A PALAVRA DO PAPA

O VALOR PEDAGÓGICO DA CONFISSÃO SACRAMENTAL *

 

 

Prezados amigos

 

Estou muito feliz por dirigir as minhas cordiais boas-vindas a cada um de vós. Saúdo o Cardeal Fortunato Baldelli, Penitenciário-Mor, e agradeço-lhe as amáveis palavras que me dirigiu. Saúdo o Regente da Penitenciaria, Mons. Gianfranco Girotti, os funcionários, os colaboradores e todos os participantes no Curso sobre o Foro Interno, que já se tornou um encontro tradicional e uma importante ocasião para aprofundar os temas relativos ao Sacramento da Penitência.

Desejo meditar convosco sobre um aspecto às vezes não suficientemente considerado, mas de grande relevância espiritual e pastoral: o valor pedagógico da Confissão sacramental. Se é verdade que é sempre necessário salvaguardar a objectividade dos efeitos do Sacramento e a sua correcta celebração segundo as normas do Rito da Penitência, não é inoportuno reflectir sobre quanto isso pode educar a fé, tanto do ministro como do penitente. A disponibilidade fiel e generosa dos sacerdotes para ouvir as confissões, segundo o exemplo dos grandes Santos da história, de São João Maria Vianney a São João Bosco, de São Josemaria Escrivá a São Pio de Pietrelcina, de São José Cafasso a São Leopoldo Mandić, indica-nos a todos como o confessionário pode ser um «lugar» real de santificação.

 

De que modo o Sacramento da Penitência educa? Em que sentido a sua celebração tem um valor pedagógico, em primeiro lugar para os ministros? Poderíamos partir do reconhecimento de que a missão sacerdotal constitui um ponto de observação único e privilegiado, do qual, quotidianamente, nos é concedido contemplar o esplendor da Misericórdia divina. Quantas vezes, na celebração do Sacramento da Penitência, o sacerdote assiste a verdadeiros e próprios milagres de conversão que, renovando o «encontro com um acontecimento, com uma Pessoa» (Carta Encíclica Deus caritas est, 1), fortalecem a sua própria fé. No fundo, confessar significa assistir a tantas «professiones fidei» quantos são os penitentes, e contemplar a acção de Deus misericordioso na história, tocar com a mão os efeitos salvíficos da Cruz e da Ressurreição de Cristo, em todo o tempo e para todo o homem. Não raramente somos postos diante de verdadeiros e próprios dramas existenciais e espirituais, que não encontram resposta nas palavras dos homens, mas são abraçados e assumidos pelo Amor divino, que perdoa e transforma: «Mesmo que os vossos pecados fossem vermelhos como a púrpura, ficariam brancos como a neve!» (Is 1, 18). Conhecer e, de certo modo, visitar o abismo do coração humano, até nos aspectos mais obscuros, se por um lado põe à prova a humanidade e a fé do próprio sacerdote, por outro lado alimenta nele a certeza de que a última palavra sobre o mal do homem e da história é de Deus, é da sua Misericórdia, capaz de renovar todas as coisas (cf. Apoc 21, 5). Depois, quanto pode o sacerdote aprender de penitentes exemplares pela sua vida espiritual, pela seriedade com que realizam o exame de consciência, pela transparência no reconhecimento do próprio pecado e pela docilidade ao ensinamento da Igreja e às indicações do confessor! Da administração do Sacramento da Penitência podemos receber profundas lições de humildade e de fé! É um chamamento muito forte para cada sacerdote à consciência da própria identidade. Só em virtude da nossa humanidade, nunca poderíamos ouvir as confissões dos irmãos! Se eles nos procuram, é somente porque somos sacerdotes, configurados com Cristo Sumo e Eterno Sacerdote, e tornados capazes de agir no seu Nome e na sua Pessoa, de tornar realmente presente Deus que perdoa, renova e transforma. A celebração do Sacramento da Penitência tem um valor pedagógico para o sacerdote, em vista da sua fé, da verdade e da pobreza da sua pessoa, e alimenta nele a consciência da identidade sacramental.

 

Qual é o valor pedagógico do Sacramento da Penitência para os penitentes? Devemos admitir previamente que depende, antes de mais, da acção da Graça e dos efeitos objectivos do Sacramento na alma do fiel. Certamente, a Reconciliação sacramental é um dos momentos em que a liberdade pessoal e a consciência de si são chamadas a manifestar-se de modo particularmente evidente. Talvez seja também por este motivo que, numa época de relativismo e de uma consequente consciência atenuada do próprio ser, se debilitou inclusive a prática sacramental. O exame de consciência tem um importante valor pedagógico: ele educa a considerar com sinceridade a própria existência, a confrontá-la com a verdade do Evangelho e a avaliá-la com parâmetros não apenas humanos, mas conferidos pela Revelação divina. O confronto com os Mandamentos, com as Bem-Aventuranças e, sobretudo, com o Preceito do amor, constitui a primeira grande «escola penitencial».

No nosso tempo, caracterizado pelo barulho, pela distracção e pela solidão, o diálogo do penitente com o confessor pode representar uma das poucas, se não a única ocasião para ser escutado verdadeiramente e em profundidade. Queridos sacerdotes, não deixeis de reservar o espaço oportuno para o exercício do ministério da Penitência no confessionário: ser acolhido e escutado constitui inclusive um sinal humano do acolhimento e da bondade de Deus para com os seus filhos. Além disso, a confissão integral dos pecados educa o penitente para a humildade, para o reconhecimento da própria fragilidade e, ao mesmo tempo, para a consciência da necessidade do perdão de Deus e para a confiança de que a Graça divina pode transformar a sua vida. Do mesmo modo, atender as advertências e os conselhos do confessor é importante para o juízo sobre os actos, para o caminho espiritual e para a cura interior do penitente. Não podemos esquecer quantas conversões e quantas existências realmente santas começaram num confessionário! A aceitação da penitência e a escuta das palavras «Eu te absolvo dos teus pecados» representam, enfim, uma autêntica escola de amor e de esperança, que guia para a plena confiança no Deus Amor revelado em Jesus Cristo, para a responsabilidade e o para o empenho da conversão contínua.

Queridos sacerdotes, sermos nós os primeiros a experimentar a Misericórdia divina e sermos os seus humildes instrumentos, educa-nos para uma celebração cada vez mais fiel do Sacramento da Penitência e para uma profunda gratidão a Deus, que «nos confiou o ministério da reconciliação» (1 Cor 5, 18). À Bem-Aventurada Virgem Maria, Mater misericordiae e Refugium peccatorum, confio os frutos do vosso Curso sobre o Foro Interno e o ministério de todos os Confessores, enquanto vos abençoo com grande afecto.

 

 

 

 



* Discurso do Santo Padre Bento XVI aos participantes no Curso sobre o foro interno promovido pela Penitenciaria Apostólica (25-III-2011).


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