31º Domingo Comum

4 de Novembro de 2012

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Escutai, Senhor, a prece, M. Carneiro, NRMS 90-91

Sl 37, 22-23

Antífona de entrada: Não me abandoneis, Senhor; meu Deus, não Vos afasteis de mim. Senhor, socorrei-me e salvai-me.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

A palavra amor está continuamente a ser usada pelas pessoas, mas com os sentidos mais diversos.

Esconde, muitas vezes, um instinto sexual descontrolado, ou um egoísmo ditador que tudo quer submeter aos seus caprichos.

É também uma etiqueta que se coloca nas mais diversas iniciativas, ocultando intenções que ficam ocultas.

E, no entanto, o cristianismo é uma escola do verdadeiro amor, fazendo brilhar em obras diante do mundo aquilo que é amar de verdade. Poderíamos falar de S. João Bosco, Beata Teresa de Calcutá, de Santa Teresa Benedita da Cruz, do beato João Paulo II que, mais do que com palavras, nos ensinaram o que é amar a sério.

Deste amor nos fala toda a Liturgia da Palavra deste 31.º Domingo do Tempo Comum. A poucos passos do fim do ano litúrgico, vem recordar-nos que o amor é a nossa vocação fundamental e a meta dos nossos passos.

 

Acto penitencial

 

No fim da vida seremos julgados pelo amor. Esta verdade recorda-nos muitos pecados contra o verdadeiro amor na nossa vida.

Umas vezes, realizamos obras a que chamamos de amor, mas que o não são; outras, encontramo-nos com muitas omissões: momentos em que devíamos amar e não o fizemos.

Reconheçamos com humildade os nossos pecados e, cheios de confiança, peçamos perdão e prometamos emenda de vida.

 

 (Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

•   Senhor Jesus: Esquecemo-nos dos mais elementares deveres de Amor e delicadeza,

    por atitudes e por omissões, nas nossas relações diárias com o nosso Deus e Senhor.

    Senhor, tende piedade de nós!

 

    Cristo, tende piedade de nós!

 

•   Cristo: Temos fechado, às vezes, o nosso coração às necessidades dos nossos irmãos,

    e sofremos depois a solidão interior, encontrando-nos sós no meio de muitas pessoas.

    Cristo, tende piedade de nós!

 

    Senhor, tende piedade de nós!

 

•   Senhor Jesus: Magoamos muitas vezes as outras pessoas por palavras e por atitudes

    e não manifestamos a humildade a coragem para lhes pedir sinceramente desculpa.

    Senhor, tende piedade de nós!

 

    Senhor, tende piedade de nós!

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Deus omnipotente e misericordioso, de quem procede a graça de Vos servirmos fiel e dignamente, fazei-nos caminhar sem obstáculos para os bens por Vós prometidos. Por Nosso Senhor...

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Moisés recorda ao Povo de Deus os compromissos da Aliança com o Senhor no monte Sinai. A fórmula usada pelo condutor do Povo, através do deserto – a “Shema’ Israel” – era repetida por todos os Hebreus, como oração.

Era uma solene proclamação de fé que todo o israelita devia fazer diariamente. É uma afirmação da unicidade de Deus e um convite a amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças.

 

Deuteronómio 6, 2-6

Moisés dirigiu-se ao povo, dizendo: 2«Temerás o Senhor, teu Deus, todos os dias da tua vida, cumprindo todas as suas leis e preceitos que hoje te ordeno, para que tenhas longa vida, tu, os teus filhos e os teus netos. 3Escuta, Israel, e cuida de pôr em prática o que te vai tornar feliz e multiplicar sem medida na terra onde corre leite e mel, segundo a promessa que te fez o Senhor, Deus de teus pais. 4Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor. 5Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. 6As palavras que hoje te prescrevo ficarão gravadas no teu coração».

 

A leitura é um pequenino trecho da introdução ao «Código Deuteronómico», ou «Aliança de Moab» (Dt 12 – 26), que constitui o núcleo da obra. Os vv. 4-6 pertencem à célebre Xemá‘, a oração assim chamada a partir da palavra hebraica com que começa, que quer dizer «escuta». É constituída pelas seguintes passagens: Dt 6, 4-9; 11, 18-21; Nm 15, 37-41, que ainda hoje os judeus piedosos continuam a rezar, como nos tempos de Jesus, duas vezes ao dia, de manhã e de tarde.

A resposta de Jesus no Evangelho de hoje é uma chamada para este texto demasiadamente conhecido (cf. Mc 12, 28), onde Deus pede um amor total, em que se empenhe toda a pessoa (v. 5).

 

Salmo Responsorial     Sl 17 (18), 2-3.4.47.50-51ab (R. 2)

 

Monição: Ao cantar o salmo responsorial, proclamamos que a salvação chega até nós quando invocamos o Senhor.

Depois de termos ouvido o Seu convite à fidelidade ao Seu Amor, invocamo-l’O pedindo a Sua ajuda para vivermos e amarmos com fidelidade.

 

Refrão:        Eu Vos amo, Senhor:

                     Vós sois a minha força.

 

Eu Vos amo, Senhor, minha força,

minha fortaleza, meu refúgio e meu libertador,

meu Deus, auxílio em que ponho a minha confiança,

meu protector, minha defesa e meu salvador.

 

Invoquei o Senhor – louvado seja Ele –

e fiquei salvo dos meus inimigos.

Viva o Senhor, bendito seja o meu protector;

exaltado seja Deus, meu salvador.

 

Senhor, eu Vos louvarei entre os povos

e cantarei salmos ao vosso nome.

O Senhor dá ao seu Rei grandes vitórias

e usa de bondade para com o seu Ungido.

 

Segunda Leitura

 

Monição: O autor da Carta aos Hebreus apresenta-nos Jesus Cristo como o sumo-sacerdote que veio ao mundo para cumprir o projecto salvador do Pai e para oferecer a sua vida em doação de amor a todos nós.

Jesus Cristo, com a Sua obediência ao Pai e entrega em favor dos homens, ensina-nos qual a melhor forma de manifestarmos o nosso amor a Deus.

 

Hebreus 7, 23-28

Irmãos: 23Os sacerdotes da antiga aliança sucederam-se em grande número, porque a morte os impedia de durar sempre. 24Mas Jesus, que permanece eternamente, possui um sacerdócio eterno. 25Por isso pode salvar para sempre aqueles que por seu intermédio se aproximam de Deus, porque vive perpetuamente para interceder por eles. 26Tal era, na verdade, o sumo sacerdote que nos convinha: santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores e elevado acima dos céus, 27que não tem necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiro pelos seus próprios pecados, depois pelos pecados do povo, porque o fez de uma vez para sempre quando Se ofereceu a Si mesmo. 28A Lei constitui sumos sacerdotes homens revestidos de fraqueza, mas a palavra do juramento, posterior à Lei, estabeleceu o Filho sumo sacerdote perfeito para sempre.

 

No capítulo 7 o autor começa a desenvolver o tema antes anunciado (5, 10) de como Cristo foi «proclamado por Deus como Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisédec» (cf. 6, 20). Depois duma breve apresentação da figura misteriosa de Melquisédec (vv. 1-3), expõe, com diversos argumentos, a superioridade do seu sacerdócio sobre o dos filhos de Levi; estes, na pessoa do seu antepassado Abraão, pagaram-lhe o dízimo e receberam dele a bênção (vv. 4-10; cf. Gn 14, 17-20); por outro lado, o sacerdócio de Jesus, que pertence à tribo de Judá, não se pode entender na continuidade com o sacerdócio judaico, que passava de pais a filhos só dentro da tribo de Levi; mais ainda, ao ficar cumprida em a profecia do Salmo 110 (109), 4 – «O Senhor jurou e não voltará atrás: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melqisédec» – fica abolida, e com juramento, a velha ordem de coisas no respeitante ao sacerdócio (vv. 11-22). E no texto da nossa leitura é dado o cheque mate: o sacerdócio da antiga Lei era tão passageiro como os homens que o exerciam; ao serem muitos em número revelavam como era efémero e ineficaz, a par do sacerdócio de Jesus, que, como «permanece para sempre, possui um sacerdócio eterno» (vv. 23-24). Note-se, a propósito, que na Igreja o sacerdócio ministerial é isso mesmo, ministerial: é uma especial participação no sacerdócio de Cristo para agir em seu nome e na sua pessoa, enquanto Cabeça da Igreja; visibiliza-o, mas sem acrescentar nada ao seu sacerdócio. De modo nenhum se pode pensar que haja qualquer espécie de sucessão no seu sacerdócio único, sumo e eterno.

25-28 E a exposição termina com uma bela síntese, que é uma entusiástica exaltação do sacerdócio de Cristo, «perfeito para sempre», sobressaindo que é Ele que se oferece a si mesmo em sacrifício, «de uma vez para sempre», em contraste com a multiplicidade de sacrifícios que precisavam de oferecer cada dia os sacerdotes do culto judaico. O valor e eficácia do sacrifício do Sumo Sacerdote da Nova Aliança é um tema que é aprofundado nos capítulos seguintes. Note-se que o sacrifício eucarístico não repete o único sacrifício de Cristo: «A Missa torna presente o sacrifício da cruz; não é mais um, nem o multiplica» (Ecclesia de Eucharistia, nº 12).

 

Aclamação ao Evangelho          Jo 14, 23

 

Monição: São palavras cheias de esperança as que Jesus dirige aos Onze na Última Ceia, no clima de intimidade do Cenáculo: como prémio da nossa fidelidade ao Amor de Deus, a Santíssima Trindade fará de nós o Seu templo vivo.

Alegremo-nos e manifestemos a nossa alegria e gratidão, aclamando o Evangelho com o canto do aleluia.

 

Aleluia

 

Cântico: F da Silva, 73-74

 

Se alguém Me ama, guardará a minha palavra, diz o Senhor;

meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.

 

 

Evangelho

 

São Marcos 12, 28b-34

Naquele tempo, 28baproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» 29Jesus respondeu: «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. 31O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há nenhum mandamento maior que estes». 32Disse-Lhe o escriba: «Muito bem, Mestre! Tens razão quando dizes: Deus é único e não há outro além d’Ele. 33Amá-l’O com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios». 34Ao ver que o escriba dera uma resposta inteligente, Jesus disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». E ninguém mais se atrevia a interrogá-l’O.

 

A redacção de Marcos apresenta o interlocutor de Jesus como sendo um doutor da lei bem intencionado, a intervir numa típica discussão de escola, ao passo que, nos lugares paralelos de Mateus e Lucas, o doutor da Lei aparece com a intenção de pôr Jesus à prova. Há estudiosos que propendem para que se trate de dois casos diferentes – em Lucas aparece noutro contexto, o da parábola do bom samaritano –, e não dum simples arranjo redaccional ou divergência na tradição do mesmo facto (J. Schmid); de qualquer modo, Marcos optou por passar por alto a hostilidade e apresenta uma questão de escola, a mesma já posta uns 20 anos antes ao célebre mestre Hillel, a que este respondeu com uma bela síntese: «aquilo de que não gostas para ti, isso não o faças ao teu próximo» (Talmud; cf Mt 7, 12). É compreensível a importância do problema, se temos em conta que então se contavam 613 preceitos da Lei, discutindo-se quais eram os graves e quais os leves no emaranhado de 365 proibições (correspondentes ao número dos dias do ano!) e 248 prescrições positivas (tantas quantos os ossos do corpo humano!). Jesus dá uma resposta, que constitui uma síntese original e libertadora, ligando, como nunca antes se tinha feito, os dois preceitos do amor a Deus (Dt 6, 4-5) e ao próximo (Lv 19, 18).

29-31 «O primeiro mandamento… O segundo…». Embora inseparáveis, há nestes dois preceitos uma hierarquia: devemos amar a Deus mais do que a ninguém e dum modo incondicional; ao próximo – o segundo –, como consequência e efeito do amor a Deus. Se se amasse ao próximo por ele mesmo, e não por amor a Deus, esse amor impediria o cumprimento do primeiro mandamento e acabaria por deixar de ser autêntico amor ao próximo, pois entrar-se-ia pelo caminho do relativismo e do desinteresse pela salvação eterna dos outros e o caminho da redução do próximo a uma determinada classe de pessoas (as que agradam ou oferecem vantagens…), ou do da equiparação ao amor a um animal de estimação. 

34 «Não estás longe do Reino de Deus». Embora o doutor da Lei pertencesse a um grupo hostil, nem por isso Jesus deixou de dialogar com ele, indo mesmo até ao ponto de o estimular à conversão definitiva com uma palavra amável de ânimo. Assim, Jesus não cataloga as pessoas pondo-lhes um rótulo, fichando-as por grupos, mas dirige-se às pessoas, tendo em conta quem é cada uma e buscando salvar todas as almas, independentemente do grupo a que pertençam.

 

Sugestões para a homilia

 

• Amor de Deus e amor humano

Amor perene

Amor e vida

Amor, fonte de felicidade

• Cristianismo, vocação de amor

Amar a Deus

Amar ao próximo

Um só amor

 

1. Amor de Deus e amor humano

Deus criou-nos por amor e vocacionou-nos para vivermos numa comunhão de Verdade e de Amor – com a Santíssima Trindade e com toda a Corte Celeste – para sempre, no Paraíso.

Planeou que a nossa felicidade eterna começasse já na terra: comungando a Verdade que é Deus, pela fé; a vida divina, pela Graça santificante recebida no Baptismo; e o amor, pela caridade fraterna, com todas as limitações que encontramos na vida presente.

Moisés fala ao Povo de Deus desta vocação sublime que são chamadas todas as pessoas.

 

a) Amor perene. «Moisés dirigiu-se ao povo, dizendo: «Temerás o Senhor, teu Deus, todos os dias da tua vida, cumprindo todas as suas leis e preceitos que hoje te ordeno

O amor de que fala o Senhor, por Moisés, não é um episódio fugidio que experimentamos uma vez na vida. É um amor perene, para todos os dias e, o que é mais para toda a eternidade.

Afinal, também o amor humano exige esta perenidade. O coração humano não tolera limites quando se trata de amar alguém. Não faz sentido dizer: “amo-te até que encontre uma pessoa mais bela e atraente do que tu”; ou “amo-te por seis meses, por seis anos!”

Junto da palavra amor só outra é digna de estar: “para sempre”.

Por outro lado, Deus quis que tivéssemos um só coração para O amar e onde coubessem também as pessoas que partilham a vida connosco na terra.

Além disso, as mesmas indústrias que temos de usar para crescer no amor humano, são as mesmas de que lançamos mão para crescer no amor divino: encontros repetidos, sacrifício, partilha de vida.

Por isso mesmo, não há oposição entre o amor ao Senhor e o das criaturas, fases na nossa vida em que nos dedicamos ao amor do nosso Deus e outras em que abandonamos este para nos dedicarmos ao amor das pessoas da terra. Se ordenarmos bem as coisas, estes dois amores serão inseparáveis na nossa vida.

O amor às pessoas passa pelo Coração Divino, antes de chegar aos irmãos, e nós vemo-l’O presente em cada rosto humano. Ele oculta-Se misteriosamente em cada pessoa, seja qual for o seu aspecto ara, de algum modo, Se deter a contemplar a nossa generosidade.

A mãe de Jacob – Rebeca – foi cúmplice num engano de seu esposo Isaac, quando o filho foi servir uma refeição ao velho Patriarca e receber a bênção que o tornava seu sucessor. Para o engodo ser mais perfeito, revestiu as mãos e o pescoço de Jacob com peles de cabrito. Deste modo apareceriam peludas como as do irmão. «A voz é a voz de Jacob, mas as mãos são as mãos de Isaú.» (Gen 27, 1-25). Assim nos acolhe Deus, quando a Ele nos dirigimos, acolhendo no nosso amor o Amor de Seu Filho Unigénito.

 

b) Amor e vida. «Para que tenhas longa vida, tu, os teus filhos e os teus netos

Segundo a mentalidade e costumes dos tempos de Moisés, os hebreus entendiam que a vida longa e a prosperidade nas colheitas, rebanhos e negócios era sinal e prova das bênçãos de Deus; e também o contrário. A esposa e os amigos de Job pensam que ele é castigado com os muitos males por causas dos seus pecados secretos. A sua inocência é provada pelos benefícios que o Senhor lhe concede novamente: filhos e rebanhos e a própria honra.

Sabemos que não é precisamente assim. O justo é provado e, por vezes, correm bem as coisas ao que vive afastado de Deus.

Moisés insere-se na cultura do tempo para fazer entender a sua mensagem. Ao falar de uma vida longa, como prémio desta fidelidade ao Senhor, Moisés quer dizer que o Senhor abençoa os que procedem segundo as suas palavras.

Há, porém, um outro sentido oculto que podemos encontrar nesta promessa: uma longa e feliz vida na eternidade. Na verdade, o que verdadeiramente nos interessa é esta felicidade sem limite que está prometida aos que se esforçam por serem fieis ao Senhor.

O amor a Deus não é platónico, meramente sentimental, antes exige de cada um de nós atitudes de vida, do mesmo modo que o Amor que o Pai nos dedica não se fica apenas em palavras, mas concretiza-se em bênçãos que nos concede.

O mesmo acontece com o amor humano. Ele exige dos que se amam uma entrega progressiva até à comunhão de vida para sempre. No momento em que se recusaram a caminhar um para o outro, a crescer no amor, este começa a morrer.

Amar é dar-se, e fazê-lo exige desprendimento dos próprios gostos, renúncia e caminho progressivo na comunhão de vida.

 

c) Amor, fonte de felicidade. «Escuta, Israel, e cuida de pôr em prática o que te vai tornar feliz e multiplicar sem medida na terra onde corre leite e mel, segundo a promessa que te fez o Senhor, Deus de teus pais.»

A terra onde corre leite e mel é uma referência alegórica à Terra da Promissão, à Terra Santa para onde caminharam os hebreus, através do deserto, durante quarenta anos, depois da libertação do Egipto. O leite e o mel eram alimentos deliciosos e elementares para aqueles recuados tempos.

A Terra da Promissão é uma figura do Paraíso que está prometido aos que procuram seguir com fidelidade os Mandamentos do Senhor.

A felicidade está prometida já para esta vida. Alguém encontrou, por acaso, um santo triste ou infeliz, apesar de uma vida complicada que às vezes tem de levar?

Como não recordar o bom humor e ar feliz de S. João Bosco, de S. Pio X, do beato João Paulo II e tantos outros? S. Francisco Xavier, no meio das agruras da missionação do Oriente, exclamava durante a noite: “Basta, Senhor, Senão eu morro com tanta felicidade!”

Os pais, ao dedicar toda a sua a vida aos filhos. são felizes ao ver que vão crescendo e se realizam.

O amor leva-nos à comunhão com Deus, a querer o que Ele quer, como e quando Ele quer. Um homem de Deus dizia que tinha sempre o que queria e era feliz, porque sempre quis o que Deus queria.

• Para procurar esta fonte de alegria é preciso, antes de mais, cumprir os Mandamentos que nos manifestam a Sua vontade. Como pode dizer que ama verdadeiramente a Deus aquele que não faz a sua vontade, quando o amor é precisamente uma comunhão de vontades.

• Com uma fé viva, procuremos ver nos acontecimentos a mão do melhor dos pais que nos ama com loucura. Deste modo, seremos felizes, porque nunca estamos descontentes.

 

2. Cristianismo, vocação de amor

 

a) Amar a Deus. «O primeiro é este: ‘Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’

As palavras que Jesus dirige ao escriba englobam uma profundidade que nunca poderemos alcançar plenamente.

Com todo o coração. Nenhum afecto se pode sobrepor ao amor de Amor de Deus em nós.

Por vezes, há nas pessoas uma certa angústia porque – dizem – ao amar Deus nada sentem; ao passo que sentem afecto pelos que lhes são mais queridos: pelo noivo, pelos filhos, pelos pais...

O amor de Deus deve ser apreciativamente sumo, mas não necessariamente afectivamente sumo. Ainda que não sintamos nada ao pensar n’Ele, o importante é que sejamos capazes de colocar, de facto, este amor acima de todos e de tudo.

Com toda a tua alma [...] e com todas as tuas forças. Sem se poupar a esforços. O amor de Deus há-de levar-nos a um esforço constante e generoso para progredirmos neste Amor e a procurar ajudar os outros a seguirem este caminho, pois Deus quer todos os Seus filhos sentados à Sua mesa para sempre no Céu. Quem não vê aqui a recomendação de um esforço para levar avante a Evangelização do mundo?

Com todo o entendimento. Havemos de caminhar para Deus com todo o nosso ser. Os homens cativam-se pela cabeça. Quando uma pessoa se contenta com um cristianismo sentimental, facilmente se desviará do caminho, porque o sentimento é o que há de mais inconstante no homem.

Parece que o senhor está a recomendar-nos que nos devemos procurar em conhecê-l’O cada vez melhor, para O amarmos cada vez mais.

Daí que nos havemos de preocupar com a formação doutrinal, frequentando meios de formação. Lendo bons livros e aproveitando cuidadosamente a formação doutrinal que nos é dada na Missa de cada Domingo.

