DIREITO E PASTORAL

 

CONFISSÃO FREQUENTE E DIRECÇÃO ESPIRITUAL,

MEIOS DE SANTIFICAÇÃO PARA O SACERDOTE *

 

 

Alfredo Melo

 

 

Sobre a Confissão frequente, o Directório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros tem um número exclusivamente destinado a falar-nos da necessidade que tem o sacerdote de confessar-se com regularidade. Vale a pena transcrevê-lo na sua totalidade:

“Como todo o bom fiel, também o presbítero tem necessidade de confessar os seus pecados e as suas fraquezas. Ele é o primeiro a saber que a prática deste sacramento o fortalece na fé e na caridade para com Deus e para com os irmãos.

“Para se encontrar nas melhores condições de mostrar com eficácia a beleza da Penitência, é essencial que o ministro do Sacramento ofereça um testemunho pessoal precedendo os outros fiéis no fazer a experiência do perdão. Isto constitui também a primeira condição para revalorizar em termos pastorais o sacramento da Reconciliação. Deste modo, é uma boa coisa para os féis saber e dar-se conta de que os seus sacerdotes se confessam com regularidade. Toda a existência sacerdotal sofre uma queda inexorável se lhe falta, por negligência ou por qualquer outro motivo, o recurso, periódico e inspirado por uma autêntica fé e devoção, ao Sacramento da Penitência. Num padre que não se confessasse ou se confessasse mal, o seu ser padre e o seu trabalho de padre ressentir-se-iam muito brevemente, e dar-se-ia conta disso a Comunidade de que ele é Pastor” [1].

O Sacerdote está identificado com Cristo pela sua missão e pelo seu ministério. É Cristo que actua nele, de modo que o sacerdote não é mais do que instrumento, sinal de Cristo presente e actuante; Cristo serve-se da sua inteligência, do seu coração, da sua voz, das suas mãos ungidas, para exercer o ministério da reconciliação: “É por meio do sacerdote que o pecador regressa ao aconchego do lar, onde o espera o Pai bom, o primeiro a amar…Isto reclama do padre a recepção frequente do sacramento da Penitência” [2].

Já o Concílio Vaticano II tinha dito aos sacerdotes: “Os ministros da graça sacramental unem-se a Cristo Salvador e Pastor pela frutuosa recepção dos sacramentos, especialmente pela frequente recepção do Sacramento da Penitência, o qual, preparado pelo exame de consciência quotidiano, muito favorece a necessária conversão ao amor do Pai das misericórdias” [3].

 

O cânon 276 não fala expressamente na Direcção espiritual por parte dos Presbíteros; mas inclui-o certamente entre “os outros meios de santificação comuns e particulares” do n.º 5.º a que se refere o mesmo cânon no § 2.

O c. 239, § 2 determina que “em cada Seminário haja pelo menos um director espiritual, deixando-se porém aos alunos a liberdade de se dirigirem a outros sacerdotes, deputados pelo Bispo para tal função”.

O Directório já citado refere-se a esta prática como uma necessidade, nos seguintes termos: “É necessário que o presbítero programe a sua vida de oração de maneira a incluir a confissão frequente e a direcção espiritual já começada no seminário…” [4].

Portanto, é uma prática já recomendada no Seminário e que deve continuar depois como tal no exercício do ministério sacerdotal.

O mesmo Directório insiste mais adiante na necessidade da Direcção espiritual por parte do Presbítero, como contributo para melhorar a sua espiritualidade sacerdotal:

“Colocando nas mãos de um sábio colega a formação da sua alma, a partir dos primeiros anos de ministério, crescerão na consciência da importância de não caminhar sozinhos pelos caminhos da vida espiritual e do empenho pastoral. Recorrendo a este meio eficaz de formação, tão experimentado na Igreja, os presbíteros terão plena liberdade na escolha da pessoa a quem confiar a direcção da sua vida espiritual” [5].

A este respeito, a Pastores dabo vobis salientou o grandíssimo valor deste meio de santificação:

“Também a prática da direcção espiritual contribui muito para favorecer a formação permanente dos sacerdotes. É um meio clássico, que nada perdeu do seu precioso valor, não só para assegurar a formação espiritual, mas ainda para promover e sustentar uma contínua fidelidade e generosidade no exercício do ministério sacerdotal” [6].

No dizer do Cardeal Montini, futuro Papa Paulo VI, a direcção espiritual “conserva sempre uma importância benéfica para todas as idades quando, à luz e à caridade de um conselho piedoso e prudente, se pede a comprovação da própria rectidão e o conforto para o cumprimento generoso dos próprios deveres. É meio pedagógico muito delicado, mas de grandíssimo valor; é arte pedagógica e psicológica de grande responsabilidade para quem a exerce; é exercício espiritual de humildade e de confiança para quem a recebe” [7].

Pensemos num alpinista que procura falar com um velho Tibetano, que o aconselha sobre o modo de caminhar a 8.000 metros de altitude, sobre a alimentação e bebidas, animando-o e oferecendo-lhe o seu próprio chapéu e prometendo-lhe orações… Será que tudo isso é supérfluo?... Para chegar às alturas da santidade sacerdotal, a que somos chamados, será que a experiência alheia, o estímulo, as exigências e a compreensão de alguém com quem podemos desabafar, os seus conselhos cheios de objectividade…será que tudo isso é supérfluo?...

 

 

 

 

 

 



* Excerto da conferência Meios de santificação do sacerdote no Código de Direito Canónico, pronunciada nas XVIII Jornadas de Direito Canónico, sobre o tema “O Ministério Presbiteral na Vida da Igreja” (Fátima, 22-23 de Abril de 2010), promovidas pelo Instituto Superior de Direito Canónico da UCP.

O opúsculo, com apresentação do Bispo de Viseu D. Ilídio Leandro Pinto, foi distribuído pelo Secretariado Diocesano do Clero aos sacerdotes que participaram na Missa Crismal na Catedral de Viseu, na Quinta-feira Santa, 5 de Abril de 2012.

[1] CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, Directório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros, 1994, n.º 53; cfr. JOÃO PAULO II, Exort. Post-sinodal Reconciliatio et Paenitentia, de 2 de Dezembro de 1984, n.º 31.

[2] ALBERTO COSME DO AMARAL, O novo “Ordo Paenitentiae” interpela o sacerdote, pp. 6-7, Gráfica de Leiria, 1974.

[3] Presbyterorum Ordinis, n.º 18.

[4] Directório, cit., n.º 39.

[5] Directório, cit., n.º 54.

[6] JOÃO PAULO II, Ex. Ap. Pastores dabo vobis, n.º 81.

[7] CARDEAL MONTINI, Carta Pastoral sobre o sentido moral, 1961.


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial