JOSÉ ANTÓNIO GOMES DA SILVA MARQUES

 

HOMENAGEM E SAUDADE

 

Quando este número 5 de Celebração Litúrgica chegar às mãos dos nossos leitores, ter-se-ão completados dois anos sobre a morte de José António Gomes da Silva Marques, fundador desta revista.

Queremos oferecer-lhe esta sentida homenagem de gratidão e saudade, com a consoladora certeza de que “a vida não acaba, apenas se transforma, e desfeita esta morada de exílio na terra, nova vida se adquire nos céus.”

José António Gomes da Silva Marques aparece como um trabalhador incansável que tomou a sério o trabalho sacerdotal, como meio de santificação.

Era um corredor de fundo que nunca desistia, por maiores que fossem as dificuldades encontradas, pondo a render os talentos que recebera do Senhor.

 Nasceu em Santo Estêvão de Penso, Concelho, Arciprestado e Diocese de Braga, a 16 de Março de 1933. Era o primogénito de sete irmãos a quem se dedicou com esmero, uma vez que o pai falecera quando frequentava ainda o curso filosófico dos seminários de Braga.

Entrou no Seminário diocesano de Braga em princípios de Outubro de 1945 e foi ordenado Presbítero em 14 de Julho de 1957, depois de um curso em que primou pelo exemplo de aluno aplicado.

Em Outubro desse mesmo ano foi para Roma frequentar, na Pontifícia Universidade Gregoriana, a Faculdade de Direito Canónico, de 1957 a 1959, onde obteve a licenciatura.

Durante o ano lectivo de 1959/60 frequentou na mesma Faculdade os cursos prescritos para o doutoramento.

No mesmo ano frequentou e concluiu o 1.º ano do curso teórico-prático do Tribunal da Sagrada Rota.

Nos dois anos lectivos seguintes continuou a frequentar o Curso do Tribunal da Sagrada Rota e ao mesmo tempo o Curso de Teologia Moral da Academia Alfonsiana, tendo superado os exames dos dois cursos.

A 10 de Junho de 1963 defendeu publicamente a tese de doutoramento na Faculdade de Direito Canónico da Pontifícia Universidade Gregoriana, com o tema “A boa fé na prescrição Longissimi Temporis. Sua necessidade e natureza segundo o Doutor Pedro Barbosa”, tendo obtido a classificação máxima de “summa cum laude”.

De 1963 a 1967 foi chefe da Secretaria Arquidiocesana e capelão da igreja da Senhora-a-Branca. (igreja inter-paroquial na cidade de Braga). Foi professor de Direito Canónico (1963 a 1969) e de Teologia Moral (1968 a 1972) no Seminário Conciliar, bem como na Faculdade de Direito Canónico da Universidade de Navarra (1972 a 1978). Foi ainda chefe de redacção e director da revista “Theologica” – salvando-a da letargia mortal em que tinha caído – e fundador e director da “Celebração Litúrgica”, em 1970.

Em Agosto de 1978, chamado pelo Arcebispo da Universidade de Navarra, onde estava a leccionar Direito Canónico foi nomeado Vigário Geral, tendo iniciado funções a 2 de Setembro, até 27 de Julho de 1995.

A 1 de Janeiro de 1979 assumiu as funções de Vigário Episcopal para a Educação da Fé.

A 29 de Novembro de 1981 foi nomeado Capitular da Sé Catedral de Braga, a 1 de Outubro de 1988, Promotor de Justiça e a 27 de Julho de 1995, Vigário Judicial, cargo em que o veio surpreender o chamamento à vida eterna.

De 1995 a 1999 foi pároco de S. Pedro de Escudeiros, de Braga, onde quis assumir a missão de pastor do povo simples, sem abandonar as tarefas que lhe estavam confiadas.

 A 31 de Outubro de 1996 foi nomeado para a Comissão Canónico-Jurídica do Sínodo Diocesano, a 5 de Janeiro de 2003 mestre-escola do Cabido.

Como se disse antes, fundou a Revista de Liturgia e Pastoral Celebração Litúrgica em Janeiro de 1970. Na tertúlia que se seguiu a uma recolecção para sacerdotes em Enxomil, em Dezembro de 1969, os presentes queixavam-se da falta de leccionários e ajudas para a homilia. Tinha começado naquela ocasião a reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio Vaticano II. Não havia missais, nem leccionários e, muito menos, qualquer tipo de homiliários e outras ajudas congéneres. Alguns sacerdotes chegaram a ler os textos da palavra de Deus pelo jornal aberto no altar...

Redigiu então uma circular assinada por mais 3 sacerdotes (José Alberto Martins Fonseca, Henrique Ferreira de Faria e Manuel Fernando Sousa e Silva), propondo a oferta textos e de esquemas para a preparação de homilias. A revista saiu em meados de Janeiro, publicada a policopiador (a stencil) e preparada na residência paroquial de Ribeirão. Logo na Quaresma do ano seguinte, perante a grande afluência de assinantes, começou a ser impressa. O Arcebispo de Braga de então, que tentara em vão juntar um grupo de sacerdotes para publicar esquemas de homilias na Revista diocesana Acção Católica, rejubilou com a ideia.

Começou-se então uma longa caminhada, que ainda perdura, de reunião de boas vontades, sem qualquer outro objectivo que não seja o de servir os irmãos no sacerdócio.

Fundou a Associação Portuguesa de Canonistas (1990) e foi Presidente da Direcção durante vários mandatos (1991-2003), imprimindo-lhe uma elevação e ritmo de trabalho que ainda se mantém.

Era membro da Sociedade Internacional de Canonistas e participou em diversos congressos internacionais da mesma, algumas vezes com trabalhos apresentados.

Gostava muito de ouvir música clássica e deliciava-se a trabalhar com fundo musical, quando o podia fazer.

Entregou-se generosamente ao trabalho. Organizou e publicou o Missal Quotidiano, traduziu e publicou o Novo Testamento, da Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra, e o Antigo Testamento, entregando a tradução à editorial Quadrante (Brasil), traduziu diversos livros de professores da mesma Universidade e outros.

Dirigiu a Revista Theologica até que a Faculdade de Teologia de Braga assumiu a sua publicação.

A mãe ficou viúva estando ele a frequentar o curso de Filosofia dos Seminários de Braga. A irmã mais nova tinha seis anos. Foi o braço direito da mãe na formação dos irmãos.

Era muito devoto de Nossa Senhora e rezava-lhe todos os dias vários terços. Pude verificar esta devoção, sobretudo nas viagens a Pamplona.

Na hora da despedida, um dos sobrinhos destacou uma nota interessante: o tio P. José nunca se esquecia dos aniversários e era o primeiro a enviar felicitações ou a procurá-los pessoalmente, se podia. Tinha sempre um mimo para oferecer aos pequeninos que o visitavam na sua casa.

Partiu inesperadamente ao encontro do Senhor na noite de 8 de Agosto de 2010, depois de uma longa doença.

A Confraria do Bom Jesus do Monte que ele servira durante mais 21 anos como Juiz-Presidente e onde tinha já uma notável folha de valiosos serviços, nomeou-o Presidente honorário a 7 de Maio de 2010, e quis prestar-lhe solene homenagem póstuma em 8 de Setembro do mesmo ano, dedicando-lhe uma Avenida com um monumento evocativo.

Num gesto de gratidão, dedicamos-lhe este número 5 de Celebração Litúrgica. Lembra, com pena de Mestre, o seu perfil Monsenhor Doutor Hugo de Azevedo na secção A Abrir; publicamos também dois pequenos textos extraídos de publicações suas na Teológica.

Pela nossa parte, embora sabendo que ele não precisa já das nossas homenagens, mas que a gratidão é uma virtude humana muito apreciada por Deus e pelos homens, aqui fica esta pequena flor a lembrar a nossa gratidão.

 

P. Manuel Fernando Sousa e Silva

Director de Celebração Litúrgica

 

 


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