sOLIDARIEDADE

REAPRENDER A RELAÇÃO

 

 

 

 

Maria Teresa Chaves

Presidente da Cáritas Diocesana de Beja

 

 

 

Podemos dizer que estamos a assistir ao fim de um ciclo da nossa história e ao início de um novo. Aliada à crise financeira constata-se uma profunda mudança civilizacional. E essa mudança está a tocar em muitos âmbitos.

 

Desde logo, a questão económico-financeira que todos nós estamos a sentir na pele e nos nossos bolsos. Para muitos evidencia-se no vazio do frigorífico. É um problema real, a carência alimentar. Muitas são as famílias na nossa diocese que não estão a conseguir fazer face às despesas básicas, nomeadamente prestação da casa, água, luz.

O nosso bispo, D. António Vitalino, atento a estes graves problemas, criou o Fundo de Emergência Social que tem permitido minorar muitas situações de emergência social. Também o Fundo Nacional, criado pela Conferência Episcopal, tem sido um complemento importante para ajudar tantas famílias da nossa diocese.

As verbas dos dois Fundos são provenientes de donativos de particulares e de empresas, pelo que podemos constatar que mesmo em situação de crise, os portugueses continuam a demonstrar o seu espírito solidário.

Em 2011 foram apoiadas na nossa Diocese através dos Fundos Sociais, sob a coordenação da Cáritas Diocesana de Beja, 905 pessoas com o valor de 43 903 euros. Também nas Paróquias se estão a reorganizar os Grupos Sócio-Caritativos para permitir, numa relação de proximidade, uma maior atenção a quem está em situação de maior carência e minorar o sofrimento de tantas famílias.

 

Outro âmbito que esta mudança está a tocar prende-se com a questão do emprego. Ou melhor dizendo, com a drástica redução do emprego por conta de outrem.

Já há alguns anos que economistas têm vindo a alertar para a necessidade de transmitir nas escolas competências aos jovens para criarem o seu autoemprego. Que o emprego por conta de outrem iria ter os dias contados. Será que a vida na cidade será sustentável para muitas famílias dentro do futuro próximo? Será que iremos assistir ao aumento da emigração interna das cidades para o campo? A Diocese de Beja, sendo uma das maiores em território é também uma das mais desertificadas. O envelhecimento da população aliada à solidão é um dos seus grandes constrangimentos. Mas, quem sabe se o cenário não poderá mudar dentro de alguns anos. A globalização económico-financeira, e possivelmente em breve também política, irão levar-nos a sentir necessidade de nos reorganizar a nível local. Este poderá ser um aspeto positivo.

A Diocese de Beja tem um potencial que falta desenvolver. O regadio de Alqueva, muito embora só vá regar uma reduzida área agrícola, poderá trazer novas oportunidades. A criação de agroindústrias, novos nichos de mercado para produtos hortícolas.

 

Para além do apoio à exportação, seria importante incentivar o consumo do que é produzido localmente. Reaprender a valorizar o que temos e somos. Mas principalmente reaprender a relação.

O ser humano foi criado para o Amor, para a relação com o outro. Foi criado à imagem de Deus, Ele próprio relação, de acordo com o que nos ensina a Santíssima Trindade. Sem essa relação o ser humano acaba por se destruir. A sociedade desmorona-se.

Durante as últimas décadas pusemos as nossas seguranças nos bens materiais, relegando para segundo plano as relações de proximidade, quer seja em família entre as diversas gerações, quer seja nas de vizinhança. Uma das consequências tem sido o aumento dos problemas do foro psiquiátrico. Principalmente no nosso distrito, onde se verifica uma situação muito preocupante.

Seria interessante refletir o que é que a comunidade pode fazer, tendo em conta o número sempre a aumentar de pessoas em risco de depressão. Havendo uma grande carência nas estruturas de apoio, parece-me que poderia ser útil a constituição de grupos de autoajuda. A nível de bairro, de paróquia, de coletividades, poderiam reunir com regularidade e partilhar as suas preocupações, apercebendo-se que não estão sós com o seu problema, para além da partilha de boas práticas que poderão ajudar a resolver ou pelo menos minorar o seu problema. Pois sabemos que, atrás de problemas económicos, vêm muitas vezes problemas conjugais, levando muitas vezes a situações de divórcio, e de relação com os filhos.

 

Com o problema demográfico com que Portugal e a nossa diocese se deparam, seria também importante que fossem desenvolvidas políticas de apoio à estrutura familiar, nomeadamente no apoio à maternidade.

Políticas que acolhessem e apoiassem as mulheres que gostassem de ficar em casa nos primeiros três anos dos seus filhos, que houvesse possibilidade de trabalharem em part-time enquanto os seus filhos estivessem na escola. Que as crianças não tivessem de ficar na escola todo o dia. E que durante a tarde pudessem ser acompanhados em casa pela família. O trabalho em regime de part-time também iria reduzir o desemprego.

Não quer isso dizer que se deverá impossibilitar a mulher, que queira ter uma carreira, de trabalhar em full-time. Também deverá ser uma possibilidade. É certamente também uma mais-valia para a sociedade. E não deverá ser estigmatizada por isso. Mas quem preferir não estar todo o dia fora de casa, também o deveria poder fazer.

Lamentavelmente, o regime de trabalho em part-time é quase inexistente em Portugal.

Se o Estado financia os infantários e os mesmos são em número insuficiente, porque não financiar com o mesmo valor a Mãe que queira ficar com o seu bebé em casa? Poupava-se na saúde, pois esses bebés não iriam ficar tantas vezes doentes. A nível de bairro, poder-se-ia criar estruturas de voluntariado para atividades de entre ajuda. Criar laços na comunidade e reforçar os laços familiares, evitando tantos divórcios e sofrimento.

Esta crise, que se sente na Diocese de Beja e em Portugal, está e irá continuar a obrigar-nos a sair de nós próprios, a ser solidários, a estar atentos ao outro, a ser criativos e a encontrar soluções para minorar os sofrimentos das pessoas e tornar a nossa sociedade mais humana. No entanto, iremos necessitar que as políticas sociais acompanhem estas necessidades.

 

 


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