A ignorância religiosa – di-lo um santo dos nossos dias – é o maior inimigo de Deus no mundo de hoje. Ninguém ama quem não conhece. A família já não transmite os conhecimentos doutrinais de outrora. Por outro lado, as pessoas são “bombardeadas” com erros pelos meios de comunicação social. O único modo de ser um bom cristão é procurar uma formação constante, como condição indispensável para perseverar no amor de Deus.

Caminhamos para Deus com tudo o que somos: inteligência, vontade, liberdade e sensibilidade.

 

b) Amar ao próximo. «O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’

O mandamento do amor ao próximo não é algo isolado do nosso caminhar para Deus. Não só amamos a Deus e às pessoas com o mesmo coração, mas o amor é o mesmo. Amamos o nosso Deus directamente em Si mesmo, e amamo-l’O presente nos irmãos.

Jesus, no amor infinito que manifesta na Sua vida pública, atendendo a todos com paciência, revela-nos o rosto do Pai. «Estou há tanto tempo convosco e não Me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai!» (Jo 14, 9).

«Revela-se, assim, como possível o amor ao próximo no sentido enunciado por Jesus, na Bíblia. Consiste precisamente no facto de que eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer. Isto só é possível realizar-se a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento.

Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo. O seu amigo é meu amigo. Para além do aspecto exterior do outro, dou-me conta da sua expectativa interior de um gesto de amor, de atenção, que eu não lhe faço chegar somente através das organizações que disso se ocupam, aceitando-o talvez por necessidade política. Eu vejo com os olhos de Cristo e posso dar ao outro muito mais do que as coisas externamente necessárias: posso dar-lhe o olhar de amor de que ele precisa.» (Bento XVI, Deus caritas est, n.18).

É significativo que no sermão do juízo final tudo se refira ao exercício das obras de misericórdia, ou seja, ao amor do próximo.

E na Última Ceia, depois de ter lavado os pés aos discípulos, convidando-os a fazer como Ele, Jesus faz uma longa exortação à caridade para com o próximo.

Pelo amor aos irmãos saboreamos já na terra – embora com as dificuldades que a vida nos apresenta – o que vai ser a nossa felicidade no Paraíso. Estaremos todos envolvidos no mesmo amor.

 

c) Um só amor. «Deus é único e não há outro além d’Ele. Amá-l’O com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios».

Tudo se reduz num só amor. Amamos Deus e o que é de Deus. Como poderíamos deixar de lado com frieza aqueles por cuja salvação o Pai não hesitou em entregar o Seu Filho Unigénito?

A missa de cada Domingo é a proclamação do amor a deus e do amor fraterno.

Renovamos o sacrifício do Calvário. Ele torna-se presente e actual para cada um de nós. É como se recuássemos dois mil anos e nos situássemos no Calvário em Sexta-Feira Santa, à Hora Nona (3 da tarde).

Tal como o mistério da Cruz foi preparado por uma longa catequese feita por Jesus durante três anos e especialmente intensificada na noite que precedeu a Sua Paixão e Morte, também na Missa temos como parte importantíssima a Liturgia da Palavra. 

Mas a celebração dominical é também uma proclamação da fraternidade humana. É toda a Assembleia que celebra este sacrifício, tendo Jesus Cristo como Cabeça. Cada um participa na Celebração segundo o que é.

Ali está reunida toda a Igreja: a – Igreja militante – da terra, a Triunfante – a dos bem aventurados do Céu – e a do Purgatório – a que está a ser purificada, preparando-se para o eterno Banquete.

Sentamo-nos à mesma mesa, sem qualquer distinção, para comungar o mesmo Corpo de Cristo, depois de termos proclamado o mesmo Credo, ao terminar a Liturgia da Palavra.

Como certamente no Cenáculo e no Calvário, está connosco Maria – a Mãe de todo o Corpo Místico – para ser a Mediadora em união com Jesus Cristo.

 

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Como expressão visível do amor ao próximo,

e exercendo também o nosso sacerdócio real,

apresentemos ao Pai, no Espírito, por Jesus,

as necessidades e anseios de todas as pessoas.

Oremos (cantando) com toda a confiança:

 

    Senhor: Ensinai-nos os caminhos do Amor!

