resgatados» entre os sexos e a transformação da liberdade humana através da graça.

A Igreja, na realidade, tem uma proposta para a promoção autêntica das mulheres, que poderá orientar de maneira correcta a colaboração entre homens e mulheres, visto que proclama tanto a sua igual dignidade como pessoas, baseada na idêntica natureza humana, como a sua específica vocação de homem e mulher, baseada na sua diferença orientada para a comunhão, ou seja, dirigida ao amor. Segundo o ensinamento católico, a igualdade e a complementaridade dos sexos não se excluem reciprocamente. Pelo contrário, a igual dignidade de homem e mulher como pessoas «realiza-se como complementaridade física, psicológica e ontológica» (n. 8). Esta complementaridade, por sua vez, gera o amor oblativo e a nova vida; homem e mulher juntos constituem uma imagem humana da Santíssima Trindade.

Esta Carta oferece aos Bispos do mundo a maneira de enfrentar estes temas a partir da perspectiva da revelação bíblica. Ela recorda que a consideração teológica destas questões deve ter em consideração a vitória de Cristo e, por conseguinte, a real possibilidade de que, com a sua graça, homens e mulheres possam realizar o mandamento do amor. Na sua Encíclica Evangelium vitae, João Paulo II convida as mulheres católicas a desenvolverem um «novo feminismo» (n. 99). De várias formas, a Carta repropõe esta necessidade e indica os fundamentos teológicos para esta tentativa.

 

 

 



[1] Cf. CONSELHO PONTIFÍCIO PARA A FAMÍLIA, Família, Matrimónio e Uniões de facto (26 de Julho de 2000), n.8.

[2] Cf. DALE O’LEARY, The Gender Agenda: Redefining Equality, Vital Issues Press, Lafayette 1997.

[3] Cf. João Paulo II, Carta apost. Ordinatio sacerdotalis (22 de Maio de 1994).

[4] Cf. Gaudium et spes, 3.

 


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