6º Domingo da Páscoa

13 de Maio de 2012

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Anunciai com voz de Júbilo, Az. Oliveira, NRMS 32

cf. Is 48, 20

Antífona de entrada: Anunciai com brados de alegria, proclamai aos confins da terra: O Senhor libertou o seu povo. Aleluia.

 

Diz-se o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

«Deus é Amor! Quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele!» (I Jo. 4, 16) Estas palavras da I Carta de São João exprimem, com singular clareza, o centro da fé cristã. Num mundo em que, ao nome de Deus, se associa às vezes a vingança ou mesmo o dever do ódio e da violência, esta é uma mensagem de grande atualidade e de significado muito concreto! Continuamos em Páscoa, com Jesus, a despedir-se num Discurso, centrado no Amor. É o amor que vem de Deus, que se manifestou em Jesus Cristo, e chega a nós, pela força do seu Espírito Santo.

 

Rito penitencial pela aspersão da água

Que a água viva sobre nós aspergida, em memória do batismo, seja também sinal desta torrente de amor, a jorrar para a vida eterna.

 

Cântico: Vós que fostes batizados em Cristo, estais revestidos da Luz. Aleluia, Aleluia...

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, a graça de viver dignamente estes dias de alegria em honra de Cristo ressuscitado, de modo que a nossa vida corresponda sempre aos mistérios que celebramos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Os Atos dos Apóstolos afirmam que a salvação oferecida por Deus através de Cristo, e levada ao mundo pelos discípulos, se destina a todos os homens e mulheres, sem exceção.

 

Actos dos Apóstolos 10, 25-26.34-35.44-48

Naqueles dias, 25Pedro chegou a casa de Cornélio. Este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés. 26Mas Pedro levantou-o, dizendo: «Levanta-te, que eu também sou um simples homem». 34Pedro disse-lhe ainda: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, 35mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável». 44Ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra. 45E todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, 46pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus. 47Pedro então declarou: «Poderá alguém recusar a água do Baptismo aos que receberam o Espírito Santo, como nós?» 48E ordenou que fossem baptizados em nome de Jesus Cristo. Então, pediram-Lhe que ficasse alguns dias com eles.

 

A leitura refere a vinda de Pedro a anunciar a salvação a um gentio, «Cornélio». Era centurião romano do destacamento militar de Cesareia, e bem podia ser descendente dalgum daqueles dez mil escravos que libertou Cornélio Sila, cerca do ano 80 a. C., os quais tomaram o apelido deste. Pertenceria à «coorte itálica», de que nos chegaram várias inscrições. Era «justo e temente a Deus» (v. 22), isto é, homem que aceitava o único Deus de Israel e a sua lei moral, mas sem aderir ao judaísmo pela circuncisão e outras práticas rituais. Segundo Act 10, 1-8, tinha recebido uma mensagem angélica para mandar chamar Pedro a Jope (Jafa, hoje Yafo), a fim de lhe vir anunciar a «Boa-Nova da paz» (cf. v. 36). Pedro, dada a visão que teve – «o que foi purificado por Deus não o chames impuro» (v. 15) –, vendo como o Espírito Santo, com manifestações semelhantes às do Pentecostes, nomeadamente a glossolalia (cf. vv. 45-46), descia sobre os ouvintes da sua pregação, não hesitou em fazer entrar os ouvintes directamente na Igreja pelo Baptismo (vv. 47-48). Isto aparece como um passo de extraordinário alcance para a vida da Igreja (por isso se conta mais uma vez no cap. 11); com efeito, a Igreja é católica desde o princípio, isto é, destinada aos homens de todas as raças, e não apenas ao fechado e estreito âmbito de judeus e judaizados. Mas nem todos os cristãos afeitos à Lei de Moisés haviam de compreender isto facilmente, o que motivou o sínodo de Jerusalém (ano 49-50); os cristãos judaizantes, porém, haveriam de continuar na sua e a fazer grande oposição a S. Paulo.

34-35 Estes versículos representam uma pequenina parte do discurso de Pedro em casa de Cornélio, em Cesareia Marítima, quando Pedro recebeu directamente na Igreja os primeiros gentios, sem terem de passar primeiro pelo judaísmo. É surpreendente que um discurso dirigido a não judeus contenha alusões (mas não citações explícitas) ao Antigo Testamento: v. 34 – «Deus não faz acepção de pessoas» (cf. Dt 10, 17); v. 36 – «Ele enviou a sua palavra aos filhos de Israel» (cf. Salm 107, 20), «anunciando a paz» (cf. Is 52, 7); v. 38 – «Deus ungiu com… Espírito Santo» (cf. Is 61, 1). Isto corresponde a que se está num ponto crucial da vida da Igreja, em que ela entra decididamente pelos caminhos da sua universalidade intrínseca, em confronto com o nacionalismo judaico; por isso era importante recorrer àquelas passagens do A. T. que se opõem a qualquer espécie de privilégio de raça ou cultura: «a palavra aos filhos de Israel» (v. 36) deixa ver como Deus é o «Senhor de todos», imparcial, «não faz acepção de pessoas» e que a «paz» – a súmula de todos os bens messiânicos – Deus a destina a toda a humanidade. O discurso tem um carácter kerigmático evidente; e Lucas – o historiador-teólogo – ao redigi-lo, quaisquer que possam ter sido as fontes utilizadas, terá em vista mais ainda do que a situação concreta em que foi pronunciado, o efeito a produzir nos seus leitores. Convém notar que, no entanto, ao redigir os discursos – o grande recurso literário de Actos –, Lucas não os inventa; embora não sejam uma reprodução literal, considera-se que correspondem aos temas da pregação primitiva.

 

Salmo Responsorial    Sl 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R. cf. 2b)

 

Monição: Ao Senhor que manifestou a sua salvação a todos nós, cantemos de coração renovado um cântico novo.

 

Refrão:        O Senhor manifestou a salvação a todos os povos.

 

Ou:               Diante dos povos manifestou Deus a salvação.

 

Cantai ao Senhor um cântico novo

pelas maravilhas que Ele operou.

A sua mão e o seu santo braço

Lhe deram a vitória.

 

O Senhor deu a conhecer a salvação,

revelou aos olhos das nações a sua justiça.

Recordou-Se da sua bondade e fidelidade

em favor da casa de Israel.

 

Os confins da terra puderam ver

a salvação do nosso Deus.

Aclamai o Senhor, terra inteira,

exultai de alegria e cantai.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A primeira carta de São João convida os cristãos a terem como prioridade a glória de Deus e o serviço dos irmãos. O exemplo supremo deve ser o de Cristo, que viveu na obediência incondicional aos projetos do Pai e fez da sua vida um dom de amor ao serviço da libertação dos homens.

 

1 São João 4, 7-10

Caríssimos: 7Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. 8Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 9Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele. 10Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.

 

A Carta de S. João que temos vindo a ler no tempo pascal deste ano B atinge agora o seu ponto mais alto (vv. 1-16). O tema central da Epístola é o amor, um tema a que volta repetidas vezes, desenvolvendo-o em espiral. A chamada espiral joanina consiste em que, cada vez que volta a um tema, avança e aprofunda-o um pouco mais.

7-8 «Amemo-nos uns aos outros» é como que um refrão que S. João não se cansa de repetir (cf. 1 Jo 3, 11.23); mas aqui não se limita a apelar para «o mandamento do Senhor» (1 Jo 3, 23; cf. Jo 15, 12), pois vai até ao ponto de tocar na mais profunda razão de ser deste mandamento. É que «Deus é amor», por isso o cristão, que «nasceu de Deus» e «conhece a Deus», não pode deixar de amar; sendo assim, «quem não ama não conhece a Deus», isto é, não participa da sua vida e do seu ser, não entra na sua intimidade. Notar que em S. João «conhecer» não é «ter notícia ou informação», mas é «ter experiência pessoal, penetrar na intimidade de outro»; é assim que «conhecer a Deus» implica agir na mesma linha do amor de Deus.

9-10 A afirmação de que Deus é amor não é uma afirmação teórica, ou uma definição metafísica de Deus; é uma afirmação sapiencial, é o resultado da contemplação estonteante da sua obra salvadora, a saber, do modo como «se manifestou o amor de Deus para connosco», que chegou ao ponto de que «enviou ao mundo o seu Filho Unigénito» (v. 9), como «vítima de expiação pelos nossos pecados» (v. 10). Este amor de Deus – a entrega do Criador à sua criatura para se dar dando a vida – é tão fascinante e inimaginável, que é expresso no Novo Testamento com um substantivo novo, não usado na literatura grega profana: agápê. Não estamos perante qualquer espécie de amor, mas em face da mais absoluta gratuidade, pois a referência é o próprio amor que Deus nos manifesta: «não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou» (v. 10).

 

Ou

1 São João 4, 11-16

Caríssimos: 11Se Deus nos amou tanto, também nós devemos amar-nos uns aos outros. 12A Deus ninguém jamais O viu. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e em nós o seu amor é perfeito. 13Nisto conhecemos que estamos n’Ele e Ele em nós: porque nos deu o seu Espírito. 14E nós vimos e damos testemunho de que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. 15Se alguém confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. 16Nós conhecemos o amor de Deus por nós e acreditamos no seu amor. Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele.

 

A espiral joanina à volta do amor, a que nos referíamos no comentário aos versículos anteriores (vv. 7-10), progride aprofundando e esclarecendo o fundamento do amor mútuo: «se Deus nos amou assim, também nós nos devemos (o grego, ofeîlomen,  indica obrigação estrita) amar uns aos outros» (v. 11). Com efeito, são os outros que visibilizam (cf. Mt 25, 40) a Deus invisível, «que nunca ninguém viu», como filhos do mesmo Deus. Também se pode ver neste pormenor do v. 12 uma alusão aos gnósticos que se ufanavam de uma intuição directa de Deus, a epopteia das religiões mistéricas. Por outro lado, temos aqui a mais séria justificação da maravilhosa realidade da vida cristã, que ao longo de todos os séculos se tem manifestado na doação e no serviço aos outros, nomeadamente àqueles que, por serem carenciados, nada têm com que retribuir, sendo o apostolado a forma mais sublime do amor cristão.

Também o voltar ao outro tema fulcral da Carta – permanecer – atinge aqui (vv. 13-16) o seu clímax (ver supra o comentário feito a 1 Jo 3, 24, na 2ª leitura do 5º Domingo de Páscoa): «Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chega à perfeição em nós. Damos conta de que permanecemos n’Ele, e Ele em nós, por nos ter feito participar do seu Espírito» (vv. 12-13). O autor, ao mover-se na densidade de expressões de fé tão elevadas, com uma referência explícita ao mistério da Trindade e da Incarnação (vv. 13-15), apela, de uma maneira tipicamente joanina, para o testemunho alicerçado, não apenas numa experiência interior, de comunhão vital e mística (cf. v. 13), mas na própria experiência sensorial – hêmeîs tetheámetha (v. 14), «nós vimos (contemplámos)» –, não se tratando de uma mera experiência individual isolada, mas de um colectivo (pode pensar-se na dita comunidade do Discípulo amado em ligação com as primeiras testemunhas directas).

 

Aclamação ao Evangelho          Jo 14, 23

 

Monição: No Evangelho, Jesus define as coordenadas do “caminho” que os seus discípulos devem percorrer, ao longo da sua marcha pela história. Eles são os “amigos” a quem Jesus revelou o amor do Pai; a sua missão é testemunhar o amor de Deus no meio dos homens.

 

Aleluia

 

Cântico: Aclamação- 2, F da Silva, NRMS 50-51

 

Se alguém Me ama, guardará a minha palavra.

Meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.

 

 

Evangelho

 

São João 15, 9-17

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 9«Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. 11Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. 12É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. 13Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. 14Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. 15Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. 16Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. 17O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».

 

Temos hoje a continuação do chamado discurso do adeus, centrada no tema central do amor e no permanecer, correspondentes à 2ª leitura (1 Jo 4, 11-16).

9-17 Estes versículos constituem um dos cumes mais elevados de todo o Evangelho e uma das chamadas «sínteses do cristianismo»: o anterior apelo permanecei em Mim (v. 3) concretiza-se agora em permanecei no meu amor (vv. 9.10). A referência básica é o amor do Pai, «como o Pai Me amou»: é assim que Jesus nos ama (v. 9); trata-se, pois, de um amor de eleição de Jesus (v. 16), que exige uma correspondência de fidelidade aos seus mandamentos (vv. 10.12.14.17; 13, 34; 14, 15.21). Este amor divino constitui os discípulos numa relação totalmente nova com Jesus: a da amizade (vv. 13-15; 13, 34; 1 Jo 3, 11), a tal ponto que fica esbatida a infinita distância entre Deus e o homem, entre o Senhor e os «servos», facultando liberdade interior. Esta nova situação conduz à alegria, a uma «alegria completa» (v. 11; 16, 24; 17, 13; 1 Jo 1, 4), (v. 15), e à fecundidade, dando um fruto sobrenatural, «que permaneça» (v. 16). Por outro lado, este amor é exigência do amor mútuo, fornecendo-lhe a sua mais sólida base e a sua mais elevada medida: como Eu vos amei (v. 12), até dar a vida (v. 13). E não se pode permanecer no amor de Jesus se não se guardarem os seus mandamentos (cf. v. 10).

15-16 «Já vos não chamo servos». Bela forma de mostrar as especiais relações de amizade que Jesus tem com os seus; um servo enquanto tal, é indigno da amizade do seu senhor e limita-se a receber ordens, mas os discípulos recebem de Jesus as mais íntimas confidências: «porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai». É evidente que se trata de uma amizade que não se baseia em igualdade de natureza; é fruto duma eleição gratuita: «fui Eu que vos escolhi e destinei…». Escolhidos para dar frutos que permaneçam, isto é, frutos espirituais, frutos de vida eterna – de santidade, de apostolado –, só darão esses frutos na dependência e união com Cristo (cf. v. 5); daí o apelo à oração, a qual dá garantia de eficácia: «tudo quanto pedirdes… Ele vo-lo concederá». A oração sempre ouvida pelo Pai é a que é feita «em nome de Jesus», isto é, em plena sintonia com Jesus, numa perfeita união de vontades; esta forma de se dirigir ao Pai tornou-se a pauta para a oração litúrgica: «por Cristo, Nosso Senhor».

 

Ou:

São João 17, 11b-19

Naquele tempo, Jesus ergueu os olhos ao Céu e orou deste modo: 11b«Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que Me deste, para que sejam um, como Nós. 12Quando Eu estava com eles, guardava-os em teu nome, o nome que Me deste. Guardei-os e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição; e assim se cumpriu a Escritura. 13Mas agora vou para Ti; e digo isto no mundo, para que eles tenham em si mesmos a plenitude da minha alegria. 14Dei-lhes a tua palavra e o mundo odiou-os, por não serem do mundo, como Eu não sou do mundo. 15Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. 16Eles não são do mundo, como Eu não sou do mundo. 17Consagra-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo. 18Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade».

 

O capítulo 17 de S. João veio a ser chamado «a oração sacerdotal de Jesus», a partir das observações de S. Cirilo de Alexandria (PG 74, 505-508); constitui «a síntese mais completa e elevada da teologia do evangelista» (Segalla). Lê-se no 7º Domingo de Páscoa, distribuída pelos anos A, B e C, mas sempre introduzida pelo v. 1: «Jesus ergueu os olhos ao céu…», uma forma de orar muito ao jeito de Jesus (cf. Jo 11, 41; Mt 14, 19; Mc 6, 41; Lc 9, 16; Mc 7, 34), mas mal documentada no judaísmo. Com este gesto, «Jesus dava uma expressão corporal à dimensão fundamental do ser humano, a saber, a sua relação com a fonte que o ultrapassa, que está acima dele e o envolve…» (D. Mollat). Nos países, como o nosso, onde a Ascensão é celebrada no 7º Domingo, Jo 17 pode ler-se, como alternativa, no 6º Domingo de Páscoa. O trecho lido no ano B corresponde àquela parte da oração em que Jesus intercede pelos seus discípulos.

11b «Pai santo». A circunstância de não estarmos perante uma forma usual de Jesus se dirigir ao Pai, leva a pensar numa influência litúrgica (cf. Didakhê 10, 2) na redacção desta belíssima oração, a oração mais longa que aparece nos lábios de Jesus. «O nome que Tu Me deste» pode entender-se como a própria essência divina, comum ao Pai e ao Filho, que é Jesus; e o pedido «um só, como Nós», sugere já uma primitiva reflexão trinitária. Com efeito, a unidade dos discípulos tem como primeira referência (analogatum princeps) a unidade do ser divino, na distinção de pessoas, visando uma unidade que transcende a meramente moral e sociológica; por outro lado, podemos ver, no semitismo «dar o nome», um sentido aberto, coadunando-se bem com a doutrina teológica da processão, ou geração eterna do Filho pelo Pai. Esta prece pela unidade dos primeiros discípulos, vai ser feita, mais adiante (vv. 20-23), de forma mais desenvolvida, pela unidade de todos os que depois hão-de vir a crer em Jesus.

12-15 Jesus, que, como Bom Pastor, guardou os discípulos, agora, consciente da sua partida, intercede «para que eles tenham sem si a plenitude da alegria», própria de Jesus, uma alegria que deriva da sua união com o Pai. Por outro lado, roga «que os guarde do Maligno», pois eles terão de ficar no mundo, que está «todo sob o poder do Maligno» (cf. 1 Jo 5, 19). «O mundo» é aqui tomado no seu aspecto negativo: são os homens que recusam a graça e, na sua auto-suficiência, se fecham a Deus, a ponto de odiarem a Cristo e os seus seguidores (v. 14). Os discípulos, vivendo no mundo, estão sujeitos às suas seduções, e Jesus não suplica que os tire do mundo, onde se desenrola a sua vida e está o seu campo de acção, mas que os guarde de serem mundanizados, deixando-se influenciar pelo «dominador deste mundo» (cf. Jo 12, 31).

17-19 «Consagra-os na verdade», à letra, santifica-os; santificar é retirar da esfera do profano para destinar a uma missão divina (cf. Hebr 2, 11). Estas palavras não são apenas o centro da oração, mas um dos pontos altos do Evangelho: a consagração e missão dos discípulos. Este envio ao mundo encerra um mistério que se exprime através dum paradoxo: escolhidos mas não retirados do meio do mundo. É que não se trata de um simples envio pragmático, mas insere-se no mistério do envio de Jesus ao mundo (v. 18; cf. 10, 36; 15, 27; 20, 21); os discípulos não se limitam a continuar a sua missão; participam da sua própria vida (15, 1-16), uma vida que não pertence a este mundo e a que se tem acesso apenas pela palavra (v. 17) da revelação, a «verdade». Mas, para além desta misteriosa realidade bipolar – a vocação-missão –, o texto deixa ver um outro aspecto: «Eu consagro-Me por eles» tem uma conotação sacrificial, como se dissesse «ofereço-Me em sacrifício por (em vez de ou a favor de) eles», pois corresponde à linguagem cultual do A. T. (cf. Ex 13, 2.12.15; 28, 41; Dt 15, 19-20) e tem paralelos no N. T. (cf. 1 Cor 11, 24; 15, 3). É por isso que a oração sacerdotal adquire a dimensão de ofertório do sacrifício do Senhor, que vai ser consumado no Calvário e também a de uma declaração de intenção: Jesus entrega a sua vida por todos (cf. 11, 51-52; 15, 13), em sacrifício, a fim de que os seus, uma vez purificados, venham a ser pertença exclusiva de Deus (v. 19: «consagrados», ou santificados). A alusão a Cristo como sumo sacerdote da nova Aliança – sacerdote oferente e vítima oferecida (cf. Hebr 9, 11-14; 10, 10) – pode ver-se na ressonância vétero-testamentária de Ex 28, 36-38. Há quem veja também alusões à Eucaristia, em especial nos vv. 21-24 (cf. Jo 15, 4-7; 6, 56; 1 Cor 10, 17).

 

Sugestões para a homilia

 

“Permanecei no meu amor” (Jo 15, 9)

«Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus» (1 Jo 4, 7)

“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (Jo 13, 34).

 

1. “Permanecei no meu amor” (Jo 15, 9)

A Palavra de Deus neste Domingo vai continuar a falar-nos da importância do mandamento do amor. E se a semana passada, Jesus pedia-nos: «Permanecei em mim» (Jo 15, 4), hoje diz: «Permanecei no meu amor» (Jo 15, 9). E a condição para se permanecer no Seu amor é cumprir com os Seus mandamentos, é praticar a caridade. Foi Jesus que nos mandou: «É este o Meu mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei».

Por isso, o Senhor hoje nos pede que pratiquemos a caridade fraterna. Claro que é uma exigência muito grande, mas é isto o que nos distingue das outras pessoas que não acreditam em Deus. E não pensemos que é impossível viver na caridade fraterna. Graças a Deus, ao longo da história da Igreja, não faltou gente que pusesse em prática o mandamento novo. Recordo, por exemplo, o que dizia um autor cristão logo nos princípios da Igreja: “Nós, cristãos, somos facilmente reconhecíveis pelo sinal da nossa inocência e modéstia: amamo-nos muito uns aos outros pois nunca aprendemos a odiar. Por isso nos chamamos irmãos: porque somos filhos dum só Deus e participamos da mesma fé” (Minúcio Félix).

Será que podemos dizer o mesmo das nossas comunidades?

2. «Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus» (1 Jo 4, 7)

2. «Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus» (1 Jo 4, 7a), assim nos exortava S. João e dizia ainda: «todo aquele que ama nasce de Deus e conhece a Deus. Mas quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor» (1 Jo 4, 7b-8). É esta a grande verdade que podíamos reter no nosso coração e levá-la hoje connosco: «Deus é amor!».

Os filhos geralmente são muito parecidos com os pais, não só no aspeto físico, no tom de voz, nos gestos, no modo de caminhar, de sorrir... mas também nos sentimentos, nas reações, na maneira de se comportar. Quando, por exemplo, um pai tem um coração bom, é generoso, ajuda toda a gente, e o filho se comporta da mesma maneira, as pessoas, admiradas, comentam: «Realmente, tal pai tal filho!».

A segunda leitura de hoje retoma esta comparação e diz que o mandamento do amor não é uma imposição mas surge pelo facto de sermos gerados por Deus. Se somos seus filhos, devemos ser parecidos com Ele.

Mas quem é Deus? Quando é que podemos afirmar que nos parecemos com Ele? Para os judeus, era um juiz pronto a castigar. João, na sua Carta, descreve-nos a Deus com um rosto bem diferente do dum juiz. Diz-nos que Deus é amor.

Continuamos a fazer uma ideia errada de Deus. Cumprimos com os preceitos da Igreja que é para não sermos castigados. As nossas orações não passam de palavras atiradas ao vento porque esquecemos que rezar é falar com Deus. Agimos com medo de sermos condenados ao inferno e esquecemos que Deus é amor! Fazemos as nossas promessas e, claro, Deus toma-se para nós um comerciante com quem fazemos negócio, e esquecemos que Deus é amor.

Mas, ao contrário do que julgamos, Deus é amor e deu provas disso ao longo da história, especialmente ao dar o Seu Filho, que encarnou por nós, para realizar a salvação. Por isso S. João tem toda a razão em dizer que «não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e nos enviou o Seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (1 Jo 4, 10).

E veio para que a nossa alegria seja completa (cf. Jo 15, 11), chamando-nos seus amigos (Jo 15, 15)!

3. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (Jo 15, 12).

Os discípulos são os "amigos" de Jesus. Ele escolheu-os, chamou-os, partilhou com eles o projeto do Pai, associou-os à sua missão; estabeleceu com eles uma relação de confiança, de proximidade, de intimidade, de comunhão.

Fazer parte da comunidade dos "amigos" de Jesus, não é ficar "a olhar para o céu", mas aceitar o convite que Jesus faz no sentido de colaborarmos na Sua missão. Compete-nos a nós, os "amigos" de Jesus, mostrar em gestos concretos que Deus ama cada pessoa; compete-nos a nós, os "amigos" de Jesus, eliminar o sofrimento e o egoísmo; compete-nos a nós, os "amigos" de Jesus, sermos arautos da justiça e da reconciliação, denunciando os pseudovalores que escravizam os homens.

Sobretudo, os "amigos" de Jesus devem amar como ele amou. Jesus cumpriu os "mandamentos" do Pai, fazendo da sua vida um dom total de amor, sem limites nem condições; a cruz é a expressão máxima dessa vida vivida exclusivamente para os outros. É esse o caminho que Jesus propõe aos seus discípulos: "é este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei" (Jo 15, 12).

É aqui que reside a "identidade" dos discípulos de Jesus. Os cristãos são aqueles que testemunham diante do mundo, com palavras e com gestos, que o mundo novo que Deus quer oferecer, se constrói através do amor.

 

 

Oração Universal

 

Oremos ao Senhor, nosso Deus,

de quem procede todo o dom perfeito,

para que ouça, por amor do seu nome,

as preces do seu povo em oração, dizendo:

 

Pai de amor, ouvi-nos!

 

1. Pela Igreja de Jesus Cristo,

para que seja no mundo «sacramento» do amor de Deus:

nas palavras que anuncia, nos sacramentos que celebra e na prática da caridade.

Oremos, irmãos.

 

2. Pelos que governam os povos:

para que, pela prática do amor fraterno, promovam a justiça, a liberdade e a paz.

Oremos, irmãos.

 

3. Pelos que mais carecem de ternura, de amor e de carinho:

para que encontrem em nós sinais visíveis e sensíveis do amor invisível de Deus,

e assim a sua alegria seja completa.

Oremos, irmãos.

 

4. Pelos casais que se preparam para o Casamento e pelos que há pouco casaram:

para que cresçam no amor e dêem frutos que permaneçam.

Oremos, irmãos.

 

5. Por todos nós aqui presentes:

para que, vivendo nesta Eucaristia a entrega do Senhor por nós,

aprendamos a dar também a nossa vida pelos outros.

Oremos, irmãos.

 

Atendei, ó Deus eterno, a nossa oração, e pois acreditamos que o Salvador dos homens ressuscitou e está na glória, concedei que a sua presença nos acompanhe sempre ao longo desta Vida. Por nosso Senhor.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Cântico do ofertório: Vós sereis meus amigos, M. Faria, NRMS 29

 

Oração sobre as oblatas: Subam à vossa presença, Senhor, as nossas orações e as nossas ofertas, de modo que, purificados pela vossa graça, possamos participar dignamente nos sacramentos da vossa misericórdia. Por Nosso Senhor.

 

Prefácio pascal: p. 469 [602-714] ou 470-473

 

Santo: F. dos Santos, NTC 201

 

Monição da Comunhão

 

Regenerados por Cristo na Sagrada Comunhão, tornemo-nos testemunhas deste amor que não conhece fronteiras.

 

Cântico da Comunhão: Não fostes vós que Me escolhestes, Az. Oliveira, NRMS 59

cf. Jo 14, 15-16

Antífona da comunhão: Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando, diz o Senhor. Eu pedirei ao Pai e Ele vos dará o Espírito Santo, que permanecerá convosco para sempre. Aleluia.

 

Cântico de acção de graças: Deus é Amor, M. Luís, NCT 380

 

Oração depois da comunhão: Senhor Deus todo-poderoso, que em Cristo ressuscitado nos renovais para a vida eterna, multiplicai em nós os frutos do sacramento pascal e infundi em nós a força do alimento que nos salva. Por Nosso Senhor.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Os santos beberam e encontraram a sua capacidade de amar o próximo, de modo sempre renovado, a partir do seu encontro com o Senhor eucarístico e, vice-versa; este encontro ganhou o seu realismo e profundidade precisamente no serviço deles aos outros” (DCE 18). Por que havia de ser diferente connosco?

 

Cântico final: Deus é Pai, Deus é Amor, F. da Silva, NRMS 90-91

 

 

Homilias Feriais

 

6ª SEMANA

 

2ª Feira, 14-V: S. Matias: Condições para ser testemunha de Cristo.

Act 1, 15-17.20-26 / Jo 15, 9-17

Receba outro o seu cargo. É, pois, necessário que um deles se torne connosco testemunha da sua ressurreição.

Para a substituição de Judas, S. Pedro põe como condição que o candidato tenha acompanhado o ministério público de Jesus (Leit.). E assim foi escolhido Matias.

Precisamos todos conhecer muito bem a vida do Senhor, através do contacto com Ele na leitura dos Evangelhos, na contemplação dos mistérios do Rosário. E só depois poderemos dar um bom testemunho de Jesus. Ser testemunha é ser ‘testemunha da sua ressurreição’, sinal de vitória (Leit.); é permanecer no seu amor e guardar os seus mandamentos (Ev.).

 

3ª Feira, 15-V: As famílias, pequenas ilhas de vida cristã

Act 16, 22-34 / Jo 16, 5-11

O carcereiro lavou-lhes as feridas, e logo recebeu o baptismo, juntamente com todos os seus.

«Quando se convertiam (caso do carcereiro), desejavam também que toda a sua casa fosse salva (Leit.). Estas famílias, que passaram a ser crentes, eram pequenas ilhas de vida cristã dum mundo descrente» (CIC, 1655). É necessário que haja pequenas conversões em cada família para que cresçam estas pequenas ilhas de vida cristã.

Muitos factores têm contribuído para uma crise da instituição familiar. Por isso, é importante que se proclame a verdade sobre a família, apoiada nos ensinamentos do Senhor: «(Jesus): Eu digo-vos a verdade» (Ev.).

 

4ª Feira, 16-V: O homem, ser religioso.

Act 17, 15. 22-18, 1 / Jo 16, 12-15

E, na verdade, Ele não está muito longe de cada um de nós. É n’Ele que vivemos, nos movemos e existimos.

O homem procurou sempre traduzir a sua procura de Deus através de crenças e comportamentos religiosos: «Apesar das ambiguidades de que podem enfermar, estas formas de expressão são tão universais que bem podemos chamar ao homem um ser religioso: ‘Na verdade, Ele não está longe de cada um de nós’ (Leit.)» (CIC, 28).

Às vezes parece que esta religiosidade está oculta, pela «ignorância ou indiferença religiosa, as preocupações do mundo e das riquezas, o mau exemplo dos crentes, as correntes de pensamento hostis à religião» (CIC, 29).

 

5ª Feira, 17-V: Construção de um mundo melhor.

Act 18, 1-8 / Jo 16, 16-20

Senhor Deus, Criador de todas as coisas…fazei que as nossas tarefas sirvam o progresso humano e a extensão do reino de Cristo (Oração).

Neste dia das Rogações procuremos elevar até Deus as nossas preces para que Ele nos ajude a levar à prática o seu projecto, a respeito do mundo e dos homens. Colaboramos neste projecto de Deus sobre a criação, especialmente através do trabalho.

«O trabalho humano procede imediatamente das pessoas criadas à imagem de Deus e chamadas a prolongar, umas com as outras, a obra da criação, dominando a terra. O trabalho pode ser um meio de santificação e uma animação das realidades terrenas no espírito de Cristo» (CIC, 242)

 

6ª Feira, 18-V: Vida com sentido de eternidade.

Act 18, 9-18 / Jo 16, 20-23

Havereis de chorar e lamentar-vos, ao passo que o mundo se há-de alegrar, mas a vossa tristeza tornar-se-á em alegria.

Estas palavras do Senhor são um motivo de esperança. Com efeito, às vezes, parece-nos que aqueles que não querem saber da religião se divertem, gozam a vida, prosperam nos negócios (mesmo à custa de alguma desonestidade), enquanto que aqueles que procuram seguir o Senhor, não têm tanto sucesso.

Mas Jesus mostra-nos «como o verdadeiro sentido da vida do homem não está confinado ao horizonte terreno, mas abre-se para a eternidade (J. Paulo II). É este igualmente o sentido das bem aventuranças.

 

Sábado, 19-V: A oração: respiração do cristão.

Act 18, 23-28 / Jo 16, 23-28

 

O que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo dará em meu nome… Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.

Dirijamo-nos ao Pai como Jesus nos ensinou: «A oração dominical é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho. Cada um pode, portanto, dirigir ao Céu diversas orações segundo as necessidades, mas começando sempre pela oração do Senhor» (CIC, 2761).

A oração é como a respiração do cristão. Procuremos, pois, transformar tudo o que fazemos em oração, oferecendo o trabalho diário, os momentos da vida familiar e de descanso. Nª Senhora, Mestra de oração, nos ensine a pedir o que é necessário.

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         Nuno Westwood

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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