A PALAVRA DO PAPA

A NOVA EVANGELIZAÇÃO

E O SACRAMENTO DA RECONCILIAÇÃO *

 

 

 

Prezados Amigos

 

Estou muito feliz por me encontrar convosco por ocasião do anual Curso sobre o Foro Interno, organizado pela Penitenciaria Apostólica. Dirijo uma saudação cordial ao Cardeal Manuel Monteiro de Castro, Penitenciário Mor, que, pela primeira vez neste cargo, presidiu às vossas sessões de estudo, e agradeço-lhe as cordiais expressões que quis dirigir-me. Saúdo também Mons. Gianfranco Girotti, Regente, o pessoal da Penitenciaria e cada um de vós que, com a vossa presença, chamais a atenção para a importância do Sacramento da Reconciliação na vida de fé, evidenciando quer a necessidade permanente de uma adequada preparação teológica, espiritual e canónica para poderem ser confessores, quer sobretudo o vínculo constitutivo entre celebração sacramental e anúncio do Evangelho.

Com efeito, os Sacramentos e o anúncio da Palavra nunca devem ser concebidos como realidades separadas, mas, pelo contrário, «Jesus afirma que o anúncio do Reino de Deus é a finalidade da sua missão; este anúncio, porém, não é só um “discurso”, mas inclui, ao mesmo tempo, o seu próprio agir; os sinais, os milagres que Jesus realiza, indicam que o Reino vem como realidade presente e que coincide por fim com a sua própria pessoa, com o dom de si [....]. O sacerdote representa Cristo, o Enviado do Pai, e continua a sua missão, mediante a “palavra” e o “sacramento”, nesta totalidade de corpo e alma, de sinal e palavra» (Audiência geral, 5 de Maio de 2010). Precisamente esta totalidade, que afunda as raízes no próprio mistério da Encarnação, sugere-nos que a celebração do Sacramento da Reconciliação é, ela mesma, anúncio e por isso caminho a percorrer para a obra da nova evangelização.

Santidade e Sacramento da Reconciliação

Então, em que sentido a Confissão sacramental é “caminho” para a nova evangelização? Antes de tudo porque a nova evangelização colhe linfa vital da santidade dos filhos da Igreja, do caminho quotidiano de conversão pessoal e comunitária, para se conformar cada vez mais profundamente com Cristo. E existe um vínculo estreito entre santidade e Sacramento da Reconciliação, testemunhado por todos os Santos da história. A conversão real dos corações, que consiste em abrir-se à acção transformadora e renovadora de Deus, é o “motor” de qualquer reforma e traduz-se numa verdadeira força evangelizadora. Na Confissão, o pecador arrependido, pela acção gratuita da Misericórdia divina, é justificado, perdoado e santificado, abandona o homem velho para se revestir do homem novo. Só quem se deixou renovar profundamente pela Graça divina, pode trazer em si mesmo, e portanto anunciar, a novidade do Evangelho. O beato João Paulo II, na Carta Apostólica Novo millenio ineunte, afirmava: «Solicito ainda uma renovada coragem pastoral para que a pedagogia quotidiana das comunidades cristãs saiba propor de forma persuasiva e eficaz a prática do Sacramento da Reconciliação» (n. 37). Desejo reiterar este apelo, ciente de que a nova evangelização deve fazer conhecer ao homem do nosso tempo o Rosto de Cristo «como mysterium pietatis, Aquele em quem Deus nos mostra o seu coração compassivo e nos reconcilia plenamente consigo. É este Rosto de Cristo que é necessário fazer redescobrir, também através do Sacramento da Penitência» (Ibidem).

Numa época de emergência educativa, em que o relativismo põe em questão a própria possibilidade de uma educação entendida como progressiva introdução ao conhecimento da verdade, ao sentido profundo da realidade, portanto como progressiva introdução à relação com a Verdade que é Deus, os cristãos são chamados a anunciar com vigor a possibilidade do encontro entre o homem de hoje e Jesus Cristo, em quem Deus se fez tão próximo a ponto de O podermos ver e ouvir. Nesta perspectiva, o Sacramento da Reconciliação, que começa por um olhar para a própria concreta condição existencial, ajuda de modo singular àquela “abertura do coração” que permite dirigir o olhar para a Deus, para entrar na Vida. A certeza de que Ele está próximo e, na sua misericórdia, atende o homem, mesmo o mergulhado no pecado, para curar as suas enfermidades com a graça do Sacramento da Reconciliação, é sempre uma luz de esperança para o mundo.

O novo início da vida cristã no confessionário

Queridos sacerdotes e diáconos que vos preparais para o Presbiterado, na administração deste Sacramento, vos é dada ou ser-vos-á dada a possibilidade de ser instrumentos de um encontro sempre renovado dos homens com Deus. Quantos recorrerem a vós, precisamente pela sua condição de pecadores, experimentarão em si próprios um desejo profundo: desejo de mudança, pedido de misericórdia e, enfim, desejo de que volte a acontecer, através do Sacramento, o encontro e o abraço com Cristo. Por isso, sereis colaboradores e protagonistas de muitos possíveis “novos inícios”, tantos quantos forem os penitentes que se aproximarem de vós, tendo presente que o autêntico significado de cada “novidade” não consiste tanto no abandono ou na remoção do passado, mas em acolher Cristo e em abrir-se à sua Presença, sempre nova e sempre capaz de transformar, de iluminar todas as zonas de sombra e de abrir continuamente um novo horizonte. Então, a nova evangelização começa também no Confessionário! Isto é, parte do misterioso encontro entre a inexaurível petição do homem, sinal nele do Mistério Criador, e a Misericórdia de Deus, única resposta adequada à necessidade humana de infinito. Se a celebração do Sacramento da Reconciliação for isto, se nela os fiéis fizerem uma experiência real daquela Misericórdia que Jesus de Nazaré, Senhor e Cristo, nos concedeu, então tornar-se-ão eles mesmos testemunhas credíveis daquela santidade, que é o fim da nova evangelização.

Queridos amigos, tudo isto, se é verdade para os fiéis leigos, adquire ainda maior relevância para cada um de nós. O ministro do Sacramento da Reconciliação colabora com a nova evangelização sendo ele mesmo o primeiro a renovar a consciência do próprio ser penitente e da necessidade de recorrer ao perdão sacramental, para que se renove aquele encontro com Cristo, que, iniciado no Baptismo, encontrou no Sacramento da Ordem uma configuração específica e definitiva. São estes os meus votos para cada um de vós: a novidade de Cristo seja sempre o centro e a razão da vossa existência sacerdotal, para que quantos vos encontrem possam, através do vosso ministério, proclamar como André e João: «encontrámos o Messias» (Jo 1, 41). Deste modo, cada Confissão, da qual cada cristão sairá renovado, representará um passo em frente da nova evangelização. Maria, Mãe de Misericórdia, Refúgio para nós pecadores e Estrela da nova evangelização, acompanhe o nosso caminho. Agradeço-vos de todo o coração, e de bom grado vos concedo a minha Bênção Apostólica.

 

 

 

 

* Discurso do Santo Padre Bento XVI aos participantes no Curso sobre o foro interno promovido pela Penitenciaria Apostólica, recebidos em audiência no passado dia 9 de Março. Presidia pela primeira vez o novo Penitenciário Mor, o Cardeal português Manuel Monteiro de Castro.

Título e subtítulos da Redacção da Celebração Litúrgica.

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial