TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

O MINISTÉRIO DA DIREÇÃO ESPIRITUAL

 

 

CONGREGAÇÃO PARA O CLERO

 

 

Durante o Ano Sacerdotal, o Santo Padre exortou os sacerdotes sobre a importância e a consequente urgência apostólica de redescobrir o sacramento da reconciliação, como penitentes e como ministros.

Acolhendo este apelo, a Congregação para o Clero publicou, com data de 9 de Março de 2011, um amplo subsídio para a formação permanente dos sacerdotes e a prática da reconciliação e da direção espiritual: “O sacerdote, ministro da misericórdia divina. Subsídio para confessores e diretores espirituais”.

Damos a conhecer aos nossos leitores um excerto sobre “A importância atual do ministério da direção espiritual”. Mantivemos a redação do texto vaticano, que segue o novo acordo ortográfico.

 

 

Itinerário histórico e atual

64. O aconselhamento espiritual, chamado também direção, guia e acompanhamento espiritual, foi praticado desde os primeiros séculos da Igreja até aos nossos dias. Trata-se de uma praxe milenária, que deu frutos de santidade e de disponibilidade evangelizadora.

O Magistério, os Santos Padres, os autores espirituais e as normas de vida eclesial falam da necessidade deste aconselhamento ou direção, sobretudo no itinerário formativo e em algumas circunstâncias da vida cristã. Existem momentos na vida que necessitam de um discernimento especial e de um acompanhamento fraterno. É a lógica da vida cristã. «É preciso redescobrir a grande tradição do acompanhamento espiritual pessoal, que sempre deu tantos e tão preciosos frutos, na vida da Igreja» [1].

 

65. Nosso Senhor estava sempre próximo dos seus discípulos. A direção ou acompanhamento e aconselhamento espiritual existiu no curso dos séculos, no início sobretudo por parte dos mosteiros (tanto no Oriente como no Ocidente) e, a seguir, também por parte das diversas escolas de espiritualidade, a partir da Idade Média. A sua aplicação na vida cristã tornou-se mais frequente desde os séculos XVI-XVII, como se pode constatar nos escritos de Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz, Santo Inácio de Loyola, São João de Ávila, São Francisco de Sales, Santo Afonso Maria de Ligório, Pedro de Bérulle, etc. Embora predominantemente a direção espiritual tenha sido dada por monges e sacerdotes, sempre existiram fiéis (religiosos e leigos) – como, por exemplo, Santa Catarina – que prestaram este serviço. A legislação eclesiástica recolheu toda esta experiência e a aplicou-a sobretudo na formação inicial à vida sacerdotal e consagrada. Existem também fiéis leigos bem formados, homens e mulheres, que desenvolvem este serviço de aconselhamento no caminho da santidade.

Formação sacerdotal para este acompanhamento

66. A direção espiritual é uma ajuda no caminho da santificação para todos os fiéis em qualquer estado de vida. Atualmente, enquanto se observa uma procura de orientação espiritual por parte dos fiéis, adverte-se ao mesmo tempo a necessidade de uma maior preparação por parte dos ministros, a fim de poderem prestar diligentemente este serviço de aconselhamento, discernimento e acompanhamento. Onde existe tal prática, há renovação pessoal e comunitária, vocações, espírito apostólico, alegria na esperança.

 

67. No período de preparação para o sacerdócio, aparece sempre mais necessário e urgente o estudo da teologia espiritual e a experiência desta mesma vida. Na realidade, o aconselhamento e o acompanhamento espiritual é parte integrante do ministério da pregação e da reconciliação. De fato, o sacerdote é chamado a guiar no caminho da identificação com Cristo, que inclui o caminho da contemplação. A ajuda da direção espiritual, como discernimento do Espírito, faz parte do ministério: «Procurando ver se os espíritos vêm de Deus, [os presbíteros] perscrutem com o sentido da fé, reconheçam com alegria e promovam com diligência os multiformes carismas dos leigos, tanto os mais humildes como os mais sublimes» [2].

 

68. A formação inicial ao sacerdócio, desde os primeiros momentos de vida no Seminário, abrange efetivamente esta ajuda: «os alunos sejam formados com uma peculiar formação religiosa, e sobretudo por uma apropriada direção espiritual, de maneira a seguir Cristo Redentor de alma generosa e coração puro» [3].

 

69. Não se trata apenas de uma consulta sobre temas doutrinais, mas, antes, sobre a vida de relacionamento, intimidade e configuração com Cristo, que é sempre de participação na vida trinitária: «A formação espiritual deve estar estreitamente unida com a formação doutrinal e pastoral e, especialmente com a ajuda do diretor espiritual, seja dada de tal maneira que os alunos aprendam a viver em íntima união e familiaridade com o Pai por meio de Seu Filho Jesus Cristo, no Espírito Santo» [4].

Direção espiritual e ministério sacerdotal

70. Os munera sacerdotais são descritos tendo em conta a relação dos sacerdotes com a vida espiritual dos fiéis: «Vós sois os ministros da Eucaristia, os dispensadores da misericórdia divina no sacramento da Penitência, os consoladores das almas, os guias de todos os fiéis nas tempestuosas dificuldades da vida» [5].

No acompanhamento ou direção espiritual, dá-se sempre grande importância ao discernimento do Espírito com o objetivo da santificação, da missão apostólica e da vida de comunhão eclesial. A lógica do Espírito Santo impele a viver na verdade e no bem conforme o exemplo de Cristo. É necessário pedir a sua luz e a sua força para discernir e ser fiel às suas orientações.

 

71. Pode-se afirmar que esta atenção à vida espiritual dos fiéis, guiando-os no caminho da contemplação e da santidade, também como ajuda no discernimento vocacional, é uma prioridade pastoral: «Nesta perspectiva, o cuidado das vocações para o sacerdócio saberá exprimir-se também numa firme e persuasiva proposta de direção espiritual [...] Os sacerdotes, pela sua parte, sejam os primeiros a dedicar tempo e energias a esta obra de educação e de ajuda espiritual pessoal: jamais se arrependerão de ter transcurado ou relegado para segundo plano muitas outras coisas, mesmo boas e úteis, se for necessário para o seu ministério de colaboradores do Espírito na iluminação e guia dos chamados» [6].

 

72. O cuidado pelos jovens, em particular, com a finalidade de discernir a sua vocação específica na vocação cristã geral, requer esta atenção de aconselhamento e acompanhamento espiritual: «Como escrevia o futuro Papa Paulo VI, “ a direção espiritual tem uma função muito bela, e pode dizer-se indispensável, para a educação moral e espiritual da juventude que queira interpretar e seguir com absoluta lealdade a vocação da sua vida, seja ela qual for; e conserva sempre uma importância benéfica para todas as idades da vida, quando à luz e à caridade de um conselho piedoso e prudente se pede a comprovação da própria retidão e o confronto com o cumprimento generoso dos próprios deveres. É um meio pedagógico muito delicado, mas de grandíssimo valor; é arte pedagógica e psicológica de grande responsabilidade para quem a exercita; é exercício espiritual de humildade e de confiança para quem a recebe”» [7].

 

73. Habitualmente a direção espiritual está relacionada com o sacramento da reconciliação, pelo menos no sentido de uma consequência possível, quando os fiéis pedem para ser guiados no caminho da santidade, inclusive no itinerário específico da sua vocação pessoal: «Paralelamente ao sacramento da reconciliação, o presbítero não deixará de exercer o ministério da direção espiritual. A redescoberta e a difusão desta prática, também em momentos diferentes da administração da penitência, é um grande benefício para a Igreja no tempo presente. A disponibilidade generosa e ativa dos presbíteros para praticá-la constitui também uma ocasião importante para descobrir e sustentar as vocações ao sacerdócio e às várias formas de vida consagrada» [8].

A direção espiritual que recebem os ministros ordenados

74. Os próprios ministros necessitam da prática da direção espiritual, que está sempre ligada à intimidade com Cristo: «Se querem desempenhar com fidelidade o seu ministério, tenham a peito o colóquio quotidiano com Cristo Senhor, visitando-o no sacrário e praticando o culto pessoal à Sagrada Eucaristia. Estejam também dispostos a dedicar de bom grado o tempo ao retiro espiritual, e tenham em grande apreço a direção espiritual» [9].

 

75. A realidade ministerial exige que o ministro receba pessoalmente a direção espiritual, procurando-a e seguindo-a com fidelidade, para poder dirigir melhor os outros: «Para contribuir para o melhoramento da sua espiritualidade, é necessário que os presbíteros recebam eles próprios a direção espiritual. Colocando nas mãos dum sábio colega a formação da sua alma, desde os primeiros passos do ministério, crescerão na consciência da importância de não caminharem sozinhos pelos caminhos da vida espiritual e do empenho pastoral. Para recorrer a este meio eficaz de formação, tão experimentado na Igreja, os presbíteros tenham plena liberdade na escolha da pessoa a quem confiar a direção da sua vida espiritual» [10].

 

76. Para resolver as questões pessoais e comunitária, é necessário recorrer ao conselho dos irmãos sacerdotes, sobretudo daqueles que devem exercê-lo pela missão a eles confiada, conforme a graça de estado, recordando que o primeiro «conselheiro» ou «diretor» é sempre o Espírito Santo, ao qual se deve recorrer com uma oração constante, humilde e confiante.

 

 

 

 

 

[1] JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, 40: o.c., 723.

 

[2] CONC. ECUM. VAT. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, 9.

 

[3] CONC. ECUM. VAT. II, Decr. Optatam totius, 3.

 

[4] Ibid., 8.

 

[5] JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis, 4: o.c., 663.

 

[6] Ibid., 40: o.c., 724-725.

 

[7] Ibid., 81: o.c., 799-800.

 

[8] CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros Dives Ecclesiæ (31 de Março de 1994), 54.

 

[9] CONC. ECUM. VAT. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, 18.

[10] CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros Dives Ecclesiæ, 54.

 


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