DOCUMENTAÇÃO

 

COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL

 

A TEOLOGIA HOJE: PERSPECTIVAS, PRINCÍPIOS E CRITÉRIOS

 

 

A Comissão Teológica Internacional tornou público, em 8 de Março passado, um novo documento, redigido em inglês, “Theology Today: Perspectives, Principles and Criteria” (Teologia Hoje: Perspectivas, Princípios e Critérios), de acordo com a sua missão de oferecer ajuda à Santa Sé, em particular à Congregação para a Doutrina da Fé, ao examinar questões doutrinais de maior importância.

O texto está publicado no site da Comissão Teológica Internacional – que se encontra no site do Vaticano (www.vatican.va).

O documento, cuja preparação começou no quinquénio anterior 2004-2008, na subcomissão presidida pelo Prof Santiago Elena (Espanha), foi redigido tendo presente o estudo realizado, durante o quinquénio actual, na subcomissão presidida por Mons. Paul McPartlan (Reino Unido).

O documento examina alguns aspectos actuais da teologia e propõe, à luz dos princípios constitutivos da mesma, os critérios metodológicos que são determinantes para a teologia católica em relação a outras disciplinas afins, como as ciências religiosas. O texto está dividido em três capítulos: a teologia pressupõe a escuta da Palavra de Deus acolhida na fé (capítulo 1); é realizada em comunhão com a Igreja (capítulo 2); e tem como fim dar razão de um modo científico de abordar a verdade de Deus, numa perspectiva de sabedoria autêntica (capítulo 3).

O texto foi aprovado na forma específica pela Comissão Teológica Internacional, em 29 de Novembro de 2011, e foi apresentado ao seu presidente, o cardeal William Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que autorizou a sua publicação.

Damos a seguir a Introdução do documento.

 

 

Introdução

1. Os anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II foram extremamente produtivos para a teologia católica. Houve novas vozes teológicas, especialmente de leigos, homens e mulheres; teologias provenientes de novos contextos culturais, particularmente na América Latina, África e Ásia; novos temas para reflexão, tais como paz, justiça, libertação, ecologia e bioética; tratamentos mais profundos de temas antigos, graças à renovação nos estudos bíblicos, litúrgicos, patrísticos e medievais, e novos espaços para a reflexão, como o diálogo ecuménico, inter-religioso e inter-cultural. Estes são fundamentalmente desenvolvimentos positivos. A teologia católica tem procurado seguir o caminho aberto pelo Concílio, que quis exprimir a sua “solidariedade e afecto respeitoso para com toda a família humana”, entrando em diálogo com ela e oferecendo “os recursos salvíficos que a Igreja recebeu do seu fundador sob a inspiração do Espírito Santo” [1]. No entanto, este período também viu uma certa fragmentação da teologia, e no diálogo já mencionado a teologia enfrenta sempre o desafio de manter sua própria verdadeira identidade. A questão surge, portanto, quanto àquilo que caracteriza a teologia católica e dá-lhe, em e através das suas muitas formas, um claro sentido de identidade em seu compromisso com o mundo de hoje.

 

2. Em certa medida, a Igreja necessita claramente de um discurso comum, se quer comunicar a única mensagem de Cristo ao mundo, quer teologicamente quer pastoralmente. É legítimo, portanto, falar da necessidade de uma certa unidade da teologia. No entanto, a unidade aqui tem de ser cuidadosamente compreendida, de modo a não ser confundida com uniformidade ou um único estilo. A unidade da teologia, como a da Igreja, tal como é professada no Credo, deve ser estreitamente correlacionada com a ideia de catolicidade, e também com a de santidade e apostolicidade [2]. A catolicidade da Igreja deriva do próprio Cristo, que é o Salvador de todo o mundo e de toda a humanidade (cf. Ef 1, 3-10; 1 Tim 2, 3-6). A Igreja está, portanto, em casa, em qualquer nação e cultura, e procura “assumir tudo para a sua salvação e santificação” [3]. O facto de haver um só Salvador mostra que há um nexo necessário entre catolicidade e unidade. Como explora o inesgotável Mistério de Deus e as inúmeras maneiras em que a graça de Deus trabalha para a salvação em diversos contextos, a teologia verdadeira e necessariamente toma uma infinidade de formas, e até como investigações da única verdade do Deus uno e trino e do plano de salvação centrado no único Senhor Jesus Cristo, essa pluralidade deve manifestar traços familiares distintivos.

 

3. A Comissão Teológica Internacional (CTI) estudou vários aspectos da tarefa teológica em textos anteriores, nomeadamente, Pluralismo teológico (1972), Teses sobre a relação entre o Magistério eclesiástico e a Teologia (1975), e A interpretação do Dogma (1990) [4]. O presente texto procura identificar traços familiares distintivos da teologia católica [5]. Considera perspectivas e princípios básicos que caracterizam a teologia católica, e oferece critérios pelos quais teologias diversas e múltiplas podem, todavia, ser reconhecidas como autenticamente católicas, e participando na missão da Igreja Católica, que é proclamar a Boa Nova a pessoas de todas as nações, tribos, povos e línguas (cf. Mt 28, 18-20; Apoc 7, 9), e, permitindo-lhes ouvir a voz do único Senhor, paraos reunir todos num só rebanho com um só pastor (cf. Jo 10, 16). Essa missão requer que haja na teologia católica quer a diversidade na unidade quer a unidade na diversidade. As teologias católicas devem ser identificáveis como tais, apoiando-se mutuamente e mutuamente responsáveis, como são os próprios cristãos na comunhão da Igreja para a glória de Deus. O presente texto, consequentemente, consiste em três capítulos, estabelecendo os seguintes temas: na rica pluralidade de suas expressões, protagonistas, ideias e contextos, a teologia é católica e, portanto, fundamentalmente uma só, se ela provém de uma escuta atenta da Palavra de Deus (cf. Capítulo 1); se ela se situa consciente e fielmente na comunhão da Igreja (cf. capítulo 2); e se ela é orientada para o serviço de Deus no mundo, oferecendo a verdade divina aos homens e mulheres de hoje, de forma inteligível (cf. Capítulo 3).

 



[1] Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes 3.

[2] Para os dois últimos, veja abaixo, os parágrafos 92-94, e 10, 25-32, respectivamente.

[3] Henri de Lubac, Catholicism: Christ and the Common Destiny of Man (San Francisco: Ignatius Press, 1988), p.298.

[4] Estes e outros textos CTI abaixo mencionados podem ser encontrados tanto na International Theological Commission: Texts and Documents 1969-1985, ed. Michael Sharkey (San Francisco: Ignatius Press, 1989), como na International Theological Commission: Texts and Documents 1986-2007, eds. Michael Sharkey and Thomas Weinandy (San Francisco: Ignatius Press, 2009).

[5] católica, refere-se aqui à Igreja Católica, onde subsiste a una, santa, católica e apostólica Igreja fundada por Cristo e confiada aos cuidados de Pedro e dos apóstolos (cf. Concílio Vaticano II, Lumen gentium 8, Unitatis redintegratio 4, Dignitatis humanae 1). Ao longo deste texto, o termo teologia refere-se à teologia como a Igreja Católica o entende.


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