TEMAS LITÚRGICOS

EM DEFESA DA ADORAÇÃO EUCARÍSTICA

 

 

CARDEAL MALCOLM  RANJITH

Arcebispo de Colombo (Sri Lanka, Ceilão)

 

 

Oferecemos um excerto do discurso pronunciado pelo Cardeal Ranjith na “Conferência Internacional sobre a Adoração Eucarística”, realizada em Roma, de 20 a 24 de Junho passado, onde interveio um amplo grupo de personalidades sintonizadas com a importância crescente da Adoração eucarística, a que Bento XVI tem animado desde o início do seu pontificado.

O conferencista dedicou o seu trabalho a responder a várias objecções que se têm levantado acerca da adoração eucarística.

A Conferência Internacional fora organizada pelos Missionários da Santíssima Eucaristia, cujo fundador, o Bispo de Fréjus-Toulon (França) Dominique Rey, afirmou: “A primeira condição para a nova evangelização é a adoração”.

 

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3. Outra objecção que se difundiu amplamente em certos ambientes, é que adoração não é conforme com o espírito da celebração da eucarística, ou que é apenas uma actividade pietista sem relação com a SSma. Eucaristia. Essa afirmação, que a Igreja já tinha condenado no passado (Concílio de Trento, Denziger/Hünermann 1643-1645, 1656), pareceu voltar a emergir com força na reforma litúrgica pós-conciliar, sobretudo no contexto de uma redução da Santa Missa a simples banquete de convívio, à custa da dimensão sacrificial.

Com efeito, aconteceu que práticas como a Bênção com o Santíssimo Sacramento, a Hora Santa, a adoração perpétua, foram consideradas contrárias ao espírito do Concílio. Já o Concílio de Trento tinha denunciado aqueles que rejeitam a tradição secular de devoção ou culto eucarístico: “Se alguém disser que, no santo sacramento da Eucaristia, Cristo, Filho unigénito de Deus, não deve ser adorado com o culto de latria, mesmo externo; e, por isso, não deve sequer ser venerado com uma solenidade especial; nem deve ser levado solenemente em procissão, segundo o louvável e universal rito e costume da Santa Igreja; ou que não deve ser exposto publicamente para a adoração do povo; e que aqueles que o adoram são idólatras: seja anátema” (cânon 1656).

Este cânon está de acordo com o respectivo ensinamento daquele mesmo Concílio de que “o costume de reservar a Sagrada Eucaristia no sacrário é tão antigo que era conhecido também na época do Concílio de Niceia. Portanto, que a mesma Sagrada Eucaristia seja levada aos enfermos e com este fim seja reservada com cuidado nas igrejas, além de ser um acto sumamente justo e razoável, é também ordenado por muitos Concílios e faz parte do antiquíssimo costume da Igreja Católica. Por isso, este santo concílio estabelece que convém absolutamente conservar este costume salutar e necessário” (DH 1645).

A este respeito, deve-se sublinhar que a prática de reservar o SSmo. Sacramento para o levar aos enfermos ou aos eremitas, é verdadeiramente antiga. Era um corolário natural da antiga fé da Igreja na presença permanente e pessoal de Cristo nas espécies consagradas da Eucaristia. É esta fé que levou gradualmente a Igreja a introduzir o culto formal da Eucaristia fora da Missa e aquelas práticas de devoção, como procissões, actos de adoração, visitas ao Senhor na píxide, janelas das celas dos monges das quais eles podiam ver e adorar a Cristo no tabernáculo, e finalmente a festa do Corpus Christi, a Hora Santa, a Bênção com o SSmo. Sacramento, as Irmandades de adoradores e os Congressos Eucarísticos. Foi um processo em contínuo desenvolvimento.

A consideração importante era que, uma vez que Cristo está presente nas espécies eucarísticas, não só durante a celebração da Santa Missa, mas também depois, Ele deve ser adorado e glorificado. As espécies eucarísticas, uma vez consagradas, tornam-se divinas e por conseguinte podem ser adoradas – é a presença visível de Cristo no meio de nós. Uma prática, decerto, que foi ridicularizada pelos reformadores e apelidada idolatria. João Calvino, por exemplo, que não considerava o pão e o vinho consagrados verdadeiro corpo e sangue de Cristo, mas apenas um sinal ou símbolo, considerava uma idolatria a adoração eucarística praticada pelos católicos. Para ele, o uso das sagradas espécies era, portanto, limitado apenas ao rito da comunhão e as sobras deitavam-se fora. Mais ou menos a mesma posição tinham Lutero, Zwinglio e Melanchthon. A Igreja Católica é clara sobre isto, pois as devoções eucarísticas não são senão uma consequência natural da sua fé na presença permanente e imutável de Cristo nas espécies eucarísticas. É a esta luz que se deve entender a tradição bimilenária da Igreja – a Eucaristia existe para a adoração, assim como para a comunhão.

Paulo VI declarou: “A Igreja Católica professa este culto latrêutico ao Sacramento eucarístico não somente durante a Missa, mas também fora da sua celebração, conservando com a máxima diligência as hóstias consagradas, apresentando-as à solene veneração dos fiéis cristãos, levando-as em procissão ante a alegria da multidão cristã” (Mysterium Fidei, 57).

Infelizmente, alguns afirmam que o Concílio Vaticano II não deu muita importância à devoção eucarística, pelo que ela não merece grande atenção. Com efeito, poderia ser esta uma análise correcta, uma vez que o documento conciliar sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, quer na apresentação geral, quer na exposição sobre a SSma. Eucaristia (cap. II) e os outros sacramentos e sacramentais, não faz menção das devoções ao SSmo. Sacramento. Faz referência às devoções populares numa breve passagem (n. 13), mas nenhuma sobre devoções eucarísticas. Isto está em grande contraste com a exposição do tema nos decretos do Concílio de Trento e na encíclica Mediator Dei de Pio XII. Se terá sido uma omissão deliberada ou acidental, é uma questão em aberto. Muito provavelmente, essas devoções eram dadas por descontadas como um dado de facto e, por conseguinte, não foram tratadas explicitamente. No entanto, alguma menção deveria ter sido feita, dada a importância dos pronunciamentos do Concílio para o futuro e a importância dada a estas devoções ao longo dos séculos. Tal omissão foi a razão provável da citada pretensão de que a Eucaristia não é para adoração, mas para ser comida, e que o Concílio não deu muita importância a esse aspecto do culto litúrgico.

Também isto pode ter levado o Papa Paulo VI a lamentar-se na encíclica sobre a Eucaristia de 3 de Setembro de 1965, Mysterium Fidei, que “não faltam ... motivos de grave preocupação pastoral e de ansiedade, sobre os quais a consciência do Nosso dever Apostólico não Nos permite calar. Bem sabemos que, entre aqueles que falam e escrevem sobre este Sacrossanto Mistério, há alguns que acerca das Missas privadas, o dogma da transubstanciação e o culto eucarístico, divulgam certas opiniões que perturbam as mentes dos fiéis, originando muita confusão acerca das verdades da fé” (Mysterium Fidei, 9-10). O Papa continua a seguir explicando o que entende por “opiniões” e entre estas nomeia “a opinião segundo a qual nas Hóstias consagradas e que permanecem depois da celebração do sacrifício da Missa, Nosso Senhor Jesus Cristo já não estaria presente” (Mysterium Fidei, 11). O erro mencionado demonstra uma diminuição do papel da fé eucarística da Igreja e da sua prática de adoração.

O Papa continua a afirmar o valor da adoração eucarística extensivamente na encíclica. Ele declara que “a Igreja Católica professa este culto latrêutico ao Sacramento Eucarístico não só durante a Missa, mas também fora de sua celebração, conservando com a máxima diligência as hóstias consagradas, apresentando-as para a solene veneração dos fiéis cristãos, levando-as em procissão ante a alegria da multidão cristã” (Mysterium Fidei, 57). A seguir, explica com grande pormenor e citações dos Padres da Igreja, vários elementos de devoção eucarística (nn. 56-65) e o dever de conservá-los. Exorta os bispos “para que esta fé, que não tende senão a custodiar uma perfeita fidelidade à palavra de Cristo e dos Apóstolos, rejeitando claramente qualquer opinião errónea, seja guardada pura e íntegra no povo confiado ao vosso cuidado e vigilância, e promovei o culto eucarístico ao qual devem convergir por fim todas as outras formas de piedade” (Mysterium Fidei, 65).

E assim, à luz de uma quase total ausência de menção sobre adoração e devoções eucarísticas na Constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia, Sacrosanctum Concilium, e ante a tendência de novo emergente em alguns ambientes para redimensionar ou rejeitar essa fé, esta encíclica de Paulo VI publicada ainda antes da conclusão formal do Concílio (8 de Dezembro de 1965) pode ser considerada uma resposta adequada àqueles elementos protestantizados no seio da Igreja e certamente uma devida correcção, pelo que devemos estar gratos ao Papa Paulo VI.

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5. Alguns lamentam que a adoração eucarística é demasiado privada, demasiado pessoal e até demasiado silenciosa. Uma crítica que parece basear-se em afirmações erróneas: que a adoração seja por essência só privada e que o culto a Deus deva ser sempre um exercício comunitário. Mas ambas estas posições são insustentáveis. A adoração tem também uma dimensão comunitária, porque, quando adoramos o Senhor, entrando em comunhão com Ele ou deixando que Ele nos aperte a Si, tornamo-nos unidos uns aos outros n’Ele.

O Papa Bento XVI declara: “A união com Cristo é ao mesmo tempo união com todos os outros aos quais Ele se dá. Eu não posso ter Cristo só para mim; posso pertencer-Lhe somente em união com todos aqueles que se tornaram ou se tornarão seus” (Deus caritas est, 14). Portanto, quando eu adoro o Senhor em privado, encontro-me constantemente em relação com os outros e também eles O adoram comigo. É assim que se cria a comunhão. A oração privada não necessariamente prejudica a comunidade. Constrói a comunidade. Além disso, sempre que a Igreja se empenha no culto público e em actos de adoração, é todo o corpo dos fiéis que ora, estando a Igreja presente em cada um dos seus membros individuais. Também Jesus adorou o Pai em privado, assim como em oração pública, como o requeria o tempo da sinagoga. Segue-se daí que todo o acto de adoração, privada ou comunitária, tem um efeito salutar quer sobre a comunidade quer sobre o indivíduo.

O culto, portanto, não deve ser necessariamente limitado só ao comunitário, pode muito bem ser pessoal. Como disse acima, Jesus passou muitíssimo tempo em oração sozinho. Mas isso não o impediu de estar próximo dos outros. Mais, Ele ofereceu a sua vida pela redenção dos outros, o mais alto nível de altruísmo. Por conseguinte, a adoração não nos afasta e não nos deve afastar da oração comunitária ou dos nossos deveres comunitários. Aperta-nos ainda mais uns aos outros no Senhor.

 

6. Há ainda outros que objectam à adoração eucarística dizendo que subjaz a ela uma mentalidade excessiva de “só eu e Jesus”. Como já disse antes, a adoração, aproximando-nos mais a Jesus, torna-nos mais sensíveis para com o próximo. Isto vê-se melhor na vida de alguns dos maiores santos ou figuras veneráveis. Basta dar apenas o exemplo da Beata Madre Teresa de Calcutá que queria que as suas irmãs permanecessem várias horas em oração e adoração diante do SSmo. Sacramento todos os dias, antes de partirem para a rua para atenderem os doentes e os moribundos. Era precisamente a sensação da presença do Senhor no meio delas que as enchia de energia para o trabalho diário. Perante as críticas dirigidas à Madre Teresa pelas demasiadas horas passadas pelas freiras em oração e adoração, tirando-lhes o seu precioso tempo, ela respondeu um dia: “se as minhas irmãs não passassem tanto tempo em oração, não seriam capazes de servir de facto os pobres e os doentes”.

Como o Papa Bento XVI nos assegura, a adoração “quer romper as barreiras não só entre o Senhor e nós, mas também e sobretudo as barreiras que nos separam dos outros" (Sacramentum caritatis, 66). Na Deus caritas est, o Santo Padre declara: “A piedade não afrouxa a luta contra a pobreza ou mesmo contra a miséria do próximo. A Beata Teresa de Calcutá é um exemplo muito evidente do facto de que o tempo dedicado a Deus na oração não só não prejudica a eficácia e a acção do amor para com o próximo, mas é na realidade a sua fonte inesgotável”(Deus caritas est, 36).

A oração pessoal não vai contra a oração comunitária, e nem sequer uma exclui a outra, na realidade alimentam-se uma à outra. A oração litúrgica cria e promove a relação não apenas entre Deus e a comunidade, mas também entre Deus e mim, tornando-me sensível à necessidade de contacto constante com o divino na minha vida. Talvez um equívoco neste sentido levou alguns a crer que as devoções individuais já não eram necessárias, no seguimento do grande relevo dado ao culto litúrgico e comunitário depois do Vaticano II. Mas isto não é correcto. Com efeito, a Sacrosanctum Concilium declara: “A vida espiritual, contudo, não se limita apenas à participação na liturgia. De facto, o cristão, embora chamado à oração em comum, deve sempre entrar no seu quarto para orar ao Pai em segredo” (SC, 12). Mais, a oração litúrgica é fortalecida e enriquecida pela oração pessoal. A adoração do SSmo. Sacramento como devoção pessoal é portanto importante e ajuda a criar um clima interior em nós que se alimenta de oração litúrgica e participação interior.

 

Deixai que termine com as belas palavras do Cura de Ars, São João Maria Vianney, verdadeiro apóstolo da adoração: "Oh, se tivéssemos os olhos dos Anjos para ver Nosso Senhor Jesus Cristo, que está aqui presente neste altar e olha para nós, como O amaríamos! Já não quereríamos afastarmo-nos d’Ele. Quereríamos ficar sempre aos Seus pés; seria saborear já o Céu: tudo o mais não teria gosto para nós” (Cura d'Ars, O pequeno catecismo do Cura de Ars, Tan Books e Publishers Inc. Rockford, Illinois 61105, 1951, p.41).

Obrigado.

 

Roma, 22 de Junho 2011

 

 

 

 


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