PASTORAL

CONFISSÃO:

O SACRAMENTO NEGLIGENCIADO

 

 

Edwin Gordon *

 

 

Há cinquenta anos, na minha paróquia da catedral em Inglaterra, havia quatro confessionários, com três ou quatro padres a ouvir confissões. Havia habitualmente longas filas fora de cada confessionário e, aos sábados, as confissões eram atendidas pela manhã, à tarde e à noite. Hoje, quando há, são poucas as confissões. O Vaticano II recomendou que os pastores devem encorajar os fiéis para a recepção frequente do sacramento, de modo que o Concílio não pode ser responsabilizado por este declínio. Se, em palavras de João Paulo II, "o penitente fica cara a cara com o seu Salvador crucificado no sacramento da reconciliação", podemos ter a certeza de que Satanás fará tudo o que puder para travar os fiéis de irem à confissão. O Papa Pio XII escreveu na sua encíclica Mystici Corporis: "os que menosprezam e fazem perder a estima pela confissão frequente ao clero jovem, saibam que fazem uma coisa contrária ao Espírito de Cristo e funestíssima ao corpo místico do Salvador".

Em 2008 o Papa Bento XVI disse: "Gostaria de falar sobre o sacramento da penitência, cuja prática tem diminuído gradualmente nos últimos 50 anos... devemos realmente reaprender este sacramento... por um lado, para reconhecer o pecado, e por outro, para a prática do perdão. A ausência generalizada de uma consciência do pecado é um fenómeno perturbador do nosso tempo". Foi um reconhecimento tácito de que o alerta do Papa Pio sobre os efeitos da diminuição da estima pela confissão frequente era muito oportuno e, infelizmente, acabou por ser muito profético.

 

Quais são então as razões para esse declínio, e o que se pode fazer para trazer de volta os fiéis a este sacramento da misericórdia e do perdão de Deus? A razão mais óbvia é a nossa sociedade materialista, que hoje tende a fazer que muitas pessoas esqueçam as coisas de Deus, ignorando o facto de que "o homem não vive só de pão". No entanto, existem outras razões.

Primeiro, a mais gritante delas é a falsa catequese que começou depois do Concílio Vaticano II – embora não por causa dele. Havia numerosos novos métodos de ensino, que deixaram de fora qualquer menção do pecado como uma ofensa contra Deus. Diziam-nos simplesmente que não ofendêssemos o amor, mas o conceito de amor que aprendemos era tão abstracto, tão espiritualizado que não víamos como o amor e a vida moral estavam relacionados. Nós não podíamos ver como o Decálogo e as Bem-aventuranças, por exemplo, eram actualmente manifestações de amor verdadeiro. Esta é uma maneira de esses novos ensinamentos darem origem a um cristianismo sem Cruz.

Depois, isto conduziu a uma religião diluída sem obrigações, mas apenas com sentimentos. O resultado deste diluído ensinamento da fé tem sido, por vezes, criar uma situação em que já não se pode perder a fé, pela simples razão de que as crianças e os jovens já não têm nada para perderem e, infelizmente, nada a que volverem: eles foram eficazmente vacinados contra a verdadeira visão da fé.

Outra razão para que a confissão tenha diminuído é, em parte, a prática da absolvição geral. Esta prática tem crescido para além da sua própria legitimidade, como o Papa Bento XVI escreveu recentemente: "Peço aos pastores que estejam vigilantes no que diz respeito à celebração do sacramento da reconciliação e que limitem a prática da absolvição geral exclusivamente aos casos permitidos, uma vez que a absolvição individual é a única forma legítima para o uso ordinário". Os bispos espanhóis, há alguns anos, publicaram uma carta pastoral conjunta em que afirmaram que as condições para a absolvição geral não existem em Espanha, e que essa absolvição seria não só ilícita, mas também inválida. Da mesma forma, os bispos portugueses proibiram a prática da absolvição geral em Portugal.

