O CAMINHO DA CRUZ

 

 

A cruz não é uma fatalidade, uma desgraça insuportável. É o caminho certo da glória e da alegria, do qual nos quer desviar o instintivo horror ao sofrimento, por mais insignificante que seja.

Com Jesus Cristo, de Cruz aos ombros, aprendemos a não nos dobrarmos sobre nós mesmos, nos momentos de sofrimento, mas a pensarmos nos outros, oferecendo-lhes a nossa ajuda amiga.

A Paixão de Jesus Cristo é uma escola eloquente que todos precisamos de frequentar todos os dias e com aproveitamento.

Transfigurar-se-á o nosso olhar e a vida, todas as vezes que o fizermos.

 

1ª Estação

 

JESUS NO HORTO DAS OLIVEIRAS

 

 Do Evangelho   

«Jesus chegou com eles a uma propriedade, chamada Getsémani  disse aos discípulos: "Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar".

E tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar- -Se.

Disse-lhes então: "A Minha alma está numa tristeza de morte, Ficai aqui e vigiai comigo".

E adiantando-Se um pouco mais, caiu com o rosto por terra, enquanto orava e dizia:

"Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres"»[1].

 

Meditação 

Depois da Ceia Pascal no Cenáculo, Jesus dirige-Se agora ao Jardim das Oliveiras para fazer oração. Era na oração que Ele preparava os grandes acontecimentos da Sua vida mortal.

Oprime-O uma esmagadora solidão. Os três Apóstolos que escolheu para o acompanhar em breve dormem a sono solto e nada adiantou despertá-los e pedir-lhes ajuda.

Alguém dizia numa entrevista; “O que eu temo verdadeiramente é a solidão, porque não capaz de a enfrentar sozinho. Foi quando estava numa situação destas que eu tentei o suicídio.”

Que ninguém se sinta só, ao nosso lado. Estar presente nas dores alheias, procurar uma palavra de conforto ou ao menos um “não estás só! Eu estou aqui contigo!” é uma dádiva de inestimável valor.

Que nenhum de nós atire para a solidão o seu irmão por uma palavra injusta, uma atitude egoísta ou um gesto cruel.

É Cristo Senhor que sofre na pessoa que passa ao nosso lado.

 

Oração

Senhor Jesus: que eu me lembre de que estais sempre ao meu lado com infinito amor.

Que eu saiba procurar-Vos numa oração cheia de intimidade nos momentos difíceis.

Que eu esteja mais atento, a partir de hoje, a todos os que podem necessitar da minha

ajuda.

 

 

2ª Estação

 

JESUS, ATRAIÇOADO POR JUDAS, É PRESO

 

Do Evangelho    

«Ainda Jesus estava a falar, quando chegou Judas, um dos Doze, e com Ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo... Aproximou-se  imediatamente de Jesus e disse-Lhe: "Salve, Mestre!" E beijou-O.

Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus, e prenderam-n'O.

Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram. »[2]

 

Meditação

Judas deixou entrar a solidão dentro de si, porque se afastou do Grande Amigo que o podia ajudar. Chamado por Jesus para ser um dos Doze Apóstolos, deixou-se levar pela soberba a recusar o projecto de Jesus sobre a Redenção e agarrou-se com egoísmo ao plano de grandeza pessoal.

Abandonado à superficialidade, com medo de aprofundar as razões últimas das coisas, tentou brincar com o assunto, antes de abandonar o Colégio Apostólico.

Ele venderia Jesus que, por sua vez, não se deixaria apanhar, e ele seguiria o caminho acariciando as trinta moedas de prata.

Mas o Mestre deixou-Se apanhar... e agora, as moedas queimam-lhe as mãos e o coração, de tal modo que os seus cúmplices do crime da morte de Jesus não as aceitam.

Na hora da solidão, como fechou as portas a Jesus Cristo, tornou seu companheiro a com o demónio e acabou no desespero.

Só junto de Cristo e de Nossa Senhora serão vencidas todas as nossas solidões.

 

Oração

Senhor Jesus: que não me deixe vencer pela tentação da superficialidade, brincando com coisas sérias como é a minha salvação e a salvação dos outros.

Que eu esteja mais atento aos que se desencaminham, abandonando a frequência dos sacramentos e a oração.

Que eu não seja capaz de encarar como coisa de pouca importância alguém que manifesta estar tentado pelo desespero.

 

 

3ª Estação

 

JESUS É CONDENADO PELO SINÉDRIO

 

Do Evangelho    

«Os que tinham prendido Jesus levaram-n'O à presença do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e anciãos se tinham reunido.

Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho falso contra Jesus para O condenarem à morte, mas não o encontravam, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas.

Então, o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo: "Blasfemou. Que necessidade temos de mais testemunhas?

Acabais de ouvir uma blasfémia. Que vos parece?"

Eles responderam: "É réu de morte"».[3]

 

Meditação

Jesus está completamente só no meio dos Seus inimigos. Nenhuma voz se eleva a proclamar a Sua inocência.

O que se procura ali não é a justiça, mas um pretexto para condenarem o Mestre à morte da cruz.

Nossa Senhora ainda não tem conhecimento do que está a acontecer, Pedro e João estão no pátio a aquecer-se, os outros nove sumiram-se na escuridão do Jardim das Oliveiras, e as santas mulheres não sabem e, mesmo que o soubessem

Por tudo isto, a mentira e o crime acabam por triunfar e dali partem com a esperança de que os romanos permitam a execução de Jesus.

Não há só os que condenam à morte lançando mão de leis iníquas, como a do aborto. Há também aqueles que condenam porque não fazem brilhar a verdade e o amor.

 

Oração

Senhor Jesus: Concedei-me fortaleza para que nunca guarde silêncio quando tiver obrigação de falar em defesa dos meus irmãos. Não é verdade que, desde o Baptismo, sou a luz do mundo?

Que saiba acolher, como Vós, os agravos e injustiças de que for vítima, por ódio à minha fé.

Que eu não ceda nunca à tentação de estar sempre do lado dos mais “fortes”, mas procure estar sempre do lado da verdade, do Vosso lado.

 

 

4ª Estação

 

JESUS É NEGADO POR PEDRO

 

Do Evangelho    

«Entretanto, Pedro estava sentado no pátio. Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe: "Tu também estavas com Jesus, o galileu". Mas ele negou diante de todos, dizendo: "Não sei o que dizes".

Dirigindo-se para a porta, foi visto por outra criada que disse aos circunstantes: "Este homem estava com Jesus de Nazaré". E, de novo, ele negou com juramento: "Não conheço tal homem".

Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro: "Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia". Começou então a dizer imprecações e a jurar: "Não conheço tal homem".

E, imediatamente, um galo cantou. Então Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera: "Antes de o galo cantar, tu Me negarás três vezes". E, saindo fora, chorou amargamente.»[4]

 

Meditação

Para além das nossas quedas e infidelidades, é preciso conhecer as suas causas, para as combater com eficácia.

Na negação de Pedro encontramos o itinerário seguido por toda a pessoa infiel.

Desconhecimento próprio. Presumia fortaleza e superioridade sobre os Onze: “Ainda que todos Te abandonem, eu nunca Te abandonarei.”

Recusa em aceitar os planos de Deus. Julga-se mais sábio do que Jesus quando Lhe fala da Sua Paixão: “Isso não te há-de acontecer!”

Abandono ou negligência na oração. Dorme profundamente no Horto, ‑ “até tinham os olhos colados de sono” ‑ enquanto Jesus ora, embora Ele lhes tenha chamado a atenção:”Vigiai e orai, para não entrardes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.”

Desobedece ao Senhor no momento da prisão de Jesus. Fazendo valer a sua teimosia em rejeitar a Paixão, fere o empregado Malco, cortando-lhe a orelha.

A partir daí, a sua disponibilidade para Cristo entra em crise. “Ia-O seguindo de longe”, não por falta de amor, mas porque tem medo que lhe deitem a mão.

Bastou uma ocasião banal, um breve tropeço para o fazer cair. Em geral,  a ocasião, não depende de nós. Surge de repente, sem ser esperada.

 

Oração

Dai-me, Senhor, a prudência para evitar o desleixo na vida espiritual,

a contrição de Pedro, ao reencontrar-se com o olhar de Jesus

e a humildade para recomeçar o caminho da vida, quando me deixar cair por terra.

Defendei-me da soberba que me leva a pensar que sou forte e posso enfrentar todas as ocasiões.

 

 

5ª Estação

 

JESUS É JULGADO POR PILATOS

 

Do Evangelho

«Entretanto, Jesus foi levado à presença do governador, que Lhe perguntou: "Tu és o Rei dos judeus?" Jesus respondeu: "É como dizes."

Nessa altura havia um preso famoso, chamado Barrabás." E, quando eles se reuniram, disse-lhes: "Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus chamado  Cristo?" Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja.

Eles responderam: "Barrabás." Disse-lhes Pilatos: "Que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?" Responderam todos: "Seja crucificado".

Pilatos, vendo que não conseguia nada e aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: "Estou inocente do sangue deste homem. Isso é lá convosco."

Soltou-lhes então Barrabás. E.. entregou-lh'O para ser crucificado.»[5]

 

Meditação

Levaram Jesus a Pilatos. Eles não procuram  a verdade e a justiça, mas o caminho livre para dar a morte ao Senhor da vida.

Também nós, muitas vezes, nos juízos e murmurações acerca das pessoas, não procuramos a verdade, mas pretextos e falsas razões que justifiquem a nossa condenação, porque aquela pessoa já está posta de parte dentro de nós.

Nesta hora suprema, os sentimentos do Coração Divino são múltiplos:

A prudência. Jesus esclarece, antes de responder, o sentido da pergunta que Pilatos lhe faz sobre o que ele entende por “rei dos judeus”. Assim evita os equívocos das meias verdades.

Uma compaixão infinita pelos que O acusam, pois colocam-se numa séria dificuldade de salvação, bem como cada uma das pessoas da multidão que O acusam, arrastadas e manipuladas por aquele turbilhão de ódio.

Vê, com uma pena imensa, tantas pessoas silenciadas pela cobardia e receio de serem diferentes, com falta de personalidade para afirmarem as suas convicções.

Pilatos recebe na sua mente a semente da verdade. Começa por simpatizar com Jesus. Mas acolhe-a na sua alma cheia de pedregulhos: a vaidade, a ambição de poder, o apego ao cargo e à vã glória de mandar, e a cobardia.

Cada um de nós vê-se espelhado nestes personagens.

Pilatos tenta negociar com a mentira e o crime: manda açoitar Jesus e deixa que O ridicularizem pela coroação de espinhos, para despertar a compaixão dos seus inimigos, evitando a condenação à morte.

Entretanto, Jesus, mais do que pensar nas tremendas dores que Lhe causam a flagelação e a coroação de espinhos, sofre a agonia da compaixão pelos que se deixam manipular e escravizar pelo demónio, dando a morte ao Autor da Vida.

 

Oração

Dai-me, Senhor, a fortaleza para defender a verdade e a inocência, quando me encontrar perante uma injustiça.

Que eu saiba ver, para alem do pecado, a tremenda desgraça a que ele arrasta as suas vítimas.

Ajudai-me a evitar as meias verdades na vida, os disfarces pelas palavras, e a cobardia que me tenta a não me comprometer.

 

 

6ª Estação

 

JESUS É FLAGELADO E COROADO DE ESPINHOS

 

Do Evangelho

(Pilatos) «soltou-lhes então Barrabás. E, depois de ter mandado açoitar Jesus, entregou-lh'O para ser crucificado.

Então os soldados do governador levaram Jesus para o pretório e reuniram à volta  d'Ele toda a coorte. Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n'O num manto vermelho. Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça e colocaram uma cana na Sua mão direita.

Ajoelhando diante d'Ele, escarneciam-n'O, dizendo: "Salve, Rei dos judeus!"

Depois cuspiam-Lhe no rosto e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça.»[6]

 

Meditação

 A flagelação era um tormento bárbaro a que não podia ser submetido um cidadão romano. Muitas vítimas pereciam durante a execução desta pena.

Os judeus tinha na Lei que não se deviam dar mais de quarenta vergastadas e eles, com receio de transgredir a Lei, ficavam-se pelas trinta e nove.

Mas aqui são soldados romanos que aplicam este tormento, e Jesus deve ter recebido um número incontável de golpes, a julgar pelas mancha do santo Sudário.

Mais uma vez, uma tremenda solidão acompanha Jesus neste sofrimento. Enfrenta sozinho a raiva e o ódio dos Seus inimigos e a única razão que os leva a parar com as vergastadas é o receio de que Jesus morra fora do Calvário, negando-lhes o espectáculo de O ver na Cruz.

Depois do sofrimento da flagelação, vem a dor e o ridículo da coroação de espinhos. Em vez de lágrimas de compaixão pelo estado lastimoso em que se encontra, Cristo ouve gargalhadas de escárnio e apupos da multidão.

O pecado insensibiliza o coração. Só assim se explica o crime do aborto, da exploração de pessoas, atirando-as para a lama e obrigando-as a permanecer lá, a brutalidade com que se teima em silenciar as consciências.

Se queremos ‑ e queremos! ‑ acabar com o mal pela raiz, é preciso ajudar as pessoas a recuperar a vida da graça e a recomeçar uma vida de oração e sacramentos.

 

Oração

Perdoai, Senhor, a procura obsessiva do prazer dos sentidos em que se empenham tantas pessoas.

Ensinai-me a reparar, com a mortificação voluntária, tantas ofensas que se cometem contra a bondade infinita do Senhor.

Dai-me uma grande sensibilidade do coração para estar atento aos que sofrem e ao que sofrem, para que lhes possa levar alívio.

 

 

7ª Estação

 

JESUS É CARREGADO  COM A CRUZ

 

Do Evangelho

«Levando a cruz, Jesus saiu para o chamado Lugar do Calvário, que em hebraico se diz Gólgota.

Disse Jesus: "Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Porque quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por Minha causa, há-de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida?"»[7]

 

Meditação

Jesus recebe amorosamente o madeiro que lhe põem aos ombros e começa a caminhada para o Calvário. Não escolhe a que Lhe convém, mas a que Lhe está preparada.

Ajuda-nos, assim, a fugir de idealismos que nos afastam da vontade de Deus, sonhando com outras cruzes para rejeitar a que temos: do nosso feitio e do das pessoas que vivem connosco, da falta de saúde, do trabalho que temos entre mãos e da contrariedade que nos faz sofrer, porque nos surpreende com uma dificuldade que estava fora do nosso horizonte.

E ainda: a cruz das exigências da nossa vocação, do cuidado daqueles que o Senhor pôs ao nosso alcance, do cumprimento da missão de educar, de ajudar no caminho da santidade as pessoas que o Senhor nos confia, sem cobardias nem descontos.

Quando abraçarmos a cruz de Cristo, aquela que foi preparada para com ela nos santificarmos, verificaremos que, ao colocá-la, o Senhor meteu a Sua mão carinhosa por debaixo, para que não pesasse tanto nos nossos ombros.... e que a sombra da cruz ‑ a cruz sonhada ou imaginada ‑ é, em geral, maior do que cruz real.

 

Oração

Curai-me, Senhor, da doença do medo ao sacrifício, da cobardia nos meus deveres de estado e exigências da vocação cristã, de me entregar ao sonho de que, com outras cruz e não com esta, poderia santificar-me.

Dai-me fortaleza para levar com alegria a cruz  que amorosamente pusestes aos meus ombros.

 

8ª Estação

 

JESUS É AJUDADO PELO CIRENEU

 

Do Evangelho

«Quando O conduziam, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas, para a levar atrás de Jesus.[8]

Disse Jesus aos Seus discípulos:

"Vinde, benditos de Meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e deste-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber...

Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes".»[9]

 

Meditação

Simão de Cirene voltava do campo, depois de um dia de trabalho intenso e estaria a sonhar, possivelmente, com um bom e merecido descanso no aconchego da família. Esperam-no, impacientes, a esposa e os filhos. Conhecemos os nomes de dois: Alexandre e Rufo.

E eis que, de repente, se enfrenta com uma tarefa inesperada. Jesus precisa de ajuda e não lha pode recusar, porque o Divino Prisioneiro esgotou as forças até ao limite da resistência humana.

Logo no seu íntimo entrechocam-se os mais diversos sentimentos: de compaixão pelo Mestre e de repulsa e recusa; de simpatia por Jesus e de medo ao sacrifício; de urgência em ter de servir e lógico abandono dos seus planos; de queixa por esta exigência que lhe é feita e de Amor.

Quando menos o pensamos, Jesus cruza-Se connosco no caminha da vida: é um filho que adoece, um vizinho que necessita do nosso tempo e esforço, ou um desconhecido que pede para o ajudarmos a levar a cruz. E logo o nosso egoísmo começa a desfiar um rosário de desculpas sem fim.

Jesus Cristo, presente naquele irmão, precisa da nossa ajuda: de ser ouvido, de que lhe prestemos um auxílio inadiável, de um favor, da luz de um sorriso.

Estejamos disponíveis. Não nos deixemos enclausurar no espaço tacanho dos nossos interesses, da falta de tempo, de disposição ou de qualidades. Estas desculpas são outros tantos disfarces do nosso egoísmo.

Enquanto o madeiro pesa sobre os seus ombros cansados, o Cireneu sente-se mais próximo  do Divino Condenado, ama-O e está disposto  a dar a vida por Ele.

Nessa mesma noite deve ter permanecido longo tempo acordado. Que estranho encontro este que veio mudar a sua vida!

 

Oração

Senhor, que em cada momento passais ao meu lado, disfarçado em tantas pessoas e precisando de ajuda:

Ensinai-me a corresponder ao Vosso apela com pronta generosidade e de boa cara, como quem ajuda com gosto.

Dai-me uma grande liberdade interior para não ficar à espera de que me agradeçam ou honrem com louvores.

 

 

9ª Estação

 

JESUS ENCONTRA AS MULHERES DE JERUSALÉM

 

Do Evangelho

«Seguia-O uma grande multidão de povo e mulheres que batiam no peito e se lamentavam, chorando por Ele.

Mas Jesus voltou-Se para elas e disse-lhes: "Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos... Porque se tratam assim a madeira verde, que acontecerá à seca?"»[10]

 

Meditação

O aspecto de Jesus é deplorável: o cabelo ensopado em sangue, a face inchada por causa das bofetadas recebidas no Sinédrio. Arrasta os pés com dificuldade e faz um esforço heróico para Se manter em pé.

Ao Seu lado, o Cireneu carrega o madeiro, em silêncio e pensativo, enquanto se ouvem gritos surdos da multidão embriagada.

Jesus não pensa em Si, mas nos outros. Dirige-Se às mulheres que levantam os filhos para que recebam uma última bênção, e lamentam-n’O em altos brados.

Nas primeiras palavras que lhes dirige, deixa-nos a impressão de que não gosta que O lamentem. Mas este sentimento não estaria de acordo com o Coração Divino que se manifesta na vida pública: aparece como um coração sensível e agradecido até por um simples copo de água, e que se comove profundamente perante as dores humanas.

Nas palavras que lhes dirige, o Senhor quer prestar-lhes ‑ e a todos nós ‑ um último serviço.

Não podemos ficar num sentimentalismo superficial e estéril, perante os males que vemos à nossa volta. O sentimentalismo superficial é um obstáculo ao verdadeiro Amor. São precisas obras.

O Senhor quer que comecemos por olhar para nós mesmos, fazendo o que está ao nosso alcance, a preparar uma eternidade feliz, para nós e ara os outros.

Cuidai de educar bens o vossos filhos ‑ parece dizer o Salvador ‑ porque, se o não fazeis, preparais para eles e para vós grandes sofrimentos no futuro!

É um chamamento à seriedade da nossa vida cristã. Comovemo-nos nas grandes manifestações religiosas, mas não fazemos propósitos de emenda de vida. É urgente a mudança de conduta.

 

Oração

Senhor, ao celebrar esta Via sacra, não quero ficar apenas em sentimentalismos que nada me adiantam.

Iluminai-me para que veja o que tenho de mudar na minha vida e fortalecei-me para o pôr em prática.

Ajudai-me a ser muito concreto nos propósitos do meu exame diário de consciência e no da confissão sacramental.

 

 

10ª Estação

 

JESUS É CRUCIFICADO

 

Do Evangelho

 

«Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-n'O a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda.

Depois de O terem crucificado, repartiram entre si as Suas vestes, tirando-as à sorte, e ficaram ali sentados a guardá-l'O.

Por cima da Sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da Sua condenação: "Este é Jesus, o Rei dos judeus"».[11]

 

Meditação

Jesus submete-Se à crucifixão sem um protesto nem um esgar de sofrimento, oferecendo-Se ao Eterno Pai em reparação dos nossos pecados.

Todos nós somos crucificados, não de uma vez, mas aos poucos:

quando realizamos até ao fim, sem queixas nem murmurações interiores, colocando as última pedras, um trabalho que não nos agrada;

quando ouvimos pacientemente e sem ar de contrariedade, uma pessoa contar-nos as suas dores pela centésima vez;

quando o ouvido endurece, a vista perde o alcance e o caminhar se torna penoso;

quando deixamos de comer aquilo de que gostávamos e nos submetemos, sem queixas, à dieta que nos prescreve o médico;

quando aceitamos um tratamento que nos ajuda a reajustamento de actividades e sentimos que diminui a nossa capacidade de agir,

estamos a ser pregados, momento a momento, na nossa cruz.

Aceitemos esta situação com serenidade, procurada numa vida de oração, e ofereçamos ao Senhor, humildemente, esta nossa oblação.

 

Oração

Senhor: em vez de sentimentalismos estéreis diante da Vossa crucifixão, ajudai-me a ser realista, olhando com amor a cruz de cada dia em que sou pregado.

Dai-me um olhar luminoso que contemple, com alegria, a eternidade feliz que me espera no fim da vida.

E fazei que eu confie sempre em Vós, aconteça o que acontecer.

 

11ª Estação

 

JESUS PROMETE O REINO AO BOM LADRÃO

 

Do Evangelho

«Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda.

Os que passavam insultavam-n'O e abanavam a cabeça, dizendo: "Tu que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo; se és o Filho de Deus, desce da cruz":

Entretanto, um dos malfeitores, que tinham sido crucificados insultavam-n'O dizendo: "Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também".

Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: "Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício?

Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más acções. Mas Ele nada praticou de condenável". E acrescentou: "Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a Tua realeza".

Jesus respondeu-lhe: "Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso"».[12]

 

Meditação

O Senhor manifesta-Se em toda a Sua Paixão com paciência, amor, misericórdia e bondade infinitas.

Submete-Se à Paixão sem uma queixa nem lamento, sem esquivar-Se à dor, sem alimentar um pensamento de revolta, vingança ou de ódio. Contra tanta injustiça.

Enfrenta os sofrimentos ‑ dores físicas, escárnios, faltas de fé, de gratidão ‑ como toda a serenidade.

Que contraste connosco, a queixarmo-nos e a alimentar a revolta e desejos de vingança contra quem nos fere!

É à porta deste coração de bondade infinita, ferido por nosso amor, que bate o bom ladrão. Ele, que arrombara tantas portas com violência, toca agora suavemente à porta deste coração divino que logo se abre de par em par.

Assim reage também perante os nossos pecados que O ferem. Um só pensamento de contrição humilde e de súplica faz com que Ele se abra em torrentes de misericórdia.

Lembrai-Vos de mim, Senhor, quando entrardes no Vosso Reino”.

Que bela súplica para dirigirmos muitas vezes ao dia ao Coração aberto do Salvador!

 

Oração

Senhor: ensinai-me a olhar para cada pessoa que encontro, seja qual for a degradação a que tiver descido, como alguém que precisa de ajuda para se salvar.

Colocai no pensamento e nos lábios de cada um de nós a oração maravilhosa do bom ladrão: “Lembrai-Vos de mim, Senhor, quando entrardes no Vosso Reino”.

 

 

12ª Estação

 

JESUS, NA  CRUZ, SUA MÃE E SEU DISCÍPULO

 

Do Evangelho

«Estavam junto à cruz de Jesus Sua Mãe, a irmã de Sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena.

Ao ver Sua Mãe e o discípulo que Ele amava, Jesus disse ao discípulo: "Eis a tua Mãe!.

E a partir daquele momento, o discípulo recebeu-A em sua casa.»[13]

 

Meditação

Jesus morre na maior pobreza. A túnica e as outras peças de roupa que trazia vestidas já não Lhe pertencem. Foram distribuídas à sorte pelos soldados.

Resta-Lhe na terra apenas a Sua Mãe. Faz aquilo que alguns chamam o “testamento admirável”, entregando Maria Santíssima aos cuidados de um amigo íntimo ‑ João Evangelista ‑ e ao mesmo tempo confia aos cuidados maternais de Nossa Senhora todas as pessoas, de algum modo representadas na pessoa do Discípulo amado.

De João se diz no mesmo texto que cumpriu generosamente, dali em diante, esta missão. Levou Maria consigo. A tradição diz-nos que Ela o acompanhou na sua missão apostólica pelo mundo e esteve com ele em Éfeso nos últimos anos de vida.

Resta agora que cada um de nós o imite, tornando Maria nossa companheira de cada momento.

Alem das orações que lhe rezamos, procuremos ter ao alcance do lugar onde trabalhamos uma estampa de Maria na qual, de vez em quando, o nosso olhar possa encontrar repouso, ao mesmo tempo que o coração se lhe dirige num louvor uma acção de graças ou numa prece.

Ela cuidará de nós, especialmente nas maiores dificuldades da vida.

 

Oração

Para que não sentíssemos a orfandade na terra, Vós confiastes-nos aos cuidados da Vossa e nossa Mãe.

Queremos viver nesta intimidade com Ela, confiando-lhe os propósitos desta via sacra e o nosso andar pela vida.

Obrigado, Jesus, por esta dádiva preciosa, no último momento da Vossa vida mortal.

 

 

13ª Estação

 

JESUS MORRE NA CRUZ

 

Do Evangelho

«Depois, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a escritura, Jesus disse: "Tenho sede". Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-no à boca.

Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: "Tudo está consumado".

Era já quase o meio dia, quando as trevas cobriram toda a terra, até às três horas da tarde, porque o sol se tinha eclipsado.

O véu do templo rasgou-se ao meio: E Jesus exclamou com voz forte: "Pai, em Tuas mãos entrego o Meu espírito ". Dito isto, expirou.»[14]

 

Meditação

Jesus, que nunca se queixara dos sofrimentos da Paixão, pronuncia, nos últimos momentos duas frases que nos abrem misteriosos horizontes.

Meu Pai, por que Me abandonaste? De um modo que talvez nunca cheguemos a compreender, Jesus experimenta nestes momentos finais da paixão, o tremendo drama dos que escolhem viver por toda a eternidade de costas voltadas para Deus. A condenação eterna é isto mesmo.

Para nos ajudar a fugir desta loucura põe a descoberto a dor sem remédio que é para aqueles que escolhem este destino.

Temos necessidade de ajudar as pessoas a não tratar com leviandade um tema tão sério, como é o da sua salvação eterna.

Tenho sede. É o tormento de quem não provou qualquer comida ou bebida desde a ceia do dia anterior.

Mas é-o também de quem perdeu muito sangue e Se desidratou continuamente com o suor e as lágrimas.

No íntimo desta queixa está uma realidade mais profunda: a sede de almas, que Ele exprimiu certo dia da Sua vida pública: Eu vim atear fogo à terra, e que quero a não ser que arda? (Luc. 12:49).

Quem se anima a mater-Lhe a sede, propagando o incêndio com a vida, a oração e a acção apostólica?

 

Oração

Senhor Jesus: ajudai-me a mitigar a Vossa sede de pessoas que Voa amem sem limites, por um apostolado que encha completamente a minha  vida.

Recordai-me muitas vezes o tremendo drama que é ficar separado de Vós para sempre, para que o evite e ajude outros a evitá-lo.

Que também eu, no último momento da minha vida na terra, possa dizer: Pai, nas Vossas mãos entrego o Meu espírito.

 

 

14ª Estação

 

JESUS É DEPOSTO NO SEPULCRO

 

Do Evangelho

«Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, e alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade e apareceram a muitos.

Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. Entre elas encontravam-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.

Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus.

Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus: E Pilatos ordenou que lho entregassem. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no seu sepulcro novo que tinha mandado escavar na rocha.

   Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro, e retirou-se.»[15]

 

Meditação

Jesus termina a Sua vida mortal com a mais estrondosa derrota. Foi rejeitado pelos homens e condenado à morte mais ignominiosa que era uso entre eles.

Mas a Sua profecia começa a cumprir-se: «E Eu, quando for elevado da terra (na cruz) atrairei tudo a Mim.» (Jo 12, 32).

Bate no peito o centurião confessando: «Este era verdadeiramente o Filho de Deus.» Com ele, no decorrer dos séculos, muitos hão-de proclamar esta verdade.

Hoje, o crucifixo é uma lembrança que anda junto ao coração de muitas pessoas.

Não nos preocupemos com o esquecimento que vai descer sobre a nosso túmulo. O que verdadeiramente importa é que vivamos e morramos de Amor.

Como a semente que, depois de ter sido mergulhada na terra, morre para se multiplicar, assim a nossa vida será fecunda junto de Deus.

A grande pedra do silêncio que vai ser rolada também para a sepultura de cada um de nós há-de ser retirada no momento da ressurreição final em Cristo.

 

Oração

Ajudai-me, Senhor, a aprender as lições preciosas da Vossa Paixão, Morte e Ressurreição.

Que a Vossa Paixão esteja sempre no meu pensamento, para que não Vos recuse os pequenos sacrifícios de cada dia.

 

Fernando Silva

2011

 

 

 

 

 

 



[1] S. Mateus, 26, 36-39.

[2] S. Mateus, 26, 47--50. 56.

[3] S. Mateus 26, 57. 59. 65-66

[4] S. Mateus, 26, 69-75.

[5] S. Mateus, 27, 11. 16-18. 21b-24. 26.

[6] S. Mateus 27, 25-30.

[7] S. João 19, 17; e S. Mateus 27, 16.

[8] S. Lucas, 23, 26; e S. Mateus, 25.

[9] S. Lucas 23, 27. 31.

[10] S. Mateus 27, 33.35.

[11] S. Mateus 27, 37; S. Lucas 23, 33-38.

[12] S. João  19, 25-27.

[13] S. Mateus 27, 56-57; S. Lucas 23, 44-49.

[14]

[15] S. Mateus 27, 51-53. 55-60.


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