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OS MISTÉRIOS

 

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

João Paulo I, no seu famoso «Ilustríssimos Senhores», conta a história daquela menina que respondeu muito depressa à pergunta do sacerdote sobre a Santíssima Trindade: – «A Santíssima Trindade é o Pai, o Filho e o Espírito Santo». – «Desculpe, não entendi…» – «Nem é preciso», replicou ela. «É um mistério».

É, de facto, um mistério, e um mistério mais precioso do que, para uma criancinha, o de ter pai, mãe e irmãos. Ou, para um cientista, os mistérios físico-químicos do universo; ou, para um filósofo, o mistério do ser… Tudo é mistério, afinal, no sentido de que nos é impossível conhecer até à exaustão cada coisa. Só o Criador Se compreende absolutamente e compreende absolutamente cada criatura. Mas conhecer, sim, podemos; e aprofundar cada vez mais o nosso conhecimento das coisas, do homem e de Deus. Podemos e devemos, ainda que se trate de mistérios tão superiores à nossa capacidade intelectual, que só por revelação divina e por fé sobrenatural os saibamos.

«Fides quaerens intelectum…» Recordo alguém que objectava o seguinte a uma exposição que ouvia sobre a nossa fé: – «Não será perigoso racionalizar a fé?» Como quem diz: a fé não é uma intuição ou um sentimento tão profundo e complexo, que não admite enquadramento racional? Acontece, porém, que, como somos seres racionais, temos de racionalizar tudo – foi a correcta resposta. Não temos mesmo outro modo de conhecer senão através da razão.

Sim, temos de «racionalizar» tudo, o que não significa reduzir a realidade aos limites da nossa inteligência, mas ordenar a inteligência de tal modo que seja capaz de receber, sem contradição, toda a realidade que se nos impõe. E nenhuma mais certa do que a divinamente revelada.

Há, porém, nessa objecção uma sugestão interessante: se a fé se deve «racionalizar», «fazer-se teologia», há-de procurar compreender antes de mais o amor. O perigo não está no jogo de conceitos necessário ao raciocínio; toda a ciência, mesmo a que se refere em directo a Deus, exige abstracção, terminologia própria e lógica rigorosa. O perigo está em esquecer que Deus é Amor, e que toda a lógica da Criação e da Redenção é uma lógica de amor. A frieza da especulação de S. Tomás de Aquino não o impedia de cantar o maravilhoso romance do amor de Deus, sobretudo nos seus inspirados hinos à Eucaristia.

Para dizer mais sucintamente: se não formos românticos, nunca seremos teólogos. Se a fé procura forçosamente o «intelecto», o intelecto deve procurar antes de mais o amor, para poder raciocinar rigorosamente, pois doutro modo nunca perceberia, sequer superficialmente, a razão de ser do mundo e da nossa Salvação. Seríamos como aquele que recebe um ramo de rosas e as analisa até ao ponto de saber tudo das suas pétalas, dos caules, dos espinhos, mas se esqueceu da questão principal - quem mas enviou? Talvez seja um cientista, mas será um cientista louco.

 

 

 

 

 


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