Santíssimo Corpo e Sangue e Cristo

7 de Junho de 2012

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: O Cordeiro de Deus é o nosso Pastor, Az. Oliveira, NRMS 90-91

Salmo 80,17

Antífona de entrada: O Senhor alimentou o seu povo com a flor da farinha e saciou-o com o mel do rochedo.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Em Quinta Feira Santa, dentro do recolhimento que este tempo litúrgico nos pedia, agradecemos ao Senhor a instituição da Santíssima Eucaristia e do sacerdócio ministerial, pelo qual Jesus Se torna presente em todos os tempos e lugares.

Hoje agradecemos especialmente a Sua Presença Real nos Sacrários como Amigo, Confidente, Médico e Alimento.

Por isso, em muitos lugares o Santíssimo Sacramento é levado processionalmente em triunfo, e a Igreja apresenta-Lhe as crianças para a Primeira Comunhão.

 

Acto penitencial

 

O Anjo da Guarda de Portugal, na Terceira Aparição aos Pastorinhos de Fátima, fala de três espécies de pecados contra a Santíssima Eucaristia e pede reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças.

Examinemo-nos diligentemente sobre o modo como temos tratado a Santíssima Eucaristia e peçamos perdão, com o desejo sincero de nos emendarmos.

 

(Tempo de silêncio. Apresentamos, como alternativa, elementos para o esquema C)

 

•   Senhor Jesus: Comungamos muitas vezes com rotina,

    e não nos preparamos devidamente para Vos receber.

    Senhor, misericórdia!

 

    Senhor, misericórdia!

 

•   Cristo: Passamos sem fé diante dos Vossos Sacrários,

    como se não estivesse neles o nosso Deus e Senhor.

    Cristo, misericórdia!

 

    Cristo, misericórdia!

 

•   Senhor Jesus: Não fazemos da Sagrada Comunhão

    o Alimento diário da vida da nossa graça baptismal.

    Senhor, misericórdia!

 

    Senhor, misericórdia!

 

Deus todo poderoso tenha compaixão de nós,

perdoe os nossos pecados e nos conduza à vida eterna.

 

Oração colecta: Senhor Jesus Cristo, que neste admirável sacramento nos deixastes o memorial da vossa paixão, concedei-nos a graça de venerar de tal modo os mistérios do vosso Corpo e Sangue que sintamos continuamente os frutos da vossa redenção. Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: No sopé do Monte Sinai, de regresso do Egipto à Terra da Promissão, o Senhor fez uma Aliança com o Seu Povo.

Este acontecimento era uma figura da nossa Aliança feita no Baptismo, no Sangue do Calvário. O Senhor assumiu-nos como sendo o melhor dos pais, e nós comprometemo-nos a observar a Sua Lei, como os melhores dos filhos.

 

Êxodo 24, 3-8

Naqueles dias, 3Moisés veio comunicar ao povo todas as palavras do Senhor e todas as suas leis. O povo inteiro respondeu numa só voz: «Faremos tudo o que o Senhor ordenou». 4Moisés escreveu todas as palavras do Senhor. No dia seguinte, levantou-se muito cedo, construiu um altar no sopé do monte e ergueu doze pedras pelas doze tribos de Israel. 5Depois mandou que alguns jovens israelitas oferecessem holocaustos e imolassem novilhos, como sacrifícios pacíficos ao Senhor. 6Moisés recolheu metade do sangue, deitou-o em vasilhas e derramou a outra metade sobre o altar. 7Depois, tomou o Livro da Aliança e leu-o em voz alta ao povo, que respondeu: «Faremos quanto o Senhor disse e em tudo obedeceremos». 8Então, Moisés tomou o sangue e aspergiu com ele o povo, dizendo: «Este é o sangue da aliança que o Senhor firmou convosco, mediante todas estas palavras».

 

Este texto refere a ratificação da antiga Aliança, por mediação de Moisés, entre dois protagonistas, Deus e o povo de Israel. O rito é descrito com dois elementos, a saber: um (vv. 3a. e 7), a leitura das cláusulas postas por Deus – «as palavras do Senhor» (debarim: ou Decálogo, cf. Ex 20) e «as leis (mixpatim: ou Código da Aliança, cf. Ex 21 – 22) –, com a correspondente aceitação pela parte do povo – «nós o poremos em prática» (vv. 3b e 7). O outro elemento é o sacrifício para selar a Aliança (vv. 4b-6). É interessante notar como a descrição deste sacrifício conserva uns traços muito primitivos, pois quem imola os animais não são sacerdotes, mas «alguns jovens» (v. 5), num altar construído ad hoc e tendo à volta doze estelas (v.4). Os ritos de sangue eram correntes entre os povos nómadas daqueles tempos, mas, para o povo de Israel, este rito encerra um significado particular. Com efeito, o sangue é a vida (cf. Gn 9, 4) e a vida é pertença só de Deus, por isso ele só deve ser derramado sobre o altar, ou ser usado para ungir pessoas consagradas a Deus (cf. Ex 29, 19-21); ao dizer-se que Moisés «aspergiu com ele o povo» todo (v. 8), deixa-se ver que esta aliança não apenas vincula o povo às cláusulas, para obedecer às leis de Deus, mas sobretudo que este povo fica a pertencer a Deus, como um povo santo, que Lhe é consagrado, um povo sacerdotal (cf. Ex 19, 3-6). O sangue derramado em partes iguais – «metade sobre o altar» (v. 6), que representa a Deus, e a outra «metade» sobre o povo (v. 8) – mostra os laços estreitos da comunhão de vida que a aliança cria entre Deus e o povo, num impressionante simbolismo. Uma tal união e aliança é a prefiguração da nova, universal e definitiva aliança, aquela que unirá para sempre, de modo sobrenatural, o homem com Deus, através do sangue de Cristo (cf. Mt 26, 28; Heb 9, 11.28: 2.ª leitura de hoje)

 

Salmo Responsorial     Sl 115 (116), 12-13.15.16bc.17-18 (R. 13)

 

Monição: Sentimo-nos em dívida para com Deus, por tantos benefícios recebidos, especialmente o dom da Santíssima Eucaristia.

O Espírito Santo coloca em nossos lábios um salmo de acção de graças, com a promessa de cumprirmos as exigências do Seu Amor para connosco, porque Ele nos salvou da morte.

 

Refrão:        Tomarei o cálice da salvação

                     e invocarei o nome do Senhor.

 

Ou:               Elevarei o cálice da salvação,

                     invocando o nome do Senhor.

 

Como agradecerei ao Senhor

tudo quanto Ele me deu?

Elevarei o cálice da salvação,

invocando o nome do Senhor.

 

É preciosa aos olhos do Senhor

a morte dos seus fiéis.

Senhor, sou vosso servo, filho da vossa serva:

quebrastes as minhas cadeias.

 

Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor,

invocando, Senhor, o vosso nome.

Cumprirei as minhas promessas ao Senhor,

na presença de todo o povo.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, ofereceu um único Sacrifício ao Pai, no altar da Cruz e continuamente renovado em nossos altares pela Santa Missa.

Cristo – diz-nos o autor da Carta aos Hebreus – é o mediador da Nova Aliança, e por Sua mediação recebemos a herança de filhos de Deus.

 

Hebreus 9, 11-15

Irmãos: 11Cristo veio como sumo sacerdote dos bens futuros. Atravessou o tabernáculo maior e mais perfeito, que não foi feito por mãos humanas, nem pertence a este mundo, 12e entrou de uma vez para sempre no Santuário. Não derramou sangue de cabritos e novilhos, mas o seu próprio Sangue, e alcançou-nos uma redenção eterna. 13Na verdade, se o sangue de cabritos e de toiros e a cinza de vitela, aspergidos sobre os que estão impuros, os santificam em ordem à pureza legal, 14quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno Se ofereceu a Deus como vítima sem mancha, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo! 15Por isso, Ele é mediador de uma nova aliança, para que, intervindo a sua morte para remissão das transgressões cometidas durante a primeira aliança, os que são chamados recebam a herança eterna prometida.

 

Cristo é apresentado como Sumo Sacerdote, numa alusão aos ritos judaicos do Dia da Expiação (Yom Kipur), em só o sumo sacerdote entrava na parte mais sagrada do santuário, o Santo dos Santos. Ele «atravessou o tabernáculo maior e mais perfeito» (v. 11), isto é, segundo a interpretação feita pela tradução, o Santuário do Céu, aonde subiu e onde continua a exercer a sua mediação salvífica.

12-15 O sacrifício de Cristo, com a oferta do seu próprio sangue, isto é, da sua vida imolada, tem uma eficácia infinitamente superior à dos sacrifícios antigos que não obtinham mais do que uma pureza legal e exterior.

14 «Quanto mais o sangue de Cristo… pelo espírito eterno». É em virtude da sua natureza divina que o seu sacrifício tem um valor infinito, que não apenas supera os sacrifícios oferecidos no templo de Jerusalém, mas os torna obsoletos.

 

Aclamação ao Evangelho          Jo 6, 51

 

Monição: Jesus Cristo diz-nos no Evangelho que é o verdadeiro maná que o Pai nos oferece; o pão vivo descido do Céu.

Manifestemos a nossa alegria e gratidão por estas luminosas palavras e aclamemos o Evangelho que as proclama.

 

 

Aleluia

 

Cântico: M. Faria, NRMS10 (II)

 

Eu sou o pão vivo descido do Céu, diz o Senhor.

Quem comer deste pão viverá eternamente.

 

 

Evangelho

 

São Marcos 14, 12-16.22-26

12No primeiro dia dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntaram a Jesus: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» 13Jesus enviou dois discípulos e disse-lhes: «Ide à cidade. Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água. 14Segui-o e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: «O Mestre pergunta: Onde está a sala, em que hei-de comer a Páscoa com os meus discípulos?» 15Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, alcatifada e pronta. Preparai-nos lá o que é preciso». 16Os discípulos partiram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa. 22Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: «Tomai: isto é o meu Corpo». 23Depois tomou um cálice, deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele. 24Disse Jesus: «Este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens. 25Em verdade vos digo: Não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus». 26Cantaram os salmos e saíram para o Monte das Oliveiras.

 

Estamos no relato evangélico da última Ceia de Jesus, segundo Marcos. Tratando-se duma Ceia Pascal, é deveras impressionante que nenhum evangelista relate a comida do cordeiro, o elemento central da ceia judaica. É que todo o interesse se centra nas palavras e nos gestos de Jesus. Aqui tudo é diferente, porque o cordeiro é Ele próprio.

13-14 O pormenor aqui relatado mostra como Jesus tinha tudo previsto cuidadosamente e parece até indiciar que Ele quereria ocultar a Judas o local da Ceia para evitar a consumação da traição neste momento.

15 «Uma grande sala grande no andar superior, alcatifada e pronta». Estes pormenores, que não aparecem nos outros evangelistas podem denunciar, de acordo com a tradição, que o Cenáculo era propriedade de Maria de Jerusalém, a mãe de Marcos, o próprio evangelista que no-los relata.

22 «Isto é o meu Corpo». A expressão de Jesus é categórica e terminante, com exactamente as mesmas palavras nos quatro relatos paralelos que há no Novo Testamento; não deixa lugar a mal entendidos. Não diz: aqui está o meu Corpo, nem isto é o símbolo do meu Corpo, mas sim: isto é o Meu Corpo, como se dissesse: «este pão já não é pão, mas é o Meu Corpo», isto é, «sou Eu mesmo». Todas as tentativas de entender estas palavras num sentido simbólico fazem violência ao texto; com efeito, «ser» no sentido de «ser como», «significar», só se verifica quando do contexto se possa depreender que se trata duma comparação, o que não se dá aqui, pois não se vê facilmente como o pão seja como o Corpo de Jesus, ou como o signifique. Por outro lado, Jesus, com a palavra «isto» não se refere à acção de partir o pão, pois não pronuncia estas palavras enquanto parte o pão, mas depois de o ter partido; por isso, não tem sentido dizer que com a fracção do pão o Senhor queria representar o despedaçar do seu Corpo por uma morte violenta. E Jesus não podia querer dizer uma tal coisa; se o tivesse querido dizer, teria de o explicitar, uma vez que o gesto de partir o pão era, afinal, um gesto usual do chefe da mesa, em todas as refeições, e ninguém lhe podia descobrir outro sentido; por outro lado, o gesto de beber o cálice muito menos condizia com esse tal suposto sentido. Os Apóstolos entenderam as palavras no seu verdadeiro realismo (cf. Jo 6, 51-58). Assim as entende e prega S. Paulo (1 Cor 11) e a Igreja Católica assistida indefectivelmente por Cristo e pelo Espírito Santo. O mistério eucarístico é tão transcendente que não podia passar pela cabeça humana sequer sonhá-lo (cf. a recente Encíclica Ecclesia de Eucharistia). Assim fala São Justino a meados do século II: «Não é pão ou vinho comum o que recebemos. Com efeito, do mesmo modo como Jesus Cristo, nosso Salvador, se fez homem pela Palavra de Deus e assumiu a carne e o sangue para a nossa salvação, também nos foi ensinado que o alimento sobre o qual foi pronunciado a acção de graças com as mesmas palavras de Cristo e, depois de transformado, nutre nossa carne e nosso sangue, é a própria carne e o sangue de Jesus que se incarnou».

 

Sugestões para a homilia

 

1- A solenidade de hoje prolonga a Missa da ceia da Quinta feira santa. Nesse dia fez-se, no fim da Missa, uma pequena procissão no interior da igreja. Hoje essa procissão prolonga-se no exterior pelas ruas das cidades e caminhos das aldeias.

 As leituras recordam que a Eucaristia é, essencialmente, o Sacramento da Aliança de Deus com o mundo, é o Sacrifício e o novo Cordeiro pascal, é a fonte de união de Deus connosco e dos homens entre si.

Estas noções fundamentais de aliança e de sacrifício andam um pouco arredias da cultura actual, mesmo da cultura religiosa, ou nem sequer foram assimiladas, e isso explica um pouco a ligeireza com que muitos olham para a Eucaristia. Lembremos que o facto central da história da salvação está na generosidade infinita de Deus. Chamamos a isso a Aliança de Deus connosco e essa iniciativa vem de Deus. Em todos as Missas se repetem as palavras «corpo entregue por vós», «sangue derramado por vós», «sangue da nova e eterna aliança», realidades que prolongam e alimentam esse mistério da comunhão com o Pai e o Espírito Santo operada por Jesus.  

Neste dia do Corpo de Deus, proclamamos no exterior das igrejas este mistério central da nossa fé. A Procissão ocupa um lugar de relevo na celebração deste dia e deve ajudar a viver a Eucaristia como fonte e força dos homens entre si e com Deus.

 

2.Três palavras merecem ser destacadas: «estar perante o Senhor», «caminhar com o Senhor», «ajoelhar perante o Senhor».

A procissão «congrega» os fiéis, fá-las «estar juntos» num lugar donde sai a procissão, por vezes diferente da igreja onde vão aos domingos. Isto é educativo. A civilização actual dispersa as pessoas e, mesmo os que residem no mesmo prédio, desconhecem-se. A Missa dominical congrega-as e a festa de hoje num sentido mais alargado. Aí está um dos grandes dinamismos sociais da Eucaristia.

A procissão leva depois a «caminhar com o Senhor» pessoas que nos outros dias andam divididos por estatutos sociais, quase sem se falarem. A Eucaristia não nos faz somente caminhar para o Senhor, ir à igreja; leva-nos também a caminhar com o Senhor fora da igreja.

Este «caminhar com Jesus» alerta-nos ainda contra o risco do caminhar somente com o progresso. Esta palavra tem hoje uma atracção quase mágica e, todavia, ela pode fazer caminhar para o abismo (desastres recentes em centrais nucleares, 11 de Setembro em Nova York, operações financeiras sem ética, técnicas médicas ao serviço de vaidades). “Caminhar com o Senhor” exprime esse outro modo de ver e de viver a vida, viver sob uma luz que ilumina o próprio progresso.  

Finalmente, a procissão leva os fiéis a «ajoelhar perante o Senhor». Ajoelhar é um exercício quase desconhecido no dia a dia. No clima da cultura democrática que tudo nivela e das novas tecnologias que tudo invadiram, os gestos habituais são “sentar” para ouvir, para trabalhar e para comer; e “andar a pé” para fazer ginástica.

O gesto de “ajoelhar” desperta o homem para outras realidades, para o sentido da vida, o caminho de Deus. Dobrar o joelho em atitude de obediência e gratidão a Deus não anula a nossa liberdade nem o nosso empenho laboral e político, mas volta-nos para a fonte da vida e faz-nos experimentar a ascensão.[1]

Vivamos atentamente estes gestos em cada Missa e participemos na procissão do Corpo de Deus, dando a esses gestos a expressão pública.

 

Fala o Santo Padre

 

«A instituição da Eucaristia parece-nos assim como que

a antecipação e a aceitação por parte de Jesus da sua morte.»

 

"Este é o meu corpo, este é o meu sangue". Estas palavras que Jesus pronunciou na Última Ceia, são repetidas todas as vezes que se renova o Sacrifício eucarístico. Ouvimo-las há pouco no Evangelho de Marcos e ressoam com singular poder evocativo hoje, solenidade do Corpus Christi. Elas conduzem-nos idealmente ao Cenáculo, fazem-nos reviver o clima espiritual daquela noite quando, celebrando a Páscoa com os seus, o Senhor antecipou no mistério o sacrifício que se teria consumado no dia seguinte na cruz. A instituição da Eucaristia parece-nos assim como que a antecipação e a aceitação por parte de Jesus da sua morte. Escreve a propósito Santo Efrém, o Sírio: durante a ceia Jesus imolou-se a si mesmo; na cruz Ele foi imolado pelos outros (cf. Hino sobre a crucifixão, 3, 1).

"Este é o meu sangue". É aqui evidente a referência à linguagem sacrifical de Israel. Jesus apresenta-se a si mesmo como o sacrifício verdadeiro e definitivo, no qual se realiza a expiação dos pecados que, nos ritos do Antigo Testamento, nunca tinha sido totalmente cumprido. A esta expressão seguem-se outras duas muito significativas. Antes de tudo, Jesus Cristo diz que o seu sangue "é derramado por muitos" com uma referência compreensível aos cânticos do Servo de Deus, que se encontram no livro de Isaías (cf. cap. 53). Com o acréscimo – "sangue da aliança" – Jesus faz ainda sobressair que, graças à sua morte, se realiza a profecia da nova aliança fundada na fidelidade e no amor infinito do Filho que se fez homem, por isso uma aliança mais forte que todos os pecados da humanidade. A antiga aliança tinha sido sancionada no Sinai com um rito sacrifical de animais, como ouvimos na primeira leitura, e o povo eleito, libertado da escravidão do Egipto, tinha prometido cumprir todos os mandamentos dados pelo Senhor (cf. Êx 24,3).

Na verdade, Israel imediatamente, com a construção do bezerro de ouro, mostrou-se incapaz de se manter fiel a esta promessa e assim, ao pacto estabelecido, que aliás em seguida transgrediu com muita frequência, adaptando ao seu coração de pedra a Lei que lhe deveria ter ensinado o caminho da vida. Mas o Senhor não faltou à sua promessa e, através dos profetas, preocupou-se por recordar a dimensão interior da aliança, e anunciou que teria escrito uma nova nos corações dos seus fiéis (cf. Jr 31, 33), transformando-os com o dom do Espírito (cf. Ez 36, 25-27). E foi durante a Última Ceia que estabeleceu com os discípulos e com a humanidade esta nova aliança, confirmando-a não com sacrifícios de animais como acontecia no passado, mas com o seu sangue, que se tornou "sangue da nova aliança". Portanto, fundou-a na própria obediência que, como eu disse, é mais forte que todos os nossos pecados.

Isto é bem evidenciado na segunda leitura, tirada da Carta aos Hebreus, na qual o autor sagrado declara que Jesus é "mediador de uma aliança nova" (9, 15). Tornou-se mediador graças ao seu sangue ou, mais exactamente, graças ao dom de si mesmo, que dá pleno valor ao derramamento do seu sangue. Na cruz, Jesus é ao mesmo tempo vítima e sacerdote: vítima digna de Deus porque é sem mancha, e sumo sacerdote que se oferece a si mesmo, sob o impulso do Espírito Santo, e intercede pela humanidade inteira. A Cruz é por conseguinte mistério de amor e de salvação, que nos purifica – como diz a Carta aos Hebreus – das "obras mortas", isto é, dos pecados, e nos santifica esculpindo a aliança nova no nosso coração; a Eucaristia, renovando o sacrifício da Cruz, torna-nos capazes de viver fielmente a comunhão com Deus.[…]

São João Maria Vianney gostava de dizer aos seus paroquianos: "Vinde à comunhão... É verdade que não sois dignos dela, mas dela tendes necessidade" (Bernard Nodet, Le curé d'Ars. Sa pensée Son coeur, ed. Xavier Mappus, Paris 1995, p. 119). Conscientes de sermos inadequados por causa dos pecados, mas com a necessidade de nos alimentarmos do amor que o Senhor nos oferece no sacramento eucarístico, renovemos esta tarde a nossa fé na real presença de Cristo na Eucaristia. Não se deve dar por certa esta fé! Hoje corre-se o risco de uma secularização rastejante também no interior da Igreja, que se pode traduzir num culto eucarístico formal e vazio, em celebrações sem aquela participação do coração que se expressa em veneração e respeito pela liturgia. É sempre forte a tentação de reduzir a oração a momentos superficiais e apressados, deixando-se subjugar pelas actividades e preocupações terrenas. Quando daqui a pouco repetirmos o Pai-Nosso, a oração por excelência, diremos: "O pão nosso de cada dia nos d ai hoje", pensando naturalmente no pão de todos os dias. Mas este pedido contém algo mais profundo. A palavra grega epioúsios, que traduzimos com "quotidiano", poderia aludir também ao pão "sobre-substancial", ao pão "do mundo futuro". Alguns Padres da Igreja viram aqui uma referência à Eucaristia, o pão da vida eterna do mundo novo, que nos é dado já hoje na Santa Missa, para que desde agora o mundo futuro tenha início em nós. Portanto, com a Eucaristia o céu vem à terra, o amanhã de Deus desce ao presente e o tempo é como que abraçado pela eternidade divina.[…]

 

Papa Bento XVI, Basílica de São João de Latrão, 11 de Junho de 2009

 

Oração Universal

 

Irmãos e irmãs:

Jesus Cristo, na Sagrada Eucaristia,

abre generosamente as Suas mãos,

para nos oferecer torrentes de graças.

Agradeçamos esta divina liberalidade,

apresentemos-Lhe as nossas carências

e as de todos os nossos irmãos e irmãs.

Oremos (cantando):

 

    Dai-nos, Senhor, a Eucaristia!

 

1. Pelo Santo Padre, guia e mestre da fé da Igreja,

    para que nos ilumine sempre com a sã doutrina,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Eucaristia!

 

2. Pelos sacerdotes que nos dão o Corpo do Senhor,

    para que promovam o amor à Santíssima Eucaristia,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Eucaristia!

 

3. Pelas crianças que fazem a Primeira comunhão

    para que este dia as encha de felicidade e alegria,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Eucaristia!

 

4. Pelos pais que levam os seus filhos a comungar

    para que se preparem e os acompanhem sempre,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Eucaristia!

 

5.  Pelos os que se dedicam ao ensino da doutrina,

    para que o Senhor da Messe os recompense,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Eucaristia!

 

6. Pelos que o Senhor chamou à Sua Presença,

    para que a todos receba nas moradas eternas,

    oremos, irmãos.

 

    Dai-nos, Senhor, a Eucaristia!

 

Senhor, que Vos dais a nós em Alimento,

a fim de caminharmos até ao Paraíso:

ajudai-nos a viver com fidelidade e amor

os compromissos do nosso Baptismo,

para sermos dignos das Vossas promessas.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade  do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Pelo mistério da transubstanciação, Jesus Cristo vai agora multiplicar, não já os pães e os peixes, mas o Seu Corpo e Sangue, para nosso Alimento.

