O ANO DA FÉ

É NO EVANGELHO

QUE SE ENCONTRA O JESUS HISTÓRICO

 

 

 

Mons. Cesare  Nosiglia

Arcebispo de Turim (Itália)

 

Em 20 de Fevereiro passado, teve lugar no auditório da Universidade de Turim o primeiro de uma nova série de encontros sobre o livro de JOSEPH RATZINGER–BENTO XVI, “Jesus de Nazaré. Desde a entrada em Jerusalém até à Ressurreição” (2011), promovida pela Libreria Editrice Vaticana nas universidades italianas.

“L’Osservatore Romano, ed. port., de 10-III-2012, publicou uma síntese da conferência do arcebispo de Turim, que transcrevemos, como contributo para a fé na divindade de Jesus.

 

 

A segunda parte do livro de Bento XVI sobre Jesus de Nazaré oferece sob um ponto de vista quer do conteúdo quer da metodologia uma contribuição significativa, autorizada e importante para favorecer uma abordagem teológico-bíblica e ao mesmo tempo sapiencial e catequética para a compreensão da pessoa de Jesus e da sua mensagem.

Em primeiro lugar, devemos compreender bem o objectivo que Bento XVI traça ao enfrentar a figura de Jesus com os dois volumes que nos ofereceu. A finalidade está bem delineada no preâmbulo desta segunda parte. O desejo do Papa é favorecer o encontro com o Jesus real a partir de um exame rigoroso e fiel dos textos evangélicos. Com efeito, ele sublinha que o Jesus histórico, como aparece na exegese moderna, se revela demasiado insignificante no seu conteúdo para poder estabelecer uma relação com a pessoa de Cristo além da que se realiza com qualquer personagem da história: «é demasiadamente ambientado no passado para permitir uma relação pessoal com Ele» (p. 9). Por isso, o Papa demonstra que é a partir do Jesus dos Evangelhos que a mente e o coração se abrem para encontrar o Jesus histórico, e não vice-versa. Trata-se de encontrá-l’O para acreditar n’Ele, viver d’Ele e testemunhá-l’O a todos com alegria.

Esta tarefa é muito mais exigente para esta segunda parte da obra, dado que aqui se enfrentam os textos evangélicos relativos às palavras e aos acontecimentos mais importantes da vida de Jesus. Contudo, permanece sempre firme o princípio, perseguido com método científico e pesquisa minuciosa, de partir da hermenêutica dos Evangelhos sem ignorar a razão histórica dos factos que necessariamente está contida neles e que, por conseguinte, sustenta de certa maneira a fé, que o texto sagrado exprime como Palavra de Deus, para todos os homens e para todos os tempos. O Papa desenvolve a sua reflexão utilizando todos os quatro Evangelhos, enriquecidos por excertos do Antigo e do Novo Testamento, e com referências pontuais e amplas aos Padres da Igreja e aos escritores cristãos antigos e modernos. E tudo isso mediante considerações que, além da exegese e da interpretação em chave teológica e sapiencial do texto sagrado, oferecem orientações concretas para a vida da Igreja e o testemunho da fé.

Outro aspecto significativo da reflexão do Papa sobre os acontecimentos centrais da vicissitude histórica de Jesus é dado por uma apologética moderna, rigorosa e documentada, que tem em conta as interrogações e questões mais debatidas sobre a interpretação dos textos bíblicos e dá respostas apropriadas através do uso da razão e da fé, num diálogo incessante e fecundo para ambos, segundo o ditado de Agostinho: intellectus quaerens fidem et fides quaerens intellectus.

A reflexão de Bento XVI procede sempre de forma linear e através do confronto aberto com os exegetas e as várias hipóteses dos seus estudos, especialmente dos últimos séculos. Ele mostra respeito pelas diversas posições, mas também não desdenha contrastar claramente algumas destas teorias que, segundo a sua opinião, não se sustentam sob o perfil científico além do teológico. Portanto, argumenta como teólogo e raciocina a partir da hermenêutica própria do estudioso, mas prestando atenção especial a fim de que o seu discurso seja simples e compreensível ao público mais amplo para o qual se dirige.

Por fim, são igualmente importantes os trechos breves e sintéticos em que o Papa resume a verdade de quanto foi documentado amplamente e que aparecem como uma luz que ilumina a reflexão desenvolvida, abrem à oração e à profissão de fé e apoiam a actuação quotidiana do crente. Esta, afinal, é a razão pela qual Bento XVI enfrentou o trabalho de escrever os dois volumes sobre Jesus de Nazaré, realizando deste modo a sua missão de sucessor de Pedro: confirmar na fé os discípulos do Senhor. Uma fé que responda à pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mt 16, 15), com a mesma certeza da profissão de Pedro: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo» (Mt 16, 16). É a resposta que o Papa faz surgir com claridade e profundidade dos Evangelhos que, como nos recorda o apóstolo João, foram «escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em Seu nome» (Jo 20, 31). 

 

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial