DOCUMENTAÇÃO

BENTO XVI

 

VIAGEM APOSTÓLICA À CROÁCIA

 

De 4 a 5 de Maio passado, o Santo Padre realizou a sua Viagem Apostólica à Croácia. Oferecemos aos nossos leitores o comentário que o próprio Papa fez na audiência geral da quarta-feira seguinte (8-VI-2011).

 

 

Estimados irmãos e irmãs

 

Hoje gostaria de vos falar da Visita pastoral à Croácia, que fiz no sábado e domingo passados. Uma Viagem apostólica breve, realizada inteiramente na capital de Zagreb, e no entanto rica de encontros e sobretudo de intenso espírito de fé, dado que os Croatas são um povo profundamente católico. Renovo o meu mais sentido agradecimento ao Cardeal Bozanić, Arcebispo de Zagreb, ao Mons. Srakić, Presidente da Conferência Episcopal, e aos outros Bispos da Croácia, assim como ao Presidente da República, pela calorosa recepção que me reservaram. Dirijo o meu reconhecimento a todas as Autoridades civis e a quantos colaboraram de vários modos para este acontecimento, de modo especial às pessoas que ofereceram orações e sacrifícios por esta intenção.

«Juntos em Cristo»: este foi o lema da minha Visita. Ele exprime antes de mais a experiência de se encontrarem todos unidos em nome de Cristo, a experiência de ser Igreja, manifestada pela reunião do Povo de Deus em volta do Sucessor de Pedro. Mas neste caso, «Juntos em Cristo» tinha uma referência particular à família: com efeito, a ocasião principal da minha Visita foi a I Jornada nacional das famílias católicas croatas, culminada na Concelebração eucarística na manhã do domingo, que contou com a participação, na área do hipódromo de Zagreb, de uma grande multidão de fiéis. Para mim foi muito importante confirmar na fé sobretudo as famílias, que o Concílio Vaticano II chamou «igrejas domésticas» (cf. Lumen gentium, 11). O Beato João Paulo II, que visitou por três vezes a Croácia, deu grande relevo ao papel da família na Igreja; assim, com esta viagem eu quis dar continuidade a este aspecto do seu Magistério. Na Europa de hoje, as Nações de sólida tradição cristã têm uma responsabilidade especial na defesa e na promoção do valor da família fundada no matrimónio, que de qualquer modo permanece decisiva tanto no campo educativo como no social. Portanto, esta mensagem tinha uma relevância particular para a Croácia que, rica do seu património espiritual, ético e cultural, se prepara para entrar na União Europeia.

A Santa Missa foi celebrada no peculiar clima espiritual da novena do Pentecostes. Como num grande «cenáculo» ao ar livre, as famílias croatas reuniram-se em oração, invocando juntas o dom do Espírito Santo. Isto permitiu-me sublinhar o dom e o compromisso da comunhão na Igreja, assim como encorajar os cônjuges na sua missão. Nos nossos dias, enquanto infelizmente se constata o multiplicar-se das separações e dos divórcios, a fidelidade dos cônjuges tornou-se por si própria um testemunho significativo do amor de Cristo, que permite viver o Matrimónio por aquilo que é, ou seja, a união de um homem e de uma mulher que, com a graça de Cristo, se amam e se ajudam durante a vida inteira, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. A primeira educação para a fé consiste precisamente no testemunho desta fidelidade ao pacto conjugal: dela os filhos aprendem sem palavras que Deus é amor fiel, paciente, respeitador e generoso. A fé no Deus que é Amor transmite-se antes de mais com o testemunho de uma fidelidade ao amor conjugal, que se traduz naturalmente em amor pelos filhos, fruto desta união. Mas tal fidelidade não é possível sem a graça de Deus, sem o sustento da fé e do Espírito Santo. Eis por que motivo a Virgem Maria não cessa de interceder junto do seu Filho a fim de que – como nas bodas de Caná – renove continuamente aos cônjuges o dom do «vinho bom», ou seja, da sua Graça, que permite viver «numa só carne» nas várias fases e situações de vida.

Neste contexto de grande atenção à família inseriu-se muito bem a Vigília com os jovens, realizada na tarde de sábado na praça Jelačić, coração da cidade de Zagreb. Ali pude encontrar-me com a nova geração croata, e senti toda a força da sua fé jovem, animada por um grandioso impulso rumo à vida e ao seu significado, rumo ao bem e à liberdade, ou seja, rumo a Deus. Foi bonito e comovedor ouvir estes jovens cantarem com alegria e entusiasmo, e depois, no momento da escuta e da oração, recolherem-se em profundo silêncio! Eu repeti-lhes a pergunta que Jesus dirigiu aos seus primeiros discípulos: «Que procurais?» (Jo 1, 38); mas disse-lhes que Deus os procura primeiro e mais do que eles próprios O procuram. Esta é a alegria da fé: descobrir que Deus nos ama primeiro! É uma descoberta que nos mantém sempre discípulos e, portanto, sempre jovens no espírito! Este mistério, durante a Vigília, foi vivido na prece de adoração eucarística: no silêncio, o nosso estar «juntos em Cristo» encontrou a sua plenitude. Assim, o meu convite a seguir Jesus constituiu um eco da Palavra que Ele mesmo dirigia ao coração dos jovens.

 

Outro momento que podemos dizer de «cenáculo» foi a Celebração das Vésperas na Catedral, com os Bispos, os sacerdotes, os religiosos e os jovens em formação nos Seminários e nos Noviciados. Também aí, de maneira particular, pudemos experimentar o nosso ser «família» como comunidade eclesial. Na Catedral de Zagreb encontra-se o túmulo monumental do Beato Cardeal Alojzije Stepinac, Bispo e Mártir. Em nome de Cristo, ele opôs-se com coragem primeiro aos abusos do nazismo e do fascismo e, depois, aos do regime comunista. Foi preso e confinado na sua aldeia natal. Criado Cardeal pelo Papa Pio XII, faleceu em 1960 devido a uma doença contraída no cárcere. À luz do seu testemunho, encorajei os Bispos e os presbíteros no seu ministério, exortando-os à comunhão e ao impulso apostólico; voltei a propor aos consagrados a beleza e a radicalidade da sua forma de vida; convidei os seminaristas, os noviços e as noviças a seguirem com alegria Cristo que os chamou pelo nome. Este momento de oração, enriquecido pela presença de muitos irmãos e irmãs que dedicaram a vida ao Senhor, foi para mim de grande conforto, e rezo a fim de que as famílias croatas sejam sempre terreno fértil para o nascimento de numerosas e santas vocações ao serviço do Reino de Deus.

Muito significativo foi também o Encontro com representantes da sociedade civil, do mundo político, académico, cultural e empresarial, com o Corpo Diplomático e com os Chefes religiosos, reunidos no Teatro Nacional de Zagreb. Naquele contexto, tive a alegria de prestar homenagem à grande tradição cultural croata, inseparável da sua história de fé e da presença viva da Igreja, ao longo dos séculos promotora de múltiplas instituições e sobretudo formadora de ilustres investigadores da verdade e do bem comum. Entre eles, recordei de modo particular o sacerdote jesuíta Ruđer Bošković, grande cientista cujo terceiro centenário do nascimento se celebra este ano. Mais uma vez pareceu-nos evidente a todos a mais profunda vocação da Europa, que é a de conservar e renovar um humanismo com raízes cristãs, e que se pode definir «católico», ou seja, universal e integral. Um humanismo que põe no centro a consciência do homem, a sua abertura transcendente e ao mesmo tempo a sua realidade histórica, capaz de inspirar programas políticos diversificados mas convergentes para a construção de uma democracia substancial, fundada nos valores éticos radicados na própria natureza humana. Olhar para a Europa do ponto de vista de uma Nação de antiga e sólida tradição cristã, que faz parte integrante da civilização europeia, enquanto se prepara para entrar na União política, fez sentir novamente a urgência do desafio que hoje interpela os povos deste Continente: ou seja, o de não ter medo de Deus, do Deus de Jesus Cristo, que é Amor e Verdade, e que nada tira à liberdade, mas restitui-a a si mesma e confere-lhe o horizonte de uma esperança confiável.

Queridos amigos, todas vezes que o Sucessor de Pedro realiza uma Viagem apostólica, todo o corpo eclesial participa de certo modo do dinamismo de comunhão e missão, que é próprio do seu ministério. Agradeço a todos aqueles que me acompanharam e sustentaram com a oração, permitindo que a minha Visita pastoral se realizasse de maneira excelente. Agora, enquanto agradecemos ao Senhor por esta grandiosa dádiva, peçamos-lhe por intercessão da Virgem Maria, Rainha dos Croatas, que quanto pude semear dê frutos abundantes para as famílias croatas, para toda a Nação e para a Europa inteira.

 


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