DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

TERCEIRA VIAGEM APOSTÓLICA À ALEMANHA

 

 

 

De 22 a 25 de Setembro passado, o Santo Padre realizou a sua terceira Viagem Apostólica à Alemanha.

Oferecemos aos nossos leitores o comentário que o próprio Papa fez na audiência geral da quarta-feira seguinte, na Praça de São Pedro (28-IX-2011).

 

 

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

Como sabeis, de quinta-feira a domingo passados, realizei uma Visita Pastoral na Alemanha; por isso, como de costume estou contente por aproveitar a ocasião da hodierna Audiência para voltar a percorrer juntamente convosco os dias intensos e maravilhosos que passei no meu país natal. Atravessei a Alemanha de norte a sul, do leste ao oeste: da capital Berlim a Erfurt e a Eichsfeld e finalmente a Friburgo, cidade próxima da fronteira com a França e a Suíça. Dou graças antes de tudo ao Senhor pela possibilidade que me ofereceu, de me encontrar com o povo e de lhe falar de Deus, de orarmos juntos e de confirmar os irmãos e as irmãs na fé, segundo o particular mandato que o Senhor confiou a Pedro e aos seus sucessores. Esta visita, realizada sob o lema «Onde há Deus, há futuro», foi realmente uma grande festa da fé: nos vários encontros e colóquios, nas celebrações, especialmente nas solenes Missas com o povo de Deus. Estes momentos foram um dom precioso que nos levou a compreender de novo que é Deus quem confere à nossa vida o sentido mais profundo, a verdadeira plenitude, aliás, que só Ele nos dá a nós, a todos um futuro.

Com profunda gratidão recordo a recepção calorosa e entusiasta, assim como a atenção e o afecto que me foram demonstrados nos vários lugares que visitei. Agradeço de todo o coração aos Bispos alemães, de modo especial os das Dioceses que me hospedaram, o convite e quanto fizeram, juntamente com muitos colaboradores, para prepararem esta viagem. Dirijo um profundo agradecimento igualmente ao Presidente Federal e a todas as autoridades políticas e civis, ao nível federal e regional. Estou profundamente grato a quantos contribuíram de vários modos para o bom êxito da Visita, sobretudo aos numerosos voluntários. Assim, ela foi um grande dom para mim e para todos nós e suscitou alegria, esperança e um novo impulso de fé e de empenho para o futuro.

Na capital federal, Berlim, o Presidente Federal recebeu-me na sua residência e deu-me as boas-vindas em seu nome e no dos meus compatriotas, manifestando a estima e o afecto por um Papa natural da terra alemã. Quanto a mim, pude expôr um breve pensamento sobre a relação recíproca entre religião e liberdade, recordando uma frase do grande Bispo e reformador social Wilhelm von Ketteler: «Assim como a religião tem necessidade da liberdade, também a liberdade necessita da religião».

Foi de bom grado que aceitei o convite de ir ao Bundestag, que foi certamente um dos momentos de maior alcance da minha viagem. Pela primeira vez um Papa proferiu um discurso aos membros do Parlamento alemão. Nessa ocasião quis expor o fundamento do direito e do livre Estado de direito, ou seja, a medida de todo o direito, inscrito pelo Criador no próprio ser da sua criação. Por isso, é necessário ampliar o nosso conceito de Natureza, compreendendo-a não apenas como um conjunto de funções, mas mais do que isto, como linguagem do Criador para nos ajudar a discernir o bem do mal. A seguir, teve lugar também um encontro com alguns representantes da comunidade hebraica na Alemanha. Recordando as nossas comuns raízes na fé no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, pudemos ressaltar os frutos alcançados até agora no diálogo entre a Igreja católica e o Hebraísmo na Alemanha. Também pude encontrar-me com alguns membros da comunidade muçulmana, discorrendo com eles acerca da importância da liberdade religiosa para um desenvolvimento pacífico da humanidade.

A Santa Missa no estádio olímpico de Berlim, no fim do primeiro dia da Visita, foi uma das granes celebrações litúrgicas que me deram a possibilidade de orar juntamente com os fiéis e de os encorajar na fé. Alegrei-me muito com a numerosa participação do povo! Naquele momento festivo e impressionante, pudemos meditar sobre a imagem evangélica da videira e dos ramos, ou seja, sobre a importância de estarmos unidos a Cristo pela nossa vida pessoal de fiéis e pelo nosso ser Igreja, seu Corpo místico.

 

A segunda etapa da minha Visita foi a Turíngia. A Alemanha, e a Turíngia de modo particular, é a terra da Reforma protestante. Por isso, desde o início quis ardentemente dar particular relevo ao ecumenismo no contexto desta viagem, e foi meu profundo desejo viver um momento ecuménico em Erfurt, porque precisamente nessa cidade Martinho Lutero entrou na comunidade dos Agostinianos e ali foi ordenado sacerdote. Por isso, alegrei-me muito como o encontro com os membros do Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha e com o acto ecuménico no ex-Convento dos Agostinianos: um encontro cordial que, no diálogo e na oração, nos levou de modo mais profundo a Cristo. Vimos de novo como é importante o nosso comum testemunho da fé em Jesus Cristo no mundo de hoje, que frequentemente ignora Deus ou não se interessa por Ele. É necessário o nosso esforço comum no caminho rumo à plena unidade, mas estamos sempre bem conscientes de que não podemos «fazer» nem a fé nem a unidade tão desejada. Uma fé criada por nós próprios não tem valor algum, e a verdadeira unidade é mais um dom do Senhor, que orou e ora sempre pela unidade dos seus discípulos. Só Cristo pode conceder-nos esta unidade, e estaremos sempre mais unidos, na medida em que voltarmos para Ele e nos deixarmos transformar por Ele.

Um momento particularmente emocionante para mim foi a celebração das Vésperas marianas diante do Santuário de Etzelsbach, onde me recebeu uma multidão de peregrinos. Já quando era jovem tinha ouvido falar da região de Eichsfeld – uma faixa de terra que permaneceu sempre católica nas várias vicissitudes da história – e dos seus habitantes, que se opuseram corajosamente às ditaduras do nazismo e do comunismo. Assim, fiquei muito contente por visitar Eichsfeld e o seu povo numa peregrinação à imagem milagrosa da Virgem das Dores de Etzelsbach, onde durante séculos os fiéis confiaram a Maria os seus pedidos, preocupações e sofrimentos, recebendo conforto, graças e bênçãos. Igualmente emocionante foi a Missa celebrada na magnífica praça da Catedral em Erfurt. Recordando os santos padroeiros da Turíngia – Santa Isabel, São Bonifácio e São Kilian – e o exemplo luminoso dos fiéis que deram testemunho do Evangelho durante os sistemas totalitários, convidei os fiéis a serem os santos de hoje, testemunhas vigorosas de Cristo, e a contribuírem para construir a nossa sociedade. Com efeito, foram sempre os santos e as pessoas cheias de amor a Cristo que transformaram verdadeiramente o mundo. Foi comovedor também o breve encontro com Monsenhor Hermann Scheipers, o último sacerdote alemão sobrevivente ao campo de concentração de Dachau. Em Erfurt tive também a ocasião de me encontrar com algumas vítimas de abuso sexual por parte de religiosos, às quais quis assegurar o meu pesar e a minha proximidade no seu sofrimento.

 

A última etapa da minha viagem levou-me ao sudoeste da Alemanha, à Arquidiocese de Friburgo. Os habitantes desta bela cidade, os fiéis da Arquidiocese e os numerosos peregrinos vindos das vizinhas Suíça e França e de outros países, reservaram-me um acolhimento particularmente festivo. Pude experimentá-lo também na vigília de oração com milhares de jovens. Senti-me feliz por ver que, na minha pátria alemã, a fé tem um rosto jovem, é viva e tem um futuro. No sugestivo rito da luz, transmiti aos jovens a chama do círio pascal, símbolo da luz que é Cristo, exortando-os: «Vós sois a luz do mundo». Repeti-lhes que o Papa confia na colaboração activa dos jovens: com a graça de Cristo, eles são capazes de levar ao mundo o fogo do amor de Deus.

Um momento singular foi o encontro com os seminaristas no Seminário de Friburgo. Respondendo num certo sentido à comovedora carta que eles me tinham enviado algumas semanas antes, quis mostrar àqueles jovens a beleza e a grandeza da sua chamada por parte do Senhor e oferecer-lhes alguma ajuda para continuarem o caminho do seguimento, com alegria e em profunda comunhão com Cristo. Ainda no Seminário pude encontrar-me, numa atmosfera fraterna, também com alguns representantes das Igrejas ortodoxas e ortodoxas orientais, às quais nós católicos nos sentimos muito próximos. Precisamente desta ampla comunhão deriva também a tarefa comum de ser fermento para a renovação da nossa sociedade. Um amigável encontro com representantes do laicado católico concluiu a série de reuniões no Seminário.

A grande celebração eucarística dominical no aeroporto turístico de Friburgo foi outro momento culminante da Visita pastoral, e a ocasião para agradecer a quantos trabalham nos vários âmbitos da vida eclesial, sobretudo os numerosos voluntários e os colaboradores das iniciativas caritativas. São eles que tornam possíveis as múltiplas ajudas que a Igreja alemã oferece à Igreja universal, de modo especial nas terras de missão. Recordei também que o seu serviço precioso será sempre fecundo, quando deriva de uma fé autêntica e viva, em união com os Bispos e o Papa, em união com a Igreja. Enfim, antes do meu regresso, falei a um milhar de católicos empenhados na Igreja e na sociedade, sugerindo algumas reflexões sobre a acção da Igreja numa sociedade secularizada, sobre o convite de ser livre de fardos materiais e políticos, para ser mais transparente a Deus.

Queridos irmãos e irmãs, esta Viagem Apostólica à Alemanha ofereceu-me uma ocasião propícia para me encontrar com os fiéis da minha pátria alemã, para os confirmar na fé, na esperança e no amor, e para compartilhar com eles a alegria de sermos católicos. Mas a minha mensagem dirigia-se a todo o povo alemão, para convidar todos a olhar com confiança para o futuro. É verdade, «onde há Deus, há futuro». Agradeço mais uma vez a todos aqueles que tornaram possível esta Visita e a quantos me acompanharam com a oração. O Senhor abençoe o povo de Deus na Alemanha e abençoe a todos vós. Obrigado!

 


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