 

1. Pelo Santo Padre, com os Bispos em comunhão com ele:

    para que nos ensine a viver a verdadeira caridade fraterna,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor: Ensinai-nos os caminhos do Amor!

 

2. Por todos os que vivem tristes porque não são amados,

    para que encontrem em cada um de nós amor e ajuda,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor: Ensinai-nos os caminhos do Amor!

 

3. Por todas as famílias da nossa comunidade paroquial,

    para que sejam verdadeiras e santas Igrejas domésticas,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor: Ensinai-nos os caminhos do Amor!

 

4. Pelos jovens e por todos os que procuram ajudá-los,

    para que entendem que só o amor serve as pessoas,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor: Ensinai-nos os caminhos do Amor!

 

5. Pelos povos em guerra e pelas famílias divididas,

    para que encontrem os caminhos da reconciliação,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor: Ensinai-nos os caminhos do Amor!

 

6. Pelos nossos irmãos chamados à Casa do Pai,

    para que sejam acolhidos por Jesus no Paraíso,

    oremos, irmãos.

 

    Senhor: Ensinai-nos os caminhos do Amor!

 

Senhor, que fizestes de todos nós na terra

uma só família unida na fé e solidária:

fazei-nos seguir com toda a generosidade

a fidelidade aos Vossos amorosos preceitos,

para Vos louvarmos eternamente no Céu.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Como manifestação do Seu amor infinito por nós, Jesus Cristo entregou-Se à Morte no Calvário.

Não contente com dar-nos a vida, vai dar-Se-nos agora na Eucaristia. Para isso, pelo ministério do sacerdote, vai transubstanciar o pão e o vinho no Seu Corpo e Sangue.

Recolhamo-nos e avivemos a nossa fé e amor, preparando-nos para este grande encontro com o nosso Deus.

 

Cântico do ofertório: Corri, Senhor, M. Carneiro, NRMS 13

 

Oração sobre as oblatas: Senhor, fazei que este sacrifício seja para Vós uma oblação pura e para nós o dom generoso da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor...

 

Santo: «Da Missa de festa», Az. Oliveira, NRMS 50-51

 

Saudação da Paz

 

Se cumprirmos o mandato de Jesus Cristo – amor ao Deus e aos irmãos – teremos encontrado os caminhos da verdadeira paz.

Renovemos interiormente este compromisso de fidelidade.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Somente pode comungar quem está no amor de Deus, isto é, na graça santificante, depois de se ter purificado, se necessário, com uma boa confissão.

Peçamos ao Senhor que nos purifique das manchas que ainda encontra em nós, para que o Seu Corpo guarde a nossa alma para a vida eterna.

 

Cântico da Comunhão: O Pão de Deus, J. Santos, NRMS 62

Sl 15, 11

Antífona da Comunhão: O Senhor me ensinará o caminho da vida, a seu lado viverei na plenitude da alegria.

Ou:   

Jo 6. 58

Assim como o Pai que Me enviou é o Deus vivo e Eu vivo pelo Pai, também o que Me come viverá por Mim, diz o Senhor.

 

Cântico de acção de graças: No meio da minha vida, F da Silva, NRMS 1(II)

 

Oração depois da Comunhão: Multiplicai em nós, Senhor, os frutos da vossa graça, para que os sacramentos celestes que nos alimentam na vida presente nos preparem para alcançarmos a herança prometida. Por Nosso Senhor...

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Façamos da vida um cântico de amor em cada momento do dia: amor a Deus sobre todas as coisas e amor ao próximo como a nós mesmos.

Por um amor sincero, leal, ajudemos os nossos irmãos a fazerem a descoberta de Jesus Cristo e do Seu amor.

 

Cântico final: O Senhor me apontará o caminho, F. da Silva, NRMS 69

 

 

Homilias Feriais

 

31ª SEMANA

 

2ª Feira, 5-XI: Amor ao próximo e vida eterna.

Filip 2, 1-4 / Lc 14, 12-14

Se existe alguma participação nos dons do Espírito Santo, alguns sentimentos de ternura e misericórdia

Todos somos convidados a exercer a misericórdia para com os outros, imitando a Jesus, mas não estejamos à espera de uma recompensa. Deste modo receberemos a retribuição na vida eterna: «serás feliz por eles não terem com que retribuir-te, pois serás retribuído na ressurreição dos justos» (Ev.).

Procuremos ajudar muito o próximo: é como fazê-lo por Deus e é caminho seguro de eternidade. O Apóstolo recomenda, além disso, a unidade entre todos: «conservai a mesma caridade, uma alma comum, um mesmo e único sentir» (Leit.).

 

3ª Feira, 6-XI: O convite para a vida eterna.

Filip 2, 5-11 / Lc 14, 15-24

O Senhor disse ao criado: Sai aos caminhos e às azinhagas e obriga essa gente a entrar, para que a minha casa fique cheia.

«Jesus chama para entrar no Reino, por meio de parábolas. Por meio delas, convida para o banquete do Reino (Ev.)» (CIC, 546). Mas já no começo do seu ministério público Jesus convida a entrar no seu Reino neste mundo, mediante a conversão. As desculpas (Ev.) não são compatíveis com a conversão.

Jesus indicou-nos o caminho que conduz à vida eterna: «Humilhou-se a si mesmo, obedecendo até à morte e morte de Cruz. Foi por isso que Deus o exaltou» (Leit.). Aceitemos bem as humilhações de cada dia, para sermos bem acolhidos.

 

4ª Feira, 7-XI: Exigências dos trabalhos de salvação.

Filip 2, 12-18 / Lc 14, 25-33

Como sempre tendes sido obedientes, trabalhai com temor e tremor na vossa salvação.

Este trabalho para a salvação (Leit.) é comparado por Jesus à construção de uma torre (Ev.). Para construirmos esta torre, devemos verificar os recursos com que contamos, as ajudas que o Senhor nos oferece, os defeitos que é preciso corrigir, etc.

Jesus enuncia as condições para segui-lo: «A união com Ele prevalece sobre todas as outras, quer se trate de laços familiares, quer sociais (Ev.)» (CIC, 1618). E também: «propõe-lhes que renunciem a todos os seus bens por causa dele e do Evangelho» (CIC, 2544).

 

5ª Feira, 8-XI: Os bons caminhos para a vida eterna.

Filip 3, 3-8 / Lc 15, 1-10

É assim que haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa do que por noventa e nove justos, que não precisam de se arrepender.

No caminho para a vida eterna podemos desviar-nos, mas Jesus vai sempre à nossa procura. Espera que manifestemos o nosso arrependimento: «Jesus convida os pecadores à conversão, sem a qual não se pode entrar no Reino, mostra-lhes a misericórdia sem limites do seu Pai para com eles e a imensa ‘alegria que haverá no céu…’(Ev.)» (CIC, 545).

E aceitar tudo para ganhar a vida eterna: «Por Ele, aceitei todos os danos, e considerei tudo como lixo, para ganhar a Cristo» (Leit.).

 

6ª Feira, 9-XI: Dedicação da Basílica de S. João de Latrão.

1 Cor 3, 9-11. 16-17 / Jo 2, 13-22

Tirai isto daqui: Não façais da casa de meu Pai casa de comércio.

A Basílica de Latrão foi dos primeiros templos a ser construído, logo que terminaram as perseguições (século IV). É um sinal de amor e união com o Papa.

Cada templo há-de ser uma casa de oração (Ev.), um lugar onde damos culto a Deus. Por isso, devemos estar com o respeito e a compostura adequadas; chegar com pontualidade à Missa; cumprir os ritos como estão indicados; evitar conversas inúteis; rezar mais. Deste modo estaremos a participar na construção do edifício, que é a Igreja: «Vós sois um edifício que Deus está a construir» (Leit.).

 

Sábado, 10-XI: Desprendimento e vida eterna.

Filip 4, 10-19 / Lc 16, 9-15

Em todo o tempo e em todas as situações, estou preparado para comer com fartura e a passar fome, para viver na abundância e para viver na penúria.

O Apóstolo dá-nos um belo testemunho (Leit.) de como aceitar com alegria a escassez e até a falta do que é necessário; a evitar os gastos pessoais por capricho, comodismo, desleixo; a viver a austeridade connosco próprios, na comida e na bebida.

Não podemos servir a dois senhores (Ev.): «Toda a prática que reduza as pessoas a não serem mais que simples meios com vista ao lucro, escraviza o homem, conduz à idolatria e contribui para propagar o ateísmo. Não podemos servir a Deus e ao dinheiro (Ev.)» (CIC, 2424).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Fernando Silva

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 

 


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