O pão e o vinho que levámos ao altar vai ser convertido, pelo ministério do sacerdote, no próprio Senhor.

Avivemos a nossa fé e agradeçamos tão grande condescendência do nosso Deus.

 

Cântico do ofertório: Ao teu sacrário venho, Senhor, B. salgado, NRMS 12 (I)

 

Oração sobre as oblatas: Concedei, Senhor, à vossa Igreja o dom da unidade e da paz, que estas oferendas misticamente simbolizam. Por Nosso Senhor.

 

Prefácio da Eucaristia: p. 1254 [658-770]

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Saudação da Paz

 

A Santíssima Eucaristia é fonte da verdadeira paz. Não se compreende que alguém comungue e promova a desunião entre as pessoas.

A solenidade do Corpo e Sangue do Senhor lembra-nos, pois, que somos, por vocação, construtores da paz.

 

Saudai-vos na paz de Cristo!

 

Monição da Comunhão

 

Depois de comungar, também nós vamos ser custódias vivas, levando processionalmente o Senhor pelos caminhos da vida.

Guardemos a lembrança da presença do Senhor em nós, para a nossa vida se transforme.

 

Cântico da Comunhão: Eucaristia, celeste alimento, M. Carneiro, NRMS 77-79

Jo 6, 57

Antífona da comunhão: Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em Mim e Eu nele, diz o Senhor.

 

Cântico de acção de graças: Memorial da morte do senhor, M. Carvalho, NRMS 77-79

 

Oração depois da comunhão: Concedei-nos, Senhor Jesus Cristo, a participação eterna da vossa divindade, que é prefigurada nesta comunhão do vosso precioso Corpo e Sangue. Vós que sois Deus com o Pai na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Avivemos continuamente a fé na Presença Real do Senhor na Eucaristia e procuremos viver praticamente esta verdade.

Aproximemos as pessoas nossas amigas do Sacrário, levando-as a uma reconciliação com Deus.

 

Cântico final: Povos da terra exaltai, M. Faria, NRMS 11 (I)

 

 

Homilias Feriais

 

6ª Feira, 8-VI: Finalidade das provações.

2 Tim 3, 10-17 / Mc 12, 35-37

Que provações não tive que suportar! Aliás, todos os que desejam viver com piedade em Jesus Cristo hão-de ser perseguidos.

Perante as tentações e provações é necessário discernir as que ajudam a crescer na virtude e as que conduzem à morte: «O Espírito Santo permite-nos discernir entre a provação necessária ao crescimento do homem interior (Leit.) em vista duma virtude ‘comprovada’, e a tentação, que conduz ao pecado e á morte. Devemos também distinguir entre ‘ser tentado’ e ‘consentir na tentação’. Finalmente, o discernimento desmascara a mentira da tentação: aparentemente, o seu objectivo é ‘bom, agradável à vista, desejável’, quando, na realidade, o seu fruto é a morte» (CIC, 2847).

 

Sábado, 9-VI: Exigências da verdade.

2 Tim 4, 1-8 / Mc 12, 38-44

E não só desviarão os ouvidos da verdade como hão-de voltar-se para as fábulas.

Seguir a verdade é muito exigente. É mais fácil seguir ou fazer aquilo que todos fazem, o que está na moda, etc. «Mas o caminho da perfeição passa pela cruz. Não há santidade sem renúncia e combate espiritual: ‘combati o bom combate’ (Leit.). O progresso espiritual implica a ascese e a mortificação, que conduzem gradualmente a viver na paz e na alegria das bem-aventuranças» (CIC, 2015).

A viúva pobre deitou duas pequenas moedas na caixa. Na sua penúria, renunciou a tudo o que tinha e foi louvada pelo Senhor (Ev.).

 

 

 

 

 

 

Celebração:                           Fernando Silva

Homilia:                                 D. Joaquim Gonçalves

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 



[1] Card.Ratzinger - Esplendor da glória de Deus, Braga, Editorial franciscana, pp.131-137


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial