2.º Domingo dA QUARESMA

4 de Março de 2012

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Salvai, Senhor, vosso povo, J. Santos, NRMS 90-91

Salmo 26, 8-9

Antífona de entrada: Diz-me o coração: «Procurai a face do Senhor». A vossa face, Senhor, eu procuro; não escondais de mim o vosso rosto.

 

Ou

cf. Salmo 24, 6.3.22

Lembrai-vos, Senhor, das vossas misericórdias e das vossas graças que são eternas. Não triunfe sobre nós o inimigo. Senhor, livrai-nos de todo o mal.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Ao escutarmos a liturgia da Palavra deste domingo facilmente nos apercebemos que o seu tema central é a fé em Deus e em Jesus Cristo.

É mais um passo que damos na caminhada de preparação para a Páscoa.

Só a nossa fé em Jesus Cristo e no amor fiel de Deus nos permitirá vencer todas as dificuldades que encontrarmos até chegar à completa “transfiguração”, isto é, à verdadeira renovação da nossa vida cristã. Cada um de nós deve tentar encontrar o seu modo de melhor a viver nesta Quaresma.

É essa a proposta que o Senhor hoje nos faz, tal como a fez outrora a Abraão, e Jesus a mostrou aos discípulos que O acompanharam ao cimo do monte e presenciaram a Sua transfiguração.

 

Oração colecta: Deus de infinita bondade, que nos mandais ouvir o vosso amado Filho, fortalecei-nos com o alimento interior da vossa palavra, de modo que, purificado o nosso olhar espiritual, possamos alegrar-nos um dia na visão da vossa glória. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: A narrativa que vamos escutar evidencia a fé de Abraão, desafiando-o a estar alerta, desinstalado, para iniciar uma nova etapa. Daí que seja o modelo do justo que obedece na e pela fé. Deus, ao recusar o sacrifício de Isaac, condena implicitamente o sacrifício de seres humanos tão praticado naqueles tempos.

 

Génesis 22, 1-2.9a.10-13.15-18

 

1Naqueles dias, Deus quis pôr à prova Abraão e chamou-o: «Abraão!» Ele respondeu: «Aqui estou». 2Deus disse: «Toma o teu filho, o teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar. 9aQuando chegaram ao local designado por Deus, Abraão levantou um altar e colocou a lenha sobre ele. 10Depois, estendendo a mão, puxou do cutelo para degolar o filho. 11Mas o Anjo do Senhor gritou-lhe do alto do Céu: «Abraão, Abraão!» «Aqui estou, Senhor», respondeu ele. 12O Anjo prosseguiu: «Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças mal algum. Agora sei que na verdade temes a Deus, uma vez que não Me recusaste o teu filho, o teu filho único». 13Abraão ergueu os olhos e viu atrás de si um carneiro, preso pelos chifres num silvado. Foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto, em vez do filho. 15O Anjo do Senhor chamou Abraão do Céu pela segunda vez 16e disse-lhe: «Por Mim próprio te juro – oráculo do Senhor – já que assim procedeste e não Me recusaste o teu filho, o teu filho único, 17abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar, e a tua descendência conquistará as portas das cidades inimigas. 18Porque obedeceste à minha voz, na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra».

 

Como observa The New Jerome Biblical Commentary, p 25, «esta história é uma obra-prima, ao apresentar Deus como o Senhor cujas exigências são absolutas, cuja vontade é inescrutável e cuja palavra final é benevolência. Abraão deixa ver a grandeza moral do fundador de Israel, em face de Deus, ao querer obedecer à palavra de Deus em toda a sua misteriosa severidade. Não há aqui as volúveis evasivas de Abraão (cf. cap. 13 e 21); ele mantém-se silenciosamente confiado e obediente».

1 «Deus quis pôr à prova Abraão». Deus não podia pretender a morte de Isaac (cf. v. 12), fazendo com que Abraão seguisse os bárbaros costumes cananeus; apenas quer «pôr à prova», isto é, aquilatar a fé, a obediência e o amor do seu eleito. Não se pense que esta prova era disparatada. Com efeito, inseria-se nos hábitos selvagens da religião cananeia, como se conta em 2 Re 3, 27: Mesa, rei de Moab, imolou o filho herdeiro para obter do seu deus Kemóx a libertação da sua cidade atacada pelos israelitas. E não poderia Deus ter para com Abraão uma exigência desta natureza? No entanto, a ordem divina era, humanamente vistas as coisas, simplesmente absurda: não era certo que Deus lhe prometera uma enorme descendência a partir de Isaac? Até este ponto chega a fé de Abraão: o mesmo Deus que lhe dera milagrosamente o filho tinha pleno direito de lho exigir e, se quisesse manter a sua promessa, podia vir a restituir-lho vivo (cf. Hebr 11, 19). Pode ver-se, a propósito, o belo comentário do Catecismo da Igreja Católica, nº 2572.

9 «Colocou a lenha sobre ele». Os Padres viram no sacrifício de Isaac, entregue à morte pelo seu próprio pai e carregando às costas a lenha do sacrifício, uma figura de Cristo, levando a cruz para o monte Calvário, o novo monte Moriá do sacrifício da Nova Lei (segundo 2 Cir 3, 1, o Templo erguia-se neste monte). Deus, que poupou o filho de Abraão, «não poupou o seu próprio Filho»! (Rom 8, 32: cf. 2.ª leitura).

 

Salmo Responsorial    Sl 115(116), 10-15,16-17, 18-19

 

Monição: Todos sentimos que a vida que pulsa em nós um dia há-de apagar-se. Mas o amor de Deus não morrerá. Esta é a nossa esperança e, por isso, rezamos no refrão deste salmo: Andarei na presença do Senhor sobre a terra dos vivos.

 

Refrão:        Andarei na presença do Senhor

                     sobre a terra dos vivos.

 

Ou:               Caminharei na terra dos vivos

                na presença do Senhor.

 

Confiei no Senhor, mesmo quando disse:

«Sou um homem de todo infeliz».

É preciosa aos olhos do Senhor

a morte dos seus fiéis.

 

Senhor, sou vosso servo, filho da vossa serva:

quebrastes as minhas cadeias.

Oferecer-Vos-ei um sacrifício de louvor,

invocando, Senhor, o vosso nome.

 

Cumprirei as minhas promessas ao Senhor

na presença de todo o povo,

nos átrios da casa do Senhor,

dentro dos teus muros, Jerusalém.

 

Segunda Leitura

 

Monição: Nem dificuldades, nem perseguições, nem martírio ou qualquer forma de dominação conseguirão desfazer o que Deus já realizou com o amor manifestado em Seu Filho.

 

Romanos 8, 31b-34

Irmãos: 31bSe Deus está por nós, quem estará contra nós? 32Deus, que não poupou o seu próprio Filho, mas O entregou à morte por todos nós, como não havia de nos dar, com Ele, todas as coisas? 33Quem acusará os eleitos de Deus? Deus, que os justifica? E quem os condenará? 34Cristo Jesus, que morreu, e mais ainda, que ressuscitou e que está à direita de Deus e intercede por nós?

 

A leitura foi escolhida pela provável referência ao sacrifício de Isaac relatado na 1.ª leitura: Deus, que poupara o filho de Abraão, não poupa à morte o seu próprio Filho: «Deus não poupou o seu próprio Filho» (v. 32). É a máxima prova do amor de Deus para connosco (cf. Jo 3, 16), e o máximo motivo da nossa esperança. A esperança não nos pode jamais vir a deixar confundidos (Rom 5, 5): eis até que ponto «Deus está por nós (v. 31)! Repare-se na expressiva insistência – três vezes neste pequenino trecho –, «por nós». Chamamos a atenção para o facto de que S. Paulo, ao falar assim, não quer dizer que o Pai desejava a morte do seu Filho (Abraão também não a desejava!), mas adopta uma linguagem impressionante para falar do misterioso dom do seu Filho para vir realizar a obra da nossa salvação, à custa da sua própria vida; longe de nós imaginar Deus Pai a descarregar a sua ira sobre o seu Filho para tirar vingança dos nossos pecados, como alguém poderia pensar.

34 «Quem os condenará?» Pela parte de Deus, infinitamente fiel, misericordioso e poderoso, podemos estar seguros da salvação: a esperança é certa e firme. No entanto, pela nossa parte, temos que trabalhar pela nossa salvação «com temor e tremor» (Filp 2, 12), dado que temos a possibilidade de não corresponder à graça de Deus, usando mal a liberdade, acabando por vir a ser desclassificados ou condenados (cf. 1 Cor 9, 25-27).

 

Aclamação ao Evangelho       

 

Monição: A voz de Deus mostra que Jesus é a única autoridade. Todos os que O ouvem e seguem até ao fim começam desde já a participar na Sua vitória final.

 

 

Cântico: B. Salgado, NRMS 32

 

No meio da nuvem luminosa, ouviu-se a voz do Pai:

«Este é o meu Filho muito amado: escutai-O».

 

 

Evangelho

 

São Marcos 9, 2-10

Naquele tempo, 2Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e subiu só com eles para um lugar retirado num alto monte e transfigurou-Se diante deles. 3As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia assim branquear. 4Apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. 5Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: «Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, outra para Elias». 6Não sabia o que dizia, pois estavam atemorizados. 7Veio então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado: escutai-O». 8De repente, olhando em redor, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, sozinho com eles. 9Ao descerem do monte, Jesus ordenou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do homem não ressuscitasse dos mortos. 10Eles guardaram a recomendação, mas perguntavam entre si o que seria ressuscitar dos mortos.

 

 

 

A cena da Transfiguração situa-se nos inícios da segunda parte do Evangelho de Marcos. A primeira parte (Mc 1, 1 – 8, 29) parece querer ser a resposta à incompreensão das pessoas que se interrogam – «quem é este homem?» – sem atinarem com a resposta certa, culminando com a confissão de Pedro: «Tu és o Cristo!» (8, 29). Mas perante a revelação da natureza da obra messiânica de Jesus, que passa pela aparente derrota da Paixão e da Cruz, surge a incompreensão dos próprios discípulos, a começar pelo próprio Pedro (8, 31-33). É assim que a visão antecipada da glória do Messias na Transfiguração serve de correctivo para aqueles que ficaram confundidos com o primeiro anúncio da Cruz como meio de salvação (8, 31 – 9, 1). Para nós, é também uma visão antecipada da vinda gloriosa de Cristo, a encher-nos de esperança (cf. Filp 3, 21). A Transfiguração do Senhor nada tem a ver com os mitos gregos das metamorfoses. O próprio S. Lucas, melhor conhecedor da cultura grega, teve o escrupuloso cuidado de evitar o verbo grego usado por S. Marcos – metamorfôthê, transfigurou-Se – substituindo-o por um circunlóquio: «ao rezar, ficou outro o aspecto do seu rosto». Nos mistérios gregos, chegava-se progressivamente à transformação da natureza – a metamorfose –, através duma iniciação mistagógica, ao passo que esta transfiguração de Jesus foi repentina e passageira, uma manifestação do que Jesus já era antes.

2 Pedro, Tiago e João, são os três predilectos de Jesus, destinados a ser «colunas da Igreja» (Gal 2, 9) particularmente firmes, também testemunhas da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 37) e da agonia de Jesus no horto (Mt 26, 37), diríamos, uma espécie de núcleo duro dos Doze. «A um alto monte»: Os Evangelhos não dizem o nome do monte que habitualmente se julga ser o Tabor, um monte situado a 10 km a Leste de Nazaré, segundo uma antiga tradição já referida por Orígenes. Como este monte não é muito alto (apenas 560 m), há exegetas que falam antes do Monte Hermon (2.759 m), junto a Cesareia de Filipe, região onde Jesus tinha estado, segundo os três sinópticos, uma semana antes. «E transfigurou-Se diante deles»: o acontecimento é descrito, não como uma visão, mas como uma epifania, pois foi Ele mesmo a «manifestar» a sua própria glória divina, enquanto estava com eles. O facto deveras notável não foi tanto a visão de Moisés e Elias, mas a da glória de Jesus.

3 «As vestes… resplandecentes…» S. Marcos não faz referência ao rosto de Jesus que ficou brilhante como o Sol (Mt 17, 2). O Evangelista não precisava de pormenorizar mais, pois a referência da brancura sobrenatural das vestes era o suficiente para que o leitor tomasse consciência da personalidade celestial de Jesus (cf. Dan 7, 9; Act 1, 10; Apoc 3, 4-5; 4, 4; 7, 9).

4 «Moisés e Elias». A sua presença à volta de Jesus deixa ver como a Lei e os Profetas convergem para Ele, uma vez que tinham preparado e anunciado a sua vinda. A própria tradição rabínica falava de Moisés como precursor do Messias e Malaquias anunciara a vinda de Elias nos tempos messiânicos (Mal 3, 23).

5-7 «Três tendas». Assim se prestava Pedro a facilitar que se prolongasse aquele êxtase paradisíaco. Fala de três e não de um único refúgio, tendo em conta a desigual dignidade de cada uma das pessoas. «Não sabia o que dizia»: Pedro, tomado de assombro, pensa em categorias de um messianismo glorioso e pretende que aquela situação extraordinária se prolongue e mantenha, totalmente alheado da realidade do dia a dia. «Veio então uma nuvem»: mas esta não era uma resposta à sugestão de Pedro para construir um abrigo; a nuvem – a tenda de Deus (cf. 2 Sam 22, 12; Salm 18(17), 12), que cobriu e envolveu Jesus «com a sua sombra» –, era sobretudo um sinal bíblico da presença de Deus, que simultaneamente O revelava e O ocultava (cf. Ex 13, 22; 19, 9; 24, 15-16; 33, 9; Lv 16, 2; Nm 9, 15-23; 11, 25). De acordo com Lc 9, 32, este prodígio deve-se ter verificado de noite, enquanto o Senhor fazia oração (Lc 9, 29). Mas não consta que Jesus se tenha elevado, levitando no ar, como O pintou Rafael. «Este é o meu Filho». Com estas palavras a cena atinge o apogeu: a voz vinda do Céu é mais uma confirmação divina da anterior confissão da fé de Pedro (Mc 8, 29). S. Tomás comenta: «Apareceu toda a Trindade, o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito na nuvem luminosa». «Escutai-O!», assim comenta Bento XVI: «No monte Sinai, Moisés tinha recebido a Toráh, a palavra com o ensinamento de Deus. Agora, referindo-se a Jesus, é-nos dito: «ouvi-O». Hartmut Gese comentou esta cena com sagaz propriedade: «Jesus tornou-se a própria Palavra divina da revelação. Os Evangelhos não podem apresentar isto de modo mais claro e majestoso: Jesus é a própria Toráh». E assim terminou a aparição; o seu significado mais profundo está resumido nesta última palavra. Os discípulos devem voltar a descer com Jesus e aprender sempre de novo: «Ouvi-O»» (Jesus de Nazaré, p. 392)

9 «Ordenou-lhes que não contassem…» Esta ordem pertence à chamada disciplina do segredo messiânico – a que Marcos dá especial ênfase pela preocupação teológica de fazer ressaltar a incompreensão perante Jesus, a ser superada pelos seus só após a glória da Ressurreição –, visa evitar possíveis agitações populares, que só contribuiriam, para perturbar e dificultar a missão de Jesus.

 

Sugestões para a homilia

 

A fé de Abraão, modelo para a nossa fé

Que deve passar pela oferenda quotidiana de todas as contrariedades

Com o auxílio do amor fiel e incondicional de Deus

A fé de Abraão, modelo para a nossa fé

A primeira leitura que ouvimos proclamar é uma mensagem muito importante para todos nós. Nela é relatada a grande fé de Abraão na promessa que Deus lhe havia feito.

Naquele tempo (há mais de 3000 anos atrás) era muito vulgar que as pessoas, de um modo geral as personagens mais importantes, imolassem os seus próprios filhos aos deuses que adoravam, acreditando que desse modo obteriam os seus favores nas situações mais difíceis da sua vida.

Assim se compreende que Abraão, que havia cortado com todo o seu passado, que se encontrava completamente inquieto, carecido de tudo, sujeito a tantas dificuldades, somente tendo por real a fidelidade da promessa de Deus e o Seu amor, tenha reagido como um pagão e arriscado imolar o seu próprio filho pelo fogo.

Deus, todavia, não lhe impõe tal sacrifício e nega a prática idólatra do sacrifício de Isaac. Ele é o Deus da vida, não o deus da morte. A resposta de Deus à fé decidida de Abraão, transmite-lhe coragem e ajuda-o a prosseguir a luta no caminho da fé, passando pela oferta quotidiana das contrariedades da sua vida.

Que deve passar pela oferenda quotidiana de todas as contrariedades

A sua fé constitui para nós um exemplo no início desta Quaresma. Ela convida-nos a saber abandonar certos comportamentos incompatíveis com a prática cristã. Na realidade desejamos júbilo, tranquilidade, conciliação interior, mas a vida traz-nos muitas vezes desilusões, sofrimentos, angústias, tristezas, momentos muito difíceis. Face às desgraças que se acumulam, perdemos a esperança ou continuamos a acreditar que Deus continua presente na nossa vida?

Quem pretende seguir o caminho proposto por Deus também tem de ouvir e acreditar com toda a firmeza em Jesus, conforme Ele quis apontar aos discípulos que o acompanharam ao cimo do monte. Na realidade só pela via da cruz e do dom de si mesmo se consegue a renovação que a Páscoa de Cristo nos veio comunicar

Os discípulos escolhidos por Jesus, em determinada altura, começaram a acreditar que Ele era o Messias prometido. Todavia, pensavam erradamente que Ele seria um rei triunfante, cheio de glória, poder e riqueza; que transformaria a situação dos homens e estabeleceria prodigiosamente o reino de Deus sobre a terra.

Para compreendermos o que se passou na transfiguração teremos de saber entender os símbolos que a narração do Evangelho nos apresenta.

O facto de Jesus os ter levado a um lugar retirado é sinal de que lhes quer revelar, como seus discípulos, um conteúdo verdadeiramente importante. O relato prossegue referindo que o lugar era o alto de um monte. Na Bíblia o monte significa um momento de amizade com Deus. Assim aconteceu em todas as revelações feitas por Deus aos homens.

As vestes brancas, no mundo israelita, simbolizam o mundo de Deus e sinal de solenidade, de alegria e de felicidade.

Elias e Moisés são apresentados para confirmar que Jesus é o profeta por eles anunciado.

Ao pedir para fazer três tendas, Pedro refere-se ao significado alegórico da «festa das tendas» que se celebrava no fim do ano e durava uma semana. Nelas o povo armava tendas junto do templo para recordar o período que passara no deserto e ao mesmo tempo como anúncio de um reino futuro em que o Messias se divulgaria numa contínua «festa das tendas». Pedro não sabia o que dizia, como refere o evangelista, pois ainda não compreendera que para entrar no reino de Deus só é possível aceitando o sacrifício da vida.

O medo na Bíblia não significa receio, mas uma experiência admirável de assombro e de deslumbramento de quem entra em comunicação com o mundo divino.

A nuvem e a sombra indicam, no Antigo Testamento, a presença de Deus.

Ora, o grande significado da transfiguração é a revelação aos discípulos de que para estabelecer o reino de Deus é necessário passar, com grande coragem, pelos sacrifícios que a vida nos reserva.

Nunca os discípulos teriam percebido este plano divino se não tivessem escutado o Filho de Deus e fossem iluminados pela luz da Páscoa, pela experiência de Jesus Ressuscitado.

Do mesmo modo nós podemos iludir-nos de que a transição deste mundo - onde o sofrimento, as contrariedades, as desilusões e as injustiças são constantes - para a glória do Reino possa ocorrer sem a doação e sacrifício da própria vida.

Contemplar a transfiguração de Jesus no começo da Quaresma, é antever já a luz da Páscoa.

Com o auxílio do amor fiel e incondicional de Deus

Só com o auxílio do amor fiel e incondicional de Deus que «não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou à morte por todos nós», como afirma S. Paulo na segunda leitura, conseguiremos vencer todas as adversidades sem qualquer dúvida de fé ou desconfiança no Senhor.

O dom de Cristo na sua imolação voluntária na cruz é o garante de todos os outros bens que poderemos alcançar.

 

Fala o Santo Padre

 

“Exorto-vos a encontrar neste tempo de Quaresma prolongados momentos de silêncio, para rever a própria vida à luz do desígnio de amor do Pai celeste.”

Caros irmãos e irmãs

[…] A liturgia repropõe um célebre episódio precisamente hoje, segundo domingo da Quaresma (cf. Mc 9, 2-10). Jesus queria que os seus discípulos, em particular aqueles que teriam a responsabilidade de guiar a Igreja nascente, fizessem uma experiência directa da sua glória divina, para enfrentar o escândalo da cruz. Com efeito, quando chegar a hora da traição e Jesus se retirar para rezar no Getsémani, terá próximos precisamente Pedro, Tiago e João, e pedir-lhes-á que vigiem e rezem com Ele (cf. Mt 26, 38). Eles não conseguiram fazê-lo, mas a graça de Cristo sustentá-los-á e ajudá-los-á a acreditar na Ressurreição.

Quero sublinhar que a Transfiguração de Jesus foi substancialmente uma experiência de oração (cf.Lc 9, 28-29). Com efeito, a oração atinge o seu ápice, e por isso torna-se fonte de luz interior, quando o espírito do homem adere ao de Deus e as suas vontades se fundem, como que para formar uma só unidade. Quando Jesus subiu ao monte, imergiu-se na contemplação do desígnio de amor do Pai, que o tinha enviado pelo mundo para salvar a humanidade. Ao lado de Jesus apareceram Elias e Moisés, para significar que as Sagradas Escrituras eram concordes em anunciar o mistério da sua Páscoa, ou seja, que Cristo devia sofrer e morrer para entrar na sua glória (cf. Lc24, 26.46). Naquele momento, Jesus viu delinear-se diante de si a Cruz, o sacrifício extremo, necessário para nos libertar do domínio do pecado e da morte. E no seu coração, mais uma vez, repetiu o seu "Amém". Disse sim, eis-me, seja feita, ó Pai, a tua vontade de amor. E, como tinha acontecido depois do Baptismo no Jordão, vieram do Céu os sinais do agrado de Deus Pai: a luz, que transfigurou Cristo, e a voz que O proclamou "Filho muito amado" (Mc9, 7).

Juntamente com o jejum e as obras de misericórdia, a oração forma a estrutura principal da nossa vida espiritual. Queridos irmãos e irmãs, exorto-vos a encontrar neste tempo de Quaresma prolongados momentos de silêncio, possivelmente de retiro, para rever a própria vida à luz do desígnio de amor do Pai celeste. […]

Papa Bento XVI, Angelus, 8 de Março de 2009

 

Oração Universal

 

Elevemos a nossa oração a Deus Pai,

por intermédio de Jesus Cristo,

e peçamos-Lhe a graça

de escutar a sua voz,

rogando com humildade:

 

    Ouvi, Senhor, as nossas preces.

 

1.     Pelo Santo Padre, o Papa, com os bispos a ele unidos,

os presbíteros e diáconos,

para que saibam escutar Jesus Cristo

com fé muito firme,

oremos, irmãos.

 

2.     Por todas as dioceses do mundo,

para que escutando a voz do Espírito

suscitem a consciência do projecto de Deus

e nele perseverem corajosamente,

oremos, irmãos.

 

3.     Por todos os homens que se encontram inquietos,

carecidos de tudo, sujeitos a muitas dificuldades,

para que encontrem na fé a coragem

que os ajude a lutar pela oferta quotidiana

das contrariedades da sua vida,

oremos, irmãos.

 

4.     Pela nossa Pátria e pelos nossos governantes,

para que numa responsabilidade consciente

ajudem a suprir as dificuldade que vivemos neste tempo,

oremos, irmãos.

 

5.     Por todos os doentes

para que acreditem no grande amor que o Senhor lhes tem

e saibam entregar-se à fidelidade do amor de Deus,

oremos, irmãos.

 

6.     Por todos nós aqui presentes, 

para que saibamos obter a graça

da própria transfiguração

por uma reconversão da nossa vida,

oremos, irmãos.

 

Senhor Deus,

Pai de amor infinito,

ouvi a nossa oração

e dai-nos uma fé profunda como a de Abraão,

para enfrentarmos com coragem

todas as adversidades desta vida.

Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,

que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Monição do ofertório

 

Recebei, Senhor, as oferendas que levamos ao vosso altar. Nelas colocamos todas as dificuldades, anseios, receios, sofrimentos, contrariedades, desilusões e injustiças que acontecem neste mundo.

Tomai-as e transfigurai-as em conversão de vida.

 

Cântico do ofertório: Atei os meus braços, M. Faria, NRMS 9 (II)

 

Oração sobre as oblatas: Esta oblação, Senhor, lave os nossos pecados e santifique o corpo e o espírito dos vossos fiéis, para celebrarmos dignamente as festas pascais. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

A transfiguração do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Depois de anunciar aos discípulos a sua morte, manifestou-lhes no monte santo o esplendor da sua glória, para mostrar, com o testemunho da Lei e dos Profetas, que pela sua paixão alcançaria a glória da ressurreição.

Por isso, com os Anjos e os Santos do Céu, proclamamos na terra a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Santo: Santo IV, H. Faria, NRMS 103-104

 

Monição da Comunhão

 

A comunhão eucarística dar-nos-á forças para ultrapassar todas as dificuldades que formos encontrando ao longo da nossa vida. Aproveitemos para escutar com toda a atenção aquilo que o Senhor, que vamos comungar, nos deseja transmitir.

 

Cântico da Comunhão: Ouviu-se uma voz, A. Mendes, Cânticos de Entrada e Comunhão I, pág. 87

Mt 17, 5

Antífona da comunhão: Este é o meu Filho muito amado, no qual pus as minhas complacências. Escutai-O.

 

Cântico de acção de graças: Bendito sejas, sei que Tu pensas em mim, H. Faria, NRMS 2 (II)

 

Oração depois da comunhão: Alimentados nestes gloriosos mistérios, nós Vos damos graças, Senhor, porque, vivendo ainda na terra, nos fazeis participantes dos bens do Céu. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

Fomos convidados a procurar os sinais que nos apontam para a verdadeira vida. Reconhecemos que a transfiguração é antecipação da ressurreição, mas que esta pressupõe a morte. Tenhamos a força para enfrentar as dificuldades e tribulações desta vida e saibamos ouvir Jesus, para nos podermos transfigurar na esperança de alcançarmos o Reino de Deus.

Que a intercessão de Maria, nossa Mãe, nos ajude a percorrer com fé e generosidade o caminho desta Quaresma.

 

Cântico final: Ficai connosco, Senhor, M. Borda, NRMS 43

 

 

Homilias Feriais

 

2ª SEMANA

 

2ª Feira, 5-III: Como ser misericordiosos.

Dan 9, 4-10 / Lc 6, 36-38

Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso.

Para sermos misericordiosos como Jesus nos pede, temos, em primeiro lugar, que reconhecer que somos pecadores: «Nós pecámos, deixámos os vossos mandamentos e as vossas leis» (Leit.). Depois, vivendo bem a caridade fraterna, as obras de misericórdia: «Os frutos da caridade são: a alegria, a paz e a misericórdia» (CIC, 1829).

E finalmente, recebendo com frequência o sacramento da misericórdia: «Recebendo com maior frequência, neste Sacramento (da Penitência), o dom da misericórdia do Pai, somos levados a ser misericordiosos como Ele (Ev.)» (CIC, 1458).

 

3ª Feira, 6-III: A conversão interior e as boas obras.

Is 1, 10. 16-20 / Mt 23, 1-12

Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus. Fazei e observai tudo o que vos disserem, mas não procedais segundo as suas obras.

O Mestre divino, começou primeiro a fazer a depois a ensinar. Por isso, contrasta o seu modo de actuar com o dos escribas e fariseus (Ev.).

A nossa conversão interior está intimamente ligada às boas obras: «O apelo de Jesus à conversão e à penitência não visa primariamente as obras exteriores, os jejuns; mas a conversão do coração, a penitência interior. Sem ela, as obras de penitência são estéreis e enganadoras; pelo contrário, a conversão interior impele á expressão dessa atitude em sinais visíveis, gestos e obras de penitência (Leit.)» (CIC, 1430).

 

4ª Feira, 7-III: Um convite para a Quaresma.

Jer 18, 18-20 / Mt 20, 17-28

Prestai-me ouvidos, Senhor… Assim é que se paga o bem com o mal, pois abriram uma cova, para atentarem contra a minha vida.

Jeremias queixa-se de que, apesar do bem que tinha feito, o querem maltratar (Leit.). O mesmo aconteceu com Jesus pois, apesar de passar pela terra a fazer o bem, querem condená-lo à morte (Ev.).

Para alcançarmos um lugar no reino dos Céus já sabemos que temos que seguir os seus passos. E o Senhor convida-nos, como a João e a Tiago: «Podeis beber o cálice que eu estou para beber?» Procuremos cumprir bem os nossos deveres, aceitemos bem as contrariedades de cada dia, vivamos bem a caridade com o próximo, etc.

 

5ª Feira, 8-III: Os bens materiais e a solidariedade.

Jer 17, 5-10 / Lc 16, 19-31

Abraão respondeu-lhe: Filho, lembra-te que recebeste os benefícios durante a vida, tal como Lázaro os infortúnios.

O homem rico, bem como os seus cinco irmãos (Ev.), nunca se lembraram de Deus nem dos pobres. Mas o Senhor diz: «Feliz daquele que confia no Senhor e põe no Senhor a sua esperança» (Leit.).

Precisamos assumir uma maior responsabilidade no uso dos bens materiais: «O drama da fome no mundo chama os cristãos que oram com sinceridade a assumir uma responsabilidade efectiva em relação aos seus irmãos, tanto nos seus comportamentos pessoais como na solidariedade para com a família humana. Esta petição da oração do Senhor não pode ser isolada da parábola do pobre Lázaro (Ev.)» (CIC, 2831).

 

6ª Feira, 9-III: A nossa responsabilidade na Paixão de Cristo.

Gen 37, 3-4. 12-13. 17-28 / Mt 21, 33-43. 45-46

Mas, ao verem o filho, os agricultores disseram entre si: Este é o herdeiro. Vamos matá-lo.

Esta parábola dos agricultores, bem como os maus tratos infligidos a José pelos irmãos (Leit.), é um anúncio dos sofrimentos de Jesus na sua Paixão e que culminaram na sua morte.

Não esqueçamos que temos a nossa parte de responsabilidade no suplício de Jesus: «Não foram os demónios que o pregaram na cruz, mas tu com eles O crucificaste quando te deleitas nos vícios e pecados» (S. Francisco de Assis, CIC 598). Lutemos decididamente por evitar os pecados e acolhamos melhor o Senhor e o próximo.

 

Sábado, 10-III: O dinamismo da conversão e da penitência.

Miq 7, 14-15. 18-20 / Lc 15, 1-3. 11-32

Qual o deus semelhante a vós que tira o pecado e perdoa o delito… o deus que não se mantém sempre a indignação.

Esta descrição de Deus do profeta Miqueias (Leit.) coincide perfeitamente com a da parábola do filho pródigo (Ev.), que nos mostra como decorre a conversão.

«O dinamismo da conversão e da penitência foi maravilhosamente descrito por Jesus na parábola do filho pródigo, cujo centro é o pai misericordioso (Ev.): o deslumbramento duma liberdade ilusória…; a miséria extrema…, a humilhação profunda…; a reflexão sobre os bens perdidos; o arrependimento e a decisão de se declarar culpado…; o caminho do regresso; o acolhimento generoso por parte do pai; a alegria do pai: eis alguns aspectos próprios do processo de conversão» (CIC, 1439).

 

 

 

 

 

 

Celebração e Homilia:         António Elísio Portela

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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