OPINIÃO

CASAR-SE OU JUNTAR-SE?

 

 

Rodrigo Lynce de Faria

 

 

Perguntei-lhes se alguma vez tinham pensado em casar-se. Olharam para mim admirados. Então ele, com um sorriso de quem perdoa uma pergunta tão ingénua, tomou a iniciativa de responder. «Casar-se? Para quê? Já nos amamos e isso é o importante. Que sentido tem uma cerimónia exterior que não acrescentará nada ao nosso amor? Queremos um amor genuíno! Queremos um amor livre! Queremos um amor sem nenhum tipo de coacção! Este modo de actuar parece-nos muito mais sincero. Não necessitamos de nenhum tipo de ataduras, que cortariam as asas da nossa liberdade». Ela concordava com a cabeça. Todo o raciocínio do namorado lhe parecia lógico. Não havia fissuras na sua argumentação.

 

À primeira vista, parece que o casamento significa uma perda de liberdade. Se uma pessoa decide casar-se, perde a capacidade de voltar a fazê-lo no futuro. Se a liberdade se entende somente como capacidade de escolha, sem dúvida que o casamento significa a perda dessa capacidade. Mas será que a liberdade é somente isso?

 

Hoje em dia, o casamento é muitas vezes visto como uma realidade oficial, formal e sem muito valor. Um convencionalismo antiquado. Uma instituição que acorrenta com elementos objectivos e escravizantes uma relação subjectiva e livre. A liberdade fica atada e obrigada no futuro. Não parece sensato introduzir elementos coactivos numa relação livre, introduzir elementos objectivos numa relação subjectiva.

 

É uma visão simplista. Assim como a noz não é somente a sua casca, o casamento não é somente a sua cerimónia exterior. O casamento é um vínculo que se cria a partir da livre vontade daqueles que se casam. O “sim” que pronunciam transforma-os, porque é um “sim” que compromete. A partir desse “sim”, o futuro fica determinado pelo “tu”. Quem ama de verdade não deseja ser nem viver sem aquele que ama. Não deseja um futuro sem o outro – seria um futuro sem sentido, também para a liberdade do “eu”.

 

Quem ama de verdade deseja a fusão, deseja um “nós” em lugar do “eu” e do “tu”. Deseja o compromisso que é o que dá origem ao “nós” – um compromisso que não somente não tira a liberdade, mas liberta. Liberta o “nós” dos perigos do egoísmo e do orgulho. A eternidade no amor não pode vir da mera atracção mútua, nem do simples enamoramento afectivo, nem dos sentimentos românticos – por muito sinceros que eles sejam. A eternidade no amor só pode vir da liberdade que não teme comprometer-se sem condições.

 

Como diz J. Manglano, juntar-se não é a mesma coisa que casar-se. Juntar-se não muda o “eu” – muda somente as circunstâncias em que o “eu” vive. Pelo contrário, casar-se – comprometer-se de verdade – transforma o “eu” e nasce o “nós”. Um “nós” que será capaz de gerar vida e que cuidará dessa vida. Um “nós” que resistirá às intempéries – porque está protegido pela liberdade responsável daqueles que se amam de verdade.

 


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