TEOLOGIA E MAGISTÉRIO

“JESUS DE NAZARÉ – II Parte”

 

 

 

Cardeal Marc Ouellet

Prefeito da Congregação para os Bispos

 

 

No passado dia 10 de Março foi apresentado na Sala de Imprensa da Santa Sé o livro de Joseph Ratzinger – Bento XVI, “Jesus de Nazaré, II parte. Da entrada em Jerusalém à Ressurreição” (Libreria Editrice Vaticana).

Oferecemos aos nossos leitores a intervenção pronunciada em francês do Cardeal canadiano Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos.

 

Este livro muito denso lê-se, apesar de tudo, de um só fôlego. Percorrendo os seus nove capítulos abertos para uma prospectiva, o leitor é conduzido por caminhos íngremes para o encontro atraente com Jesus, uma figura familiar que se revela ainda mais próxima na sua humanidade como na sua divindade. Uma vez terminada a leitura, desejar-se-ia continuar o diálogo, não só com o autor, mas com Aquele do qual ele fala. Jesus de Nazaré é mais do que um livro, é um testemunho comovedor, fascinante, libertador. Quanto interesse despertará entre os especialistas e os fiéis!

O Evento

Para além do interesse de um livro sobre Jesus, é o livro do Papa que se apresenta humildemente no fórum dos exegetas, para dialogar com eles sobre os métodos e os resultados das suas investigações. O objectivo do Santo Padre é ir com eles mais longe, com todo o rigor científico, é claro, mas também com a fé no Espírito Santo, que perscruta as profundezas de Deus na Sagrada Escritura. Neste fórum, os bons diálogos predominam em muito sobre os pontos críticos, o que contribui melhor a dar a conhecer e a reconhecer a contribuição essencial dos exegetas.

Não haverá muito a esperar desta aproximação entre a exegese rigorosa dos textos bíblicos e a interpretação teológica da Sagrada Escritura? Eu não posso deixar de ver neste livro a aurora de uma nova era da exegese, uma era promissora de exegese teológica.

O Papa dialoga em primeiro lugar com a exegese alemã, mas não ignora autores importantes pertencentes às áreas linguísticas francófona, anglófona e latina. Ele esforça-se por identificar as questões essenciais e os pontos decisivos, obrigando-se a evitar as discussões de pormenores e as disputas de escola que prejudicariam o seu propósito. Trata-se de «encontrar o Jesus real», não o «Jesus histórico» da corrente principal da exegese crítica, mas o «Jesus dos Evangelhos» escutado em comunhão com os discípulos de Jesus de todos os tempos, e assim «alcançar a certeza da figura verdadeiramente histórica de Jesus».

Esta formulação do seu objectivo manifesta o interesse metodológico do livro. O Papa aborda de modo prático e exemplar o complemento teológico desejado pela Exortação Apostólica Verbum Domini para o desenvolvimento da exegese. Nada estimula mais do que o exemplo dado e os resultados obtidos. Jesus de Nazaré oferece uma base magnífica para um diálogo frutuoso, não somente entre exegetas, mas também entre pastores, teólogos e exegetas!

Antes de ilustrar com alguns exemplos os resultados desta exegese de Joseph Ratzinger / Bento XVI, acrescento ainda uma observação sobre o método. O autor esforça-se por aplicar mais profundamente os três critérios de interpretação formulados no Concílio Vaticano II pela Constituição sobre a Divina Revelação Dei Verbum: ter em conta a unidade da Sagrada Escritura, o conjunto da Tradição da Igreja e respeitar a analogia da fé. Como bom pedagogo que nos habituou às suas homilias mistagógicas, dignas de São Leão Magno, Bento XVI ilustra a partir da figura – oh! quão central e única – de Jesus, a plenitude de sentido que emana da Sagrada Escritura “interpretada no mesmo Espírito em que foi escrita” (DV 2).

Mesmo que o autor não queira oferecer um ensinamento oficial da Igreja, é fácil imaginar que a sua autoridade científica e a revisão em profundidade de certas questões disputadas, servirão muito para confirmar a fé de um grande número. Servirão além disso a fazer progredir debates travados por preconceitos racionalistas e positivistas, que têm manchado a reputação da exegese moderna e contemporânea.

Entre a aparição do primeiro volume em Abril de 2007 e a do segundo volume nesta Quaresma de 2011, numerosos acontecimentos felizes mas também experiências dolorosas marcaram a vida da Igreja e do mundo. Pergunta-se como é que o Papa conseguiu escrever esta obra muito pessoal e muito exigente, cuja actualidade do tema e a audácia da empresa saltam aos olhos de qualquer pessoa interessada no cristianismo. Como teólogo e como pastor, tenho a impressão de viver um momento histórico de grande alcance teológico e pastoral. É como se no meio das ondas que agitam a barca da Igreja, Pedro tivesse de novo agarrado a mão do Senhor que vem ter connosco sobre as águas, para nos salvar (Mt 14, 22-33).

Nós para desatar

Dito isto sobre o carácter histórico, teológico e pastoral do evento, chegamos ao conteúdo do livro que eu gostaria de resumir de maneira muito imperfeita em torno de algumas questões cruciais. Em primeiro lugar, a questão do fundamento histórico do cristianismo que atravessa os dois volumes da obra; a seguir, a questão do messianismo de Jesus, seguida pela questão da expiação de pecados pelo Redentor, que é um problema para muitos teólogos; também a questão do Sacerdócio de Cristo em relação à sua Realeza e ao seu Sacrifício, que têm tanta importância para a concepção católica do Sacerdócio e da Santíssima Eucaristia; finalmente, a questão da ressurreição de Jesus, a sua relação com a corporeidade e o seu nexo com a fundação da Igreja.

Escusado será dizer que a lista não é exaustiva e muitos encontrarão outras questões mais interessantes, por exemplo o seu comentário sobre o discurso escatológico de Jesus ou ainda sobre a oração sacerdotal em João 17. Eu identifico as questões acima assinaladas como nós a desatar quer na exegese quer na teologia, a fim de reconduzir a fé dos fiéis à própria Palavra de Deus, entendida em toda a sua força e coerência, apesar dos condicionamentos teológicos e culturais que bloqueiam por vezes o acesso ao sentido profundo da Escritura.

A questão do fundamento histórico do cristianismo ocupa Joseph Ratzinger desde os anos da sua formação e das suas primeiras aulas, como aparece no seu livro sobre A fé cristã, ontem e hoje (Einführung in das Christentum), publicada há mais de quarenta anos, e que teve um impacto notável nos ouvintes e leitores da época. Sendo o cristianismo a religião do Verbo encarnado na história, é indispensável para a Igreja ater-se aos factos e aos acontecimentos reais, justamente porque eles contêm «mistérios» que a teologia deve aprofundar utilizando chaves de interpretação que pertençam ao âmbito da fé. Neste segundo volume que trata dos acontecimentos centrais da paixão, da morte e da ressurreição de Cristo, o autor confessa que a tarefa é particularmente delicada. A sua exegese interpreta os factos reais de maneira análoga ao tratado sobre «os mistérios da vida de Jesus» de São Tomás de Aquino, «guiada pela hermenêutica da fé, mas tendo em conta, ao mesmo tempo e de modo responsável, a razão histórica, necessariamente contida nessa mesma fé».

A esta luz, compreende-se o interesse do Papa pela exegese histórico-crítica que ele conhece bem e donde extrai o que há de melhor para aprofundar os acontecimentos da Última Ceia, o significado da oração em Getsémani, a cronologia da paixão e, especialmente, os traços históricos da ressurreição. Ele não deixa de denunciar de passagem a falta de abertura de uma exegese exercitada demasiado exclusivamente segundo a «razão», mas o seu objectivo principal continua a ser iluminar teologicamente os factos do Novo Testamento com a ajuda do Antigo Testamento e vice-versa, de um modo análogo mas mais rigoroso do que a interpretação tipológica dos Padres da Igreja. O nexo do cristianismo com o judaísmo aparece reforçado por esta exegese, que se enraíza na história de Israel retomada na sua orientação para Cristo. É por isso que a oração sacerdotal de Jesus, por exemplo, que parece por excelência uma meditação teológica, adquire com ele uma dimensão completamente nova, graças à sua interpretação iluminada pela tradição judia do Yom Kippur.

Um segundo nó diz respeito ao messianismo de Jesus. Alguns exegetas modernos fizeram de Jesus um revolucionário, um mestre de moral, um profeta escatológico, um rabino idealista, um louco de Deus, um sectário empenhado com os marginais da época, um messias de algum modo à imagem do seu intérprete influenciado pelas ideologias dominantes.

A exposição de Bento XVI sobre este tema é difusa e bem enraizada na tradição judia. Ela inscreve-se na continuidade dessa tradição que une o religioso e o político, mas ressaltando até que ponto Jesus opera a ruptura entre os dois âmbitos. Jesus reconhece diante do Sinédrio que ele é o Messias, mas não sem esclarecer a natureza exclusivamente religiosa do seu messianismo. É aliás por esta razão que ele é condenado por blasfémia, pois ele identificou-se com «o Filho do Homem que virá sobre as nuvens do céu». O Papa ilustra com força e claridade as dimensões real e sacerdotal deste messianismo, cujo sentido é instaurar o novo culto, a adoração em Espírito e em Verdade, que afecta toda a existência, pessoal e comunitária, como uma oferenda de amor pela glorificação de Deus na carne.

Um terceiro nó para desfazer diz respeito ao sério aspecto da redenção e ao lugar que deve ou não ocupar nela a expiação dos pecados. O Papa enfrenta as objecções modernas a esta doutrina tradicional. Um Deus que exige uma expiação infinita não é um Deus cruel, cuja imagem é incompatível com a nossa ideia de um Deus misericordioso? Como podemos conciliar as nossas mentalidades modernas sensíveis à autonomia das pessoas com a ideia de uma expiação vicária por parte de Cristo? Estes nós são particularmente difíceis de desatar.

O autor retoma essas perguntas várias vezes, em diferentes níveis, e mostra como a misericórdia e a justiça vão lado a lado no quadro da Aliança querida por Deus. Um Deus que perdoasse tudo, sem se preocupar com a resposta que deve dar a sua criatura, teria levado a sério a Aliança, e sobretudo o mal terrível que envenena a história do mundo? Quando se olha de perto os textos do Novo Testamento – pergunta o autor –, não é Deus que toma sobre si mesmo, no seu Filho crucificado, a exigência de uma reparação e de uma resposta de amor autêntico? «O próprio Deus “bebe o cálice” de tudo o que é terrível e restabelece assim o direito com a grandeza do seu amor que, através do sofrimento, transforma as trevas».

Estas questões são colocadas e resolvidas num sentido que convida à reflexão e, sobretudo, à conversão. Porque não se pode ver claro nestas questões últimas, permanecendo neutro ou distante. É necessário investir aí a liberdade para descobrir o sentido profundo da Aliança que compromete precisamente a liberdade de cada pessoa. A conclusão do Santo Padre é peremptória: «O mistério da expiação não deve ser sacrificado a qualquer racionalismo pedante».

Um quarto nó diz respeito ao Sacerdócio de Cristo. Nas categorias eclesiais de hoje, Jesus seria um leigo investido de uma vocação profética. Ele não pertencia à aristocracia sacerdotal do Templo e vivia à margem desta instituição fundamental do povo de Israel. Este facto induziu muitos intérpretes a considerar a figura de Jesus como totalmente estranha ao sacerdócio e sem relação com ele. Bento XVI corrige esta interpretação, apoiando-se fortemente na Epístola aos Hebreus, que fala abundantemente do Sacerdócio de Cristo, e cuja doutrina se harmoniza bem com a teologia de São João e de São Paulo.

Bento XVI responde amplamente às objecções históricas e críticas, mostrando a coerência do novo Sacerdócio de Jesus com o novo culto que veio estabelecer na terra em obediência à vontade do Pai. O comentário à oração sacerdotal de Jesus é de uma grande profundidade e leva o leitor para pastagens que não tinha imaginado. A instituição da Eucaristia aparece neste contexto com uma beleza luminosa que brilha na vida da Igreja como seu fundamento e fonte permanente de paz e alegria. O autor atém-se estritamente às análises históricas mais avançadas, mas desembaraça-se das aporias como só uma exegese teológica pode fazer. Chega-se ao termo do capítulo sobre a Última Ceia, não sem emoção e admiração.

Finalmente, um último nó que considero diz respeito à ressurreição, a sua dimensão histórica e escatológica, a sua relação com a corporeidade e a Igreja. O Santo Padre começa sem rodeios: «A fé cristã ou tem por verdade o testemunho segundo o qual Cristo ressuscitou dos mortos, ou ela afunda-se».

O Papa insurge-se contra as elucubrações exegéticas que declaram compatíveis o anúncio da ressurreição de Cristo e a permanência do seu cadáver no túmulo. Ele exclui estas teorias absurdas, salientando que o túmulo vazio, mesmo que não seja uma prova da ressurreição, da qual ninguém foi directamente testemunha, continua a ser um sinal, um pressuposto, um vestígio deixado na história por um acontecimento transcendente. «Só um acontecimento real de uma qualidade radicalmente nova era capaz de tornar possível o anúncio apostólico, que não pode ser explicado por especulações ou experiências interiores místicas».

A ressurreição de Jesus introduz, segundo ele, uma espécie de «mutação decisiva», um «salto de qualidade» que inaugura «uma nova possibilidade de ser homem». A experiência paradoxal das aparições revela que, nesta nova dimensão do ser, «ele não está ligado às leis da corporeidade, às leis do espaço e do tempo». Jesus vive plenamente, numa nova relação com a corporeidade real, mas é livre em relação aos laços do corpo tais como nós conhecemos.

A importância histórica da ressurreição manifesta-se no testemunho das primeiras comunidades que criaram a tradição do domingo como um sinal identificativo de pertença ao Senhor. «A celebração do Dia do Senhor, que desde o princípio distingue a comunidade cristã, é para mim – diz o Santo Padre – uma das provas mais poderosas de que, nesse dia, algo de extraordinário aconteceu: a descoberta do túmulo vazio e o encontro com o Senhor ressuscitado».

No capítulo sobre a Última Ceia, o Papa afirmava: «Com a Eucaristia, foi instituída a própria Igreja». Ele acrescenta aqui uma observação de grande alcance teológico e pastoral: «A narração da ressurreição torna-se por si mesma eclesiologia: o encontro com o Senhor ressuscitado é missão e dá à Igreja nascente a sua forma». Sempre que participamos na Eucaristia dominical vamos ao encontro do Ressuscitado que vem ter connosco, na esperança de que assim demos testemunho de que Ele está vivo e nos dá a vida. Não é motivo para voltar a fundamentar o sentido da Missa dominical e da missão?

Convite ao diálogo

Depois de ter evocado estes nós sem que me seja possível expor adequadamente a sua solução, tenho de concluir esta breve apresentação, referindo um pouco mais o significado desta grande obra sobre Jesus de Nazaré.

É evidente que, por esta obra, o sucessor de Pedro dedica-se ao seu ministério específico que é o de confirmar os seus irmãos na fé. O que aqui impressiona ao mais alto grau é a maneira de o fazer, em diálogo com os peritos no campo da exegese, e com vista a alimentar e fortalecer a relação pessoal dos discípulos com o seu Mestre e Amigo, hoje. Uma tal exegese, teológica quanto ao seu método, mas incluindo a dimensão histórica, reata efectivamente o modo de interpretar dos Padres da Igreja, sem contudo a interpretação se afastar do sentido literal e da história concreta para evadir-se em alegorias artificiais.

Graças ao exemplo que dá e aos resultados que obtém, este livro exercerá uma mediação entre a exegese contemporânea e a exegese patrística, por um lado, como também no necessário diálogo entre exegetas, teólogos e pastores, por outro lado. Vejo nesta obra um grande convite ao diálogo sobre o que é essencial no cristianismo, num mundo em busca de referências, onde as diferentes tradições religiosas se afadigam por transmitir às novas gerações a herança da sabedoria religiosa da humanidade.

Portanto, diálogo dentro da Igreja, diálogo com as outras confissões cristãs, diálogo com os Judeus, cuja implicação histórica como povo na condenação à morte de Jesus é excluída uma vez mais. Finalmente, diálogo com outras tradições religiosas sobre o sentido de Deus e do homem que emana da figura de Jesus, tão propício à paz e à unidade do género humano.

No fim de uma primeira leitura, tendo saboreado mais a Verdade que o autor testemunha com humildade e paixão, sinto a necessidade de dar seguimento a este encontro de Jesus de Nazaré quer convidando outras pessoas a lê-lo, quer retomando a leitura uma segunda vez como meditação sobre o tempo litúrgico da Quaresma e da Páscoa. Creio que a Igreja deve dar graças a Deus por este livro histórico, por esta obra de charneira entre duas épocas, inaugurando uma nova era da exegese teológica. Este livro terá um efeito libertador para estimular o amor da Sagrada Escritura, para encorajar a lectio divina e para ajudar os sacerdotes a pregar a Palavra de Deus.

No final desta rápida visão de uma obra que aproxima o leitor do verdadeiro rosto de Deus em Jesus Cristo, resta-me dizer: Obrigado, Santo Padre! Permiti-me todavia acrescentar ainda uma última palavra, uma pergunta, porque este serviço prestado à Igreja e ao mundo, nas circunstâncias que se conhecem e com os condicionamentos que se podem adivinhar, merece mais do que uma palavra ou um gesto de gratidão. O Santo Padre agarra a mão de Jesus sobre as ondas agitadas e estende-nos a outra mão para que juntos não façamos senão uma só coisa com Ele. Quem segurará esta mão estendida, que nos transmite as palavras de Vida eterna?

 

 

 

 

 

 

 


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