TEMAS LITÚRGICOS

A CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA:

DO SÍMBOLO À REALIDADE

 

 

 

Cardeal Antonio Cañizares

Roma

 

 

 

Temos o gosto de dar a conhecer aos nossos leitores o texto da apresentação do livro “La concélébration eucharistique. Du symbole à la réalité” (Wilson & Lafleur, collection Gratianus, Montréal 2011), feita pelo Cardeal António Cañizares, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos – que também assina o Prefácio do livro –, na Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma), em 5 de Março de 2012.

 

 

“Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e levou-os, só a eles, a um monte alto, e transfigurou-se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia tornar tão brancas. E eis que lhes apareceram Elias e Moisés, que conversavam com Jesus. Pedro tomando a palavra, disse a Jesus: «Mestre, que bom é estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias»” (Mc 9, 2-5).

 Ontem, segundo domingo da Quaresma, a liturgia proclamava as palavras que acabo de ler. Palavras que, penso, podem servir de introdução a esta apresentação do livro de Mons. Guillaume Derville, publicado em francês e em inglês por Wilson & Lafleur, “La concélébration eucaristique. Du symbole à la réalité”, na sua colecção Gratianus, e em espanhol por Palabra.

Ao evocar o relato da transfiguração, brotam espontâneas na nossa mente as palavras: glória, fulgor, beleza. São expressões que se podem aplicar directamente à liturgia. Como recorda Bento XVI, a liturgia está vinculada intrinsecamente com a beleza. De facto, “a verdadeira beleza é o amor de Deus que se nos revelou definitivamente no Mistério pascal” [1].

 A expressão “Mistério pascal” sintetiza o núcleo essencial do processo da Redenção, e é o cume da obra de Jesus. Por sua vez, a liturgia tem como conteúdo próprio esta “obra” de Jesus, porque nela se actualiza a obra da nossa Redenção. Daí que a liturgia, como parte do Mistério pascal, seja “expressão eminente da glória de Deus e, em certo sentido, constitua um aproximar-se do Céu à terra. O memorial do sacrifício redentor leva em si mesmo os traços daquela beleza de Jesus, de que nos deram testemunho Pedro, Tiago e João, quando o Mestre, a caminho de Jerusalém, quis transfigurar-se diante deles (cf. Mc 9,2). A beleza, portanto, não é um elemento decorativo da acção litúrgica; é antes um seu elemento constitutivo, já que é um atributo do próprio Deus e da sua revelação. Tudo isto deve tornar-nos conscientes da atenção que deve haver para que a acção litúrgica resplandeça segundo a sua própria natureza” [2].

 Gostaria de reflectir precisamente nas últimas palavras do texto acabado de citar, pois, na minha opinião, introduzem um tema delicado que é, ao mesmo tempo, o ponto central do estudo de Mons. Derville. Vamos lê-las novamente: “A beleza, portanto, não é um elemento decorativo da acção litúrgica; é antes um seu elemento constitutivo, já que é um atributo do próprio Deus e da sua revelação. Tudo isto deve tornar-nos conscientes da atenção que deve haver para que a acção litúrgica resplandeça segundo a sua própria natureza”.

Por outras palavras, a liturgia, e dentro dela a concelebração, será bela quando for verdadeira e autêntica, quando nela resplandeça a sua verdadeira natureza. Nesta linha situa-se a questão colocada pelo Romano Pontífice perante as grandes concelebrações: “Para mim, devo dizer, permanece um problema, porque a comunhão concreta na celebração é fundamental; por isso, não acho que se tenha realmente encontrado a resposta definitiva. Também no Sínodo passado suscitei esta pergunta, mas não se encontrou resposta. Também pedi para se fazer outra pergunta sobre a concelebração multitudinária; porque, se concelebram, por exemplo, mil sacerdotes, não se sabe se se mantém ainda a estrutura querida pelo Senhor” [3].

O ponto fundamental é precisamente manter “a estrutura querida pelo Senhor”, porque a liturgia é um dom de Deus. Não é algo fabricado por nós os homens. Não está à nossa disposição. Na realidade, “com o mandato «Fazei isto em minha memória» (cf. Lc 22,19; 1 Cor 11,25), Ele pede-nos que correspondamos ao seu dom e o representemos sacramentalmente. Portanto, com estas palavras o Senhor exprime, por assim dizer, a esperança de que a sua Igreja, nascida do seu sacrifício, acolha este dom, desenvolvendo sob a guia do Espírito Santo a forma litúrgica do Sacramento” [4].

 Por este motivo, “devemos também aprender a compreender a estrutura da Liturgia e por que está articulada assim. A Liturgia desenvolveu-se nos dos milénios e, mesmo depois da reforma, não se tornou algo elaborado só por alguns liturgistas. Ela permanece sempre a continuação deste desenvolvimento permanente da adoração e do anúncio. Assim, para poder sintonizar bem com ela, é muito importante compreender esta estrutura desenvolvida ao longo do tempo e penetrar com a nossa mens na vox da Igreja” [5].

O estudo detalhado de Mons. Derville insere-se nesta direcção. Ajuda-nos a escutar os textos do Concilio Vaticano II, os quais, com palavras do Beato João Paulo II, “não perdem o seu valor nem o seu esplendor. É necessário que sejam lidos de maneira apropriada, que sejam conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, dentro da Tradição da Igreja” [6].

O Concilio, efectivamente, decidiu ampliar a faculdade de concelebrar seguindo dois princípios: esta forma de celebração da Santa Missa manifesta adequadamente a unidade do sacerdócio e, ao mesmo tempo, tem sido praticado até agora na Igreja, tanto no Oriente como no Ocidente [7]. Por isso, a concelebração, como indica também a Sacrossanctum Concilium, inclui-se entre aqueles ritos que deviam ser restaurados “segundo a antiga tradição dos Padres” [8].

Neste sentido, torna-se importante abordar, embora brevemente, a história da concelebração. A panorâmica histórica que nos oferece Mons. Derville, embora, como ele “modestamente” diz, seja um breve resumo, é-nos suficiente para detectar algumas zonas de sombra, que mostram a ausência de dados definitivos sobre a celebração eucarística nos primeiros tempos da Igreja. Ao mesmo tempo, mas sem cair num ingénuo “arqueologismo”, fornece provas suficientes para poder afirmar que a concelebração, segundo a genuína tradição da Igreja, quer oriental como ocidental, é um rito extraordinário, solene e público, habitualmente presidido pelo Bispo ou por um delegado seu, rodeado pelo seu presbyterium e por toda a comunidade dos fiéis. Por outro lado, a concelebração quotidiana em uso entre os orientais, na qual concelebram só sacerdotes, e a concelebração, por assim dizer “privada”, em substituição das Missas celebradas individualmente ou “more privato”, não se encontram na tradição litúrgica latina.

 Além disso, na minha opinião, o autor consegue dar uma explicação satisfatória sobre as razões de fundo que o Concílio menciona para a ampliação da concelebração. Una extensão da faculdade de concelebrar, que devia ser moderada, como resulta da leitura dos textos conciliares. É lógico que deveria ser assim, porque a concelebração não tem como objectivo resolver os problemas logísticos o de organização, mas antes tornar presente o Mistério pascal, manifestando deste modo a unidade do sacerdócio que nasce da Eucaristia. A beleza da concelebração, como dissemos ao princípio, implica a sua celebração na verdade. Deste modo, a sua força significativa depende de que se vivam e se respeitem as exigências que a própria concelebração implica.

 Quando o número dos concelebrantes é demasiado elevado, fica velado um aspecto essencial da concelebração. A quase impossibilidade de sincronizar as palavras e os gestos que não está reservados ao celebrante principal, o afastamento do altar e das oferendas, a falta de paramentos para alguns dos concelebrantes, a ausência de harmonia de cores e formas, tudo isto pode obscurecer a manifestação da unidade do sacerdócio. E, não podemos esquecer, foi precisamente essa manifestação que justificou a extensão da faculdade de concelebrar.

 No longínquo ano de 1965, o cardeal Lercaro, presidente do Consilium ad exsequendam Constitutionem de sacra liturgia, enviou una carta aos Presidentes das Conferências Episcopais, alertando-os sobre um perigo: considerar a concelebração como um modo de superar as dificuldades práticas. E recordava que podia ser oportuno promovê-la [9] no caso de que favorecesse a piedade dos fiéis e dos sacerdotes.

 É este último aspecto que gostaria de abordar agora muito brevemente. Como disse Bento XVI: “recomendo aos sacerdotes a celebração diária da santa Missa, mesmo quando não haja participação de fiéis. Esta recomendação está em consonância antes de mais com o valor objectivamente infinito de cada Celebração eucarística; além disso, é motivada pela sua singular eficácia espiritual, porque, vivida com atenção e com fé, a santa Missa é formativa no sentido más profundo do termo, na medida em que promove a configuração com Cristo e consolida o sacerdote na sua vocação” [10].

 Para cada sacerdote, a celebração da santa Missa é a razão da sua existência. É, deve ser, um encontro pessoalíssimo com Deus e com a sua obra redentora. Ao mesmo tempo, cada sacerdote, na celebração eucarística, é o próprio Cristo presente na Igreja como Cabeça de seu Corpo [11] e actua também em nome de toda a Igreja, “quando apresenta a Deus a oração da Igreja e sobretudo quando oferece o sacrifício eucarístico” [12]. Perante a maravilha do dom eucarístico, que transforma e configura com Cristo, só cabe uma atitude de admiração, de gratidão e de obediência.

 O autor ajuda-nos a captar com maior profundidade e clareza esta realidade admirável. E, ao mesmo tempo, com este livro recorda-nos e convida-nos a considerar que, além da concelebração, existe a possibilidade da celebração individual ou a participação na Eucaristia como sacerdote, mas sem concelebrar. Trata-se, em cada caso, de entrar na liturgia, de procurar a opção que permita mais facilmente o diálogo com o Senhor, respeitando a própria estrutura da liturgia. Encontram-se aqui os limites de um “direito a concelebrar ou não”, no respeito dos fiéis de participarem numa liturgia onde a ars celebrandi torne possível a sua actuosa participatio. Tocamos, portanto, pontos que têm que ver com o que é justo ou não; o autor, de facto, não deixa de referir-se também ao Código de Direito Canónico.

Só me resta agradecer a Mons. Derville e também às editoras Palabra e Wilson & Lafleur o livro que hoje tenho o prazer de apresentar. Acho que a sua leitura oferece um exemplo da correcta hermenêutica do Concilio Vaticano II. “Trata-se, diz o Papa, concretamente, de ler as mudanças queridas pelo Concilio dentro da unidade que caracteriza o desenvolvimento histórico do próprio rito, sem introduzir rupturas artificiais” [13]. E é uma ajuda e um estímulo para a tarefa que o Santo Padre recordou recentemente à Congregação que presido: “dedicar-se principalmente a dar novo impulso à promoção da Sagrada Liturgia na Igreja, segundo a renovação querida pelo Concilio Vaticano II a partir da Constituição Sacrosanctum Concilium[14]. Tenho também a certeza de que este livro contribuirá a tornar possível que o Ano da Fé seja “una ocasião propicia para intensificar a celebração da fé na liturgia, e de modo particular na Eucaristia” [15].

 

 

Publicado com autorização de www.collationes.org  

 

 

 



[1] BENTO XVI, Ex. apost. Sacramentum caritatis, n. 35.

[2] Idem.

[3] BENTO XVI, Encontro com os párocos e o clero da diocese de Roma, 7-II-2008.

[4] BENTO XVI, Ex. apost. Sacramentum caritatis, n. 11.

[5] BENTO XVI, Encontro com os sacerdotes da diocese de Albano, 31-VIII-2006.

[6] JOÃO PAULO II, Carta apost. Novo millennio ineunte, 6-I-2001, n. 57.

[7] Cfr. CONCILIO VATICANO II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 57.

[8] CONCILIO VATICANO II, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 50.

 

[9] Notitiae 1 (1965), pp. 257-264.

[10] BENTO XVI, Ex. apost. Sacramentum caritatis, n. 80.

[11] Cfr. Catecismo da Igreja Católica, n. 1548.

[12] Catecismo da Igreja Católica, n. 1552.

[13] BENTO XVI, Ex. apost. Sacramentum caritatis, n. 3.

[14] BENTO XVI, Motu proprio Quaerit semper, 30-VIII-2011.

[15] BENTO XVI, Motu proprio Porta fidei, n. 9.


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