TEMAS LITÚRGICOS

OS HINOS DO EVANGELHO DE SÃO LUCAS

 

 

Miguel Ángel Tábet

Professor de Sagrada Escritura na

Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma)

 

 

 

Com o fim de se ter presente o sentido dos hinos do Magnificat, Benedictus e Nunc dimittis, quando são rezados habitualmente na Liturgia das Horas, oferecemos aos nossos leitores um comentário escriturístico do Prof. Pe. Miguel Ángel Tábet, tomado com a devida autorização de www.collationes.org

 

I . Os hinos na Bíblia

Os “hinos”, palavra de origem grega que nos LXX traduz a raiz halal, (forma piel) [1], apresentam-se na Sagrada Escritura como poemas, habitualmente cantados, que exprimem a admiração e o agradecimento pelas obras de Deus. Muitos deles entraram a formar parte do livro dos Salmos (Sal 33; 96-99; 104; 113-118, etc.). Estes hinos, ou narram as acções salvíficas concretas de Deus (hinos narrativos), ou louvam o seu modo habitual de agir sob impulsos da sua infinita misericórdia (hinos descritivos). Em geral, os hinos do Saltério apresentam-se com uma determinada estrutura: um invitatório; a narração ou descrição das perfeições de Deus reflectidas nas Suas obras (a verdade, a justiça, etc.); e uma conclusão, que exprime o louvor. Mas o género literário de “hino” não aparece somente no Saltério: encontramo-lo ao longo de toda a Bíblia, desde o Pentateuco (Dt 32), passando pelos Profetas anteriores (Jui 5; 1 Sam 2, 1-10; 2 Sam 22) e posteriores (Is 12, 1-6), segundo a terminologia hebraica, até chegar aos livros sapienciais (Job, Sir 39, 12-15; 42, 12-25; 51, 1-12), e aos livros do Novo Testamento, que, embora marcados por uma nova fé, não abandonam a estrutura nem o espírito que animava os hinos do Antigo Testamento: o movimento de louvor que exprimem, sem deixar de tender para Deus, detém-se em Cristo e dirige-se para Deus através d’ Ele.

Entre estes hinos neo-testamentários sobressaem os hinos do Evangelho de S. Lucas – o Magnificat (Lc 1, 46-55), o Benedictus (Lc 1, 68-79) e o Nunc dimitttis (Lc 2, 29-32) –, os mais antigos cânticos judio-cristãos palestinos, os hinos das cartas do cativeiro de S. Paulo [3], nas quais Cristo é considerado o centro de todo o desígnio salvífico de Deus (Flp 2, 6-11; Ef 1, 3-14; Col 1, 15-20), e o prólogo do Evangelho de S. João (Jo 1, 1-18), cume da composição de hinos do Novo Testamento. Vamos referir-nos aqui aos hinos do Evangelho de S. Lucas.

II . Os hinos do Evangelho de S. Lucas

1. O Magnificat (Lc 1, 46-55)

 

Sob o ponto de vista cristológico, os hinos do terceiro Evangelho [3] contemplam particularmente o cumprimento em Cristo dos desígnios misericordiosos da Yahvé previamente anunciados ao povo de Israel. É o que canta, em primeiro lugar, o Magnificat (Lc 1, 46-55), resposta de Maria, em forma de hino, ao mistério da graça de que tinha sido feita participante. O cântico recorda os salmos veterotestamentários, mas as suas estrofes possuem uma grande unidade de pensamento, misturando-se diversos temas que se coloram tenuemente com a tonalidade própria da nova economia da salvação: o louvor a Deus, o agradecimento pelas suas obras a favor dos humildes, o amor de Yahvé pelo seu povo e a constante fidelidade às suas promessas. O conjunto acomoda-se bem à situação de Maria, à sua esperança e disposição de ânimo depois do anúncio do Anjo Gabriel [4]. No hino não há ainda uma menção explícita de Cristo.

Maria, depois de ter cantado a misericórdia de Deus para com ela (vv. 46-50), manifesta um profundo sentimento de adoração, recordando o poder e a misericórdia de Deus como se revela na história (vv. 52-53), em particular sobre Israel, concluindo com estas palavras: “Acolheu a Israel seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre” (vv. 54-55). São palavras que celebram a solicitude de Deus pelo seu povo, fundada nas suas promessas de misericórdia. Estas foram sancionadas solenemente com um juramento feito a Abraão (Gen 22, 15-18). A solicitude de Deus exprime-se em termos de recordação: Deus não pode esquecer-se, não pode deixar de atender o que tinha prometido; ao prometer, empenhou-se duma vez para sempre. O cântico não precisa o objecto da promessa, mas esta, no contexto da história de Israel, não pode ser outra senão o envio do Messias, o último grande acto da história da salvação. O que Deus tinha prometido a Abraão e à sua descendência (Gen 12, 3; 22, 18), o que tinha prometido a David (2 Sam 7, 12-15), cumpre-se agora pela misericórdia e fidelidade de Deus. Pode-se falar duma incipiente cristologia mariológica, na qual a grande hora de Maria se une à grande hora do seu povo. Ela considera-se uma só coisa com o seu povo. A história da sua eleição une-se à história da salvação de Israel [5].

 

2. O Benedictus (Lc 1, 68-79) e o Nunc dimittis (Lc 2, 29-32)

 

O Benedictus (Lc 1, 68-79), palavra profética de Zacarias, transbordante do Espírito Santo perante o evento incrível do nascimento de João Baptista, expõe o tema cristológico desenvolvendo a sua fase de promessa e a sua dimensão soteriológica. O hino inicia-se (v. 68a) com uma doxologia comum aos Salmos (41, 14; 72, 18; 89, 53), mostrando assim as suas raízes no pensamento e linguagem veterotestamentária. O louvor, de facto, não se dirige como nas cartas paulinas a “Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 1, 3), mas ao “Senhor, Deus de Israel” (v. 68). Num longo período (vv. 68b-75) explica-se o porquê corresponde a Deus este louvor. O motivo compendia-se nos dois verbos que são utilizados: «visitar» (lit. «olhar do alto»), que indica uma intervenção divina, que neste caso é uma actuação libertadora, e «redimir», termo que sugere a libertação que Deus devia efectuar a favor do seu povo nos tempos messiânicos (cf. Sal 111, 9) [6]. Esta acção divina foi levada a cabo por meio de uma «força de salvação» (lit. «corno de salvação»: cf. Sal 18, 3) [7] que Deus suscitou na “casa de David, seu servo” (v. 69). O olhar profético de Zacarias dirige-se portanto ao Messias salvador, filho de David, que apresenta como já tendo vindo. Tudo acontece pela fidelidade de Deus às suas promessas, pronunciadas desde antigamente por meio dos santos profetas (vv. 70-72). Estas promessas são agora renovadas e encontram a sua realização definitiva em Jesus. Os vv. 71-75 descrevem com matizes ulteriores duas características da libertação trazida pelo Messias. Encontramo-nos na dimensão soteriológica da cristologia. Esta libertação é uma salvação dos inimigos, que na linguagem veterotestamentária é sinal da conversão do povo; e uma plena manifestação da misericórdia de Deus, que encontra no Messias o sinal escatológico da sua misericórdia, a maior mostra do seu amor paterno. Portanto, Deus empreendeu esta nova fase do seu desígnio salvífico por fidelidade às promessas feitas aos patriarcas, particularmente ao juramento que fez a Abraão (v. 73; cf. Gen 22, 16-18; 26,3; Sal 105, 8-10), e pela sua bondade paterna, que procura que os homens O sirvam sem temor em santidade e justiça (vv. 74-75). Neste contexto é indicada a missão profética de João (vv. 76-79): a de ser profeta e precursor, mestre e arauto, luz e guia; anunciando a vinda do Messias, convidando à penitência e à conversão, ensinando ao povo o verdadeiro conceito de salvação; uma salvação baseada na remissão dos pecados, portanto de carácter eminentemente religioso. Em suma, é manifestada a João a sua missão de ser pregoeiro dessa misericórdia de Deus que está por se revelar, como luz que emana de um “sol nascente desde o alto” (v. 78; cf. Is 60, 1-2; Zac 6, 12).

 

     O Nunc dimittis (Lc 2, 29-32), no seu breve conteúdo fortemente cristológico, destaca a nota soteriológica da universalidade, transcendendo o âmbito mais marcadamente israelítico dos hinos anteriores. É um cântico paralelo ao pronunciado por Zacarias depois do nascimento de João: num e noutro caso os discursos proféticos têm a função de iluminar o significado do recém nascido. Aqui trata-se de Jesus. A primeira parte do hino recorda a oração do justo hebreu na hora da morte; mas no caso de Simeão, a sua oração está sob o signo do cumprimento da história da salvação. Simeão, que se define – como já antes Maria – «servo» do Senhor, dirige-se a Deus com o termo despotês, no nominativo, que exprime a soberania absoluta e ilimitada de Deus. É a confissão de que Deus é o Senhor da história, que tudo rege e leva ao seu cumprimento. Simeão louva a Deus pelo dom que lhe foi concedido de ver o Messias. O fundamento último da sua fé e esperança é a palavra recebida: o que Deus tinha dito e prometido, o que Deus já fez – o que está a fazer –, confirma a sua palavra. O importante é que os seus olhos viram a salvação (to sôtêrion). O neutro sôtêrion aparece somente aqui e em Lc 3, 6, além de Act 28, 28; parece por isso aludir a Is 40,5 citado por Lc 3, 6: “Agora manifesta-se a glória do Senhor, todos os homens a verão”. Como sempre, é a salvação já anunciada e que de antemão tinha sido preparada. Essa salvação é luz que iluminará as gentes e glória para o povo de Israel (v. 32). Na expressão «luz para revelação das nações» encontram eco as palavras dos cânticos do Servo de Yahvé, tanto do primeiro: “Eu, Yahvé, chamei-te em justiça (…) e constituí-te mediador, luz das nações” (Is 42, 6); como do segundo: “constituí-te luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra” (Is 42, 6 ?). O símbolo da luz indica que à revelação se unirá a iluminação das mentes e dos corações para que os homens se abram com fé ao dom oferecido. Posto que esta salvação vem de Israel, a vinda do Messias constitui um motivo de glória, de honra para o povo eleito (cf. Is 60, 1-3). No Nunc dimittis, portanto, o universalismo da salvação constitui um motivo dominante; e na sua formulação é prelúdio do hino da carta aos Efésios.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[1] O termo grego hymnos significa «canto», «hino». O seu uso remonta a Homero. Não parece que na sua primitiva utilização indicasse uma forma métrica particular: em geral usava-se tanto para a forma cantada como para a recitada da poesia. Uma série de termos derivados surgirão em época tardia: hymnesis (recitação ou composição de hinos), hymnothétes (compositor de hinos), hymnagóres (cantor de hinos), etc. Nos LXX, o verbo aparece 71 vezes e o substantivo 28 vezes, traduzindo geralmente o termo hebraico halal. O objecto do hino é sempre Deus. Este termo falta desde Gen até 2 Re; pelo contrário, é frequente nos Salmos, com os significados de «louvar», «celebrar», «invocar». O uso continua no judaísmo helenístico e rabínico. No NT, o substantivo hymnos aparece somente em dois lugares (Ef 5, 19 e Col 3, 16), o verbo em três (Mc 14, 26 par; Act 16, 25; Heb 2, 12).

 

[2] Entre as cartas de S. Paulo, costuma distinguir-se desde a antiguidade um grupo chamado «cartas do cativeiro»: Efésios, Colossenses, Filipenses e Filémon. A autenticidade paulina dessas cartas goza de uma tradição unânime. Segundo a opinião mais comum, essas cartas foram escritas durante a primeira prisão de Paulo em Roma (anos 61-63), no fim desse período. Não faltam, porém, aqueles que situam a carta aos Filipenses durante a prisão de Éfeso, alguns anos antes. Em qualquer das hipóteses, pode-se afirmar que a carta aos Filipenses foi escrita anteriormente à dirigida aos Colossenses e aos Efésios. Entre estas duas últimas, a dos Colossenses é pouco anterior à dos Efésios.

 

[3] Uma bibliografia quase exaustiva sobres estes hinos até 1990, em S. MUÑOZ IGLESIAS, Los Evangelios de la Infancia, I, Los cânticos del Evangelio de la infancia según San Lucas, BAC, Madrid 1990.

 

[4] Cf. J. ERNST, Il vangelo secondo Luca, Morcelliana, Brescia 1985, 112.

 

[5] Cf. ibidem, 117-118.

 

[6] Sobre o uso deste verbo no NT, cf. artigo de W. MUNDLE, lytron, DCBNT 1507-1511.

 

[7] Sobre o «corno» como símbolo da força, cf. Deut 33, 17; 1 Sam 2, 10; Sal 89, 18; 148, 14. O sentido messiânico da expressão encontra-se também numa das «Dezóito bênçãos» hebraicas, que diz: “Faz que surja em breve a vergôntea de David e o seu corno se eleve com a tua ajuda. Bendito seja Yahvé que faz germinar o corno do auxílio” (cf. STRACK-BILLERBECK IV, 1, 21).

 

 

 

 

 

 


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