1.º DOMINGO DA QUARESMA

26 de Fevereiro de 2012

 

 

RITOS INICIAIS

 

Cântico de entrada: Acolhe Deus de bondade, F. da Silva, NRMS 13

Salmo 90, 15-16

Antífona de entrada: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Tudo é provisório nesta vida. As obras dos homens acabarão por ser reduzidas a cinza, pela natural erosão, ou pela sanha demolidora dos que hão-de vir depois de nós. Que monumentos conservamos, daqueles que foram construídos há milhares de anos?

Só as obras de Amor vão perdurar eternamente, resistindo ao desgaste do tempo. Construamos uma vida definitiva, procurando valores que resistem à lei da morte.

A Quaresma iniciada na Quarta-feira de Cinzas, preparando-nos para a Páscoa da Ressurreição do Senhor, é um desafio que a Igreja nos lança para uma revisão de tudo o que fazemos na vida. Queremos responder a este desafio pela conversão pessoal. Procuremos construir para a eternidade.

 

Acto penitencial

 

Respondendo ao apelo que nos é dirigido, manifestemos ao Senhor o nosso desejo de nos convertermos, reconhecendo humildemente os nossos pecados e pedindo perdão.

 

Oração colecta: Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia da Palavra

 

Primeira Leitura

 

Monição: Como resposta ao sacrifício oferecido por Noé, ao sair da arca depois do dilúvio, o Senhor faz uma aliança com ele e, por ele, com toda a criação.

O arco-íris, que se forma depois da chuva, ficará como sinal sensível desta promessa do Senhor. A Aliança com Noé, a primeira das que vão seguir-se, aparece neste lugar como uma mensagem de reconciliação, tema dominante da Quaresma.

 

Génesis 9, 8-15

 

8Deus disse a Noé e a seus filhos: 9«Estabelecerei a minha aliança convosco, com a vossa descendência 10e com todos os seres vivos que vos acompanham: as aves, os animais domésticos, os animais selvagens que estão convosco, todos quantos saíram da arca e agora vivem na terra. 11Estabelecerei convosco a minha aliança: de hoje em diante nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio e nunca mais um dilúvio devastará a terra». 12Deus disse ainda: «Este é o sinal da aliança que estabeleço convosco e com todos os animais que vivem entre vós, por todas as gerações futuras: 13farei aparecer o meu arco sobre as nuvens, que será um sinal da aliança entre Mim e a terra. 14Sempre que Eu cobrir a terra de nuvens e aparecer nas nuvens o arco, 15recordarei a minha aliança convosco e com todos os seres vivos e nunca mais as águas formarão um dilúvio para destruir todas as criaturas».

 

A aliança de que fala o texto não é ainda a que veio a ser feita com o povo escolhido, mas é a chamada «aliança cósmica», com toda a humanidade e com toda a obra da criação. Quando lemos o texto do dilúvio na Igreja – os estudiosos falam de duas fontes fundidas e entrelaçadas, a da tradição javista e a da tradição sacerdotal –, não devemos ficar parados ou perdidos nas questões histórico-literárias e nas interessantes semelhanças com outros relatos, ou mitos, de diversas culturas antigas que falam de cataclismos imemoriais do género. Como se lê em 2 Tim 3, 15-17, o que acima de tudo nos interessa no contacto com «toda a Escritura, inspirada por Deus», é alcançar «a sabedoria que conduz à salvação por meio da fé em Jesus Cristo». É fácil de detectar «o ensino» que no texto nos é oferecido. Quando a humanidade se perde no pecado, transgredindo a lei impressa na obra da criação, a harmonia da própria da natureza transtorna-se, voltando ao caos inicial (cf. Gn 1, 2), e corre sério risco a subsistência do ser humano (lembrar o muito que se tem dito a propósito da Sida, que não é a vingança de Deus, mas é a própria natureza a vingar-se). Na Sagrada Escritura o fenómeno do dilúvio tem a particularidade de não ser apresentado como fruto de caprichos maléficos e invejas dos deuses pagãos – assim era nos mitos sumérios e babilónicos –, mas como consequência do pecado e em ordem ao recomeço de uma nova era de regeneração e harmonia universal. A aliança a que dá lugar o dilúvio revela o verdadeiro interior de Deus para com a sua criatura: Ele é Pai providente que cuida carinhosamente de tudo o que criou, particularmente do homem; Deus, «mesmo quando castiga, não esquece a sua misericórdia» (cf. Habc 3, 2). O fundo mitológico do relato parece claro, mas também nos parece pouco, ao lermos este texto sagrado, deixarmo-nos ficar encerrados no acanhado horizonte do mito, quando o autor inspirado vai mais além: Yahwéh é um Deus ético e transcendente; o «castigo» do pecado (Gn 6, 6.12) não é resultante dum capricho, nem sequer duma ira desenfreada. Neste sentido, o autor já fez um primeiro trabalho de desmitização, apesar de manter a mesma linguagem antropomórfica do mito, chocante para a nossa mentalidade.

12-16 «O arco-íris» – fenómeno natural anterior ao dilúvio – adquire um significado simbólico. Ele é o sinal da benevolência divina, expressa em categorias de aliança, para com toda a criação; não é mais um tremendo arco de guerra (o termo hebraico, quéxet, é o mesmo), mas é sim o abraço de paz do Criador! Ainda que persistam na memória dos povos tremendas catástrofes, como o dilúvio, justo castigo do pecado, o ser humano não deve viver esmagado sob o pesadelo constante dos terrores que não podem deixar de sentir aqueles que ignoram a Revelação divina.

A Liturgia, ao apresentar este texto no começo da Quaresma, além de introduzir a 2.ª leitura, facilita-nos a animadora consideração da misericórdia divina, a qual permite que nos elevemos acima das nossas misérias e saiamos dos nossos pecados pela graça de Cristo, que nos chega particularmente através dos Sacramentos.

 

Salmo Responsorial    Salmo 24 (25), 4bc-5ab. 6-7bc. 8-9 (R. cf. 10)

 

Monição: O salmo responsorial é uma oração cheia de confiança no Senhor que perdoa e guia o homem, ensinando-lhe os Seus caminhos.

O fiel humilde – porque reconhece os seus pecados – apela para a misericórdia de Deus, para que o ajude a reencontrar a paz.

 

Refrão:        Todos os vossos caminhos, Senhor, são amor e verdade

                     para os que são fiéis à vossa aliança.

 

Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,

ensinai-me as vossas veredas.

Guiai-me na vossa verdade e ensinai-me,

porque Vós sois Deus, meu Salvador.

 

Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias

e das vossas graças que são eternas.

Lembrai-Vos de mim segundo a vossa clemência,

por causa da vossa bondade, Senhor.

 

O Senhor é bom e recto,

ensina o caminho aos pecadores.

Orienta os humildes na justiça

e dá-lhes a conhecer a sua aliança.

 

Segunda Leitura

 

Monição: S. Pedro vem recordar-nos que ser cristão nunca foi nem será, propriamente, uma vida fácil e cómoda. O Baptismo fala-nos em morrer com Jesus Cristo, pela cruz de cada dia, para ressuscitarmos com Ele e podermos entrar na glória.

 

 

1 São Pedro 3, 18-22

 

Caríssimos: 18Cristo morreu uma só vez pelos pecados – o Justo pelos injustos – para vos conduzir a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito. 19Foi por este Espírito que Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte 20e tinham sido outrora rebeldes, quando, nos dias de Noé, Deus esperava com paciência, enquanto se construía a arca, na qual poucas pessoas, oito apenas, se salvaram através da água. 21Esta água é figura do Baptismo que agora vos salva, que não é uma purificação da imundície corporal, mas o compromisso para com Deus de uma boa consciência, pela ressurreição de Jesus Cristo, 22que subiu ao Céu e está à direita de Deus, tendo sob o seu domínio os Anjos, as Dominações e as Potestades.

 

A 1ª Carta de Pedro, donde é tirada a leitura, parece ter como base uma catequese baptismal; aparece na liturgia de hoje em relação com a 1ª leitura, que fala do dilúvio, o qual é apresentado aqui como figura do Baptismo.

18 «Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito (cf. 1 Pe 2, 21.24; Rom 6, 10; Hbr 9, 28). Foi por este (Espírito) que Ele foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte…» A tradução procura oferecer aos fiéis que ouvem a leitura uma forma de entenderem um texto deveras difícil. O v. 18 pode entender-se: «morto» como homem, e «vivo» como Deus (cf. Rom 1, 4; 1 Tm 3, 16.), ou talvez se trate antes de uma formulação primitiva para exprimir que Jesus, ao morrer, abandonou de vez a sua condição mortal para passar a viver no seu estado glorioso e imortal.

19 «Pregar» sempre indica, no NT, a pregação da salvação. Esta pregação de Jesus «aos espíritos que estavam na prisão» é a referência bíblica mais clara à verdade professada no Credo acerca de Jesus que «desceu à mansão dos mortos» (cf. 1 Pe 4, 6; Rom 10, 6-7; Ef 4, 8-9; Apoc 1, 18; Mt 12, 40; Lc 23, 43; Act 2, 31) a anunciar-lhes a mensagem da salvação, segundo uns com a sua alma separada do corpo, segundo outros na sua nova condição gloriosa. Lembramos que a «mansão dos mortos» (o Xeol hebraico, o Hades grego, os Infernos em latim) representava o estado dos que tinham morrido, que se pensava ser num espaço interior da Terra. O autor, ao dizer que Jesus pregou (a salvação) também (kai, uma partícula a que o tradutor não valorizou) aos que… tinham sido outrora rebeldes … nos dias de Noé, parece querer dizer que até (kai) àquela gente, que na tradição bíblica era considerada como os maiores pecadores (cf. Gn 6, 5.11-12), chegou a salvação de Jesus. É o alcance universal da Redenção para todos os pecadores arrependidos (cf. 4, 6), por mais pecadores que tenham sido; a salvação é levada por Jesus a todos e não apenas à gente aqui nomeada dos tempos de Noé, como sendo o tipo da gente mais perversa, mas certamente arrependida dos seus pecados (argumentação a fortiore).

No entanto, esta passagem da pregação de Jesus aos espíritos cativos é muito obscura e, para além da interpretação tradicional, que a entende como a descida de Jesus aos Infernos, ou Mansão dos Mortos, para levar para o Céu todas as almas que aguardavam a hora da redenção, deu azo às mais diversas e desacertadas interpretações: a) para uns seria uma referência à salvação de certos condenados que se salvaram com a descida de Cristo ao Inferno (assim pensou Orígenes, mas a Igreja reprovou esta opinião); b) para Sto. Agostinho (fazendo uma violência inaceitável ao texto) refere-se ao Verbo, que, antes da Incarnação, através dos avisos de Noé, se dirigiu àqueles ímpios cativos da ignorância e da perversão; c) para uns poucos (em especial alguns protestantes), estes «espíritos cativos» seriam anjos caídos (cf. v. 22), a quem Cristo teria convencido da sua condenação definitiva; d) até houve quem conjecturasse, mas sem ter tido aceitação, que a expressão «neste também» (em grego: en ô kai), ao admitir a leitura «Henoc também» (em grego: Enôc kai), se referia ao patriarca anterior ao dilúvio, que, segundo Gn 5, 24, não morreu e, segundo a literatura apócrifa, proclamou a condenação aos anjos rebeldes. Na nossa tradução da Nova Bíblia da Difusora Bíblica traduzimos en ô como sendo uma expressão adverbial: «então» (e não «neste», referido a «espírito», como tem a tradução litúrgica).

20 «Se salvaram através da água»: Noé, a mulher, 3 filhos e 3 noras (8 pessoas, sem contar os netos: cf Gn 6 – 9). Como se vê, a água aqui não é tomada no seu aspecto de castigo e destruição, como uma água mortífera, mas como uma água salvadora, um meio de os sobreviventes se salvarem, navegando através da água. É de notar um deslizamento semântico na preposição grega diá do sentido local – através de – para o sentido instrumental – por meio de –, de maneira a pôr em evidência um simbolismo oculto: a água do dilúvio é a figura (o tipo) do «Baptismo», o qual é a autêntica realidade (em grego: o antitipo) «que agora vos salva». Com efeito, se o Baptismo salva, não é pelo facto de limpar a sujidade do corpo, mas é «pela ressurreição de Jesus» (v. 21), quando a Ele se adere pela fé concretizada nas promessas do Baptismo, isto é, «o compromisso para com Deus de uma boa consciência» (v. 22).

22: «Subiu ao Céu» é uma clara referência à Ascensão de Jesus, bem atestada no N. T., e frequente nos Escritos Paulinos (Mc 16, 19; Lc 24, 50-51; Jo 6, 62; Act 1, 33-34; Rom 8, 34; Ef 1, 20; Col 3, 1; Hebr 1, 3; 8, 1; 10, 12; 12, 2). «E está à direita de Deus» exprime a suma dignidade de Cristo, acima de todas as criaturas, bem como o seu domínio sobre todas elas, incluindo as criaturas mais elevadas e invisíveis, isto é, o mundo dos anjos, «Anjos, Dominações e Potestades», seres que também em S. Paulo englobam vagamente espíritos bons e maus, não sendo fácil estabelecer sempre a distinção. Tendo em conta sobretudo 1 Cor 15, 24 e Col 2, 15, Dominações e Potestades pode ser uma alusão a espíritos maus. As hierarquias angélicas, estabelecidas a partir destes nomes e outros que aparecem no N. T., oferecem pouca segurança e têm mais em conta a literatura apócrifa inter-testamentária do que os dados da Revelação divina.

 

Aclamação ao Evangelho        Mt 4, 4b

 

Monição: Viver na fidelidade a Jesus Cristo exige de nós uma luta sem tréguas contra as tentações.

Jesus ensina-nos como havemos de vencer, dando-nos o exemplo da Sua vitória.

Aclamemos o Evangelho nos conforta com esta consoladora certeza.

 

 

Cântico: Não só de pão vive o homem, M. Luis, NCT 106

 

Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

Evangelho

 

São Marcos 1, 12-15

 

Naquele tempo, 12o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto. 13Jesus esteve no deserto quarenta dias e era tentado por Satanás. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-n’O. 14Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia e começou a pregar o Evangelho, dizendo: 15«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

 

Todos os anos temos no 1º Domingo da Quaresma o texto evangélico das tentações de Jesus; neste ano B, temo-las na forma mais simples, desprovida de qualquer espécie de encenação, a do Evangelista do ano, S. Marcos.

13 «Esteve no deserto 40 dias». A nossa Quaresma recorda esses dias. S. Marcos não se refere ao jejum do Senhor, mas só ao deserto e às tentações, e apenas dum modo genérico: «Era tentado. Vivia com os animais selvagens e os Anjos serviam-no» (cf. Mt 4, 1-11). Assim observa Bento XVI o sentido profundo que encerram o deserto e as tentações de Jesus: «A acção (de Jesus) é precedida pelo recolhimento, e este é necessariamente também uma luta interior em prol da sua missão, uma luta contra as deturpações da mesma, que se apresentam como suas verdadeiras realizações. É uma descida aos perigos que ameaçam o homem, porque só assim o homem caído pode ser levantado. Permanecendo fiel ao núcleo originário da sua missão, Jesus deve entrar no drama da existência humana, atravessá-lo até ao fundo, para deste modo encontrar a «ovelha perdida», colocá-la aos seus ombros e reconduzi-la a casa» (Jesus de Nazaré, p. 56).

«Satanás» (em hebraico, «xatan») significa adversário, acusador (em grego, «diábolos», caluniador). As tentações do demónio visavam desviar Jesus da sua missão, com a sedução do protagonismo para vir a ser um messias milagreiro, espectacular e ambicioso. O Evangelho põe em evidência o maravilhoso exemplo do Senhor: um exemplo de humildade, ao sujeitar-se aos ataques do demónio, e de fortaleza, ao resistir decididamente, sem a mais pequena vacilação ou cedência. Vem a propósito mais este belo comentário de Sto. Agostinho, que se lê no Ofício de Leituras: «A nossa vida, enquanto somos peregrinos na terra, não pode estar livre de tentações, e o nosso aperfeiçoamento realiza-se precisamente através das provações. Ninguém se conhece a si mesmo, se não for provado; ninguém pode receber a coroa, se não tiver vencido; ninguém pode vencer, se não combate; e ninguém pode combater, se não tiver inimigos e tentações. Bem poderia Ele ter mantido o demónio longe de Si; mas se não fosse tentado, não nos teria ensinado a vencer a tentação» (Enar. in Ps. 60).

 

Sugestões para a homilia

 

A. Introdução à Celebração.

 

A Quaresma principiava neste Domingo, conforme ainda diz a oração da Missa. Depois acrescentaram-se os quatro dias anteriores até à Quarta-feira de Cinzas para substituir os Domingos e completar os quarenta dias. A Quaresma tem seis Domingos, incluindo o Domingo de Ramos, e termina na manhã da Quinta-feira Santa. Na tarde desse dia começa o tríduo pascal

Sendo a Páscoa maior festa cristã, tem a preparação mais longa. Para os que vão ser baptizados na Páscoa, este tempo é o tempo de preparação próxima para Baptismo; para quem já é baptizado, a Quaresma deve servir para reflectir no Baptismo e viver melhor a fé.

É o que vamos iniciar neste Domingo.

 

B. Reflexões homiliéticas

 

1. As leituras falam-nos de «quarentenas» e de «alianças».

O Evangelho refere o retiro de Jesus no deserto durante quarenta dias e quarenta noites a preparar a sua missão. Jesus apresenta-se como um novo Moisés: assim como Moisés esteve quarenta dias no monte Sinai em intimidade com Deus e, no final, recebeu de Deus a garantia de conduzir o Povo de Israel até á terra prometida (é isso que chamamos a «Aliança de Moisés»), de modo semelhante Jesus viveu um tempo de plena intimidade com o Pai antes de iniciar a sua pregação e, no Calvário, selou a «Nova Aliança» com a humanidade, Aliança Nova e Eterna. Convém fixarmos bem estas palavras que aparecem repetidas na consagração da Missa.

Na 1ª leitura, aparece a figura de Noé que viveu o dilúvio de quarenta dias e quarenta noites, e, no final do dilúvio, Deus estabeleceu uma Aliança. Essa Aliança é a «aliança da natureza», a garantia de que os tempos e as estações do ano se alternam de um modo regular para a terra produzir os seus frutos. O símbolo dessa Aliança é o arco-íris que o povo ainda hoje chama o «arco da velha», e cujo nome completo será «arco da velha aliança». Ainda hoje se mantém essa «aliança da natureza», devendo a actividade política e as invenções técnicas não agredir doentiamente a natureza para garantir aos vindouros os recursos e o equilíbrio da terra.

Na 2ª leitura, S. Pedro compara o dilúvio ao baptismo, pois assim como o dilúvio destruiu o que era mau e deu início a um mundo novo, assim o baptismo lava o que há de mau em nós e dá início à vida nova de filhos de Deus. 

A partir destes exemplos, compreendemos melhor a Quaresma e o Baptismo e a Páscoa.

 

3. A Quaresma é esse longo período de preparação da Páscoa, e como a Páscoa começa em nós no dia do Baptismo, a Quaresma é o tempo de aqueles que fomos baptizados em crianças tomarmos consciencialização do que é o Baptismo. Sem esse esforço de educação da fé, corre-se o perigo de a ver definhar. Os padrinhos foram aceites como testemunhas da fé e auxiliares dos pais na educação futura, e devem também tomar consciência disso.

 

4.O baptismo não é uma cerimónia para dar um nome a uma criança nem para a inscrever nos livros da Igreja. Se fosse isso, poderia um dia «desbaptizar-se» como se faz ao abandonar um clube desportivo. O Baptismo é um «nascimento», um processo de ressurreição com Jesus ressuscitado, uma relação vital indelével.

Podemos dizer que, pelo baptismo, entramos na «Nova Aliança» que Jesus estabeleceu com o mundo. Para designar o mistério do Baptismo há muitas expressões bíblicas e dos autores cristãos, todas muito belas e expressivas: o Baptismo (dos adultos) é dilúvio – fim dos vícios e começo de vida nova; é iluminação – abertura a novas perspectivas de vida; é ressurreição – começo de um modelo de vida que incluirá a vitória sobre a morte a consumar-se um dia.

Além destas expressões, S. Paulo usa outra comparação dizendo que o baptismo é um «enxerto»: «somos enxertados em Cristo». Esta comparação é muito fecunda, e como em muitas regiões a Quaresma coincide com o tempo da poda, isso pode ajudar a perceber a importância da Quaresma como tempo de purificação da vida mais verdadeira. O enxerto supõe cortes na vara que o recebe e na vara que é «semente», fazendo que a seiva circulante conduza a nova produção. O podador liberta a videira dos ramos velhos ou que estão a mais, e orienta os novos para produzirem melhor. Sem esse cuidado o enxerto morre ou definha. O Baptismo é, como o enxerto, morte e ressurreição: deixar a vida mundana para assumir a vida de Jesus ressuscitado

A catequese na infância e os exercícios espirituais da Quaresma destinam-se a desenvolver essa consciência baptismal: a pregação anual, mais tempo de oração em casa e nas igrejas (nomeadamente a Via Sacra), alguma penitência pessoal pelos pecados próprios e dos outros, a abstinência de carne às sextas-feiras em espírito de unidade e de obediência à Igreja, e, finalmente, a partilha de alguns bens materiais, conforme determinou a Igreja.

 

5. Toda a Quaresma deve ser vivida com os olhos na Páscoa, como o viticultor faz o seu trabalho com os olhos postos no futuro, nunca separando a poda da perspectiva da vindima. O Evangelho diz que Jesus foi para o deserto conduzido pelo Espírito Santo. Isto convida-nos a viver os exercícios da Quaresma com alegria do Espírito santo recebido no baptismo – filhos de Deus, membros da Igreja, atentos aos apelos da graça e fortes perante as tentações do mundo.

É preciso evitar tanto a tentação do dolorismo e do estoicismo como a ascese de herói ou o entusiasmo pelagiano. Isto é, todos os actos da Quaresma devem conduzir a uma relação pessoal com Jesus Cristo e com a comunidade cristã por Ele fundada. (Carta Circular da Congregação do Culto Divino, de 16.01.1988).

Programemos a nossa Quaresma pessoalmente, em família e na paróquia. 

 

Fala o Santo Padre

 

Queridos irmãos e irmãs

Hoje é o primeiro domingo de Quaresma, e o evangelho, com o estilo sóbrio e conciso de São Marcos, introduz-nos no clima deste tempo litúrgico:  "O Espírito impeliu Jesus para o deserto. E esteve no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás" (Mc 1, 12). Na Terra Santa, a oeste do rio Jordão e do oásis de Jericó, encontra-se o deserto de Judá que, ao longo de vales pedregosos, ultrapassando um desnível de cerca de mil metros, sobe até Jerusalém. Depois de ter recebido o baptismo de João, Jesus entrou naquela solidão conduzido pelo próprio Espírito Santo, que tinha descido sobre Ele, consagrando-O e revelando-O como Filho de Deus. No deserto, lugar da provação, como mostra a experiência do povo de Israel, sobressai com profunda dramaticidade a realidade da kenosi, do esvaziamento de Cristo, que se despojou da forma de Deus (cf. Fl 2, 6-7). Ele, que não pecou e não pode pecar, submete-se à prova e por isso pode compadecer-se da nossa enfermidade (cf. Hb 4, 15). Deixa-se tentar por Satanás, o adversário, que desde o princípio se opôs ao desígnio salvífico de Deus em benefício dos homens.

Quase de fugida, na brevidade da narração, diante desta figura obscura e tenebrosa que ousa tentar o Senhor, aparecem os anjos, figuras luminosas e misteriosas. Os anjos, diz o Evangelho, "serviam" Jesus (Mc 1, 13); eles são o contraponto de Satanás. "Anjo" quer dizer "enviado". Em todo o Antigo Testamento encontramos estas figuras que, em nome de Deus, ajudam a orientar os homens. É suficiente recordar o livro de Tobias, onde aparece a figura do anjo Rafael, que assiste o protagonista em numerosas vicissitudes. A presença tranquilizadora do anjo do Senhor acompanha o povo de Israel em todas as suas vicissitudes boas e más. No início do novo Testamento, Gabriel é enviado para anunciar a Zacarias e a Maria os ditosos acontecimentos que se encontram no princípio da nossa salvação; e um anjo, do qual não se diz o nome, adverte José, orientando-o naquele momento de incerteza. Um coro de anjos anuncia aos pastores a boa notícia do nascimento do Salvador; assim, serão também os anjos que anunciarão às mulheres a notícia jubilosa da sua ressurreição. No final dos tempos, os anjos hão-de acompanhar Jesus na sua vinda na glória (cf. Mt 25, 31). Os anjos servem Jesus, que certamente é superior a eles, e esta sua dignidade é aqui, no Evangelho, proclamada de maneira clara, embora discreta. Efectivamente, também na situação de pobreza e humildade extremas, quando é tentado por Satanás, Ele permanece o Filho de Deus, o Messias, o Senhor.[…]

Papa Bento XVI, Angelus, 1 de Março de 2009

 

Oração Universal

 

No meio das dificuldades e tentações desta vida

não podemos esquecer que somos filhos de Deus.

Peçamos-lhe confiadamente, pela mediação de Maria,

Que atenda as súplicas que lhe dirigimos confiantes.

Oremos (cantando):

 

Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação!

 

1. Para que o Santo Padre, com a luz da doutrina do Evangelho,

    nos ajude a vencer as tentações de pessimismo e desânimo,

    oremos, irmãos.

 

    Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação!

 

2. Para o desânimo que nos invade com as dificuldades da vida,

    não nos leve a pensar que estamos sós nesta luta de cada dia,

    oremos, irmãos.

 

    Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação!

 

3. Para que todos os que sofrem carência do pão de cada dia

    não vendam a sua consciência em negócios que são imorais,

    oremos, irmãos.

 

    Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação!

 

4. Para que os jovens encontrem trabalho que os sustente

    e não sejam tentados pelos caminhos da marginalidade,

    oremos, irmãos.

 

    Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação!

 

5.  Para que os dadores de trabalho não caiam na tentação

    de aproveitar a fragilidade dos que estão desamparados,

    oremos, irmãos.

 

    Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação!

 

6. Para que tos que partiram desta vida para a eternidade

    sejam purificados quanto antes e entrem no Paraíso,

    oremos, irmãos.

 

    Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação!

 

Senhor, que nos submeteis a uma prova de Amor,

com as tentações que sofremos na vida presente:

ajudai-nos a vencê-las com generosa fortaleza cristã,

para Vos louvarmos eternamente na felicidade eterna.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho,

na unidade do Espírito Santo.

 

 

Liturgia Eucarística

 

Introdução

 

Cada Missa é a renovação incruenta e misteriosa do Sacrifício do Calvário, divinamente antecipado no Cenáculo, na noite de Quinta-feira Santa.

Depois de termos acolhido com profundo recolhimento, a Palavra de Deus, preparemo-nos agora para participar nestes santos mistérios em que Jesus Cristo Se vai tornar presente sob as aparências do pão e do vinho. 

 

 

Cântico do ofertório: Sois, Jesus, o meu Deus, M. Borda, NRMS 107

 

Oração sobre as oblatas: Fazei que a nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

As tentações do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo: M. Simões, NRMS 50-51

 

Saudação da Paz

 

Uma das primeiras tentações contra as quais temos de lutar, é a que nos assalta contra a unidade. O Senhor quer que vivamos em comunhão com Ele e uns com os outros, à imagem da Santíssima Trindade.

Manifestemos, por um rito litúrgico, a disponibilidade para perdoarmos e sermos perdoados.

 

Monição da Comunhão

 

Nem só de pão vive o homem, diz-nos Jesus. Precisamos do Alimento Divino do Seu Corpo e Sangue, para vencermos nesta luta quotidiana.

Se Jesus Cristo Se nos dá de modo tão acessível, devemos corresponder-Lhe por uma preparação cuidada, com a alma em graça – preparada com uma boa confissão –, uma fé viva externamente manifestada e um Amor agradecido.

 

Cântico da Comunhão: Nem só de pão vive o homem, F. da Silva, NRMS 29

Mt 4, 4

Antífona da comunhão: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

 

ou

Salmo 90, 4

O Senhor te cobrirá com as suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.

 

Cântico de acção de graças: A toda a hora bendirei o Senhor, M. Valença, NRMS 60

 

Oração depois da comunhão: Saciados com o pão do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Ritos Finais

 

Monição final

 

A nossa Quaresma há-de ser vivida em duas dimensões essenciais: no plano pessoal e na ajuda às outras pessoas.

Que propósitos concretizei para esta Quaresma, na vida pessoal e apostólica?

 

Cântico final: É dura a caminhada, M. Faria, NRMS 6 (II)

 

 

Homilias Feriais

 

1ª SEMANA

 

2ª Feira, 27-II: os caminhos de salvação.

Lev 19, 1-2. 11-18 / Mc 25, 31-46

Fala a toda a assembleia dos filhos de Israel e diz-lhes: Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo!

O próprio Senhor concretizou o caminho para alcançarmos a santidade, que consiste no cumprimento dos mandamentos: «não furteis…, etc.» (Leit.)

Mais tarde, Jesus dirá que estes preceitos se podem resumir a dois mandamentos: amar a Deus e amar o próximo. O Decálogo deve ser interpretado à luz deste duplo e único mandamento de caridade, plenitude da Lei (CIC, 2055). Ponhamos mais empenho no cumprimento das obras de misericórdia, quer espirituais quer corporais, indicadas pelo Senhor (Ev.) (CIC, 2447).

 

3ª Feira, 28-II: O perdão e a reconciliação dos filhos de Deus.

Is 55, 10-11 / Mt 6, 7-15

Assim é a palavra que sai da minha boca: não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade.

Na Quaresma preparamo-nos para receber abundantes graças de Deus (como a chuva e a neve que caiem do céu: Leit.). A nossa conversão consiste em ouvir a palavra de Deus e que ela produza o seu efeito (Leit.).

Um aspecto da palavra de Deus é a oração do Pai-nosso, que contém tudo o que podemos pedir a Deus, e que é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho (CIC, 2761). Uma petição fala do perdão: «O perdão é a condição fundamental de reconciliação dos filhos de Deus com seu Pai e dos homens entre si» (CIC, 2844).

 

4ª Feira, 29-II: O apelo à conversão e a Confissão sacramental.

Jon 3, 1-10 / Lc 11, 29-32

Ergue-te e vai à grande cidade de Nínive e proclama-lhe a mensagem que te direi.

Os habitantes da cidade de Nínive aceitaram bem o pedido de conversão que lhes foi dirigido pelo Senhor, através do profeta Jonas (Leit. e Ev.). É igualmente um apelo que nos é dirigido neste tempo de Quaresma, através da recepção de um sacramento: «É chamado o sacramento da conversão porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão e o esforço de regressar à casa do Pai, do qual o pecador se afastou pelo pecado. É chamado o sacramento da penitência porque consagra uma caminhada pessoal e eclesial de conversão, de arrependimento e de satisfação por parte do cristão pecador» (CIC, 1423).

 

5ª Feira, 1-III: A oração de petição e a conversão.

Est 14, 1. 3-5. 12-14 / Mt 7, 7-12

Pedi, e dar-vos-ão. Procurai, e achareis. Batei, e hão-de abrir-vos.

O desejo de conversão há-de levar-nos a uma oração confiada: «O coração, assim decidido a converter-se, aprende a orar na fé… Ele (Jesus) pode pedir-nos que procuremos e batamos à porta (Ev.), porque ele próprio é a porta e o caminho» (CIC, 2609).

A rainha Ester é o melhor exemplo desta oração confiada: «Vinde socorrer-me, que eu estou só e só em vós tenho auxílio, pois sinto ao alcance da mão o perigo que me espreita.» (Leit.). Peçamos ao Senhor que nos acuda nas tentações.

 

6ª Feira, 2-III: A conversão e o amor ao próximo.

Ez 18, 21-28 / Mt 5, 20-26

Se o pecador se arrepender de todas as faltas que tiver cometido, há-de viver e não morrerá.

A Quaresma é um tempo de conversão, tempo de arrependimento, que nos conduzirá de novo à vida (Leit.), à reconciliação com Deus, através da reconciliação com o nosso irmão (Ev.).

«Deus não aceita o sacrifício do dissidente e manda-o retirar-se do altar e reconciliar-se primeiro com o irmão: só com orações pacíficas se podem fazer as pazes com Deus. O maior sacrifício para Deus é a nossa paz, a concórdia fraterna e um povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (CIC, 2845).

 

Sábado, 3-III: O perdão, o amor e o pecado.

Deut 26, 16-19 / Mt 5, 43-48

Tu hoje obtiveste a promessa do Senhor de que Ele seria o teu Deus. Mas tens de cumprir as suas leis, preceitos e sentenças.

Moisés lembrava ao povo que deveria pôr em prática os preceitos e sentenças do Senhor (Leit.).

Entre os preceitos de Jesus está o amor ao próximo, levado até às últimas consequências: amar os inimigos e rezar por eles (Ev.). Foi isto que Ele próprio viveu: por exemplo, perdoou a quem o ofendeu na Cruz. «No sermão da montanha acrescenta a proibição da ira, do ódio e da vingança. Mais ainda: exige do seu discípulo que ofereça a outra face, que ame os seus inimigos (Ev.).» (CIC, 2262).

 

 

 

 

 

 

Celebração:                           Fernando Silva

Homilia:                                 D. Joaquim Gonçalves

Nota Exegética:                    Geraldo Morujão

Homilias Feriais:                  Nuno Romão

Sugestão Musical:                Duarte Nuno Rocha

 


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