ENTREVISTA

A IGREJA NA ÍNDIA

 

Cardeal Oswald Gracias

Arcebispo de Bombay (Índia)

 

 

Oferecemos a entrevista realizada por Nicola Gori ao cardeal Oswald Gracias, presidente da Conferência Episcopal indiana, por ocasião da visita ad limina de um dos grupos de bispos, publicada em “L’Osservatore Romano”, ed. port., 24-IX-2011.

 

 

A Igreja na Índia é uma realidade complexa que inclui três Ritos: Latino, Siro-Malabar e Siro-Malancar. Esta variedade, que é também uma riqueza, exprime a unidade da Igreja em Cristo?

Confesso que no passado entre as Igrejas irmãs algumas vezes não nos entendíamos totalmente e, por conseguinte, a unidade em Cristo nem sempre se manifestava como devia. Todavia, estamos a fazer muitos esforços a este propósito. Um passo neste sentido foi a criação de uma Comissão conjunta para a evangelização, na qual as três Igrejas se encontram para estudar o modo de colaborar.

 

Os leigos cristãos conseguem de algum modo influir na política?

Os cristãos não conseguiram muito na política, mas a sua presença é significativa. Actualmente, mais de 25 estão presentes no Parlamento, inclusive alguns são ministros. Se se considerar a percentagem de cristãos entre a população, o número dos políticos católicos é relativamente grande. A Igreja está atenta a formar os cristãos para que assumam as próprias responsabilidades na sociedade civil. Para alcançar este objectivo, começamos pela preparação dos estudantes, motivando-os a entrar na política, não para obter um nível económico melhor ou outras vantagens ligadas ao encargo, mas para transformar deveras a sociedade com os valores do Evangelho.

 

Existem preconceitos em relação a eles?

Não creio. Os cristãos nunca se sentiram cidadãos de segunda classe. Como disse, estão inseridos em vários organismos estatais. No Supremo Tribunal, temos um juiz e um governador católicos, e há alguns também no gabinete do Primeiro-Ministro.

 

As castas ainda têm grande importância na sociedade indiana?

Infelizmente, devo admitir que o sistema das castas ainda tem uma grande importância na sociedade indiana, porque influencia as decisões políticas, sociais e económicas. Isto é evidente, especialmente no Sul e no Sueste do país. O sistema ainda está radicado na mentalidade e será necessário pelo menos outra geração para o eliminar das áreas em que há muita influência. Procuramos combater este fenómeno, pois quem tem esta mentalidade mantém-na inclusive quando se torna cristão. A Conferência episcopal indiana declarou publicamente que é um pecado discriminar de acordo com a casta, porque este sistema é absolutamente contrário ao Evangelho.

 

O sistema das castas existe também na comunidade cristã?

Sim, a mentalidade permanece mesmo depois da conversão. De facto, o matrimónio é praticamente impossível entre membros de castas diferentes. Há alguns anos, também nas igrejas havia lugares diferentes nos bancos, de acordo com a pertença às castas, e até no cemitério os túmulos eram separados. Actualmente, isto já não é permitido.

 

Que contributo os cristãos dão e deram para a educação?

Somos pioneiros da educação na Índia. Os missionários católicos iniciaram as primeiras escolas do país e agora temos os melhores colégios. As nossas escolas diferem das outras privadas porque seguimos a opção preferencial pelos pobres. Ao contrário de muitos colégios privados, não oferecemos estruturas com serviços de luxo, como ar condicionado, piscina, etc., mas apostamos sobretudo em melhorar a qualidade da educação. O grande número de pedidos de admissão às escolas católicas torna muito difícil satisfazer a todos. Chegam até pressões por parte do Governo e de pessoas importantes para que aceitemos alguns estudantes nos nossos institutos. Isto acontece porque a formação que se realiza nas nossas escolas é óptima e muito apreciada por todos. Os sacerdotes, as religiosas e os professores estão bem preparados. Outro motivo de excelência é a formação global que damos às raparigas. Mais do que noutras escolas, nas nossas aprendem a inserir-se melhor na sociedade. Enfim, nos institutos católicos existe uma atenção privilegiada a certos valores: a presença de Deus, a honestidade, a verdade, a justiça. Com o tempo todos entendem como são importantes e querem que os seus filhos os aprendam. Para ter uma ideia da presença católica no campo da educação, basta pensar que só na diocese de Bombay existem 180 escolas católicas: 80 são geridas por sacerdotes diocesanos e 100 por religiosos.

 

O desenvolvimento económico do país originou uma diferença cada vez maior entre ricos e pobres. Como se podem conciliar as necessidades do mercado com a doutrina social da Igreja?

É o nosso desafio. Ultimamente, a Índia cresceu 7,7%, um dado relevante, comparado com outros países. Contudo, efectivamente, está a aumentar cada vez mais a diferença entre ricos e pobres. Os ricos tornam-se cada vez mais ricos e os pobres, mesmo quando experimentam de alguma maneira os efeitos positivos da riqueza, nunca conseguem alcançar níveis de vida aceitáveis. A Igreja está a fazer o melhor possível para ajudar quem vive nas zonas rurais e nas aldeias. Sobretudo, procura fazê-los tomar consciência dos seus direitos e oferecer-lhes uma educação adequada. Também o Governo tem muitos projectos para os pobres: trabalho, educação, distribuição de géneros alimentícios. Todavia, muitos destes programas não têm bom êxito, antes de tudo por uma deficiência organizativa e depois por causa da corrupção. De facto, as ajudas nem sempre chegam aos pobres. Estamos a combater precisamente esta situação. Esperamos conseguir impregnar cada vez mais os ensinamentos sociais da Igreja no tecido social indiano que, não obstante seja constituído só em mínima parte por cristãos, está aberto a determinados valores.

 

Os ataques contra os cristãos no Estado de Orissa há três anos comprometeram as relações quotidianas com os hindus?

Os ataques em Orissa foram perpetrados por organizações fundamentalistas hindus. Foi um período verdadeiramente horrível. Os cristãos tiveram que fugir para as florestas ou para o mar. Um momento muito triste na história da Igreja e vergonhoso para o país. O governo local não fez muito nessa época: permaneceu insensível e quase indiferente. Só depois e além disso tardiamente, a intervenção do Governo central sobre as autoridades locais convenceu a polícia a agir. Não obstante o clima de ódio, a Igreja sempre se empenhou em construir pontes de diálogo. Apesar deste incidente, desejo realçar que os hindus em todo o país são compreensivos e tolerantes e a nossa relação com eles é boa.

 

A Índia é o país onde a Madre Teresa de Calcutá ofereceu o seu testemunho. Qual é a sua grande herança?

A Madre Teresa preocupava-se pelos pobres no meio dos pobres e é amada e admirada por muitíssimas pessoas. Há alguns anos, na televisão, entrevistaram algumas jovens e todas afirmaram que gostariam de se tornar como a Madre Teresa. A sua solicitude para com os pobres ainda está presente em muitas pessoas. Toda a sociedade aceita e aprecia aqueles princípios.

 

E a herança de Gandhi?

Gandhi foi um gigante da paz e da não-violência. É o pai da nação e é amado e respeitado. Infelizmente, às vezes a sua mensagem foi esquecida ou, pelo menos, deixada de lado. Na sua vida ficou muito impressionado pelo Evangelho. Por exemplo, com frequência citava o Sermão da Montanha e recordava como o tinha influenciado. Dizia, e isto para nós é uma vergonha: «Eu amo a Cristo, mas não amo os cristãos, porque não seguem a Cristo». Isto deveria impelir-nos a reflectir sobre o testemunho que oferecemos dos valores do Evangelho no modo de agir, pensar e viver. Gandhi teve muito a peito o tema da paz. Sempre quis que a Índia fosse uma nação não violenta e neutral na política mundial. Insistia tanto, muito mais do que qualquer naquela época, sobre o facto de que o Governo devia cuidar dos mais pobres, ser laico e justo com todas as religiões e não declarar guerra a país algum. Foi assassinado precisamente pelo seu amor à paz. Um valor que não deve ser esquecido, sobretudo nestes anos nos quais a Índia alcançou uma posição importante no mundo, quer como potência militar quer económica. É também o segundo maior país do mundo a nível demográfico. É claro que, nos próximos anos, desempenhará um papel importante no cenário mundial. O povo indiano também é muito trabalhador. Por estes motivos, os países vizinhos não apreciam muito o papel da Índia. Se, em última análise, faltasse o valor da paz, além de nós mesmos, também os países próximos sofreriam. A nossa posição geográfica oferece-nos inclusive a vantagem de ser mediadores entre os vários Estados da região. Creio que o Governo e o povo estão conscientes disto. E espero que estejam sempre à altura da responsabilidade que têm nas mãos.

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial