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«SANTO SÚBITO!»

 

 

Hugo de Azevedo

 

 

Num grande encontro de S. Josemaria em S. Paulo, em 1974, alguém lhe perguntou: - «Padre, como é que o Brasil, que é a nação mais católica do mundo (quantitativamente, entendia-se), ainda não tem um santo?» De facto, só em 2007 foi canonizado Frei Galvão. E o Fundador do Opus Dei respondeu imediatamente: - «Não te preocupes, meu filho! Há muitos santos em S. Paulo!»

A sua mensagem do chamamento universal à santidade – radicada desde sempre no Evangelho e confirmada solenemente no Vaticano II, mas esquecida da maior parte dos cristãos e até dos sábios em espiritualidade – não consiste apenas em afirmar que a vida comum dos fiéis pode e deve ser caminho de santificação; vem recordar também que o Espírito Santo não esperou pelo Opus Dei nem pelo Vaticano II para conduzir à plena união com Cristo e à plenitude da caridade milhares e milhares de almas ao longo dos séculos, dentro e fora do matrimónio, sãos e doentes, de quaisquer profissões. Simplesmente, nem reparamos neles, nem eles se crêem santos… Mesmo quando dizemos «a minha mãe é uma santa», ou «aquele homem é um santo», não pensamos que realmente o sejam no sentido teológico da palavra. E, no entanto, é muito possível que aquela alma tenha atingido um grau de amor a Deus e ao próximo igual ao dos que subiram aos altares.

Há muitos santos no mundo; há muitos santos em Portugal. Que o digamos nós, sacerdotes, de tantos que se ajoelham aos nossos pés – contritos, humilíssimos – e nos dão vontade de ajoelhar aos pés deles!

Volto a recordar S. Josemaria, comovido com os peregrinos que via caminhar para Fátima: - «Quanta fé! Quanta fé! Deus vos abençoe pelo amor que tendes a sua Mãe!» Quanta fé, quanta caridade, quanto esquecimento próprio, quanto espírito de sacrifício, quanta piedade, quanta confiança em Deus! Há muitos santos, e ai de nós se não os houvesse! Com defeitos? Certamente, mas empenhados sinceramente em rectificar, em lutar por ser melhores… Ora isso é que é santidade, com já dizia, por exemplo, S. Bernardo: «Jugis conatus perfectionis perfectio reputatur» - a perfeição consiste no empenho constante da perfeição; ou S. Francisco de Sales: «Há uma perfeição impossível aos mais perfeitos, a perfeição na conduta; e uma perfeição acessível aos mais imperfeitos, a perfeição do coração».

«Santo súbito!» Santo já! Pedia a multidão no funeral de João Paulo II. Queriam dizer que fosse canonizado imediatamente, por aclamação; e muito bem fez a Santa Sé em documentar devidamente as virtudes heróicas do grande Papa. Mas pode dizer-se que há uma santidade instantânea, «súbita», e que Nosso Senhor a revelou no Evangelho, na parábola do fariseu e o publicano. O fariseu era perfeito e mais-que-perfeito, pois cumpria ainda mais do que exigia a Lei; o publicano, não, coitado, mas não se comparava com ninguém; apenas com o que devia a Deus: - «Tem piedade de mim, pecador!» E «voltou justificado». Naquele momento era santo. Talvez daí a pouco fraquejasse... Mas, se voltasse à contrição, ao sincero desejo de conversão, de amor, voltaria a sê-lo. E, afinal, a verdadeira santidade é essa: a vontade actual de evitar o pecado e cumprir a vontade de Deus. Porque as heroicidades passadas, passadas são; e as faltas passadas também; o decisivo é o agora, cada momento, recomeçando constantemente a amar e servir a Deus e ao próximo por amor de Deus.

 

 

 

 


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