DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

APELO À OBEDIÊNCIA

 

 

Na homilia da Missa Crismal, na manhã da Quinta-feira Santa, 5 de Abril passado, o Santo Padre enfrentou-se com dor perante os subscritores do “apelo à desobediência”, lançado por várias centenas de padres austríacos com o apoio do Movimento “Nós Somos Igreja”, reafirmando as decisões definitivas do Magistério.

Título e subtítulos da Redacção da CL.

 

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Nesta Santa Missa, o nosso pensamento volta àquela hora em que o Bispo, através da imposição das mãos e da oração consacratória, nos introduziu no sacerdócio de Jesus Cristo, para sermos «consagrados na verdade» (Jo 17, 19), como Jesus pediu ao Pai por nós na sua Oração sacerdotal. Ele próprio é a Verdade. Consagrou-nos, isto é, entregou-nos para sempre a Deus, a fim de que, a partir de Deus e em vista d’Ele, pudéssemos servir os homens. Mas, estamos também consagrados na realidade da nossa vida? Somos homens que actuam a partir de Deus e em comunhão com Jesus Cristo? Com esta pergunta, o Senhor está diante de nós, e nós estamos diante d’Ele. «Quereis unir-vos mais intimamente ao Senhor Jesus Cristo e configurar-vos com Ele, renunciar a vós mesmos e renovar as promessas, confirmando os sagrados compromissos que, no dia da Ordenação assumistes com alegria?» É assim que, depois desta homilia, interrogarei singularmente a cada um de vós e também a mim mesmo. Com isto, exprimem-se sobretudo duas coisas: requer-se uma união interior, mais ainda, uma configuração com Cristo, e, com isto, necessariamente uma superação de nós mesmos, uma renúncia àquilo que é somente nosso, à tão falada auto-realização. Requer-se que nós, que eu não reivindique a minha vida para mim mesmo, mas a coloque à disposição de outrem: de Cristo. Que não pergunte: o que ganho eu com isso? Mas sim: o que posso dar eu a Ele e, por Ele, aos outros? Ou, mais concretamente ainda: como se deve realizar esta configuração com Cristo, que não domina mas serve; não toma mas dá. Como se deve realizar na situação tantas vezes dramática da Igreja de hoje?

Apelo à desobediência na Igreja?

Recentemente, um grupo de sacerdotes de um país europeu publicou um apelo à desobediência, referindo ao mesmo tempo também exemplos concretos de como exprimir esta desobediência, que deveria ignorar até mesmo decisões definitivas do Magistério – como, por exemplo, na questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer. Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja? Queremos dar crédito aos autores deste apelo quando afirmam que é a solicitude pela Igreja que os move; que estão convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das Instituições com meios drásticos para abrir novos caminhos – para colocar a Igreja à altura dos tempos de hoje. Mas será verdadeiramente um caminho a desobediência? Nela pode-se perceber algo daquela configuração com Cristo, que é o pressuposto para toda a verdadeira renovação, ou, pelo contrário, somente um impulso desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as nossas ideias?

Mas não simplifiquemos demasiado o problema. Porventura Cristo não corrigiu as tradições humanas que ameaçavam sufocar a palavra e a vontade de Deus? Sim, fê-lo, para despertar novamente a obediência à verdadeira vontade de Deus, à sua palavra sempre válida. O que Ele tinha a peito era precisamente a verdadeira obediência, contra o arbítrio do homem. E não esqueçamos que Ele era o Filho, com a singular autoridade e responsabilidade de revelar a autêntica vontade de Deus, para deste modo abrir a estrada da palavra de Deus para o mundo dos gentios. E, enfim, Ele concretizou o seu mandato com a sua própria obediência e humildade até à Cruz, tornando assim credível a sua missão. Não se faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua humildade e ao mesmo tempo a sua divindade, e nos indica a estrada.

Deixemo-nos interpelar mais uma vez: não será que, com tais considerações, o que na realidade se defende é o imobilismo, a rigidez da tradição? Não! Quem observa a história do período pós-conciliar, pode reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que frequentemente assumiu formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que tornam quase palpável a vivacidade inexaurível da santa Igreja, a presença e a acção eficaz do Espírito Santo. E se olharmos para as pessoas de quem dimanaram, e dimanam, estes rios pujantes de vida, vemos também que, para uma nova fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor.

Queridos amigos, vê-se claramente que a configuração com Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação. Mas talvez a figura de Cristo nos apareça por vezes demasiado elevada e grande para podermos ousar tomar as suas medidas. O Senhor sabe-o. Por isso providenciou «traduções» em ordens de grandeza mais acessíveis e próximas de nós. Precisamente por este motivo, São Paulo diz sem timidez às suas comunidades: Imitai-me, mas eu pertenço a Cristo. Ele era para os seus fiéis uma «tradução» do estilo de vida de Cristo, que eles podiam ver e à qual podiam aderir. A partir de Paulo e ao longo de toda a história, existiram continuamente tais «traduções» do caminho de Jesus em figuras históricas vivas. Nós, sacerdotes, podemos pensar numa série imensa de sacerdotes santos que vão à nossa frente para nos apontar a estrada: a começar por Policarpo de Esmirna e Inácio de Antioquia, passando por grandes Pastores como Ambrósio, Agostinho e Gregório Magno, depois Inácio de Loyola, Carlos Borromeu, João Maria Vianney, até chegar aos sacerdotes mártires do século XX e, finalmente, ao Papa João Paulo II que, na acção e no sofrimento, nos serviu de exemplo na configuração com Cristo, como «dom e mistério». Os Santos indicam-nos como funciona a renovação e como podemos colocar-nos ao seu serviço. E deixam-nos compreender também que Deus não olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas manifesta as suas vitórias no humilde sinal do grão de mostarda.

Dispensadores dos mistérios de Deus

Queridos amigos, queria ainda, brevemente, acenar a duas palavras-chave da renovação das promessas sacerdotais, que deveriam induzir-nos a reflectir nesta hora da Igreja e da nossa vida pessoal. Em primeiro lugar, é a recordação do facto de sermos – como se exprime Paulo – «dispensadores dos mistérios de Deus» (1 Cor 4, 1) e de que nos incumbe o ministério de ensinar, o munus docendi, que é uma parte daquela administração dos mistérios de Deus, nos quais Ele nos mostra o seu rosto e o seu coração, para Se dar a Si mesmo. No encontro dos Cardeais por ocasião do recente Consistório, diversos Pastores, baseando-se na sua experiência, falaram dum analfabetismo religioso que se difunde no meio da nossa sociedade tão inteligente. Os elementos fundamentais da fé, que no passado qualquer criança conhecia, são cada vez menos conhecidos. Mas, para se poder viver e amar a nossa fé, para se poder amar a Deus e, consequentemente, tornar-se capaz de O ouvir correctamente, devemos saber o que Deus nos disse; a nossa razão e o nosso coração devem ser tocados pela sua palavra. O Ano da Fé, a comemoração da abertura do Concílio Vaticano II há 50 anos, deve ser uma ocasião para anunciarmos a mensagem da fé com novo zelo e com nova alegria. Esta mensagem, na sua forma fundamental e primária, encontramo-la naturalmente na Sagrada Escritura, que jamais leremos ou meditaremos suficientemente. Nisto, porém, todos sentimos necessidade de um auxílio para a transmitir rectamente no presente, de modo que toque verdadeiramente o nosso coração. Este auxílio encontramo-lo, em primeiro lugar, na palavra da Igreja docente: os textos do Concílio Vaticano II e o Catecismo da Igreja Católica são os instrumentos essenciais que nos indicam, de maneira autêntica, aquilo que a Igreja acredita a partir da Palavra de Deus. E, naturalmente, faz parte também todo o tesouro dos documentos que o Papa João Paulo II nos deu e que está ainda longe de ser cabalmente explorado.

Todo o nosso anúncio deve confrontar-se com esta palavra de Jesus Cristo: «A minha doutrina não é minha» (Jo 7, 16). Não anunciamos teorias nem opiniões privadas, mas a fé da Igreja da qual somos servidores. Isto, porém, não deve naturalmente significar que eu não sustente esta doutrina com todo o meu ser e não esteja firmemente ancorado nela. Neste contexto, sempre me vem à mente a palavra de Santo Agostinho: Que há de mais meu do que eu próprio? E que há de menos meu do que eu mesmo? Não me pertenço a mim próprio e torno-me eu mesmo precisamente pelo facto de me ultrapassar a mim próprio e, através da superação de mim próprio, consigo inserir-me em Cristo e no seu Corpo que é a Igreja. Se não nos anunciamos a nós mesmos e se, intimamente, nos tornamos um só com Aquele que nos chamou para sermos seus mensageiros de tal modo que sejamos plasmados pela fé e a vivamos, então a nossa pregação será credível. Não faço publicidade de mim mesmo, mas dou-me a mim mesmo. Como sabemos, o Cura d’Ars não era douto, um intelectual. Mas, com o seu anúncio, tocou os corações das pessoas, porque ele mesmo fora tocado no coração.

A última palavra-chave, a que ainda queria aludir, chama-se zelo das almas (animarum zelus). É uma expressão fora de moda, que hoje já quase não se usa. Nalguns ambientes, a palavra anima até é considerada uma palavra proibida, porque – diz-se – exprimiria um dualismo entre corpo e alma, dividindo erradamente o homem. Certamente o homem é uma unidade, destinada com corpo e alma à eternidade. Mas isso não pode significar que já não temos uma alma, um princípio constitutivo que garante a unidade do homem durante a sua vida e para além da sua morte terrena. E, como sacerdotes, preocupamo-nos naturalmente com o homem inteiro, precisamente também com as suas necessidades físicas: os famintos, os doentes, os sem-abrigo. Contudo, não nos preocupamos apenas com o corpo, mas precisamente também com as necessidades da alma do homem: pessoas que sofrem devido à violação do direito ou por um amor desfeito; pessoas que, relativamente à verdade, se encontram na escuridão; que sofrem por falta de verdade e de amor. Preocupamo-nos com a salvação dos homens em corpo e alma. E, enquanto sacerdotes de Jesus Cristo, fazemo-lo com zelo. As pessoas não devem jamais ter a sensação de que cumprimos conscienciosamente o nosso horário de trabalho, mas antes e depois pertencemo-nos apenas a nós mesmos. Um sacerdote nunca se pertence a si mesmo. As pessoas devem notar o nosso zelo, através do qual damos um testemunho credível do Evangelho de Jesus Cristo. Peçamos ao Senhor que nos encha com a alegria da sua mensagem, a fim de podermos servir, com zelo alegre, a sua verdade e o seu amor. Ámen.

 


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