Em 2001, um avião viajava de Toronto para Lisboa, transportando peregrinos portugueses que estavam a trabalhar no Canadá, numa peregrinação a Fátima. Os motores pararam abruptamente no meio do Atlântico por causa da perda de combustível, e o piloto anunciou que teriam de fazer uma aterragem de emergência no mar. Os peregrinos portugueses começaram a rezar o Terço, e o avião planou sem energia durante vinte minutos, aterrando nos Açores, sem nenhuns ferimentos graves. Se estivesse um sacerdote a bordo, então teria existido a condição para a absolvição geral, embora permanecesse ainda a obrigação de confessar qualquer pecado grave na primeira oportunidade.

Muitas vezes têm confundido os fiéis as meias-verdades, tais como declarações de que não há necessidade de ir à confissão, excepto uma vez por ano, e somente se se tiver cometido um pecado mortal. Mas, na opinião dos moralistas liberais, um pecado mortal é praticamente impossível de cometer, por isso eles dizem que não há necessidade de ir à confissão. Nos últimos anos tem havido um declínio nos sermões sobre a importância da confissão frequente dos pecados veniais, ainda que o Magistério da Igreja tenha repetidamente sublinhado a importância da confissão frequente dos pecados veniais. Qualquer renovação da paróquia, que deixe de fora o sacramento da misericórdia e do perdão de Deus, é como meter papel nas fendas: a aparência externa é boa, mas os problemas subjacentes permanecem.

O Papa João XXIII disse que, desde a idade dos onze anos, ele ia à confissão semanal e que mesmo com 80 anos, e sendo Papa, ainda continuou com essa prática. Em Sacerdotii Nostri Primordia, ele declarou: "Nós condenamos a teoria de que a confissão frequente dos pecados veniais não é uma prática para ser muito valorizada. Pelo contrário, para um progresso rápido na virtude, é altamente recomendável a prática piedosa da confissão frequente, introduzida na Igreja sob a orientação do Espírito Santo". Da mesma forma, o Papa Paulo VI escreveu: "O recurso frequente e reverente a este sacramento, mesmo quando apenas há pecados veniais, é de grande valor", enquanto João Paulo II, num discurso aos bispos do Canadá, falou da "grande eficácia sobrenatural de um perseverante ministério exercido através da confissão auricular... assegurando ao nosso povo os grandes benefícios derivados da confissão frequente". Finalmente, em 7 de Março de 2006, o Papa Bento XVI, num discurso sobre questões de consciência, disse: "Se, além disso, mesmo quando se está motivado pelo desejo de seguir a Jesus, não se vai regularmente à confissão, arrisca-se gradualmente a afrouxar o seu ritmo espiritual, ao ponto de cada vez aumentar o enfraquecimento e, finalmente, talvez até esgotá-lo".

 

Além dos pontos acima referidos, há também o factor positivo de que a confissão é uma fonte de graça que nos ajuda a evitar o pecado no futuro e nos fortalece espiritualmente. Assim, ajuda-nos a resistir à tentação. É por isso que muitos santos iam à confissão diária – tal era a sua preocupação pela pureza e santidade. São Felipe de Neri e Santo Afonso de Ligório encorajaram ambos a confissão frequente, enquanto o Padre Pio tinha cinco regras para o progresso espiritual: confissão semanal, Comunhão diária, leitura espiritual, meditação e exame de consciência. Ele comparava a confissão semanal à limpeza do pó de um quarto, semanalmente.

Neste sacramento da misericórdia de Deus, o pecador não só recebe o perdão dos seus pecados, mas também a graça para vencer a tentação. Ao mesmo tempo, através da direcção espiritual, o penitente enfrenta as causas do pecado. Como Tanquerey, autor espiritual, observou, a confissão ajuda a erradicar as nossas inclinações profundas, além de melhorar o nosso temperamento e carácter e de ajudar a superar os nossos maus hábitos e tentações. Por meio da confissão, somos capazes de encontrar o remédio espiritual acertado e de chegar às raízes do mal.

Depois de dar aos fiéis a Sagrada Comunhão, a primeira prioridade de um sacerdote deve ser ouvir confissões. A disponibilidade para o confessionário devia ter precedência sobre outros assuntos, tais como reuniões e a sempre presente papelada que deve ser feita. Isto significa que devia haver tempos definidos para confissões numa paróquia, e não apenas o recurso a um sistema de marcações, o que pode dissuadir algumas pessoas por desejarem o anonimato no confessionário. Isto mesmo se aplica para a confissão cara-a-cara, que pode também tender a intimidar. Mas se este modo está disponível, então deve ser o penitente a escolhê-lo, em vez de ser forçado a uma confissão cara-a-cara contra a sua vontade.

Como disse João Paulo II da confissão, pouco antes de sua morte: "Todos os confessores têm a grande responsabilidade de exercer este ministério com benevolência, sabedoria e coragem. O seu dever é tornar amável e desejado este encontro, que nos purifica e renova no caminho para a perfeição cristã e na nossa peregrinação para a nossa casa eterna".

 

Então, quais são algumas possíveis soluções para o declínio da confissão?

O remédio mais fundamental é a restauração do sentido do pecado, que só se pode conseguir voltando a enfatizar que o pecado é uma ofensa contra Deus. Isto requer uma adequada catequese em sermões, homilias e pastorais – assim como nas escolas e na família – sobre a Paixão e sofrimentos do nosso Divino Salvador. São Pedro apresenta isso desta maneira: "Ele próprio carregou os nossos pecados no seu corpo na cruz, para que, livres do pecado, pudéssemos viver para a justiça" (1 Pe 2, 24). São Paulo – que tinha perseguido a Igreja de Deus e, depois, escutado a voz de Nosso Senhor no caminho para Damasco, que dizia: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues" (Act 9, 4) – veio a compreender plenamente o significado da misericórdia e do amor de Cristo. Ele só pôde gritar: "Eu vivo agora, não eu, mas Cristo vive em mim... Eu vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim" (Gal 2, 20). Esta catequese deve começar principalmente em casa. Às crianças pode-se dizer que o pecado fere Jesus; é bom dar a cada criança um pequeno crucifixo, que elas podem beijar ao levantarem-se de manhã e ao irem para a cama à noite. A ideia do sacrifício devia ser incentivada como um acto de amor por Jesus e também de reparação; ao mesmo tempo, devia haver um aumento de ênfase sobre os quatro novíssimos: morte, juízo, céu e inferno. O inferno é uma possibilidade para cada um de nós se morrer impenitente, e a morte pode chegar quando menos se espera.

O homem rico do Evangelho que construiu celeiros cada vez maiores para a recolha dos grãos a mais do seu campo, disse para si mesmo: "Come, bebe e sê feliz, pois tens muitos anos para gozar as tuas posses" – não percebendo que naquela mesma noite a sua alma lhe seria reclamada. Mas, apesar disso, e das aparências em contrário, nunca se deve esquecer que não há tal coisa como um caso "sem esperança". Mesmo aqueles que foram vacinados contra a fé ainda podem ser trazidos de volta mediante a misericórdia de Deus e uma intervenção divina; a ênfase sobre a misericórdia e o perdão de Deus, como se manifestou a Santa Faustina, pode trazer muitos de volta para a fé e para a recepção frequente dos sacramentos.

Nossa Senhora testemunhou o sofrimento e a morte do seu divino Filho, e é para ela que nos voltamos na oração mais frequente da Igreja: "Rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte". Ela, que foi concebida sem qualquer mancha do pecado original, é a única que nos pode ajudar a perceber a enormidade do pecado que crucificou o seu Filho divino. Ela é verdadeiramente a Mãe da misericórdia, que nos ajudará sempre a fazer uma boa e humilde confissão. Ou, melhor ainda, em palavras de São Bernardo:

"Quando a tempestade da tentação te assaltar,

Quando estiveres no meio dos rochedos e baixios da tribulação,

Fixa o teu olhar na Estrela do Mar,

Chama por Maria.

As vagas da cólera, da avareza, da luxúria, arremetem contra a tua alma?

Ergue os teus olhos para Maria.

A gravidade do teu pecado enche a tua alma de terror?

A tua triste consciência deita-te abaixo com vergonha?

Fixa o teu olhar na Estrela do Mar.

Chama por Maria".

 

 

 

 

 

 

 


Imprimir | Voltar atrás | Página Inicial