A  abrir

A  Gratidão

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

«Lembra-te, ó homem, que és pó, e ao pó hás-de tornar!» A grandeza do chamamento divino a participarmos na Sua natureza nunca deve fazer-nos esquecer a nossa humílima condição de criaturas: «pó caído, pó levantado…» Mesmo caído, porém, este pó que somos é um dom, um anseio e uma imagem do Criador. E, levantado pela graça, um pó precioso, prolongamento d’Aquele que Se fez pó humano para Se unir a cada um de nós.

Por isso, gratidão deve ser a disposição básica do homem e ainda mais do homem cristão. O que é a Eucaristia, cerne da vida cristã, senão uma acção de graças de infinito valor? E como poderemos participar n’Ela, e em todo o culto da Igreja, senão em profundo espírito de gratidão? E não será esse o caminho da nossa conversão e da conversão de tantas almas afastadas de Deus? Devemos-Lhe tudo. Dizia Chesterton, na sua juventude envolvido no pesadelo do cepticismo reinante, que foi «salvo por um fio de gratidão». E todos nós o somos, qualquer que tenha sido o nosso passado.

Preocupa-nos a geração da (extinta) opulência, a geração do lazer, das exigências, rebeldias e caprichos? A geração da desobediência e da irresponsabilidade? Qual foi o erro que cometemos? Por que não acertámos na sua educação? Talvez porque nós próprios perdemos o sentido da vida, que é de agradecer a Deus, aos pais, aos outros, às gerações passadas, o que por nós fizeram. Como o Povo escolhido ao entrar na Terra Prometida, ao nascer, entramos neste mundo maravilhoso e riquíssimo, que não tínhamos construído nem feito nada para merecer, mas, em vez de agradecê-lo e tentar pagar de algum modo o que recebemos gratuitamente, como é justo, quisemos gozá-lo apenas, e explorá-lo, e exigir cada vez mais…

«Eu sou minha!», «Eu sou meu e muito meu!», foi o que aprenderam de nós, do nosso individualismo, da nossa ingratidão, as novas gerações. Enganámo-las. Somos nossos, mas primeiro de Deus; somos nossos, mas em dívida para com os que nos transmitiram a vida e para com todos os que nos rodearam de bens incalculáveis. Se somos nossos, é para dar o melhor de nós aos outros e tornar melhor o mundo para as gerações vindouras.

O homem não existe nem vive sem Deus; não subsiste isolado; nem pode ser feliz sem se dar aos outros, sem pagar, na medida do possível, o que lhes deve. Quem tente isolar-se é injusto, é um desgraçado, e torna-se um predador.

E, se a gratidão dá sentido à nossa existência, é também o fundamento da nossa alegria: que sorte a nossa de vir ao mundo; que sorte sermos filhos de Deus; que sorte esta cinza que somos ter sido divinizada e caminhar para a glória eterna!

 

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial