JORNADA DE ASSIS

PEREGRINOS DA VERDADE, PEREGRINOS DA PAZ

 

 

Bento XVI

 

O Papa Bento XVI e mais de 300 líderes religiosos e académicos, procedentes de 50 países, reuniram-se na cidade italiana de Assis, no passado dia 27 de Outubro, para uma “jornada de reflexão, diálogo e oração pela justiça e pela paz no mundo”, convocada pelo Papa.

As palavras de João Paulo II lançadas em Assis em Janeiro de 2002, pouco depois dos atentados de 11 de Setembro nos EUA, «Nunca mais a guerra, nunca mais o terrorismo», foram pronunciadas em diversas línguas durante um vídeo que recordava o primeiro Dia Mundial de Oração pela Paz, convocado pelo mesmo Karol Wojtyla, há precisamente 25 anos.

Líderes cristãos, judeus, muçulmanos, hindus, budistas, representantes de religiões africanas e asiáticas, bem como um grupo de agnósticos, renovaram neste encontro um “solene compromisso comum pela paz”.

Damos a seguir o discurso do Santo Padre na Basílica de Assis.

 

 

 

Queridos irmãos e irmãs,

Ilustres Chefes e representantes das Igrejas e Comunidades eclesiais

e das religiões do mundo,

Queridos amigos

 

Passaram-se vinte e cinco anos desde que o beato Papa João Paulo II convidou pela primeira vez representantes das religiões do mundo para uma oração pela paz em Assis. O que aconteceu desde então? Como se encontra hoje a causa da paz? Então, a grande ameaça para a paz no mundo provinha da divisão do planeta em dois blocos opostos entre si. O símbolo aparatoso daquela divisão era o muro de Berlim que, passando pelo meio da cidade, traçava a fronteira entre dois mundos. Em 1989, três anos depois do encontro em Assis, o muro caiu, sem derramamento de sangue. Inesperadamente, os enormes arsenais, que estavam por detrás do muro, deixaram de ter qualquer significado. Perderam a sua capacidade de aterrorizar. A vontade dos povos de serem livres era mais forte que os arsenais da violência. A questão sobre as causas de tal derrocada é complexa e não pode encontrar uma resposta em simples fórmulas. Mas, ao lado dos factores económicos e políticos, a causa mais profunda de tal acontecimento é de carácter espiritual: por detrás do poder material, já não havia qualquer convicção espiritual. A vontade de ser livre foi por fim mais forte do que o medo face a uma violência que já não tinha nenhuma cobertura espiritual. Sentimo-nos agradecidos por esta vitória da liberdade, que foi também e sobretudo uma vitória da paz. E é necessário acrescentar que neste contexto se tratava, não só e talvez nem sequer primariamente, da liberdade de crer, mas também se tratava dela. Por isso, podemos de certo modo unir tudo isto também com a oração pela paz.

Mas, que aconteceu depois? Infelizmente, não podemos dizer que desde então a situação se caracterize pela liberdade e paz. Embora a ameaça da grande guerra não se aviste no horizonte, todavia o mundo está, infelizmente, cheio de discórdias. Não é somente o facto de que, aqui e ali, repetidamente, se travam guerras; a violência como tal está potencialmente sempre presente e caracteriza a condição do nosso mundo. A liberdade é um grande bem. Mas o mundo da liberdade revelou-se, em grande medida, sem orientação, e não poucos entendem, erradamente, a liberdade também como liberdade para a violência. A discórdia assume novos e assustadores aspectos e a luta pela paz deve estimular de um modo novo a todos nós.

 

Procuremos identificar, um pouco mais de perto, os novos aspectos da violência e da discórdia. Em grandes linhas, parece-me que é possível individuar duas tipologias diferentes de novas formas de violência, que são diametralmente opostas na sua motivação e manifestam, em particular, muitas variantes. Em primeiro lugar está o terrorismo, no qual, em vez de uma grande guerra, há ataques bem visados que devem ferir em pontos importantes o adversário de modo destrutivo, sem nenhuma preocupação pelas vidas humanas inocentes que com isso são cruelmente mortas ou feridas. Aos olhos dos seus responsáveis, a grande causa da danificação do inimigo justifica qualquer forma de crueldade. É posto de lado tudo aquilo que no direito internacional era comummente reconhecido e sancionado como limite à violência.

Sabemos que, frequentemente, o terrorismo tem uma motivação religiosa e que precisamente o carácter religioso dos ataques serve como justificação para uma crueldade desapiedada, que crê poder anular as regras do direito por motivo do «bem» pretendido. Aqui a religião não está ao serviço da paz, mas da justificação da violência. A crítica da religião, a partir do Iluminismo, alegou repetidamente que a religião era causa de violência e assim fomentou a hostilidade contra as religiões. Que, neste caso, a religião motiva de facto a violência é algo que, enquanto pessoas religiosas, nos deve preocupar profundamente.

De modo mais subtil, mas sempre cruel, vemos a religião como causa de violência também ali onde a violência é exercida por defensores de uma religião contra os outros. Os representantes das religiões congregados em 1986, em Assis, pretenderam dizer – e nós repetimo-lo com vigor e grande firmeza – que esta não é a verdadeira natureza da religião. Pelo contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição. Contra isso, objecta-se: mas como sabeis qual é a verdadeira natureza da religião? A vossa pretensão não deriva por acaso do facto de que se apagou entre vós a força da religião? E outros objectarão: mas existe verdadeiramente uma natureza comum da religião, que se exprima em todas as religiões e, por conseguinte, seja válida para todas? Devemos enfrentar estas questões, se quisermos discutir de modo realista e credível o recurso à violência por motivos religiosos. Aqui situa-se uma tarefa fundamental do diálogo inter-religioso, uma tarefa que deve ser novamente sublinhada por este encontro.

Como cristão, quero dizer neste momento: sim, na história, também em nome da fé cristã se recorreu à violência. Reconhecemo-lo, cheios de vergonha. Mas é absolutamente claro que se tratou de um uso abusivo da fé cristã, em contraste evidente com a sua verdadeira natureza. O Deus em quem nós, cristãos, acreditamos é o Criador e Pai de todos os homens, a partir do qual todas as pessoas são entre si irmãos e irmãs e constituem uma única família. A Cruz de Cristo é, para nós, o sinal daquele Deus que, no lugar da violência, coloca o sofrer com o outro e o amar ao outro. O seu nome é «Deus do amor e da paz» (2 Cor 13, 11). É tarefa de todos aqueles que possuem alguma responsabilidade pela fé cristã, purificar continuamente a religião dos cristãos a partir do seu centro interior, para que – apesar da fraqueza do homem – seja verdadeiramente instrumento da paz de Deus no mundo.

Se uma tipologia fundamental da violência tem hoje motivação religiosa, colocando assim as religiões perante a questão da sua natureza e obrigando-nos a todos nós a uma purificação, há uma segunda tipologia de violência, de aspecto multiforme, que tem uma motivação exactamente oposta: é a consequência da ausência de Deus, da sua negação e da perda de humanidade que anda a par disso. Como dissemos, os inimigos da religião vêem nela uma fonte primária de violência na história da humanidade e, consequentemente, pretendem o desaparecimento da religião. Mas o «não» a Deus produziu crueldade e uma violência sem medida, que foi possível só porque o homem deixou de reconhecer qualquer norma e qualquer juiz superior a si, tomando por norma somente ele próprio. Os horrores dos campos de concentração mostram, com toda a clareza, as consequências da ausência de Deus.

Aqui, porém, não pretendo deter-me no ateísmo prescrito pelo Estado; queria, antes, falar da «decadência» do homem, em consequência da qual se realiza, de modo silencioso, e por conseguinte mais perigoso, uma mudança do clima espiritual. A adoração do dinheiro, do ter e do poder, revela-se uma anti-religião, na qual já não importa o homem, mas só a vantagem pessoal. O desejo de felicidade degenera, por exemplo, num anseio desenfreado e desumano, como se manifesta no domínio da droga com as suas diversas formas. Aí estão os grandes que com ela fazem os seus negócios, e depois tantos que por ela são seduzidos e arruinados tanto no corpo como na alma. A violência torna-se uma coisa normal e, em algumas partes do mundo, ameaça destruir a nossa juventude. Uma vez que a violência se torna uma coisa normal, a paz fica destruída e, nesta falta de paz, o homem destrói-se a si próprio.

A ausência de Deus leva à decadência do homem e do humanismo. Mas, onde está Deus? Conhecemo-lo nós e podemos mostrá-lo novamente à humanidade, para fundamentar uma verdadeira paz? Antes de mais nada, sintetizemos brevemente as nossas reflexões feitas até agora. Disse que existe uma concepção e um uso da religião através do qual esta se torna fonte de violência, enquanto que a orientação do homem para Deus, vivida rectamente, é uma força de paz. Neste contexto, recordei a necessidade do diálogo e falei da purificação, sempre necessária, da vivência da religião. Por outro lado, afirmei que a negação de Deus corrompe o homem, priva-o de medida e leva-o à violência.

 

Ao lado destas duas realidades, religião e anti-religião, existe também, no mundo em expansão do agnosticismo, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poderem crer e que todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não afirmam simplesmente: «Não existe nenhum Deus». Elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão interiormente a caminho para Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes a sua falsa certeza, com a qual pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornarem-se, em lugar de polémicos, pessoas à procura, que não perdem a esperança de que a verdade exista e que podemos e devemos viver em função dela. Mas chamam a juízo também os crentes das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que lhes pertença de tal modo que se sintam autorizados à violência contra os outros. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem não raramente fica escondida nas religiões, devido ao modo como frequentemente são praticadas. Que eles [os agnósticos] não consigam encontrar a Deus depende também dos que crêem, com a sua imagem diminuída ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se é também uma chamada para os que cremos, para todos os crentes, a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível. Por isso, convidei propositadamente representantes deste terceiro grupo para o nosso encontro em Assis, que não reúne somente representantes de instituições religiosas. Trata-se antes de nos encontrarmos juntos neste andar a caminho da verdade, do compromisso decidido pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito. Em conclusão, queria assegura-vos que a Igreja Católica não desistirá da luta contra a violência, do seu compromisso pela paz no mundo. Estamos animados pelo desejo comum de ser «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Obrigado.

 

 

 

 


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