TEMAS LITÚRGICOS

DA LITURGIA ANTIGA, UMA PONTE PARA O ECUMENISMO

 

Cardeal Kurt Koch

 

 

Realizou-se no passado dia 14 de Maio, na Universidade Pontifícia de S. Tomás de Aquino (Roma), o III Congresso sobre o motu proprio “Summorum Pontificum” de Bento XVI, no qual participaram entre outros o Cardeal Antonio Cañizares, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, e o Cardeal Kurt Koch, Presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

Oferecemos aos nossos leitores o excerto da conferência do Cardeal suíço Kurt Koch, publicado pelo “L’Osservatore Romano”, ed. port., 21-V-2011, que mostra a orientação que o Santo Padre deseja dar à reforma litúrgica. O título do Congresso era “Uma esperança para toda a Igreja”.

Ver também, na mesma linha, a entrevista ao Cardeal espanhol Antonio Cañizares, publicada em “Celebração Litúrgica”, 2010/2011, 3, pp. 711-714.

Subtítulos da Redacção de CL.

 

O sentido da reforma da liturgia

“A reforma da liturgia não pode ser uma revolução. Ela deve tentar apreender o verdadeiro sentido e a estrutura fundamental dos ritos transmitidos pela tradição e, valorizando prudentemente o que já está presente, deve isto desenvolver ulteriormente de modo orgânico, indo ao encontro das exigências pastorais de uma liturgia vital”. Com estas palavras luminosas, o grande liturgista Josef Andreas Jungmann comentou o artigo 23 da Constituição sobre a sagrada liturgia do Concílio Vaticano II, onde são indicados os princípios que “devem servir de critério para toda a reforma litúrgica” e sobre os quais Jungmann disse: “São os mesmos que foram seguidos por todos aqueles que com acuidade pediram a renovação litúrgica”.

Pelo contrário, o liturgista Emil Lengeling afirmou que a Constituição do Concílio Vaticano II assinalou “o fim da Idade Média na liturgia” e realizou “uma revolução copernicana na compreensão e na prática litúrgica”.

Aqui estão mencionadas as duas faces interpretativas opostas, que constituem o ponto crucial da controvérsia desenvolvida em torno da liturgia depois do Concílio Vaticano II: a reforma litúrgica pós-conciliar deve ser tomada à letra e entendida como “re-forma” no sentido de um retorno à forma originária e, portanto, como ulterior fase no interior de um desenvolvimento orgânico da liturgia, ou esta reforma é entendida como uma ruptura com toda a tradição da liturgia católica e até a ruptura mais evidente que o Concílio tenha realizado, isto é, como a criação de uma nova forma?

O facto de que os padres conciliares entendessem a reforma somente no sentido da primeira afirmação foi aprofundadamente mostrado por Alcuin Reid. Todavia, em amplos círculos no interior da Igreja católica, impôs-se cada vez mais a segunda interpretação, que vê na reforma litúrgica uma ruptura radical com a tradição e pretende mesmo promovê-la. Este desenvolvimento conduziu, na compreensão e na prática litúrgica, a novos dualismos.

É certo que o motu proprio poderá dar passos avante no ecumenismo somente se as duas formas do único rito romano nele mencionadas, ou sejam, a forma ordinária de 1970 e a extraordinária de 1962, não forem consideradas como uma antítese, mas como um mútuo enriquecimento. Porque o problema ecuménico reside nesta fundamental questão hermenêutica.

Um primeiro dualismo afirma que, antes do Concílio, a Santa Missa era entendida sobretudo como sacrifício e que, depois do Concílio, ela foi redescoberta como ceia comum. No passado, naturalmente falou-se da Eucaristia como de um “sacrifício da Missa”. Hoje, porém, este aspecto não somente é menos conhecido, mas foi até mesmo deixado de lado ou simplesmente esquecido.

Nenhuma dimensão do mistério eucarístico se tornou tão contestada depois do Concílio Vaticano II como a definição da Eucaristia como sacrifício, quer como sacrifício de Jesus Cristo, quer como sacrifício da Igreja, ao ponto que é de temer que um conteúdo fundamental da fé eucarística católica possa acabar completamente no esquecimento. Contra tal dualismo, o Catecismo da Igreja Católica mantém unido o que é indivisível: “A Missa é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o memorial sacrificial em que se perpetua o sacrifício da Cruz e o banquete sagrado da comunhão no Corpo e Sangue do Senhor” (n. 1382).

Um segundo dualismo, em torno do qual tende a polarizar-se a visão de uma liturgia pré-conciliar e de uma liturgia pós-conciliar, sustenta que, antes do Concílio, somente o sacerdote era o sujeito da liturgia, enquanto que, depois do Concílio, a assembleia foi elevada ao papel de honra de sujeito da celebração litúrgica.

Certamente é indiscutível que, no curso da história, o papel originário de todos os fiéis como co-sujeitos da liturgia foi pouco a pouco diminuindo e o ofício divino comunitário da Igreja primitiva, no sentido de uma liturgia que via a inteira comunidade participante, foi assumindo cada vez mais o carácter de uma Missa privada do clero. A existência de uma continuidade de fundo entre a liturgia antiga e a reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II transparece da ampla e aprofundada visão da Constituição litúrgica, segundo a qual o culto público e integral é exercido “pelo Corpo Místico de Jesus Cristo, isto é, pela Cabeça e seus membros” e toda a celebração litúrgica deve ser portanto considerada como “obra de Cristo Sacerdote e do seu corpo, que é a Igreja”. O Catecismo acrescenta depois: “alguns fiéis são ordenados mediante o sacramento da Ordem para representarem Cristo como Cabeça do Corpo”.

A liturgia antiga e a liturgia pós-conciliar

À luz do primado cristológico deveria ser evidente que a liturgia cristã encontra o seu sentido mais profundo na glorificação e na adoração do Deus Trino e, portanto, na santificação dos homens. Também esta dimensão fundamental da liturgia se tornou vítima de um ulterior dualismo no período pós-conciliar, ou seja, foi cada vez mais absorvida pelo conceito de participação [na Missa]. Aqui trata-se, porém, de uma falsa contraposição. Nós podemos e devemos comer o alimento eucarístico também com os olhos e penetrar assim no mistério eucarístico, a fim de que depois este se nos revele plenamente no comer o Corpo do Senhor e no beber o seu Sangue. O próprio Santo Agostinho gostava de sublinhar que ninguém deve comer “desta carne” se antes não a adorou: “Nemo autem illam carnem manducat, nisi prius adoravit”.

Entre a liturgia antiga e a reforma litúrgica pós-conciliar não há ruptura radical, mas uma continuidade de fundo. Somente à luz desta convicção é possível compreender o motu proprio “Summorum Pontificum” do Papa Bento XVI. Com efeito, o Santo Padre não entende a história litúrgica como uma série de rupturas, mas como um processo orgânico de crescimento, de amadurecimento e de auto-purificação, no qual, naturalmente, se podem verificar desenvolvimentos e progressos, sem que continuidade e identidade sejam destruídas. Para o Papa, portanto, não pode haver uma contraposição entre a liturgia de 1962 e a liturgia reformada pós-conciliar.

Em contraste com esta clara visão de desenvolvimento orgânico, a reforma litúrgica pós-conciliar é considerada em amplos círculos da Igreja católica como uma ruptura com a tradição e como uma nova criação; isto gerou uma controvérsia sobre a liturgia que, vivida emocionalmente, continua ainda hoje a fazer-se sentir. Com o motu proprio “Summorum Pontificum”, o Papa Bento XVI quis contribuir à resolução de tal disputa e à reconciliação no interior da Igreja. De facto, o motu proprio promove, se assim se pode dizer, um “ecumenismo intra-católico”. Mas isto pressupõe que a liturgia antiga seja entendida também como uma “ponte ecuménica”. Com efeito, se o ecumenismo intra-católico falha, a controvérsia católica sobre a liturgia estender-se-á também ao ecumenismo e a liturgia antiga não poderá desempenhar a sua função ecuménica de construtora de pontes.

Também, se o motu proprio quer favorecer a paz intra-eclesial, não seria justo ver nele somente uma concessão aos católicos que propendem para a liturgia antiga, como a Fraternidade Sacerdotal de São Pedro ou os seguidores do arcebispo Marcel Lefebvre. O Papa Bento XVI está antes convencido de que a forma extraordinária do rito romano é um património precioso que não deve ser relegado para o passado, mas que deve ser acessível também no presente e no futuro, como sublinhou na carta que acompanhava o motu proprio: “O que para as gerações anteriores era sagrado, também para nós permanece sagrado e grande, e não pode ser improvisadamente proibido por completo ou, mesmo, julgado prejudicial. Faz-nos bem a todos conservar as riquezas que cresceram na fé e na oração da Igreja, e dar-lhes o justo lugar”.

Isto revela claramente qual é a intenção que anima o motu proprio. O Papa pensa que hoje é indispensável um novo movimento litúrgico, que no passado ele definiu como uma “reforma da reforma” da liturgia. O Santo Padre, de facto, é de parecer que a reforma litúrgica pós-conciliar trouxe muitos frutos positivos, mas que os desenvolvimentos litúrgicos do pós-Concílio apresentam também muitas zonas de sombra, devidas em grande parte ao facto de que “não se teve suficientemente presente o conceito de mistério pascal do Concílio”. “Deteve-se demasiado em aspectos puramente práticos, correndo o risco de perder de vista o essencial”.

Eis por que é licito perguntar-se, de modo crítico, se na reforma litúrgica pós-conciliar foram deveras realizados todos os desejos dos padres conciliares, ou se, sob diversos aspectos, as afirmações fundamentais da Constituição sobre a sagrada liturgia não foram cumpridas ou mesmo se, nos desenvolvimentos litúrgicos do pós-Concílio se foi intencionalmente para além de tais afirmações. Que seja não só legítimo mas também apropriado fazer uma distinção entre a Constituição sobre a sagrada liturgia, a reforma litúrgica pós-conciliar e os sucessivos desenvolvimentos litúrgicos está já provado pelo facto de que precisamente os teólogos que se tinham empenhado no movimento litúrgico ou que tinham participado nos trabalhos do Concílio se tornaram depressa críticos sérios dos desenvolvimentos litúrgicos pós-conciliares.

Um novo movimento litúrgico

Daqui transparece também o sentido mais profundo da “reforma da reforma” iniciada pelo Papa Bento XVI com o motu proprio: assim como o Concílio Vaticano II foi precedido por um movimento litúrgico, cujos frutos maduros foram levados para dentro da Constituição sobre a sagrada liturgia, também hoje há necessidade de um novo movimento litúrgico, que se proponha como objectivo o de fazer frutificar o verdadeiro património do Concílio Vaticano II na actual situação da Igreja, consolidando ao mesmo tempo os fundamentos teológicos da liturgia. Para fazer isto é necessário não somente a revitalização do primado cristológico, da dimensão cósmica e do carácter latrêutico da liturgia, mas também e sobretudo a redescoberta do significado basilar do mistério pascal na celebração da liturgia cristã.

Deste novo movimento litúrgico, o motu proprio constitui somente o início. Com efeito, Bento XVI bem sabe que, a longo prazo, não podemos deter-nos numa coexistência entre a forma ordinária e a forma extraordinária do rito romano, mas que a Igreja terá novamente necessidade no futuro de um rito comum. Todavia, porque uma nova reforma litúrgica não pode ser decidida no gabinete, mas requer um processo de crescimento e de purificação, de momento o Papa sublinha sobretudo que as duas formas do uso do rito romano podem e devem enriquecer-se mutuamente.

Ele indica também como “na celebração da Missa segundo o missal de Paulo VI poderá manifestar-se, de maneira mais forte do que é frequentemente até agora, aquela sacralidade que atrai muitos ao antigo uso. A garantia mais segura de que o missal de Paulo VI possa unir as comunidades paroquiais e seja por elas amado consiste em celebrar com grande reverência em conformidade com as prescrições, o que torna visível a riqueza espiritual e a profundidade teológica deste missal”.

Aqueles que, pelo contrário, refutam o postulado de um novo movimento litúrgico e vêem no motu proprio um passo atrás em relação ao Vaticano II, verosimilmente entendem a reforma litúrgica pós-conciliar como um ponto de chegada, que é defendido com todas as forças, segundo o rígido conservadorismo de muitos progressistas. Esses não somente não consideram os desenvolvimentos históricos da liturgia como um processo orgânico de crescimento e de amadurecimento, mas rejeitam também a hermenêutica da reforma solicitada por Bento XVI para a interpretação do Vaticano II. Preferem, de facto, sustentar a hermenêutica da descontinuidade e da ruptura, considerada inadequada pelo Papa, aplicando-a, sobretudo, ao campo da liturgia e do ecumenismo.

Também o Decreto sobre o ecumenismo assinalou, de facto, um novo início nas relações entre a Igreja católica e as Igrejas e Comunidades eclesiais não católicas. Mas nem mesmo esta nova viragem ecuménica implicou uma ruptura com a tradição; ela inscreve-se antes numa continuidade de fundo com a tradição, como mostra o simples facto de que não seria nunca possível se no período pré-conciliar não estivessem já presentes impulsos ecuménicos, pelo menos no seu estado embrionário, também no interior da Igreja católica.

Aflora, assim, a real importância ecuménica do motu proprio “Summorum Pontificum”: porque Bento XVI não aplicou simplesmente a hermenêutica da reforma ao campo da liturgia, mas solicitou esta hermenêutica, em primeiro lugar, justamente para a Constituição conciliar sobre a sagrada liturgia. É precisamente neste campo que aparecem com clareza os dois diversos tipos de hermenêutica que podem ser seguidos: a hermenêutica da reforma, que certamente toma consciência de desenvolvimentos e progressos, mas que vê uma continuidade de fundo com a tradição; ou a hermenêutica da descontinuidade e da ruptura, que contrapõe a liturgia, e portanto também a Igreja, pré-conciliar à liturgia e Igreja pós-conciliar, e rompe o ligame com a tradição. Precisamente nesta alternativa reside a questão fundamental para o futuro da Igreja católica e, ao mesmo tempo, para a credibilidade do seu ecumenismo. Também neste sentido o motu proprio “Summorum Pontificum” revela-se importante a nível ecuménico; ou melhor: o motu proprio pode tornar-se uma ponte ecuménica verdadeiramente sólida somente se ele é, antes de mais, percebido e recebido como “uma esperança para toda a Igreja”.

 

 

 

 


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