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O  «TSUNAMI»

 

Hugo de Azevedo

 

Entramos na Quaresma ainda sob a angustiosa impressão do maremoto que assolou as costas do Índico. Uma das primeiras imagens recebidas (um turista fugindo, hesitante, como incrédulo do que via, enquanto se ouvia uma imprecação, logo seguida de uma exclamação: – «O God!») resume as emoções desse dia terrível: os olhos postos na vaga mortífera, e a mente elevando-se ao Céu: – «Meu Deus! O que é isto?» Por um lado, a fascinação do «belo horrível e o pavor; por outro, a perplexidade... – «Deus todo-poderoso, que é feito da vossa misericórdia?»

 

Queixa muito antiga, a que desde há milénios já o Senhor respondeu no Livro da Sabedoria: «Não foi Deus quem fez a morte, nem se alegra com a perda dos viventes» (1, 13) Deus criou o homem imortal, «fê-lo imagem da sua própria eternidade. Pela inveja do demónio é que entrou a morte no mundo» (2, 23-24). Fomos nós quem escolheu a morte, ao afastar-nos, pelo pecado, do Autor da Vida. A morte e o sofrimento não procedem de Deus; são apanágio do seu inimigo e inimigo das almas.

 

Quando um filho resolve afastar-se do pai, que alternativa tem este? Encadeá-lo? Podia Deus, nosso Pai, privar-nos da liberdade, sem nos aniquilar? Porque o homem é uma liberdade... Não. O seu amor só lhe permitiu aceitar a nossa voluntária desgraça – e convertê-la em meio de salvação! – «Quereis ir pelo caminho da morte? Ide! Do que não podeis impedir-me é de vos acompanhar. Estarei convosco até ao fim dos tempos, sempre disposto a receber-vos novamente – quantas vezes for preciso! A parábola do filho pródigo é a parábola da humanidade. E veio até nós, Homem como nós, morrendo por nós, para nos salvar da «segunda morte» (Apoc, 20, 6), já que quisemos a primeira. E permanecendo ao nosso lado, à nossa disposição, na Sagrada Eucaristia!

 

Mas o medonho «tsunami» não será um aviso divino? Certamente. Não há acasos. Tudo é providencial. Todos os padecimentos terrenos, pequenos ou grandes, nos avisam de que esta vida é caminho, de que «não temos aqui cidade permanente» (Hebr 13, 14). O «tsunami» foi, sem dúvida, um grande aviso, mas para todos nós; não um castigo para os que pereceram, quantos deles meninos inocentes. Como fez notar Cristo quando lhe anunciaram uma crueldade de Pilatos: «Julgais que aqueles galileus eram maiores pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido tal sorte? Não, Eu vo-lo digo; mas, se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo» (Lc 13, 2-3).

 

Boa penitência foi a solidariedade manifestada em todo o mundo para com as vítimas do maremoto. Boa Quaresma será a nossa, se a desenvolvermos no dia-a-dia com todos os que nos rodeiam, pois todos são vítimas do pecado, e necessitados da nossa solicitude. Não há ninguém que não precise da ajuda e do amor do próximo.

 


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